terça-feira, 24 de julho de 2018

Pecado Original ou Ancestral

O termo Pecado Original (ou primeiro pecado) é usado entre todas as igrejas cristãs para definir a doutrina em torno de Romanos 5: 12-21 e 1 Coríntios 15:22, na qual Adão é identificado como o homem que através do qual a morte veio ao mundo. Como isso é interpretado é considerado por muitos ortodoxos como uma diferença fundamental entre a Igreja Ortodoxa e as Igrejas ocidentais. Em contraste, os teólogos católicos romanos modernos afirmariam que a antropologia básica é na verdade quase idêntica, e que a diferença está apenas na explicação do que aconteceu na Queda. Na Igreja Ortodoxa, o termo pecado ancestral (gr. Προπατορικό αμάρτημα) é preferido e é usado para definir a doutrina da "inclinação do homem pelo pecado, uma herança do pecado de nossos progenitores" e que é removida através do batismo. São Gregório Palamas ensinou que a imagem do homem estava manchada, desfigurada, como consequência da desobediência de Adão.

No livro de Gênesis, capítulo 3, Adão e Eva cometeram um pecado, o pecado original. A Igreja Ortodoxa ensina que ninguém é culpado pelo pecado que eles cometeram, mas sim que todos herdam as conseqüências desse ato; o principal disso é a morte física neste mundo. Esta é a razão pela qual os pais da Igreja ao longo dos séculos preferiram o termo pecado ancestral. As conseqüências e penalidades deste ato ancestral são transferidas por meio de hereditariedade natural para toda a raça humana. Uma vez que todo ser humano é um descendente de Adão, então "ninguém está livre das implicações deste pecado" (que é a morte humana) e que a única maneira de se libertar dele é através do batismo. Enquanto a mortalidade é certamente um resultado da Queda, junto com ela também há o que é chamado de "concupiscência" nos escritos de Santo Agostinho de Hipona - este é o "impulso maligno" do Judaísmo, e na Ortodoxia, podemos dizer que esse é a nossa "paixão desordenada". Não só nascemos na morte ou em um estado de distanciamento de Deus, mas também nascemos com uma paixão desordenada dentro de nós. A ortodoxia não descreveria o estado humano como de "depravação total".


Os cristãos ortodoxos têm geralmente entendido que o catolicismo romano professa o ensinamento de Santo Agostinho de que todos têm não apenas a conseqüência, mas também a culpa, do pecado de Adão. Este ensinamento parece ter sido confirmado por múltiplos concílios, sendo o primeiro deles o Concílio de Orange em 529. Esta diferença entre as duas Igrejas na compreensão do pecado original foi uma das razões doutrinais subjacentes à declaração da Igreja Católica de seu dogma da Imaculada Conceição no século XIX, um dogma que é rejeitado pela Igreja Ortodoxa. No entanto, o ensino católico romano contemporâneo é melhor explicado no Catecismo da Igreja Católica, que inclui esta frase: "o pecado original não tem, em qualquer descendente de Adão, carácter de falta pessoal. É a privação da santidade e justiça originais, mas a natureza humana não se encontra totalmente corrompida"(§405).

Em 2007, o Vaticano aprovou um documento chamado "A esperança da salvação para as crianças que morrem sem batismo". Este documento é realmente muito útil tanto para traçar a história da doutrina do Pecado Original dentro da Igreja Católica Romana quanto para ler um resumo razoável do ensino dos Padres Gregos. Embora o documento lide com bebês, ele deve incorporar uma doutrina e uma definição de Pecado Ancestral ou Original para falar sobre a salvação de bebês. Entre os comentários úteis no documento estão:
"Somente pouquíssimos, entre os Padres gregos, abordaram o problema da sorte das crianças que morrem sem Batismo, enquanto sobre este tema no Oriente não havia qualquer controvérsia. Havia, além disso, uma concepção diversa das condições atuais da humanidade. Para os Padres gregos, como conseqüência do pecado de Adão, os seres humanos herdaram a corrupção, a emotividade e a mortalidade, da qual podiam ser restaurados graças a um processo de divinização, tornado possível pela obra redentora de Cristo. O conceito de uma herança do pecado ou da culpa, comum na tradição ocidental, era estranha a tal perspectiva, dado que, segundo eles, o pecado podia ser somente um ato livre e pessoal..." 
"Gregório de Nissa, único entre os Padres gregos que escreveu uma obra que versa especificamente sobre a sorte das crianças que morrem, o De infantibus praemature abreptis libellum. A angústia da Igreja transparece nas interrogações que se põe Gregório: a sorte destas crianças é um mistério, “alguma coisa muito mais ampla do que possa ser compreendido pela mente humana”. Gregório exprime a sua opinião a respeito da virtude e o seu prêmio; segundo ele, Deus não tem nenhum motivo de conceder como prêmio aquilo que se espera. A virtude não tem nenhum valor se aqueles que deixam esta vida prematuramente sem tê-la praticado sejam imediatamente acolhidos na bem-aventurança. Dando continuidade a esse raciocínio, Gregório se pergunta: “Que acontecerá com aqueles cuja vida se conclui em tenra idade, e que não fizeram nem o bem nem o mal? São merecedores de um prêmio?”. E responde: “A bem-aventurança esperada pertence aos seres humanos por natureza, e é chamada prêmio somente em um certo sentido”. O gozo da verdadeira vida (zoe e não bios) corresponde à natureza humana e é conseguido em proporção à virtude praticada. Dado que a criança inocente não tem necessidade de ser purificada dos pecados pessoais, participa desta vida de modo correspondente à sua natureza, em uma sorte de progresso regular, segundo a sua capacidade. Gregório de Nissa faz uma distinção entre a sorte das crianças e a dos adultos que viveram uma existência virtuosa: “A morte prematura das crianças apenas nascidas não constitui motivo para pressupor que elas sofrerão tormentos ou que estarão no mesmo estado daqueles que, graças a todas as virtudes, foram purificados nesta vida”. Por fim, oferece esta perspectiva à reflexão da Igreja: “A contemplação apostólica fortifica a nossa questão, como Aquele que fez bem todas coisas, com sabedoria (Sl 104,24), sabe tirar o bem do mal”. ... "O ensinamento profundo dos Padres gregos pode ser resumido nas palavras de Anastácio do Sinai: “Não é conveniente que o homem investigue com as próprias mãos os juízos de Deus”.  
"A sorte das crianças não-batizadas foi, no Ocidente, pela primeira vez, objeto de uma reflexão teológica válida durante as controvérsias antipelagianas no início do século V. Santo Agostinho enfrentou a questão em resposta a Pelágio, o qual ensinava que as crianças podiam ser salvas sem serem batizadas. ...  Ao rebater Pelágio Agostinho foi induzido a afirmar que as crianças que morrem sem Batismo são entregues ao inferno...  Gregório Magno afirma que Deus condena, também, aqueles cujas almas estão manchadas somente pelo pecado original; até as crianças que nunca pecaram por vontade própria devem ir ao encontro dos “tormentos eternos”." 
"Todavia, a maior parte dos autores medievais sucessivos, de Pedro Abelardo em diante, sublinha a bondade de Deus, interpretando a condanna mitissima de Agostinho como a privação da visão de Deus (carentia visionis Dei), sem a esperança de poder obtê-la, mas sem alguma pena adicional. Esse ensinamento, que modificava a severa opinião de santo Agostinho, foi difundido por Pedro Lombardo: as crianças em tenra idade não sofrem pena alguma, exceto a privação da visão de Deus." 
"Como as crianças que não alcançaram a idade da razão não cometem pecados atuais, os teólogos chegaram a uma opinião comum segundo a qual as crianças não-batizadas não experimentam alguma dor, ou, verdadeiramente, conhecem uma plena felicidade natural através da sua união com Deus em todos os bens naturais (Tomás de Aquino, Duns Scoto). O contributo desta última tese teológica consiste, sobretudo, no reconhecimento de uma alegria autêntica nas crianças que morrem sem o Batismo sacramental: possuem uma verdadeira união com Deus proporcional às suas condições. ... Também quando acolheram esta opinião, os teólogos consideraram a privação da visão beatífica uma aflição (pena) na economia divina."

Enquanto lê-se o documento, percebe-se que houve uma volta em direção à opinião de Santo Agostinho no século 16, de tal forma que novamente começou a ser dito que os bebês não batizados iriam para o inferno, embora apenas com a mais branda das punições. Por volta do Concílio Vaticano I, a opinião começou a se afastar dessa visão endurecida em relação à "felicidade natural". No século 20, começa a ser argumentado mais fortemente que os bebês não batizados podem de fato receber "a salvação plena de Cristo". Isso realmente parece ser um retorno parcial em direção à doutrina pelagiana que Santo Agostinho tanto odiava.

Quando se lê o documento, pode-se ver que os Padres do Oriente e do Ocidente compartilhavam a idéia de que o batismo era uma necessidade para a salvação. Contudo, todos os Padres da Igreja tiveram que lidar com o problema do bebê não-batizado, seja de pais cristãos ou não-cristãos, e ao lidar com isso eles nos permitem ver a compreensão do Pecado Ancestral ou Original.

Em São Gregório de Nissa, pode-se ver o que se torna o pensamento oriental sobre o Pecado Ancestral ou Original. Por um lado, a criança não precisa de purificação para os pecados pessoais e, portanto, não deve ser considerada como alguém que será enviado para o castigo. Por outro lado, nem o bebê recebeu o batismo ou tentou viver uma vida virtuosa, de modo que o bebê não merece o céu. No entanto, Deus é capaz de trazer o bem do mal. Assim, é evidente em São Gregório de Nissa que o Pecado Ancestral ou Original não contém imputação de culpa pessoal, mas sim um certo dano à semelhança de Deus, um dano tão difundido e profundo que é preciso trabalhar e confiar na graça transbordante de Deus e nos Mistérios, a fim de começar a conquistar o dano herdado de Adão e Eva.

A doutrina católica romana do Pecado Ancestral ou Original é mais difícil de definir devido ao desenvolvimento e às oscilações do pêndulo de seu desenvolvimento. Está claro nos próprios documentos do Vaticano que o Pecado Ancestral ou Original incluiu tanto a imputação da culpa do pecado de Adão e Eva quanto um dano generalizado e profundo à imagio dei, pelo menos durante boa parte de sua história. Assim, o bebê é digno de punição no inferno, de acordo com Santo Agostinho e São Gregório, o Dialogista. Nos medievalistas, isso é melhorado para uma privação da visão beatífica, que ainda é considerada uma punição, embora a criança só experimente a felicidade. Na época do Iluminismo, há um retorno a uma definição mais agostiniana e gregoriana de Pecado Ancestral ou Original. Mas, na época do Concílio Vaticano I, a mudança está em pleno andamento, e o Pecado Ancestral ou Original começa a ser visto como a privação da santidade original. Essa mudança na definição do Pecado Ancestral ou Original encontra-se em documentos como o catequismo da Igreja Católica e no documento Esperança da Salvação.

Original

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