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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Por que é que um chinês budista se tornou um monge atonita?

       Na minha última visita ao Monte Atos eu visitei o mosteiro de Simonopetra. É um mosteiro magnificente e o céu estava completamente azul. Lá eu conheci um monge chinês noviço cheio de graça. Na verdade, ele surpreendeu-me pela sua presença. Eu nunca tinha visto isto de perto, apenas em imagens de missões. Um herdeiro de uma grande tradição cultural abraçara o Cristianismo? Os meus amigos e eu ficamos curiosos e decidimos perguntar-lhe sobre isto.

"Irmão, como é que você, um homem chinês, abraçou o monacato Cristão Ortodoxo vindo de uma tradição cultural tão grandiosa? Você era budista?"

"Sim, obviamente, eu era budista."

"O que te trouxe ao Cristianismo?"

"A companhia divina!"

"Perdão?"

"Sim, Padre, hahahaha!", ele riu-se, dado que a cada três palavras os chineses riem-se de duas.

"No Budismo, Padre, você está muito sozinho. Não há Deus. A sua luta inteira é consigo. Você está sozinho consigo mesmo, com o seu ego. Você está totalmente sozinho nesse caminho. Muita solidão, Padre. Mas aqui você tem um assistente, uma companhia, Alguém que vos ama, Alguém que se importa consigo. Ele importa-se mesmo que você não O compreenda. Você fala com Ele. Você diz-lhe como se sente, o que você almejava - existe esta relação. Você não está sozinho nas dificuldades da vida e na perfeição espiritual. Eu percebi algumas coisas nesses dias.


Uma gripe severa obrigou-me a ficar de cama. Nenhum médico conseguia encontrar algo errado comigo. A situação clínica não era clara, pelo menos os médicos não conseguiam encontrar nada errado. A dor era insuportável e não havia nenhum anestésico que conseguisse para-la. Eu mudei 3 vezes de anestésicos e nenhum fazia nada e a dor não era aliviada.

Nesta altura eu recebi as notícias de que o irmão do meu pai, cujo nome eu tenho, tinha uma forma de câncer avançado nas cordas vocais e laringe. Ele teve que sofrer uma laringectomia. Foi o resultado do consumo crônico de álcool e tabaco. Ele viveu uma má vida, sem qualidade.

Então eu senti algo que um antigo budista e agora monge cristão no Monte Atos me tinha dito, que tens Deus e podes falar com Ele, podes perceber e sentir Alguém além de ti que te ouve.

Eu não sei se isto é certo ou errado. Eu sei que é uma necessidade profunda do Homem. Isto é evidenciado pela vida. Até budistas, que são uma forma não-teísta de religião criaram várias deidades. Até na linguagem dos sonhos e mundos. Mas eles têm a necessidade de se referir a alguém, a algo, fora deles mesmos e além deles mesmos, ainda que seja sonhador. Ademais, a realidade e Verdade são coisas muito relevantes e que sempre o serão. É um enigma, é um mistério".

       Com isto em lembrei-me das palavras de São Gregório, o Teólogo, que tinha uma natureza sensível e melancólica, quando disse: "Quando não estás bem, ou não te sentes bem, fala. Fala, nem que seja para o vento."


Tradução: Domingo Tavares

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Oração de Jesus e as práticas meditativas não-Cristãs

Me envolvi bastante com a Oração Centrante e a Meditação Cristã ensinada pelo monge beneditino John Main. Eu liderava grupos e retiros semanais de "meditação cristã" nas paróquias, retiros coordenados liderados por um conhecido monge beneditino, etc. Assim foi a minha vida por muitos anos. No último ano do meu envolvimento com este movimento, eu me encontrava num período de noviço como um Oblato Beneditino (aquele que tenta seguir a Regra de São Bento enquanto vive no mundo), tentando decidir se eu tomaria meus votos finais como oblato e permaneceria no movimento de Meditação Cristã, ou se deveria entrar na Igreja Ortodoxa. Ao entrar cada vez mais profundamente na disciplina da Meditação Cristã ao longo de muitos anos e conhecendo outros que tinham muita experiência nesta prática, e simultaneamente estudando a fé Ortodoxa e a Tradição da Oração de Jesus, percebi que a Meditação Cristã / Oração Centrante eram de origem e orientação espiritual muito diferente da tradição dos Pais do Deserto e sua continuação na Igreja Ortodoxa hoje. Cheguei à conclusão de que o MC / OC era completamente incompatível com a tradição Ortodoxa, e assim, no final, tive que fazer uma escolha para seguir o resto da minha vida.

A Meditação Cristã (MC) e a Oração Centrante (OC) foram tentativas de "cristianizar" a meditação de mantras hindus, como ensinado por Swami Satyananda na Malásia (no caso de MC) e Maharishi Mahesh Yogi (no caso da OC). Enquanto abade de Spenser Abbey em Massachusetts, Pe. Thomas Keating convidava mestres zen para ensinar seus monges trapistas / beneditinos a meditar. Uma vez que os métodos de oração de Meditação Cristã / Oração Centrante vêm diretamente do Oriente não-cristão, não há surpresa alguma que alguém venha a ter uma experiência semelhante praticando esses mesmos métodos, mesmo dentro de diferentes religiões. Na verdade, a experiência é muito parecida, e é por isso que, dentro dos círculos MC / OC, é muito popular acreditar que, no seu "núcleo místico", todas as religiões experimentam a mesma coisa e descrevem essa experiência em diferentes termos. Alguns descrevem sua experiência em termos de "Deus" e "Amor", enquanto outros em termos de "Vazio" ou "Absoluto", por exemplo, dependendo das doutrinas religiosas através das quais essa mesma experiência é interpretada.

Com o meu envolvimento cada vez mais profundo com a Ortodoxia, cheguei a ver que essa "experiência comum" no "núcleo místico" de todas essas práticas é apenas a experiência de nossa própria natureza criada, nosso próprio espírito humano criado. Essa experiência de nosso próprio espírito criado é muitas vezes descrita em termos de "realidade" exterior à consciência do tempo e do espaço, uma experiência de ilimitabilidade, de eternidade, de infinitude, de unicidade, etc. Esta é uma experiência muito iluminadora e transformadora para as pessoas, mas é simplesmente a experiência da realidade alcançada como uma consequência natural da aplicação de certa técnica psico-somática. Em outras palavras, essa experiência não tem nada a ver com entrar em comunhão com o Deus Incriado através de Suas energias divinas e incriadas (graça). Mas, tal experiência do espírito criado é algo ruim?

Na Meditação Cristã e na Oração Centrante, muitas vezes se ensina sobre a experiência de comunhão com Deus, quando, na realidade, os praticantes desses métodos são apenas conduzidos à experiência da infinitude de seu próprio espírito criado. Quando alguém experimenta seu próprio espírito criado e confunde essa experiência com a experiência do Deus Incriado, isso é um engano, e esse engano se torna o maior obstáculo para verdadeiramente conhecer Deus e entrar em comunhão com Ele. Esse engano, de fato, cria um obstáculo maior para conhecer Deus do que os obstáculos das mais grosseiras paixões porque esse alguém foi, em última instância, levado a adorar seu próprio eu como Deus. Essa é a experiência do hindu que diz "Atman é Brahman" ou "Si mesmo é Deus". Através da crença de que o próprio espírito criado por Deus é Deus ou igual a Deus, que é o mesmo que confundir seu espírito criado com o Espírito Incriado, cai-se no mesmo engano que Lúcifer no momento da sua grande queda.

O movimento contemplativo no Ocidente hoje, que é liderado principalmente pelos ensinamentos da Oração Centrante e da Meditação Cristã, tem em seu centro o engano  espiritual e a confusão em relação à experiência de Deus e ao próprio espírito criado. Não é de admirar, então, que os líderes deste movimento, do famoso Thomas Merton aos "mestres" de nosso próprio tempo, não vejam nenhum problema com os Cristãos que aprendem a meditar com Mestres Zens e gurus Hindus (conheci alguns Católicos Romanos que também são Zen Roshis certificados, por exemplo). A prática desses métodos levou a um "Novo Cristianismo" que não é um retorno à tradição dos Pais do Deserto (que este movimento tenta explorar, ao justificar-se) e a Igreja primitiva, mas é uma traição do próprio fundamento da fé apostólica e estabelecimento de uma nova fé que estabelece os fundamentos da futura religião do Anticristo.

É muito popular nos ensinamentos da OC / MC referir-se à tradição Ortodoxa da Oração de Jesus como sendo da mesma tradição. De fato, foi assim como aprendi pela primeira vez sobre a Igreja Ortodoxa. Quando se examina profundamente sobre cada tradição, no entanto, percebe-se que tudo é abordado de forma bem diferente. Você pode, então, examinar a continuidade e a consistência da tradição Ortodoxa da Oração de Jesus e sua completa inseparabilidade do batismo na Igreja Ortodoxa e da participação na vida sacramental Ortodoxa.Você pode então comparar isso com as tradições criadas recentemente da Oração Centrante e da Meditação Cristã, que não têm continuidade viva com a Igreja primitiva, mas que só foram revividas através do contato com o Oriente não-cristão. Você pode então examinar os frutos dessas tradições, pode examinar os antigos Pais do Deserto e os Pais do Deserto contemporâneos da Igreja Ortodoxa que têm exatamente a mesma tradição e visão de mundo como os Pais antigos; e compare isso com o fato de que os movimentos de OC / MC não produziram santos contemporâneos como os Pais do Deserto. Quanto mais profundo você entrar nessas questões, mais você verá a divergência e, no entanto, apenas uma dessas tradições é consistente com a fé "entregue de uma vez por todas aos santos".

Algumas citações do Ancião Sofrônio de Essex e do Hieromonge Damasceno de Platina do livro "Christ the Eternal Tao":

Pe. Damasceno escreve sobre a experiência da luz interior:
"Aqui estamos pisando em terreno perigoso, por isso é necessário ir devagar. É aqui que muitos daqueles que praticam vigilância caíram na delusão ao longo dos séculos. Tudo depende da pureza da intenção daquele que está entrando. Se a intenção (consciente ou inconsciente) não é enfrentar a condição de pecado de si mesmo, de arrepender-se e assim reconciliar-se com Deus, mas, em vez disso, é de "ser espiritual" enquanto continua a adorar a si mesmo, então, pode-se, ao tornar-se consciente da luz do próprio espírito, começar a adorá-la como Deus. Esta é a derradeira delusão."
Arquimandrita Sofrônio é então citado:
"Alcançando os limites onde 'o dia e a noite chegam ao fim', o homem contempla a beleza de seu próprio espírito que muitos identificam com o Ser Divino. Eles veem uma luz, mas não é a Luz Verdadeira na qual 'não há qualquer escuridão'. É a luz natural peculiar à mente do homem criado à imagem de Deus.
"A luz mental, que ultrapassa qualquer outra luz do conhecimento empírico, pode ainda ser chamada de escuridão, uma vez que é a escuridão da alienação e Deus não está nela. E, talvez, neste caso mais do que qualquer outro, devemos escutar o aviso do Senhor: "Tome cuidado, portanto, que a luz que está em você não seja a escuridão". A primeira catástrofe cósmica pré-histórica - a queda de Lúcifer, filho da manhã, que se tornou o príncipe das trevas - foi devido à sua contemplação enamorada de sua própria beleza, que terminou em sua auto-deificação".
Pe. Damasceno então comenta esta passagem:
"A escuridão da alienação de que o Pe. Sofrônio fala é o estado de ter se elevado acima de todos os processos de pensamento que descrevemos anteriormente. Se o motivo da pessoa é orgulho, ela parará neste ponto, admirando seu próprio brilho; mas esse brilho ainda será escuridão. Ele pensará que encontrou Deus, mas Deus não estará ali. Ele encontrará uma espécie de paz, mas será uma paz separada de Deus.
 "Ir além do pensamento não é ainda alcançar o verdadeiro conhecimento. Tal conhecimento vem da Palavra falando silenciosamente no espírito que está ansiando por Ela; não vem do próprio espírito. A Palavra virá e fará Sua morada com o espírito somente se a pessoa se aproximar de Ele com absoluta humildade, pois Ele mesmo é humildade e semelhante atrai semelhante".
Pe. Sofrônio escreve mais sobre aqueles que se aproximam sem humildade:
"...uma vez que aqueles que entram pela primeira vez na esfera do 'silêncio da mente' experimentam uma certa admiração mística, eles confundem sua contemplação com a comunhão mística com o Divino, ao passo que, na realidade, eles ainda estão dentro dos limites da natureza humana criada. A mente aqui, é verdade, passa além das fronteiras do tempo e do espaço, e é isso que lhe dá uma sensação de apreensão da sabedoria eterna. Isso é tão longe quanto a inteligência humana pode ir seguindo o caminho do desenvolvimento natural e da auto-contemplação ...
"Habitando na escuridão da alienação, a mente conhece um deleite peculiar e uma sensação de paz... Purificando as fronteiras do tempo, tal contemplação aproxima a mente ao conhecimento do não-transitório, portanto dando ao homem uma cognição nova, mas ainda abstrata. Ai daquele que confunde esta sabedoria com o conhecimento do Deus verdadeiro, e essa contemplação com uma comunhão no Ser Divino. Ai daquele porque a escuridão da alienação nas fronteiras da verdadeira visão se torna uma passagem impenetrável e uma barreira mais forte entre ele e Deus que a escuridão devido a revolta da paixão grosseira, ou a escuridão de instigações obviamente demoníacas ou a escuridão que resulta da perda da graça e do abandono por Deus. Ai daquele, pois ele se desviará e cairá em delusão, já que Deus não está na escuridão da alienação".
Experimentar a escuridão da alienação e a luz da mente, diz o Pe. Sofrônio, "é naturalmente acessível para o homem", mas experimentar a Luz Incriada da Divindade é dado ao homem por uma ação especial de Deus. Essas duas experiências diferem qualitativamente uma da outra. Pe. Sofrônio escreve:
"Foi-me concedido contemplar diferentes tipos de luz e luzes - a luz que o artista conhece quando exaltado pela beleza do mundo visível, a luz da contemplação filosófica que se desenvolve em uma experiência mística. Incluamos até mesmo a 'luz' do conhecimento científico que é sempre e inevitavelmente de valor muito relativo. Fui tentado por manifestações de luz de espíritos hostis. Mas já adulto, quando retornei a Cristo como Deus perfeito, a Luz eterna brilhou sobre mim. Essa maravilhosa Luz, mesmo na medida que me foi concedida do Alto, eclipsou tudo, assim como o sol nascente eclipsa a estrela mais brilhante".
O Pe. Damasceno então comenta sobre esta passagem:
"Nós não praticamos a vigilância para que possamos nos tornar silenciosos e serenos. Em vez disso, ficamos em silêncio para que possamos conhecer a verdade desagradável sobre nós mesmos, e para que 'ouçamos' o Tao / Logos falando diretamente ao nosso ser interior. Ele não fala com uma voz audível; Sua voz não faz nenhum barulho mesmo na mente... a escritura chama Sua voz mansa e delicada. Não podemos ouvir, a menos que sintonizemos, separando de todo o ruído estático em nossas cabeças ".
Após essas palavras, o Pe. Damasceno então descreve o ensinamento Ortodoxo em relação à Oração de Jesus.

Na tradição Ortodoxa da Oração de Jesus, a prática da Oração não pode ser separada da vida sacramental e ascética Ortodoxa. Uma vez que as práticas de meditação não-cristãs, como aquelas seguidas por budistas, hindus e muitos cristãos não-Ortodoxos (na tradição de Thomas Keating, Thomas Merton, John Main, etc.) são principalmente técnicas psico-somáticas que levam a experiência da natureza criada de si mesmo, essas técnicas podem ser facilmente praticadas por pessoas diferentes, independentemente da sua religião, e todos os que praticam essas técnicas chegam a uma experiência similar. Na Igreja Ortodoxa, no entanto, a salvação do homem, a theosis e todo o seu desenvolvimento espiritual começa com a recepção do Espírito Santo através do batismo e crisma na Igreja Ortodoxa. Ao entrar e permanecer na Igreja Ortodoxa, o homem começa a receber e ser deificado pelas Energias Incriadas de Deus enquanto cresce em humildade, virtude e arrependimento na medida em que recebe regularmente a graça deificante através dos sacramentos da Igreja Ortodoxa.

Confissão, arrependimento, humildade e autocontrole proporcionam o terreno fértil para que as sementes da Oração de Jesus cresçam e deem frutos; fornece também as folhas protetoras que guardam e preservam a fruta da doença e do calor abrasador do orgulho e da delusão. Para uma árvore dar frutos, no entanto, não é suficiente ter um bom solo e folhas para proteção, mas é necessário também a luz solar para o crescimento e a vitalidade. Do mesmo modo, junto com a confissão, arrependimento, humildade e autocontrole, o homem precisa dos raios divinos da graça incriada dos sacramentos da Igreja Ortodoxa.

[...]

Houve muitos Católicos de Rito Oriental que tentaram progredir na Oração de Jesus, mas que eventualmente perceberam que não poderiam fazer muito progresso até que se converteram à Ortodoxia. Já comentei sobre o fato de que na Igreja Ortodoxa o desenvolvimento espiritual do homem e a theosis começam com o batismo e a crisma na Igreja Ortodoxa. Como tenho certeza que você sabe, a Igreja Ortodoxa não considera os batismos ou outros sacramentos realizados fora da Igreja Ortodoxa como sacramentos verdadeiros e plenos-de-graça. As Energias Incriadas de Deus operam através dos sacramentos da Igreja, mas quando um sacerdote ou bispo entra em cisma e é desligado completamente do corpo de Cristo, os sacramentos realizados deixam de ser eficazes e plenos-de-graça. Esta realidade explica como tantos abusos ocorreram no Catolicismo Romano uma vez que se separaram da Igreja, assim como explica o caos do Protestantismo e a ausência em ambos os grupos de santos que têm a mesma estatura e cosmovisão (phronema) dos santos dos primeiros séculos. [...]

Em relação àqueles que se converteram à Ortodoxia vindo Catolicismo de Rito Oriental e sua afirmação de que alguns Ortodoxos se converteram ao Catolicismo de Rito Oriental, penso particularmente em pessoas como Hieromonge Gabriel (Bunge) e o Hieromonge Placide (Deseille) que eram estudiosos patrísticos e viveram décadas como monges no Rito Oriental sob o Papa antes de chegar à conclusão de que eles estavam em um beco sem saída que só poderia ser resolvido entrando na Igreja Ortodoxa. Você tem essas pessoas, que viveram durante décadas como monges Ortodoxos e eram conhecidos como estudiosos patrísticos, que chegaram à conclusão de que estavam em um beco sem saída na Ortodoxia e fugiram para o Papa?

Sobre a questão de julgar o progresso dos outros, meu único ponto é que eu ouvi vários relatos daqueles que procuraram praticar a Oração de Jesus de forma séria no Catolicismo Oriental e perceberam que era uma tentativa inútil e assim converteram-se para a Ortodoxia. Pe. Theophanes de Kapsokalyvia, por exemplo, disse depois de sua conversão que ele realmente não conseguia compreender a Oração de Jesus corretamente até sua conversão à Ortodoxia. Outros Católicos Romanos ou de Católicos de Rito Orientais de longa data falaram da grande graça que receberam depois de entrarem na Igreja Ortodoxa.

Dentro da Igreja Ortodoxa, temos muitos exemplos contemporâneos de hesicastas que se esforçaram dia e noite orando a Oração de Jesus e cujas vidas exemplificam as mesmas qualidades espirituais que os Pais do Deserto de antigamente. Nunca ouvi falar de algum hesicasta contemporâneo do Catolicismo de Rito Oriental cuja vida era do mesmo caráter espiritual que nossos santos e anciãos Ortodoxos contemporâneos. Nunca vi um livro sobre a Oração de Jesus por um hesicasta contemporâneo do Catolicismo de Rito Oriental. Eu suponho que, se um Católico de Rito Oriental quisesse seriamente aprender a orar a Oração de Jesus, ele iria encontrar pouco apoio dentro do Catolicismo de Rito Oriental e precisaria recorrer aos livros e conselhos dos santos e anciões Ortodoxos que não consideram o Rito Oriental Católico como parte da Igreja e não possuem comunhão com os Católicos de Rito Oriental. Claro, se eu estiver errado nisso, sinta-se livre para contestar esses pontos. 

Antes de eu ser Ortodoxo, os beneditinos que tentavam recuperar práticas de "oração contemplativa" sempre foram rápidos em apontar que tal tradição havia morrido no Catolicismo Romano após o Cisma (embora eles culpariam o escolasticismo ao invés do Cisma), mas que uma semelhante (para eles) tradição da Oração de Jesus permaneceu viva na tradição da Igreja Ortodoxa dos tempos apostólicos até hoje. Para aqueles que desejam aprender verdadeiramente este modo de oração, é necessário fazer parte desta tradição viva.


O texto é um depoimento-resposta encontrado no forum Orthodox.Christianity.net (link)




quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O Comprimento e a Altura da Cruz é Igual ao Céu (S.N. Trubetskoy)

"Ó milagre glorioso! O comprimento e a altura da cruz é igual ao céu!" (3ª estiquério para o final das matinas). Ao louvar a Cruz Vivificante do Senhor com essas palavras em um de seus hinos para a festa da Elevação da Cruz, a Santa Igreja nos apresenta um de seus aspectos de seu ensinamento sobre a Cruz, a saber: que o comprimento e a altura da cruz é igual ao céu; em outras palavras, que a cruz protege todo o universo, toda a criação, o mundo físico e o metafísico por completo.

Encontramos uma exposição única deste ensinamento em um livro maravilhoso do proeminente filósofo russo religioso Príncipe Yevgeniy Trubetskoy, que trata da questão que se reflete em seu título - "O Sentido da Vida." O livro foi escrito em 1918, precisamente em uma época em que o velho mundo cristão estava sendo demolido, e uma era pós-cristã, apóstata, apocalíptica - a chamada Nova Era - estava sendo estabelecida na Terra.

Ao analisar a profunda e complexa questão do sentido da vida, particularmente no contexto de caos circundante e a falta de sentido evidente daquela época, o Príncipie Trubetskoy analisa de forma maravilhosamente espiritual a estrutura fundamental da vida, explicando sua linha horizontal (comprimento) e sua linha vertical (altura), e mostra que somente na interseção dessas duas linhas (uma cruz) está o verdadeiro significado da vida revelada para nós. Eis o que este grande escritor espiritual diz (extraído do livro "O Sentido da Vida", p. 53-65):


"Um argumento eterno de dois conceitos opostos da vida se trava em torno da questão do propósito e sentido da vida - um conceito naturalista, que se volta para a vida real e seu significado no plano deste mundo, e um conceito sobrenatural, que afirma que a verdadeira vida e seu significado está concentrada em um plano de existência superior, diferente e fora deste mundo. Um exame dessas duas resoluções nos leva a concluir que ambas são igualmente unilaterais e, portanto, igualmente inválidas.

Para o naturalismo - tanto religioso quanto filosófico - a vida real é precisamente esta vida, que se desdobra neste plano particular de existência; O mundo real é o que ocorre diante de nós neste plano, morrendo e renascendo periodicamente. Um exemplo vívido de tal conceito de vida são os gregos antigos com seu culto da natureza e seus deuses solares - Olímpicos. Todos esses deuses do trovão e do relâmpago, as ondas do mar, o luar e a luz ofuscante do céu do meio-dia são personificações humanas da alegria da vida na terra. A religião grega também conhece o além, mas não é tanto o outro mundo mas o submundo, onde tudo é sombrio e estéril; a sombra de Aquiles fala disso a Ulisses, dizendo que é melhor ser escravo na terra do que reinar sobre os mortos no reino das sombras.

Falando do outro mundo, olhemos para aquelas religiões que representam uma antítese direta à visão de mundo alegre dos gregos antigos. Estou falando daquelas religiões da Índia que não só não acreditam na autenticidade deste mundo, mas até mesmo parcialmente rejeitam sua realidade. A profundidade da busca religiosa da Índia é expressa no fato de que ela transforma todos os julgamentos do senso comum em seu oposto. O que chamamos de realidade é na verdade um sonho, enquanto o que chamamos de sonho é uma realidade genuína e verdadeiramente valiosa - assim somos ensinados pela sabedoria ascética do bramanismo e do budismo. A palavra "Buda" até mesmo literalmente significa "o despertado". Assim, todo o ensinamento de ambas religiões não é mais do que uma tentativa de alcançar esse despertar, de se elevar acima da agitação que é chamada realidade; para o budismo, assim como para o bramanismo, a verdadeira expressão da vida real não é esta realidade, mas as asas que podem nos elevar e nos afastar dela...

O pathos do bramanismo também está ligado com a exigência prática onde a pessoa deve rejeitar toda individualidade, todos desejos egoístas, todo esforço por uma recompensa aqui ou no além. Este mundo inteiro é uma mentira - portanto, o sentido da vida é alcançado apenas em uma total desassociação do mundo. Para o bramanismo, o ideal da vida é a completa dissolução de tudo o que é individual e concreto dentro da unidade impessoal de um espírito universal.

Esta dissociação ascética de tudo é cristalizada no budismo, cujo ideal consiste em elevar-se não só acima de uma vida individual finita, mas acima de toda a vida em geral, acima de todo esforço em relação à vida, acima de todo desejo de imortalidade. O budismo deixa sem resposta a própria questão da vida eterna do indivíduo, a fim de não despertar no homem esse desejo vago pela vida que está na raiz de todo sofrimento na terra. Uma imersão pacífica no "nirvana" pregado pelo budismo é alcançado através da completa desassociação da vida.

Em última análise, no entanto, a busca religiosa aqui também permanece sem solução. A auto-abnegação ascética da índia acaba por ser uma meia verdade, assim como a cosmovisão religiosa dos gregos antigos. Vemos aqui duas aspirações opostas em relação a vida, duas linhas de vida que se cruzam. Uma se estabelece aqui na terra, tem ambas extremidades firmemente enraizadas neste mundo. A outra, pelo contrário, anseia para longe da terra, aspira para o além. Mas, de uma maneira fatal, essas duas linhas conduzem a uma e a mesma coisa. Tanto a alegria transitória da vida dos olímpicos como o elevado vôo do ascetismo hindu terminam na morte. Pois o que é considerado felicidade no bramanismo e no budismo não é, em verdade, a vitória da vida, mas o contrário - a vitória sobre a vida e, consequentemente, a vitória da morte.

A religiosidade hindu essencialmente não acredita no sentido, mas na falta de sentido da vida. Os hindus engajam-se em uma ascensão espiritual, mas terminam no fracasso fatal, pois em sua religião o espírito não anima o mundo, não transforma-o desde dentro, não vence a força do mal nele, mas apenas entrega a si mesmo a essa força.  A atitude do espírito hindu em relação à terra é exclusivamente negativa: desassocia-se da terra para sempre e assim entrega a terra e todos os seres vivos nela ao poder do sofrimento, do mal e da futilidade. O sofrimento de toda a criação viva é fútil e suas esperanças são em vão, pois não tem lugar na salvação proclamada pelos ascetas da Índia: sua "salvação" não é a salvação da vida, mas a salvação para longe da vida; a "salvação" dos ascetas reside precisamente na destruição de todas as formas concretas, de toda a variedade da criação... Assim, a ascensão ao além, que constitui a essência da aspiração religiosa da Índia, se transforma em nada, pois esta ascensão não conduz ao seu objetivo, e o próprio céu permanece para sempre fechado para eles, para sempre além de seu alcance.

Tanto as soluções hindu como as gregas para a questão do sentido da vida se tornam igualmente inválidas. Ao afirmar o mundo, a religiosidade grega encontra o caos em vez do cosmos, encontra uma multidão de forças lutando entre si, não unidas pela unidade de um sentido comum, ao passo que a religiosidade hindu rejeita completamente o mundo como inexistente e absurdo, isto é, encontra sentido somente em sua destruição. Assim, se o homem busca o sentido da vida no plano horizontal terrestre ou na ascensão vertical a um plano diferente de existência, o resultado desses dois movimentos é o mesmo: o sofrimento em relação ao sentido não alcançado e o retorno do círculo da vida de volta a Terra, à futilidade.

Ambas as linhas, que expressam as duas direções básicas da aspiração da vida - a linha plana ou horizontal e a linha ascendente ou vertical - se cruzam. E tendo em vista o fato de que essas duas linhas representam uma descrição abrangente de todas as possíveis direções da vida, sua interseção - a formação de uma cruz - é a representação esquemática mais universal e exata do caminho da vida. Em todas as formas de vida há uma interseção inevitável desses dois caminhos e direções - o movimento ascendente e o movimento para a frente.

Nesse sentido, a cruz está na base de toda a vida. O esboço da própria vida é cruciforme por natureza, e há uma cruz cósmica, que expressa o fundamento arquitetônico de todo o universo.

Toda a questão do sentido da vida resume-se à questão da cruz, uma vez que fora dessas duas linhas da vida que se cruzam não pode haver outras linhas ou caminhos. No entanto, para cada pessoa o significado da cruz pode ser diferente, dependendo se esses caminhos da vida levam para o objetivo preciso ou não. Se alguém acredita que o resultado final de toda vida é a morte, então o cruzamento das linhas da vida representa apenas uma expressão extrema de tristeza, sofrimento, humilhação - e, nesse caso, a cruz é simplesmente um símbolo de tormento universal: de tal modo era conhecida pela humanidade pré-cristã. É uma questão totalmente diferente se na interseção das duas linhas a vida alcança sua plenitude, seu sentido eterno, belo e imortal. Então a cruz torna-se o símbolo desta elevada vitória, a cruz torna-se vivificante, o que constitui a única formulação correta da questão sobre o sentido da vida ...

Nem a auto-afirmação da mundanidade, personificada pelos olímpicos gregos, nem o ascetismo direto da Índia antiga e a fuga do mundo levaram ao sucesso. Esta dupla falha mostra que ambos os caminhos da vida que se cruzam no mundo são inválidos por si mesmos; Assim, o homem é levado a uma nova revelação do mistério do mundo. Se nem a terra, nem o céu, nem o alto, nem o baixo por si só compreendem a revelação do sentido da vida, isto significa que o sentido está em algum lugar mais profundo. Não é só maior do que a terra, mas também maior do que o céu e, portanto, todas as tentativas de encontrá-lo somente na terra ou apenas no céu estão igualmente condenadas ao fracasso. Não pode ser contido em qualquer plano finito da existência, pois engloba todos os planos, o mundo inteiro em geral, enquanto em si mesmo está acima do mundo...

Em outras palavras, devemos buscar o sentido da vida não em uma direção horizontal ou vertical tomada separadamente, mas na unificação dessas duas linhas da vida, no lugar onde elas se cruzam. No verdadeiro sentido da vida, todo sofrimento deve ser derrotado e transformado em alegria - tanto o sofrimento físico da criação terrena como o sofrimento espiritual de uma subida mal sucedida ao céu. O sentido da vida é testado pela cruz, porque, em última análise, a questão do sentido da vida é a questão se a cruz - um símbolo da morte - pode se tornar a fonte e o símbolo da vida?

De todas as religiões só o cristianismo fornece e afirma uma resolução positiva deste problema, pois prega a abolição da morte, prega a transformação da própria cruz de um caminho que leva à morte para um caminho que leva à vida. Além disso, esta é a única solução positiva possível, pois o cristianismo mostrou ao mundo a vitória total na cruz e na crença em Cristo como Deus perfeito e ao mesmo tempo homem perfeito, ao mundo revelado a unidade indivisível e integral do divino e do humano... A paixão voluntária do Filho de Deus e a ressurreição como consequência - tal é a única revelação do sentido no mundo por meio de qual é possível ser realizado e confirmado".

Príncipe Yevgeniy Trubetskoy

original: http://www.holy-transfiguration.org/library_en/lord_cross_equal.html