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terça-feira, 7 de agosto de 2018

O hesicasmo de São Gregorio Palamas e o ascetismo oriental


Na primeira parte desta introdução tentarei expor as teses básicas do pensamento de São Gregório Palamas sobre o hesicasmo, como elas são desenvolvidas nas Tríadas e abordarei os seguintes tópicos:

1. O método da oração e seu significado antropológico
2. O propósito da oração e seu perfeito cumprimento.
3. E suas pressuposições e condições teológicas.

Na segunda parte, especialmente, tentarei comparar e interpor as teses anteriores com algumas características da espiritualidade hindu. O tema básico é a demonstração se a experiência de Deus, que fala São Gregório Palamas, é exclusiva para o cristianismo, ou há experiências paralelas em outras tradições religiosas. Tem sido apontado que as duas experiências do cristianismo e do hinduísmo alcançam a extrema perfeição. Um escritor católico romano contemporâneo escreve categoricamente que: Se o cristianismo não pode aderir à experiência espiritual hindu à luz de uma verdade superior, a conclusão é que o Advaita  contém e supera a verdade do cristianismo e trabalha em um nível superior do nível do cristianismo. Voltaremos a este assunto abaixo.

No final do século XIII e na primeira metade do século XIV, o ideal de hesicasta atingiu o seu auge e se relacionou a um método técnico, onde a memória do nome de Jesus é acompanhada de uma vigilância disciplinada da respiração. São Gregório Palamas (1296-1359), em sua obra "sobre os santos hesicastas" e em outros escritos seus, expôs o fundamento teológico e antropológico da oração hesicasta e destacou seu valor como um meio que possibilita o homem de entrar em uma união e kinonia (comunhão, conexão) com Deus.

O ascetismo da oração começa com a metanoia e conecta-se inseparavelmente aos mandamentos evangélicos e o trabalho pelas virtudes. No que se refere ao método técnico de oração, Gregório enfatiza que é necessário que a oração delimite seu nous dentro do corpo, porque "nosso corpo é o templo do Espírito Santo em nós". (Cor 6,19). Assim, já que o Espírito Santo habita no corpo humano, não é desprezível para o nous que Ele habite o seu interior. Ele ainda enfatiza que o asceta pode alcançar a desejada união com Deus dentro de si, porque "a Realeza incriada de Deus está dentro de nós" (Lc 17,21). São Gregório persiste na antropologia bíblica sintética e sustenta que a psique e o corpo do homem são predestinados à imortalidade. Mau são os logismoi carnais (pensamentos) e o fato de que o nous pode ser aprisionado por eles. O asceta deve libertar seu nous da tirania deles. No caminho da luta, as dinamis (poderes e energias) da psique e do corpo são limpas, purificadas e metamorfoseadas, mas não anuladas. A apatheia (ausência de paixões maus e perversas) é alcançada com a substituição da lei do pecado que se instala nos membros do homem pela observação e vigilância da nous.

O coração é definido por Gregório como o lugar do nous. Este é o centro da parte logística da psique e o primeiro órgão logístico carnal. Seguindo a terminologia de São Dionisio o Aeropagita dos três movimentos do nous, o Santo fala sobre dois dos três movimentos do nous: o direto que depois da queda é enganoso e induz ao erro e o cíclico que é natural, inequívoco e inconfundível. O primeiro provoca a propagação do nous para fora e o segundo faz com que o nous retorne a si mesmo e opere e aja corretamente. O propósito da oração de Jesus é a união com Deus, é por isso que a ajuda da Jaris divina (graça, energia incriada) é essencial.

Um meio externo que nos ajuda a retornar o nous em si mesmo é a reunificação cíclica do corpo. Assim a atenção é fixada no tórax ou no umbigo e a força e energia do nous desce ao coração. Deste modo, a aquisição do movimento cíclico do nous e a obtenção da "reunificação unitária uniforme" é auxiliada, porque "o homem interior caiu aprisionado e assimilou às imagens externas depois da queda". Mas geralmente o método corporal para a oração não é essencial. O mesmo resultado pode ser alcançado de várias maneiras. Mas seja qual for a técnica externa, a ênfase especial é sempre dada à participação do corpo na oração, para que a santificação do homem seja plena pelo Deus encarnado.

Até agora, à primeira vista, alguns pelo menos, pode encontrar paralelos extraordinários entre o exercício da técnica hesicasta e a técnica hindu. Tendo destituído tudo e tendo se purificado com ascese (yama e niyama), então o buscador do brahmavidya (da gnosis do Ser Supremo) aprofunda-se em seu interior. Ele também usa o método psicossomático pela técnica clássica do yoga, ou seja, pela atitude do corpo em combinação com a atenção da sua respiração (panayama), de modo que a auto-concentração seja alcançada. Isso pode ser acompanhado pela recitação de um mantra curto. O objetivo é alcançar o coração, porque a "verdade", isto é, a experiência do Vedanta (anulação de qualquer dualidade) está escondida ali. Aqui, também, a necessidade do conselho de um guia (guru) para o iniciante é enfatizado. O que chama a atenção é que o importante na meditação não é a técnica, psicossomática ou não, mas seu conteúdo e propósito. Da mesma forma, como no hesicasmo, aqui também é certificada uma analogia entre o agente espiritual e o somático (corpóreo) e o valor deste último na busca pela theoria (contemplação).

Quanto à perfeição da oração de Hesicasta, São Gregório assegura que ela é coroada com a união com Deus dentro da visão da Luz Incriada. O Santo defende os Hesicastas contra a acusação de que eles recebem visões demoníacas, dizendo que a Luz é divina, incriada e deifica os dignos e merecedores com sua comunhão. O homem, cheio de luz, torna-se a mesma luz e vê a luz incriada dentro e fora de si.

Experiências em abundância são escritas na Índia dos Unipanisads ao Tantrismo. Os participantes dessas experiências percebem-nas como "súbito esplendor divino" ou como visão da luz interior (antah yoti). A luz é principalmente a imagem do atman (isto é, do eu humano), bem como do atman (Supremo Absoluto). Uma sagrada escritura hindu diz: Guie-me do falso para o verdadeiro, das trevas para a Luz e da morte para a Imortalidade!

Além disso, há muitas coleções e textos sagrados que implicam que o homem se torna Deus. Vamos examinar, por exemplo, o seguinte: Aquele que conhece o supremo Braham tornou-se o mesmo Braham, porque esse homem desapareceu na glória, este que queria conhecer a glória; assim como a borboleta que caiu na chama e se tornou uma chama e desapareceu.

Mas, vamos ver separadamente o conteúdo do hesicasmo e o da meditação hindu.

A oração Hesicasta é por excelência a imploração e, como tal, baseia-se no ensinamento dogmático da Igreja Ortodoxa. É verdade que a teologia não pode ser separada da gnosis e da experiência, como sustenta Floroski. Vice-versa também é válido: a vida e a experiência espirituais ortodoxas são baseadas no "dogma ortodoxo, na doxa = glória correta". Como Floroski corretamente aponta: todo o ensinamento de São Gregório Palamas pressupõe a energia incriada e o ato do Deus Pessoal. O Deus que cria do nada, e a separação do abismo que existe entre o criado e o incriado. O discernimento de São Gregório entre essência e energia resulta logicamente do fato de que Deus é pessoal. Deus permanece absolutamente transcendental sobre a Sua essência, mas cria, mantém, metamorfoseia e apocalipta (revela) através de Suas energias. Basicamente, a theosis do homem, da qual falamos antes, é uma doação do Deus Pessoal. O homem foi criado com destino ou finalidade sua theosis. E apesar disso, o homem na theosis permanece criado e o Deus permanece o que ele é, incriado.

Da mesma forma, a espiritualidade hindu é baseada em sua própria "teologia", cosmologia e antropologia. Mas, ao contrário do cristianismo, nas religiões hindus, o conceito de Deus, o Criador, está ausente. A gênese do mundo é mais emanação do que criação. O cosmos de uma maneira emana do Princípio Divino, movido por uma força centrífuga. Assim, não há discernimento claro entre os dois. Por um lado, os antigos Upanisads eram claramente panteístas, por outro lado, os posteriores imaginavam uma transcendência divina metacósmica, de modo que se torna exocósmica (exo, fora, exterior), a única Realidade que exclui todas as outras. Portanto, por causa do caráter essencialmente impessoal do Absoluto, o mundo tende a se fundir com ele. O axioma básico é: "Se houvesse algo que não é Deus, Deus não seria Deus". É verdade que em nenhum lugar dos Upanisads o panteísmo foi totalmente superado. Como Zaehner corretamente observa, nos Unipanisads "o monismo, o panteísmo e o monoteísmo coexistem e são considerados reciprocamente irreconciliáveis". O Absoluto Impessoal Hindu pressupõe e condiciona a ausência de qualquer contrário dentro do próprio Absoluto. Para o hindu "o infinito é um oceano de quietude, sem horizonte e onda que seria possível medir ou encontrar orientação". Basicamente a ausência do oposto significa superar cada qualidade, essencialmente a do bem e do mal e finalmente a do Ser, de modo que o Absoluto desmorona de certo modo dentro do Não-Ser. Portanto, conclui-se que o dialogismo ou meditação hindu difere muito do hesicasmo cristão, porque imagina um Princípio de Causa impessoal e, por essa razão, a imploração ou invocação não é com o mesmo conceito e significado que o Cristianismo. Sabe-se que na meditação predomina o relaxamento do corpo, enquanto na oração cristã o corpo e o nous estão em completa tensão durante a sua presença diante do Deus Pessoal.

Todos os itens acima nos levam ao próximo ponto. A oração Hesicasta é essencialmente cristocêntrica. É realizada pela imploração do nome do Salvador Jesus Cristo e é uma busca de união com Ele. O argumento central de São Gregório Palamas contra seus acusadores é exatamente que a luz incriada de Cristo que os hesicastas vêem e participam, é a mesma luz (incriada) que foi revelada por Ele aos seus discípulos no Monte Tabor, a luz incriada da Transfiguração que se revelará aos santos durante sua segunda Presença. A condição básica do ensinamento de São Gregório Palamas, e é verdade que é da tradição patrística, é que sem fé na divindade de Cristo, a verdadeira visão de Deus não pode acontecer. O Ancião Sofrônio declara categoricamente que os Apóstolos se tornaram dignos de entrar na esfera da Luz Divina incriada na Transfiguração no Monte Tabor, uma vez que anteriormente confessaram a divindade de Cristo. Ele também enfatiza que a mesma visão Divina testifica sobre a divindade de Cristo, assim como isto aconteceu com o apóstolo Paulo no caminho de Damasco. Para São Gregório, também todas as visões da luz do Absoluto que são testemunhadas nas Escrituras são cristocêntricas. Deste modo, ele interpreta o Novo e o Antigo Testamento. De acordo com o ensinamento de São Gregório Palamas, a oração Hesicasta é inseparável da história da salvação, na qual o Logos Divino foi encarnado para nossa cura e salvação. É claro que a meditação ou dialogismo hindu não têm um conteúdo desse tipo. Não é orientado para um Deus pessoal e não constitui o clamor pela redenção com significado e sentido cristão.

Como já assinalamos, o fruto da oração hesicasta para São Gregório Palamas é a união do homem com Deus e a conseqüente theosis ou glorificação do homem (pela Jaris incriada). Isso ocorre com uma extensão ou êxtase do nous superior à sua natureza. Mas Deus também se move em direção ao homem, envolvendo-o com sua Jaris em um modo de êxtase ou extensão condescendente de agapi (amor energia incriada), sem por isso deixar sua inefável, invisível luz incriada, na qual ele habita eternamente. Seguindo o pensamento de São Dionísio, o Aeropagita ele escreve: "Por um lado, o nosso nous sai de si mesmo e, portanto, une-se a Deus. Por outro lado, Deus também sai de si mesmo e se une a nós por condescendência... ".

Deus energiza e age livremente e chama o homem a responder em uma práxis de sinergia (cooperação de vontades). Nisto vemos um relacionamento dinâmico de Deus e homem, pessoa para Pessoa ou face a face. Durante a theosis do homem a união não anula o discernimento de Deus e do homem. (Tal como na encarnação, assim também na theosis, a união torna-se firme, inalterável, indivisível e inseparável). Além disso, quando essa união é alcançada, a autognosía ou autoconhecimento do homem não apenas não desaparece, mas adquire uma percepção espiritual clarividente sem precedentes: a visão de uma terrível contradição entre ele mesmo como uma criação caída e o Deus Misericordioso. São Gregório escreve: "Vença as fantasias e imaginações más, os pensamentos delas ... e sempre piedosamente com devoção e com amor a Deus ... coloque-se como 'surdo e mudo'... diante de Deus ... assim você se constrói em criação sublime ..."

[...]

Com a energia incriada e a condução da luz incriada, "ele é conduzido sobre montanhas eternas" (Sl 75) e admiravelmente se torna um visionário de coisas hipercósmicas. Então, com a percepção indescritível, ele ouve "logos, verbos indescritíveis" e "vê os invisíveis ... como um anjo verdadeiro, convertido como outro Deus na terra. E este não é o fim. Além disso, torna-se um intermediário entre Deus e a criação ... ". Desta forma, a "semelhança" é realizada com precisão e atesta que a verdadeira obra do homem deificado é a intercessão entre a criação e Deus. Esse crescimento ampliado ou ontológico é a perfeição infinita e a realização do homem como pessoa. A mesma experiência também expressa o Ancião Sofrônio, escrevendo que através da energia incriada desta Luz Incriada dentro do homem metanoizado (arrependido e convertido) brota uma flor admirável: A Pessoa - Hipóstase.

Pelo contrário, no dialogismo ou na meditação oriental, o sábio que retorna ao seu eu interior é libertado de todas as coisas, inclusive de si mesmo. O propósito da meditação é alcançar a autoconsciência ou o conhecimento da "realidade pura". Mas isso finalmente significa que o "Ego ou eu" da pessoa que entra no dialogismo não existe mais; seu "ego" é o "Ego" do Absoluto.

Assim como a água limpa que é lançada na água se torna uma com ela, o mesmo acontece com o eu que conhece a fusão silenciosa.

É uma tensão que tem como finalidade "anular as flutuações da consciência". Ao contrário do hesicasmo onde a pessoa deificada é introduzida em um novo relacionamento com o Salvador Deus, a relação Pai e filho, noiva e Noivo, nova criação e Criador, enquanto que no dialogismo ou meditação hindu ocorre o cancelamento de qualquer relacionamento, incluso o relacionamento com o Absoluto. A morte da pessoa humana é descrita da seguinte maneira: "Finalmente, o Arunachala (outro nome do Absoluto) não é mais Pai, nem Amante, nem Criador. Existe apenas Si mesmo. Quem mais falta para que ele pudesse ser Pai, Amante ou Criador?" Isto significa que o hinduísmo tem um caráter negativo da fuga ou saída do homem do mundo, do corpo e finalmente de si mesmo.

Mas qual é a natureza da luz contemplada pelo asceta hindu? Em seus escritos, São Gregório discerne entre diferentes tipos de luzes. Além da luz divina e deificante, há também a luz natural do nous humano (do espírito do coração psicossomático ou da psique humana) e a luz demoníaca. Referindo-se à luz intelectual, o Santo afirma que o nous criado "como imagem de Deus" tem uma natureza iluminada e, portanto, pode ser visto como luz com meios naturais. No que se refere à última luz nos mostra que ela vem do engano demoníaco e pode ser discernida da luz incriada da Jaris por suas "energizações, operações e atos". Acima de tudo, não traz "energia bondosa" para a psique, nem paz, nem alegria, nem humildade. Apesar do nosso respeito pelo ascetismo oriental e pela força dos argumentos que desenvolvemos anteriormente, a possibilidade da visão da primeira luz, isto é, da luz divina incriada, nesta tradição (hindu), é excluída. Não parece ser a luz incriada do Autor, Deus Criador. Em relação às duas últimas possibilidades, é possível que a seleção não seja tão clara. É interessante notar aqui que o escritor Aldous Huxley para adquirir a experiência religiosa Védica, foi necessário tomar o narcótico mescalina. Assim distingue-se que esta experiência pode ser obtida por meios técnicos naturais. Também seria relativo aqui que o catálogo de virtudes do yoga não se refere à humildade, nem ao orgulho ou arrogância como um impedimento à experiência.

Geralmente, com tudo o que foi dito acima, a solução para o dilema que os teólogos ocidentais estão combatendo é dada. A experiência do ascetismo hindu não é apenas inferior à experiência do hesicasmo, mas tem origens e conteúdos completamente diferentes. Pressupõe e condiciona uma teologia radicalmente oposta ou, antes, pressupõe uma ausência de teologia e a existência de uma cosmologia e antropologia diferentes. Os aparentes paralelos permanecem no nível do físico e do técnico. Mas há um desvio da orientação espiritual que é tão grande e distante quanto a diferença entre o criado e o incriado.

Arquimandrita Zacarías Doutor da Universidade de Thessaloniki


Traduzido de http://www.logosortodoxo.com/san-gregorio-palamas/el-hisijasmo-de-san-gregorio-palamas-y-la-ascetica-occidental/

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Fogo Oculto: Perspectiva Ortodoxa sobre Yoga (Joseph Magnus Frangipani)

Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos. 
(2 Coríntios 6:14-16)


Eu fui criado católico romano. Eu amava a oração. Caminhando pela floresta, brincando em riachos, correndo pelos vastos campos da imaginação. Estas eram como oração para mim: o silêncio, a quietude, a hesychia que as crianças encontram quase por natureza. Eu nem sempre ficava nesse lugar de oração. Mas eu o reconhecia. E eu tomei como certo, como uma atividade simples dentro do coração.

Todos nós experimentamos isso em graus variados. Usamos palavras diferentes - ou nenhuma, porque todas parecem tão inadequadas - para expressar o movimento do coração em direção a Deus. Parece que quando somos inocentes de coração, especialmente quando somos muito jovens, há uma percepção tangível de dois nessas experiências. Amante e amado. O Outro alguém. Quando eu era criança, não articulei essa Presença como Cristo - assim como nunca articulei meus pais por seus nomes. Eu apenas conhecia eles.

* * * 
Como estudante do ensino médio - meus avós me colocaram em uma escola católica romana só para meninos - eu queria ser um monge trapista. Eu frequentava os cultos regularmente e lia a Bíblia com frequência. A escritura realmente é como uma porta. Você pode entrar através dela e o Espírito Santo te leva a lugares sem realmente levantar seus sapatos do chão. Mas eu sabia que havia algo mais. Uma diferença entre ler sobre as experiências e a própria experiência.

O Dr. Harry Boosalis escreve em Santa Tradição: "Não somos chamados simplesmente a 'seguir' a Tradição ou 'imitar' a Tradição. Somos chamados a experimentá-la ... assim como os santos têm e continuam a fazer." Sabemos que algo está faltando no mundo ao nosso redor. Alguma riqueza, alguma profundidade de que estamos vagamente conscientes e buscamos. Esta é, naturalmente, a riqueza do amor, da luz e da graça de Deus. Mas, naquela época da minha vida, eu não tinha a linguagem para expressar isso. Como muitos, atribui essa insatisfação, esse desconforto a outras coisas.

Então, um professor de psicologia no ensino médio orientou minha classe sobre a auto-hipnose. Minha intriga com a meditação seguiu rapidamente depois disso. Eu me senti relaxado. Eu abaixei minha guarda para novas experiências. Senti como se a porta dos fundos do meu coração se abrisse permanentemente. Eu rejeitei Deus 'para ir sozinho por conta própria'. Eu experimentei, muito claramente, uma luz apagando dentro de mim. A Presença, o Outro alguém, o Amigo respeitava essa decisão. Parecia que Ele partiu em silêncio. Ele respeita o livre arbítrio. Ele nunca se força. Ele bate na porta do coração e espera.

* * *

Então comecei a meditar regularmente. Inicialmente, especialmente na adolescência, foi realmente difícil: ficar sentado por horas com velhos budistas tibetanos, completamente imóvel, trazendo meus pensamentos de volta para a parede nua e para a estátua de bronze do Buda na minha frente. Comecei a estudar reencarnação, karma e samsara. [1] Eu ainda não estava ciente das origens do budismo tibetano na religião xamânica chamada Bon, nem sua adoção da astrologia, magia e outras práticas ocultistas. [2]

Eu queria aprender a acalmar a ansiedade e a depressão, como varrer pensamentos dispersos. Visitando salas de meditação budistas e ashrams hindus, fiquei intrigado com os 'fogos de artifício espirituais': os êxtases, transes, sentimentos e visões. Estes estão associados a todos os níveis de meditação e yoga e aumentam com a prática. Essas experiências e outras são às vezes chamadas de siddhis, ou poderes adquiridos através da sadhana (prática de meditação e yoga). A intriga tornou-se fascinação e o fascinante tornou-se familiar. Sem que eu percebesse, minha curiosidade inicial "inofensiva" sobre yoga e meditação se transformou em hábito. Passei mais de uma década imersa neste mar espiritual.

Durante esses anos, muitas perguntas foram feitas. Por exemplo, os padres e monges católicos romanos sabem se os primeiros cristãos acreditavam na pré-existência de almas e reencarnação? Eles disseram que não sabiam. E além disso, eles perguntaram, o que isso importa? Lendo mais sobre as origens e os significados das religiões do Extremo Oriente e ansioso por experimentar os bardos - as dimensões intermediárias dos mundos material e espiritual -, estudei o Livro Tibetano do Viver e Morrer.

Li toda a literatura mística ou esotérica na qual consegui colocar minhas mãos e guardei uma cópia do Bhagavad Gita no bolso li os escritos de Paramahansa Yogananda. Mergulhei nos escritos de Osho, li Ram Dass e Ramana Maharshi, convencido de que não havia mais ser divino do que eu mesmo. Cabia a mim quebrar meu eu ilusório. De acordo com muito do que li e ouvi, não pode haver relação pessoal com o Divino e isso me conflitou. A natureza calma e pacífica da infância se foi. Quanto mais mergulhava na meditação e yoga, mais urgências súbitas e inexplicáveis eu experimentava para me machucar. Minha alma estava sob ataque. Este foi um período muito sombrio e infeliz da minha vida.

Buscando calma, tomei o voto de Bodhisattva e busquei uma ordem monástica leiga contemplativa e pacífica dentro do budismo, em um esforço para me ancorar em algum lugar, com alguma coisa. Depois de um período inicial de relativa paz, desenvolveu-se ousadia, até imprudência, relacionada às atividades espirituais. Eu estava passando por uma espécie de alcoolismo espiritual. Mas eu não sabia disso.

* * *

O Filho Pródigo comeu a comida de porcos em um país distante. Mas ele voltou para casa quando se lembrou do sabor do Pão da casa de seu Pai. Por mais de uma década vivi neste país distante, comendo sua comida.

Eu vi muitas pessoas - muitos estranhos, alguns amigos - buscando a dissolução do eu. Eles tinham um desejo insaciável de se perder, não na vida e luz de Deus, mas na escuridão do vazio, em uma separação do Amor que Transcende Tudo. Essa separação é o inferno. Muitos homens, mulheres e crianças procuram este inferno, girando ao redor de relacionamentos promíscuos e pulando das janelas das drogas, através das quais tantos caem.

Mas eu estudei e pratiquei Kundalini Yoga e xamanismo, aprendendo a presença do medo e da frieza. [3]

Cresci em reputação de ler o tarô, um método oculto de adivinhação. Eu ensinei yoga e instruí grupos através de meditações guiadas e cantando em sábios desertos. Experimentamos a projeção astral - experiências fora do corpo através dos bardos descritos nos livros tibetanos. Eu carregava não apenas cópias sublinhadas do Bhagavad Gita, mas também das Upanishads e sutras dos budas em todos os lugares que eu ia [4]. Cada uma dessas atividades era um mergulho para longe da montanha sagrada de Cristo. Deixe cair água na pedra por tempo suficiente e ela irá embora. Esfregando a pasta de laranja pela minha testa, eu toquei sinos oferecendo frutas e fogo enquanto adorava Krishna, vagando descalço pelas ruas de Eugene, Portland, Seattle e finalmente Rishikesh, Haridwar e Dharamsala, no norte da Índia.

* * *

"Separado de Deus, que é a fonte da vida", escreve o arquimandrita Zacarias em seu livro Homem Oculto do Coração, "o homem só pode se retirar para dentro de si mesmo ... Aos poucos, ele fica desolado e dissoluto".

O budismo rejeita o eu, a alma e a pessoa. Ele dobra os braços em silêncio contra Deus. O sofrimento nunca é transfigurado. Existem cruzes no budismo, mas nunca há ressurreição. Pode-se dizer que o budismo encontra o túmulo vazio e declara esse vazio como o estado natural das coisas, até mesmo o objetivo. No budismo, tudo - céu, inferno, Deus, o eu, a alma, a pessoa - é uma ilusão esperando ser superada, descartada, destruída. Esse é o objetivo. Obliteração total. Nesse axioma do século IX, a essência do budismo é resumida: "Se você vir o Buda, mate-o".

O budismo não professa - nem pode - curar alma e corpo. Tanto a alma como o corpo devem ser superados e descartados. Na Igreja Ortodoxa, no entanto, a alma e o corpo devem ser curados. O budismo ensina que nada tem valor intrínseco. A Igreja ensina que tudo que Deus faz tem valor intrínseco. Isso inclui o corpo humano. Somos seres complexos. As ações do nosso corpo, mente e alma estão ligadas. E essas ações interligadas estão diretamente relacionadas ao nosso relacionamento com Deus e o reino espiritual.

Para os cristãos ortodoxos, tudo - até o sofrimento - é uma porta oculta através da qual nos encontramos com Cristo, por meio da qual nos abraçamos um ao outro.

* * * 

Um outono, viajei para Rishikesh, na Índia. Esta cidade tem o nome do deus pagão Vishnu, "o senhor dos sentidos". Rishikesh é a "capital da yoga do mundo". É geralmente aceito como o lugar da terra de onde a yoga se originou. Durante 40 dias, estudei e pratiquei o chamado caminho espiritual secreto da yoga integral no sopé dos Himalaias. [5] Isso cobria não só a academia de yoga da América; cada aula começava e terminava com uma oração ao "deus da tempestade que ruge", Shiva.

Isso aconteceu enquanto eu ensinava inglês para refugiados tibetanos e trabalhava para o governo nacional tibetano como editor. Yoga é historicamente enraizada no hinduísmo. Curioso, falei com um rinpoche no mosteiro do Dalai Lama em Dharamsala. [6] Eu perguntei quem ou o que esses deuses hindus são de acordo com a cosmologia budista. Sua resposta é alarmante: "Eles são seres criados, com um ego ... eles são espíritos presos no ar." [7]

* * *
O que é yoga? O que é energia kundalini?

O significado literal da yoga é "jugo". Significa amarrar sua vontade à serpente kundalini e elevá-la a Shiva e experimentar seu "verdadeiro" eu. Todos os caminhos do yoga estão interconectados como ramos de uma árvore. Uma árvore com raízes descendo nas mesmas áreas do mundo espiritual. Isso é evidente nos livros antigos do Bhagavad Gita e dos Sutras de Patanjali. Aprendi que o objetivo final do yoga é despertar a energia kundalini enrolada na base da espinha à imagem de uma serpente, de modo que ela o leve a um estado em que você percebe Tat Tvam Asi. [8]

Naturalmente, a yoga pode facilitar experiências excepcionais do corpo e da mente. Mas o mesmo acontece com a ingestão de drogas que alteram a mente e venenos insípidos e imperceptíveis. Através da yoga, pouco a pouco, a pessoa está controlando a shakti, que os yogis chamam de Mãe Divina, a "deusa das trevas" ligada a outros grandes deuses hindus. Essa energia não é o Espírito Santo, e isso não é aeróbica ou ginástica. Anexados a todo este sistema estão bhajans e kirtans - equivalentes pagãos dos akathists ortodoxos, mas a deuses hindus - bem como mantras, que são fórmulas "sagradas", como cartões telefônicos ou números de telefone, aos vários gurus e deuses pagãos.

* * *

Como a yoga está ligada ao hinduísmo?

Para ser claro, o hinduísmo não se refere a uma religião específica. É um termo que os britânicos deram aos vários cultos, filosofias e religiões xamanísticas da Índia. Se você perguntar a um hindu se ele acredita em Deus, ele pode dizer que você é Deus. Mas pergunte a outro, e ele apontará para uma rocha, uma estátua ou uma chama de fogo. Esta é a polaridade hindu: ou você é Deus, ou tudo o mais é um deus.

Yoga está sob este guarda-chuva do hinduísmo, e em muitos aspectos é o pólo do guarda-chuva. Ela atua como um braço missionário para o hinduísmo e a Nova Era fora da Índia. [9] O hinduísmo é como uma extraordinária boneca russa: você abre uma filosofia e dentro dela estão mais dez mil.

E as que não foram abertas são riscos. Você pode nadar facilmente e descuidadamente em águas que você não conhece. Mas inconsciente das marés e nuances da área, você pode estar em perigo. Você pode ser arrastado pela correnteza. Você pode se cortar contra rochas escondidas e contrair infecção e veneno imperceptíveis.

Isso acontece na vida espiritual.

Quando mergulhamos no oceano, podemos nos sentir atraídos pelo peixe mais brilhante, mais colorido e intrigante, mas os mais coloridos e exóticos costumam ser os mais venenosos e mortais.

A primeira vez que visitei a Índia, tirei meus sapatos e meias e caminhei pela água, cocos, doces descartados e fogo cintilante do Templo Kalkaji. É um dos mais famosos templos dedicados a Kali, "a deusa da morte". Eu não sabia, mas eu estava bem no meio de seu festival mais importante do ano. O templo era um caos e a energia era muito elevada e sombria.

Milhares de homens, mulheres e crianças se reuniram neste templo de Rishikesh para adorar este demônio. Ao meu lado, os olhos de uma mulher rolaram para trás em sua cabeça, os braços balançando para frente e para trás, a língua rosa sacudindo de sua boca, as pernas levantando e caindo como uma marionete em cordas. Aquilo era claramente possessão demoníaca.

Uma vez, eu venerei o ícone Sitka da Mãe de Deus [10] e experimentei calor incrível, lágrimas de humildade e amor, clareza mental e paz. Era como andar na frente de uma janela cheia de luz do sol quente e perfumada. No templo de Kalkaji, experimentei o oposto.


Kali é frequentemente descrita como uma deusa assustadora e de muitos braços, com a pele roxa erguendo uma cabeça humana decepada e uma língua sangrenta pendurada na boca. Ela usa um colar de cabeças humanas e um cinto de braços.

Tomei café com pessoas instrumentais no movimento do yoga, do hinduísmo e da Nova Era na América que, para serem iniciadas em seu culto, eram levadas a comer cadáveres humanos de cemitérios nepaleses. Não muito tempo atrás, o popular jornal britânico The Guardian informou que os sacrifícios de crianças continuam até hoje, honrando este demônio Kali. [11] Tudo isso está ligado ao hinduísmo. E está ligado ao yoga porque as posturas do yoga não são religiosamente neutras. Todos as asanas clássicas têm significado espiritual. Por exemplo, como relata um jornalista, as Saudações ao Sol - talvez a série mais conhecida de asanas, ou posturas, de hatha yoga - o tipo mais comumente praticado na América - é literalmente um ritual hindu.

"A saudação ao sol nunca foi uma tradição de hatha yoga", diz Subhas Rampersaud Tiwari, professor de filosofia de yoga e meditação na Universidade Hindu da América, em Orlando, Flórida.“ É toda uma série de apreciações rituais ao sol, sendo grato por essa fonte de energia.” [12]

Pensar no yoga como um mero movimento físico é o mesmo que “dizer que o batismo é apenas um exercício embaixo dágua”, escreve Swami Param, da Academia Hindu de Yoga Clássica e Dharma Yoga ashram em Manahawkin, N.J. [13]

É a deusa Kali que tenta unir os praticantes através da shakti com Shiva por meio do yoga. Em seu templo, nos arredores de Nova Delhi, vi o medonho ídolo "auto-manifesto": uma rocha com estranhos olhos redondos, com bico e coberto de lodo amarelado e comida coalhada. No hinduísmo, ídolos são "acordados". Eles são vestidos. Eles são alimentados. Canta-se para eles. E eles são colocados para dormir. Eu fiz parte de centenas dessas cerimônias.

Com mais de cinco milhões de leitores, o Yoga Journal é a revista de yoga mais vendida do mundo. Em um momento revelador sobre a superioridade do yoga como psicoterapia, o Yoga Journal revelou a filosofia hindu por trás da prática:
“Do ponto de vista iogue, todos os seres humanos são 'nascidos divinos' e cada ser humano tem em seu núcleo uma alma (atman) que habita eternamente na realidade imutável, infinita e que tudo permeia (brahman). Na clássica afirmação de Patanjali dessa visão ... já somos aquilo que buscamos. Nós somos Deus disfarçado. Nós já somos inerentemente perfeitos e temos o potencial em cada momento de acordar para essa natureza verdadeira, desperta e iluminada. ”[14]
Professores e estudantes tipicamente se cumprimentam com o sânscrito "namaste", que significa "Eu honro o Divino dentro de você". Essa é uma afirmação do panteísmo e da negação do verdadeiro Deus revelado na Bíblia. As Saudações ao Sol, ou Surya Namaskara, originaram-se com a adoração da divindade solar hindu Surya.

Na hagiografia e iconografia da Igreja, nós veneramos santos - pessoas reais que viveram em retidão diante de Deus e participaram e continuam a participar de Sua luz e amor - pedindo suas intercessões. Ídolos, por outro lado, escreve Pe. Michael Pomazansky, “são imagens de falsos deuses, e a adoração deles era uma adoração de demônios, ou então de seres imaginários que não têm existência; e portanto, em essência, é uma adoração dos próprios objetos sem vida ”. [15]

Eu vi swamis - neste país, na América - transmitir essa energia kundalini demoníaca apenas olhando nos olhos de uma pessoa. E se alguém estiver aberto a ela, o corpo pode tremer e vibrar como um brinquedo de corda.

E, no entanto, quando chegou a hora de eu receber essa energia amaldiçoada através da Shaktipat, um medo inacreditável tomou conta de mim como uma água fria e eletrificada, então levantei meu escudo e espada: comecei a dizer a Oração de Jesus. [16] Glória a Deus! Esta presença terrível foi desviada pelo Nome de Jesus. Devemos lembrar, como escreve São Paulo: Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. [17]

Com essa oração como escudo e espada, nadei em direção a Cristo. Eu dei um passo para longe do país distante. Eu dei um passo para a Casa do meu Pai.

* * *

Como a yoga está ligada à Ortodoxia?

Yoga é uma prática psicossomática, uma interação entre mente, corpo e espírito (s). Devemos lembrar a palavra "yoga" significa "jugo", como a cruzeta de madeira presa ao pescoço de animais presos ao arado. São Paulo nos adverte: Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? [18]

Yoga não é bíblico nem é parte da Tradição Sagrada da nossa Igreja. Tudo o que procuramos, tudo, pode ser encontrado na e através da Igreja Ortodoxa. Então, o que queremos com yoga?

É importante saber que na yoga, assim como em muitas escolas místicas, luzes estranhas podem acompanhar os praticantes, mas muitas vezes são de demônios ou luzes criadas da mente, pois o próprio Satanás se transforma em um anjo de luz. [19] Muitos têm e estão seguindo os 'fogos de artifício espirituais' da chamada 'nova' era. Naturalmente, esta não é a Luz Incriada experimentada por Moisés e os discípulos no Monte Tabor. Não é a Luz Divina que São Gregório Palamas defendeu no século XIV contra o escolasticismo ocidental. O conhecimento direto de Deus é possível e a experiência direta, mas o conhecimento e a experiência do mal também estão certamente disponíveis. Temos livre arbítrio para escolher quem e o que buscamos. Isto, naturalmente, requer discernimento e testes, onde a responsabilidade perante um padre ou ancião experiente é absolutamente necessária. Indispensável, também, é sincera a participação nos Mistérios da Igreja. Fazemos melhor olhando nos mistérios de nossos corações do que entretendo essas imaginações da cabeça.

Além disso, algo deve ser dito em relação à afirmação de que formas populares de ginástica yoga não trazem perigo ou ameaça a um praticante. Alguém que possui tal opinião é ignorante, ou opta por ignorar, os muitos avisos que aparecem nos manuais de yoga orientais sobre o Hatha yoga que é praticado em tais classes. O instrutor está ciente dessas advertências e é capaz de garantir que nenhum dano chegue ao aluno?

Em seu livro Sete Escolas de Yoga, Ernest Wood começa sua descrição da Hatha Yoga afirmando: “Eu não devo me referir a nenhuma dessas práticas de Hatha Yoga sem soar uma advertência severa. Muitas pessoas causaram em si doenças incuráveis  e até mesmo loucura praticando-as sem fornecer as condições adequadas de corpo e mente. Os livros de yoga estão cheios dessas advertências… Por exemplo, o Gheranda Samhita anuncia que se começar as práticas em climas quentes, frios ou chuvosos, doenças serão contraídas, e também se não houver moderação na dieta, pois apenas uma metade o estômago deve ser preenchido com alimentos sólidos… O Hatha Yoga Pradipika afirma que o controle da respiração deve ser realizado gradualmente, "como os leões, elefantes e tigres são domados", ou "o experimentador será morto", e por qualquer erro surge tosse, asma, dores de cabeça, olhos e ouvido, e muitas outras doenças.” Wood conclui sua advertência sobre postura e respiração de yoga dizendo: “Eu gostaria de deixar claro que não estou recomendando essas práticas, pois eu acredito que todas as Hatha Yogas são extremamente perigosas”. [20]

Se um cristão ortodoxo quiser se exercitar, ele pode nadar, correr, caminhar e fazer exercícios de alongamento, aeróbica ou pilates. [21] Estas são alternativas seguras para o yoga. Nós também podemos oferecer prostrações diante de Deus. A Igreja não quer que nenhum de nós seja sem saúde ou infeliz. Devemos confiar nas prescrições da nossa Mãe, a Igreja, e segui-las da melhor maneira que a nossa capacidade e a graça de Deus permitir. Ninguém deve tentar prolongar a vida do corpo às custas da alma.

Acima de tudo, não devemos confiar em nosso próprio julgamento. Devemos prestar contas a alguém.

Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento. [22]

Como cristãos ortodoxos, sabemos que as ações de nossos corpos, como reverências, prostrações e sinais da cruz, têm relação com o estado de nossa alma diante do Deus verdadeiro. Por que copiaríamos ações corporais que durante séculos estiveram diretamente relacionadas à adoração de demônios? Tais ações podem ter sérias conseqüências para nossa alma e corpo que pertencem a Cristo.

Sejamos sábios como serpentes e inofensivos como pombas. [23]

Notas


[1] Reencarnação é o conceito de que a alma se move para outro corpo humano, animal ou espiritual após a morte biológica. O karma, uma doutrina fundamental como a reencarnação do hinduísmo e do budismo, é o princípio em que a intenção e as ações de um indivíduo influenciam o futuro. O karma remove Deus da perspectiva, centrando você como seu próprio salvador. Samsara é o ciclo de repetição do nascimento, vida e morte.

[2] O xamanismo é uma prática perigosa que envolve canalizar (possessão) espíritos benevolentes e malévolos, empregar transes induzidos por drogas e evocar guias espirituais, presságios e adivinhação com ossos humanos ou de animais. Bon era uma antiga religião panteísta mergulhada em numerologia, astrologia, adivinhação, sacrifício de animais e magia. Esses elementos ainda existem em muitas escolas do budismo.

[3] Kundalini, um componente essencial mas perigoso da yoga, é representado como uma serpente enrolada na base da espinha, despertada através de posturas yóguicas e meditação. A presença da energia da Kundalini 'despertada', também chamada de Shakti, une os praticantes com Shiva, o criador e deus da yoga. A abertura de vários chakras - ou pontos de pressão espiritual - por todo o corpo, por meio de posturas físicas (hatha yoga) e meditação (raja yoga), facilitam esse desenrolar. Os sintomas associados ao despertar da Kundalini incluem estados alterados de consciência, aumento da pressão no crânio, espasmos, aumento da pressão arterial, desejo sexual extremo, dormência emocional e muito mais.

[4] O Bhagavad Gita, ou "Canção de deus", é um diálogo entre o deus hindu Krishna e um guerreiro a respeito de bhakti (yoga devocional), jnana ("libertação" através do conhecimento) e dharma, ou as responsabilidades espirituais do homem. Os Upanishads são escritos místicos védicos sobre a natureza da realidade e realização final. Sutras são ensinamentos tipicamente entregues por budas ou sábios hindus.

[5] Existem muitas "escolas" ou "braços" de ioga que atendem aos diferentes tipos de praticantes. Por exemplo, quatro tipos clássicos ou principais de yoga incluem: Jnana Yoga (yoga do conhecimento direto), Bhakti Yoga (yoga da devoção), Karma Yoga (yoga da ação) e Raja Yoga (o caminho 'real' que inclui Hatha, Tantra, Laya, Kundalini propriamente dito e outras formas de yoga).

[6] Um rinpoche é reconhecido como um professor de budismo reencarnado e realizado.

[7] São Paulo se refere a Satanás como "o príncipe do poder do ar" em Efésios 2: 2.

[8] Sânscrito para “Tu és aquilo” que aparece nos Upanishads e subsequentes textos yôguicos e védicos. A frase significa que o praticante é idêntico à Realidade Suprema, ou a um deus ou a Deus.

[9] O movimento da Nova Era, como o Hinduísmo, é difícil de definir, mas é geralmente associado, mas certamente não limitado ao gnosticismo, o ocultismo, Wicca, transes e "realizações" induzidas por drogas, xamanismo, UFOs, cristais, o politeísmo matriarcal e o movimento LGBT.

[10] Um presente dos trabalhadores da Catedral de São Miguel Arcanjo em Sitka, Alasca, este ícone milagroso excepcionalmente bonito é de fato uma janela para o céu.

[11] The Guardian, sábado, 4 de março de 2006.

[12] Dru Sefton, “Is Yoga Debased by Secular Practice?” Newhouse News, July 15, 2005, http://www.freerepublic.com/focus/f-religion/1445950/posts.

[13] Ibid.

[14] Stephen Cote, “Standing Psychotherapy on Its Head,” Yoga Journal, May/June 2001, p.104. http://michaeltalbotkelly.com/standing-psychotherapy-on-its-head/.

[15] Orthodox Dogmatic Theology, p. 323.

[16] Shaktipat é a concessão de energia espiritual demoníaca com uma palavra, olhar, pensamento ou toque. A Oração: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador.

[17] Efésios 6:12.

[18] 2 Coríntios 6:14.

[19] 2 Coríntios 11:14.

[20] O Sandilya Upanishad dá avisos semelhantes. Veja Seven Schools of Yoga, de Ernest Wood, pgs. 78-79.

[21] O Pilates é uma alternativa perfeitamente segura e apropriada ao yoga. Um sistema fitness mental que ajuda a flexibilidade, força e concentração, o Pilates é uma rotina de condicionamento que enfatiza a coordenação, o equilíbrio e a respiração. Estudos também mostraram que os exercícios de alongamento são uma alternativa eficaz para o yoga no tratamento da dor lombar.

[22] Provérbios 3: 5.

[23] Mateus 10:16.

http://orthochristian.com/80417.html


segunda-feira, 31 de julho de 2017

Oração de Jesus e as práticas meditativas não-Cristãs

Me envolvi bastante com a Oração Centrante e a Meditação Cristã ensinada pelo monge beneditino John Main. Eu liderava grupos e retiros semanais de "meditação cristã" nas paróquias, retiros coordenados liderados por um conhecido monge beneditino, etc. Assim foi a minha vida por muitos anos. No último ano do meu envolvimento com este movimento, eu me encontrava num período de noviço como um Oblato Beneditino (aquele que tenta seguir a Regra de São Bento enquanto vive no mundo), tentando decidir se eu tomaria meus votos finais como oblato e permaneceria no movimento de Meditação Cristã, ou se deveria entrar na Igreja Ortodoxa. Ao entrar cada vez mais profundamente na disciplina da Meditação Cristã ao longo de muitos anos e conhecendo outros que tinham muita experiência nesta prática, e simultaneamente estudando a fé Ortodoxa e a Tradição da Oração de Jesus, percebi que a Meditação Cristã / Oração Centrante eram de origem e orientação espiritual muito diferente da tradição dos Pais do Deserto e sua continuação na Igreja Ortodoxa hoje. Cheguei à conclusão de que o MC / OC era completamente incompatível com a tradição Ortodoxa, e assim, no final, tive que fazer uma escolha para seguir o resto da minha vida.

A Meditação Cristã (MC) e a Oração Centrante (OC) foram tentativas de "cristianizar" a meditação de mantras hindus, como ensinado por Swami Satyananda na Malásia (no caso de MC) e Maharishi Mahesh Yogi (no caso da OC). Enquanto abade de Spenser Abbey em Massachusetts, Pe. Thomas Keating convidava mestres zen para ensinar seus monges trapistas / beneditinos a meditar. Uma vez que os métodos de oração de Meditação Cristã / Oração Centrante vêm diretamente do Oriente não-cristão, não há surpresa alguma que alguém venha a ter uma experiência semelhante praticando esses mesmos métodos, mesmo dentro de diferentes religiões. Na verdade, a experiência é muito parecida, e é por isso que, dentro dos círculos MC / OC, é muito popular acreditar que, no seu "núcleo místico", todas as religiões experimentam a mesma coisa e descrevem essa experiência em diferentes termos. Alguns descrevem sua experiência em termos de "Deus" e "Amor", enquanto outros em termos de "Vazio" ou "Absoluto", por exemplo, dependendo das doutrinas religiosas através das quais essa mesma experiência é interpretada.

Com o meu envolvimento cada vez mais profundo com a Ortodoxia, cheguei a ver que essa "experiência comum" no "núcleo místico" de todas essas práticas é apenas a experiência de nossa própria natureza criada, nosso próprio espírito humano criado. Essa experiência de nosso próprio espírito criado é muitas vezes descrita em termos de "realidade" exterior à consciência do tempo e do espaço, uma experiência de ilimitabilidade, de eternidade, de infinitude, de unicidade, etc. Esta é uma experiência muito iluminadora e transformadora para as pessoas, mas é simplesmente a experiência da realidade alcançada como uma consequência natural da aplicação de certa técnica psico-somática. Em outras palavras, essa experiência não tem nada a ver com entrar em comunhão com o Deus Incriado através de Suas energias divinas e incriadas (graça). Mas, tal experiência do espírito criado é algo ruim?

Na Meditação Cristã e na Oração Centrante, muitas vezes se ensina sobre a experiência de comunhão com Deus, quando, na realidade, os praticantes desses métodos são apenas conduzidos à experiência da infinitude de seu próprio espírito criado. Quando alguém experimenta seu próprio espírito criado e confunde essa experiência com a experiência do Deus Incriado, isso é um engano, e esse engano se torna o maior obstáculo para verdadeiramente conhecer Deus e entrar em comunhão com Ele. Esse engano, de fato, cria um obstáculo maior para conhecer Deus do que os obstáculos das mais grosseiras paixões porque esse alguém foi, em última instância, levado a adorar seu próprio eu como Deus. Essa é a experiência do hindu que diz "Atman é Brahman" ou "Si mesmo é Deus". Através da crença de que o próprio espírito criado por Deus é Deus ou igual a Deus, que é o mesmo que confundir seu espírito criado com o Espírito Incriado, cai-se no mesmo engano que Lúcifer no momento da sua grande queda.

O movimento contemplativo no Ocidente hoje, que é liderado principalmente pelos ensinamentos da Oração Centrante e da Meditação Cristã, tem em seu centro o engano  espiritual e a confusão em relação à experiência de Deus e ao próprio espírito criado. Não é de admirar, então, que os líderes deste movimento, do famoso Thomas Merton aos "mestres" de nosso próprio tempo, não vejam nenhum problema com os Cristãos que aprendem a meditar com Mestres Zens e gurus Hindus (conheci alguns Católicos Romanos que também são Zen Roshis certificados, por exemplo). A prática desses métodos levou a um "Novo Cristianismo" que não é um retorno à tradição dos Pais do Deserto (que este movimento tenta explorar, ao justificar-se) e a Igreja primitiva, mas é uma traição do próprio fundamento da fé apostólica e estabelecimento de uma nova fé que estabelece os fundamentos da futura religião do Anticristo.

É muito popular nos ensinamentos da OC / MC referir-se à tradição Ortodoxa da Oração de Jesus como sendo da mesma tradição. De fato, foi assim como aprendi pela primeira vez sobre a Igreja Ortodoxa. Quando se examina profundamente sobre cada tradição, no entanto, percebe-se que tudo é abordado de forma bem diferente. Você pode, então, examinar a continuidade e a consistência da tradição Ortodoxa da Oração de Jesus e sua completa inseparabilidade do batismo na Igreja Ortodoxa e da participação na vida sacramental Ortodoxa.Você pode então comparar isso com as tradições criadas recentemente da Oração Centrante e da Meditação Cristã, que não têm continuidade viva com a Igreja primitiva, mas que só foram revividas através do contato com o Oriente não-cristão. Você pode então examinar os frutos dessas tradições, pode examinar os antigos Pais do Deserto e os Pais do Deserto contemporâneos da Igreja Ortodoxa que têm exatamente a mesma tradição e visão de mundo como os Pais antigos; e compare isso com o fato de que os movimentos de OC / MC não produziram santos contemporâneos como os Pais do Deserto. Quanto mais profundo você entrar nessas questões, mais você verá a divergência e, no entanto, apenas uma dessas tradições é consistente com a fé "entregue de uma vez por todas aos santos".

Algumas citações do Ancião Sofrônio de Essex e do Hieromonge Damasceno de Platina do livro "Christ the Eternal Tao":

Pe. Damasceno escreve sobre a experiência da luz interior:
"Aqui estamos pisando em terreno perigoso, por isso é necessário ir devagar. É aqui que muitos daqueles que praticam vigilância caíram na delusão ao longo dos séculos. Tudo depende da pureza da intenção daquele que está entrando. Se a intenção (consciente ou inconsciente) não é enfrentar a condição de pecado de si mesmo, de arrepender-se e assim reconciliar-se com Deus, mas, em vez disso, é de "ser espiritual" enquanto continua a adorar a si mesmo, então, pode-se, ao tornar-se consciente da luz do próprio espírito, começar a adorá-la como Deus. Esta é a derradeira delusão."
Arquimandrita Sofrônio é então citado:
"Alcançando os limites onde 'o dia e a noite chegam ao fim', o homem contempla a beleza de seu próprio espírito que muitos identificam com o Ser Divino. Eles veem uma luz, mas não é a Luz Verdadeira na qual 'não há qualquer escuridão'. É a luz natural peculiar à mente do homem criado à imagem de Deus.
"A luz mental, que ultrapassa qualquer outra luz do conhecimento empírico, pode ainda ser chamada de escuridão, uma vez que é a escuridão da alienação e Deus não está nela. E, talvez, neste caso mais do que qualquer outro, devemos escutar o aviso do Senhor: "Tome cuidado, portanto, que a luz que está em você não seja a escuridão". A primeira catástrofe cósmica pré-histórica - a queda de Lúcifer, filho da manhã, que se tornou o príncipe das trevas - foi devido à sua contemplação enamorada de sua própria beleza, que terminou em sua auto-deificação".
Pe. Damasceno então comenta esta passagem:
"A escuridão da alienação de que o Pe. Sofrônio fala é o estado de ter se elevado acima de todos os processos de pensamento que descrevemos anteriormente. Se o motivo da pessoa é orgulho, ela parará neste ponto, admirando seu próprio brilho; mas esse brilho ainda será escuridão. Ele pensará que encontrou Deus, mas Deus não estará ali. Ele encontrará uma espécie de paz, mas será uma paz separada de Deus.
 "Ir além do pensamento não é ainda alcançar o verdadeiro conhecimento. Tal conhecimento vem da Palavra falando silenciosamente no espírito que está ansiando por Ela; não vem do próprio espírito. A Palavra virá e fará Sua morada com o espírito somente se a pessoa se aproximar de Ele com absoluta humildade, pois Ele mesmo é humildade e semelhante atrai semelhante".
Pe. Sofrônio escreve mais sobre aqueles que se aproximam sem humildade:
"...uma vez que aqueles que entram pela primeira vez na esfera do 'silêncio da mente' experimentam uma certa admiração mística, eles confundem sua contemplação com a comunhão mística com o Divino, ao passo que, na realidade, eles ainda estão dentro dos limites da natureza humana criada. A mente aqui, é verdade, passa além das fronteiras do tempo e do espaço, e é isso que lhe dá uma sensação de apreensão da sabedoria eterna. Isso é tão longe quanto a inteligência humana pode ir seguindo o caminho do desenvolvimento natural e da auto-contemplação ...
"Habitando na escuridão da alienação, a mente conhece um deleite peculiar e uma sensação de paz... Purificando as fronteiras do tempo, tal contemplação aproxima a mente ao conhecimento do não-transitório, portanto dando ao homem uma cognição nova, mas ainda abstrata. Ai daquele que confunde esta sabedoria com o conhecimento do Deus verdadeiro, e essa contemplação com uma comunhão no Ser Divino. Ai daquele porque a escuridão da alienação nas fronteiras da verdadeira visão se torna uma passagem impenetrável e uma barreira mais forte entre ele e Deus que a escuridão devido a revolta da paixão grosseira, ou a escuridão de instigações obviamente demoníacas ou a escuridão que resulta da perda da graça e do abandono por Deus. Ai daquele, pois ele se desviará e cairá em delusão, já que Deus não está na escuridão da alienação".
Experimentar a escuridão da alienação e a luz da mente, diz o Pe. Sofrônio, "é naturalmente acessível para o homem", mas experimentar a Luz Incriada da Divindade é dado ao homem por uma ação especial de Deus. Essas duas experiências diferem qualitativamente uma da outra. Pe. Sofrônio escreve:
"Foi-me concedido contemplar diferentes tipos de luz e luzes - a luz que o artista conhece quando exaltado pela beleza do mundo visível, a luz da contemplação filosófica que se desenvolve em uma experiência mística. Incluamos até mesmo a 'luz' do conhecimento científico que é sempre e inevitavelmente de valor muito relativo. Fui tentado por manifestações de luz de espíritos hostis. Mas já adulto, quando retornei a Cristo como Deus perfeito, a Luz eterna brilhou sobre mim. Essa maravilhosa Luz, mesmo na medida que me foi concedida do Alto, eclipsou tudo, assim como o sol nascente eclipsa a estrela mais brilhante".
O Pe. Damasceno então comenta sobre esta passagem:
"Nós não praticamos a vigilância para que possamos nos tornar silenciosos e serenos. Em vez disso, ficamos em silêncio para que possamos conhecer a verdade desagradável sobre nós mesmos, e para que 'ouçamos' o Tao / Logos falando diretamente ao nosso ser interior. Ele não fala com uma voz audível; Sua voz não faz nenhum barulho mesmo na mente... a escritura chama Sua voz mansa e delicada. Não podemos ouvir, a menos que sintonizemos, separando de todo o ruído estático em nossas cabeças ".
Após essas palavras, o Pe. Damasceno então descreve o ensinamento Ortodoxo em relação à Oração de Jesus.

Na tradição Ortodoxa da Oração de Jesus, a prática da Oração não pode ser separada da vida sacramental e ascética Ortodoxa. Uma vez que as práticas de meditação não-cristãs, como aquelas seguidas por budistas, hindus e muitos cristãos não-Ortodoxos (na tradição de Thomas Keating, Thomas Merton, John Main, etc.) são principalmente técnicas psico-somáticas que levam a experiência da natureza criada de si mesmo, essas técnicas podem ser facilmente praticadas por pessoas diferentes, independentemente da sua religião, e todos os que praticam essas técnicas chegam a uma experiência similar. Na Igreja Ortodoxa, no entanto, a salvação do homem, a theosis e todo o seu desenvolvimento espiritual começa com a recepção do Espírito Santo através do batismo e crisma na Igreja Ortodoxa. Ao entrar e permanecer na Igreja Ortodoxa, o homem começa a receber e ser deificado pelas Energias Incriadas de Deus enquanto cresce em humildade, virtude e arrependimento na medida em que recebe regularmente a graça deificante através dos sacramentos da Igreja Ortodoxa.

Confissão, arrependimento, humildade e autocontrole proporcionam o terreno fértil para que as sementes da Oração de Jesus cresçam e deem frutos; fornece também as folhas protetoras que guardam e preservam a fruta da doença e do calor abrasador do orgulho e da delusão. Para uma árvore dar frutos, no entanto, não é suficiente ter um bom solo e folhas para proteção, mas é necessário também a luz solar para o crescimento e a vitalidade. Do mesmo modo, junto com a confissão, arrependimento, humildade e autocontrole, o homem precisa dos raios divinos da graça incriada dos sacramentos da Igreja Ortodoxa.

[...]

Houve muitos Católicos de Rito Oriental que tentaram progredir na Oração de Jesus, mas que eventualmente perceberam que não poderiam fazer muito progresso até que se converteram à Ortodoxia. Já comentei sobre o fato de que na Igreja Ortodoxa o desenvolvimento espiritual do homem e a theosis começam com o batismo e a crisma na Igreja Ortodoxa. Como tenho certeza que você sabe, a Igreja Ortodoxa não considera os batismos ou outros sacramentos realizados fora da Igreja Ortodoxa como sacramentos verdadeiros e plenos-de-graça. As Energias Incriadas de Deus operam através dos sacramentos da Igreja, mas quando um sacerdote ou bispo entra em cisma e é desligado completamente do corpo de Cristo, os sacramentos realizados deixam de ser eficazes e plenos-de-graça. Esta realidade explica como tantos abusos ocorreram no Catolicismo Romano uma vez que se separaram da Igreja, assim como explica o caos do Protestantismo e a ausência em ambos os grupos de santos que têm a mesma estatura e cosmovisão (phronema) dos santos dos primeiros séculos. [...]

Em relação àqueles que se converteram à Ortodoxia vindo Catolicismo de Rito Oriental e sua afirmação de que alguns Ortodoxos se converteram ao Catolicismo de Rito Oriental, penso particularmente em pessoas como Hieromonge Gabriel (Bunge) e o Hieromonge Placide (Deseille) que eram estudiosos patrísticos e viveram décadas como monges no Rito Oriental sob o Papa antes de chegar à conclusão de que eles estavam em um beco sem saída que só poderia ser resolvido entrando na Igreja Ortodoxa. Você tem essas pessoas, que viveram durante décadas como monges Ortodoxos e eram conhecidos como estudiosos patrísticos, que chegaram à conclusão de que estavam em um beco sem saída na Ortodoxia e fugiram para o Papa?

Sobre a questão de julgar o progresso dos outros, meu único ponto é que eu ouvi vários relatos daqueles que procuraram praticar a Oração de Jesus de forma séria no Catolicismo Oriental e perceberam que era uma tentativa inútil e assim converteram-se para a Ortodoxia. Pe. Theophanes de Kapsokalyvia, por exemplo, disse depois de sua conversão que ele realmente não conseguia compreender a Oração de Jesus corretamente até sua conversão à Ortodoxia. Outros Católicos Romanos ou de Católicos de Rito Orientais de longa data falaram da grande graça que receberam depois de entrarem na Igreja Ortodoxa.

Dentro da Igreja Ortodoxa, temos muitos exemplos contemporâneos de hesicastas que se esforçaram dia e noite orando a Oração de Jesus e cujas vidas exemplificam as mesmas qualidades espirituais que os Pais do Deserto de antigamente. Nunca ouvi falar de algum hesicasta contemporâneo do Catolicismo de Rito Oriental cuja vida era do mesmo caráter espiritual que nossos santos e anciãos Ortodoxos contemporâneos. Nunca vi um livro sobre a Oração de Jesus por um hesicasta contemporâneo do Catolicismo de Rito Oriental. Eu suponho que, se um Católico de Rito Oriental quisesse seriamente aprender a orar a Oração de Jesus, ele iria encontrar pouco apoio dentro do Catolicismo de Rito Oriental e precisaria recorrer aos livros e conselhos dos santos e anciões Ortodoxos que não consideram o Rito Oriental Católico como parte da Igreja e não possuem comunhão com os Católicos de Rito Oriental. Claro, se eu estiver errado nisso, sinta-se livre para contestar esses pontos. 

Antes de eu ser Ortodoxo, os beneditinos que tentavam recuperar práticas de "oração contemplativa" sempre foram rápidos em apontar que tal tradição havia morrido no Catolicismo Romano após o Cisma (embora eles culpariam o escolasticismo ao invés do Cisma), mas que uma semelhante (para eles) tradição da Oração de Jesus permaneceu viva na tradição da Igreja Ortodoxa dos tempos apostólicos até hoje. Para aqueles que desejam aprender verdadeiramente este modo de oração, é necessário fazer parte desta tradição viva.


O texto é um depoimento-resposta encontrado no forum Orthodox.Christianity.net (link)




quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O Comprimento e a Altura da Cruz é Igual ao Céu (S.N. Trubetskoy)

"Ó milagre glorioso! O comprimento e a altura da cruz é igual ao céu!" (3ª estiquério para o final das matinas). Ao louvar a Cruz Vivificante do Senhor com essas palavras em um de seus hinos para a festa da Elevação da Cruz, a Santa Igreja nos apresenta um de seus aspectos de seu ensinamento sobre a Cruz, a saber: que o comprimento e a altura da cruz é igual ao céu; em outras palavras, que a cruz protege todo o universo, toda a criação, o mundo físico e o metafísico por completo.

Encontramos uma exposição única deste ensinamento em um livro maravilhoso do proeminente filósofo russo religioso Príncipe Yevgeniy Trubetskoy, que trata da questão que se reflete em seu título - "O Sentido da Vida." O livro foi escrito em 1918, precisamente em uma época em que o velho mundo cristão estava sendo demolido, e uma era pós-cristã, apóstata, apocalíptica - a chamada Nova Era - estava sendo estabelecida na Terra.

Ao analisar a profunda e complexa questão do sentido da vida, particularmente no contexto de caos circundante e a falta de sentido evidente daquela época, o Príncipie Trubetskoy analisa de forma maravilhosamente espiritual a estrutura fundamental da vida, explicando sua linha horizontal (comprimento) e sua linha vertical (altura), e mostra que somente na interseção dessas duas linhas (uma cruz) está o verdadeiro significado da vida revelada para nós. Eis o que este grande escritor espiritual diz (extraído do livro "O Sentido da Vida", p. 53-65):


"Um argumento eterno de dois conceitos opostos da vida se trava em torno da questão do propósito e sentido da vida - um conceito naturalista, que se volta para a vida real e seu significado no plano deste mundo, e um conceito sobrenatural, que afirma que a verdadeira vida e seu significado está concentrada em um plano de existência superior, diferente e fora deste mundo. Um exame dessas duas resoluções nos leva a concluir que ambas são igualmente unilaterais e, portanto, igualmente inválidas.

Para o naturalismo - tanto religioso quanto filosófico - a vida real é precisamente esta vida, que se desdobra neste plano particular de existência; O mundo real é o que ocorre diante de nós neste plano, morrendo e renascendo periodicamente. Um exemplo vívido de tal conceito de vida são os gregos antigos com seu culto da natureza e seus deuses solares - Olímpicos. Todos esses deuses do trovão e do relâmpago, as ondas do mar, o luar e a luz ofuscante do céu do meio-dia são personificações humanas da alegria da vida na terra. A religião grega também conhece o além, mas não é tanto o outro mundo mas o submundo, onde tudo é sombrio e estéril; a sombra de Aquiles fala disso a Ulisses, dizendo que é melhor ser escravo na terra do que reinar sobre os mortos no reino das sombras.

Falando do outro mundo, olhemos para aquelas religiões que representam uma antítese direta à visão de mundo alegre dos gregos antigos. Estou falando daquelas religiões da Índia que não só não acreditam na autenticidade deste mundo, mas até mesmo parcialmente rejeitam sua realidade. A profundidade da busca religiosa da Índia é expressa no fato de que ela transforma todos os julgamentos do senso comum em seu oposto. O que chamamos de realidade é na verdade um sonho, enquanto o que chamamos de sonho é uma realidade genuína e verdadeiramente valiosa - assim somos ensinados pela sabedoria ascética do bramanismo e do budismo. A palavra "Buda" até mesmo literalmente significa "o despertado". Assim, todo o ensinamento de ambas religiões não é mais do que uma tentativa de alcançar esse despertar, de se elevar acima da agitação que é chamada realidade; para o budismo, assim como para o bramanismo, a verdadeira expressão da vida real não é esta realidade, mas as asas que podem nos elevar e nos afastar dela...

O pathos do bramanismo também está ligado com a exigência prática onde a pessoa deve rejeitar toda individualidade, todos desejos egoístas, todo esforço por uma recompensa aqui ou no além. Este mundo inteiro é uma mentira - portanto, o sentido da vida é alcançado apenas em uma total desassociação do mundo. Para o bramanismo, o ideal da vida é a completa dissolução de tudo o que é individual e concreto dentro da unidade impessoal de um espírito universal.

Esta dissociação ascética de tudo é cristalizada no budismo, cujo ideal consiste em elevar-se não só acima de uma vida individual finita, mas acima de toda a vida em geral, acima de todo esforço em relação à vida, acima de todo desejo de imortalidade. O budismo deixa sem resposta a própria questão da vida eterna do indivíduo, a fim de não despertar no homem esse desejo vago pela vida que está na raiz de todo sofrimento na terra. Uma imersão pacífica no "nirvana" pregado pelo budismo é alcançado através da completa desassociação da vida.

Em última análise, no entanto, a busca religiosa aqui também permanece sem solução. A auto-abnegação ascética da índia acaba por ser uma meia verdade, assim como a cosmovisão religiosa dos gregos antigos. Vemos aqui duas aspirações opostas em relação a vida, duas linhas de vida que se cruzam. Uma se estabelece aqui na terra, tem ambas extremidades firmemente enraizadas neste mundo. A outra, pelo contrário, anseia para longe da terra, aspira para o além. Mas, de uma maneira fatal, essas duas linhas conduzem a uma e a mesma coisa. Tanto a alegria transitória da vida dos olímpicos como o elevado vôo do ascetismo hindu terminam na morte. Pois o que é considerado felicidade no bramanismo e no budismo não é, em verdade, a vitória da vida, mas o contrário - a vitória sobre a vida e, consequentemente, a vitória da morte.

A religiosidade hindu essencialmente não acredita no sentido, mas na falta de sentido da vida. Os hindus engajam-se em uma ascensão espiritual, mas terminam no fracasso fatal, pois em sua religião o espírito não anima o mundo, não transforma-o desde dentro, não vence a força do mal nele, mas apenas entrega a si mesmo a essa força.  A atitude do espírito hindu em relação à terra é exclusivamente negativa: desassocia-se da terra para sempre e assim entrega a terra e todos os seres vivos nela ao poder do sofrimento, do mal e da futilidade. O sofrimento de toda a criação viva é fútil e suas esperanças são em vão, pois não tem lugar na salvação proclamada pelos ascetas da Índia: sua "salvação" não é a salvação da vida, mas a salvação para longe da vida; a "salvação" dos ascetas reside precisamente na destruição de todas as formas concretas, de toda a variedade da criação... Assim, a ascensão ao além, que constitui a essência da aspiração religiosa da Índia, se transforma em nada, pois esta ascensão não conduz ao seu objetivo, e o próprio céu permanece para sempre fechado para eles, para sempre além de seu alcance.

Tanto as soluções hindu como as gregas para a questão do sentido da vida se tornam igualmente inválidas. Ao afirmar o mundo, a religiosidade grega encontra o caos em vez do cosmos, encontra uma multidão de forças lutando entre si, não unidas pela unidade de um sentido comum, ao passo que a religiosidade hindu rejeita completamente o mundo como inexistente e absurdo, isto é, encontra sentido somente em sua destruição. Assim, se o homem busca o sentido da vida no plano horizontal terrestre ou na ascensão vertical a um plano diferente de existência, o resultado desses dois movimentos é o mesmo: o sofrimento em relação ao sentido não alcançado e o retorno do círculo da vida de volta a Terra, à futilidade.

Ambas as linhas, que expressam as duas direções básicas da aspiração da vida - a linha plana ou horizontal e a linha ascendente ou vertical - se cruzam. E tendo em vista o fato de que essas duas linhas representam uma descrição abrangente de todas as possíveis direções da vida, sua interseção - a formação de uma cruz - é a representação esquemática mais universal e exata do caminho da vida. Em todas as formas de vida há uma interseção inevitável desses dois caminhos e direções - o movimento ascendente e o movimento para a frente.

Nesse sentido, a cruz está na base de toda a vida. O esboço da própria vida é cruciforme por natureza, e há uma cruz cósmica, que expressa o fundamento arquitetônico de todo o universo.

Toda a questão do sentido da vida resume-se à questão da cruz, uma vez que fora dessas duas linhas da vida que se cruzam não pode haver outras linhas ou caminhos. No entanto, para cada pessoa o significado da cruz pode ser diferente, dependendo se esses caminhos da vida levam para o objetivo preciso ou não. Se alguém acredita que o resultado final de toda vida é a morte, então o cruzamento das linhas da vida representa apenas uma expressão extrema de tristeza, sofrimento, humilhação - e, nesse caso, a cruz é simplesmente um símbolo de tormento universal: de tal modo era conhecida pela humanidade pré-cristã. É uma questão totalmente diferente se na interseção das duas linhas a vida alcança sua plenitude, seu sentido eterno, belo e imortal. Então a cruz torna-se o símbolo desta elevada vitória, a cruz torna-se vivificante, o que constitui a única formulação correta da questão sobre o sentido da vida ...

Nem a auto-afirmação da mundanidade, personificada pelos olímpicos gregos, nem o ascetismo direto da Índia antiga e a fuga do mundo levaram ao sucesso. Esta dupla falha mostra que ambos os caminhos da vida que se cruzam no mundo são inválidos por si mesmos; Assim, o homem é levado a uma nova revelação do mistério do mundo. Se nem a terra, nem o céu, nem o alto, nem o baixo por si só compreendem a revelação do sentido da vida, isto significa que o sentido está em algum lugar mais profundo. Não é só maior do que a terra, mas também maior do que o céu e, portanto, todas as tentativas de encontrá-lo somente na terra ou apenas no céu estão igualmente condenadas ao fracasso. Não pode ser contido em qualquer plano finito da existência, pois engloba todos os planos, o mundo inteiro em geral, enquanto em si mesmo está acima do mundo...

Em outras palavras, devemos buscar o sentido da vida não em uma direção horizontal ou vertical tomada separadamente, mas na unificação dessas duas linhas da vida, no lugar onde elas se cruzam. No verdadeiro sentido da vida, todo sofrimento deve ser derrotado e transformado em alegria - tanto o sofrimento físico da criação terrena como o sofrimento espiritual de uma subida mal sucedida ao céu. O sentido da vida é testado pela cruz, porque, em última análise, a questão do sentido da vida é a questão se a cruz - um símbolo da morte - pode se tornar a fonte e o símbolo da vida?

De todas as religiões só o cristianismo fornece e afirma uma resolução positiva deste problema, pois prega a abolição da morte, prega a transformação da própria cruz de um caminho que leva à morte para um caminho que leva à vida. Além disso, esta é a única solução positiva possível, pois o cristianismo mostrou ao mundo a vitória total na cruz e na crença em Cristo como Deus perfeito e ao mesmo tempo homem perfeito, ao mundo revelado a unidade indivisível e integral do divino e do humano... A paixão voluntária do Filho de Deus e a ressurreição como consequência - tal é a única revelação do sentido no mundo por meio de qual é possível ser realizado e confirmado".

Príncipe Yevgeniy Trubetskoy

original: http://www.holy-transfiguration.org/library_en/lord_cross_equal.html

terça-feira, 7 de junho de 2016

Da deusa da morte ao Imperador da Vida [Parte 2] (Danion Vasile)

Não muito antes disso, eu tinha escutado sobre Swami Shivamurti, uma mestre indiana, discípula de Swami Satyananda. No final dos anos 70,  ela tinha sido enviada para Kalamata para transmitir ensinamentos de yoga para os gregos. Em 1984, ela havia criado um "ashram", um mosteiro de yoga em Paiania, perto de Atenas. Eu conheci Swami Shivamurti em uma casa particular onde ela tinha decidido ver um número limitado de iogues. Perguntei-lhe se eu poderia viver uma vida ascética em seu ashram e ela respondeu com muita gentileza que eu certamente poderia. Embora eu desejasse que ela fosse um homem parecendo como um mestre tradicional - velho, com uma barba longa branca e com um semblante calmo - eu decidi ser seu discípulo e segui ela para a Bulgária, onde ela havia sido convidada para dar várias palestras.

Em algum momento, ela me deu um nome yogico, um tipo de nome batismal indiano. Embora eu esperasse um nome famoso, como Mahashiva ou Milarepa, o que foi me dado era aparentemente comum: "Bhaktimurti", significando "forma de devoção", "forma de piedade". Em outras palavras, para mim, o caminho mais curto para a iluminação era adorar alguém - uma divindade ou um poder cósmico... Então, eu escolhi adorar Cristo. Eu creio que Deus colocou o nome "Bhaktimurti" na mente de Swami Shivamurti; mesmo se ela não estivesse servindo Ele, mas os poderes das trevas, Deus falou através dela assim como Ele tinha falado por meio do asno de Barlão. No entanto, eu duvido que ela saiba que tenha me beneficiado muito escolhendo aquele nome para mim.

Eu fiz minha cabeça para entrar no ashram dela e ela me disse que certamente me permitia, mas já que eu não tinha idade suficiente, precisei da autorização por escrito do meu pai. Na Bulgária, algo de grande consequência para meu futuro aconteceu... Uma mulher iogue levou-me a algumas igrejas bem conhecidas em Sophia, uma das quais uma Igreja Russa em cujo porão havia as relíquias do Bispo Seraphim Sobolev, um homem de milagres. Em seu caixão havia pequenos pedaços de papéis em que as pessoas escreviam seus desejos e orações ao hierarca piedoso falecido. Eu me aproximei ao caixão e supliquei-lhe com todo meu coração que me ajudasse. Eu disse a ele,

"Ajude-me para que minha vontade não seja feita, mas a vontade de Deus seja feita em mim!"

Naquele momento, eu senti que algo mudou, algo que nem posso colocar em palavras. Quando estava praticando yoga, eu me sentia mal sempre que entrava numa igreja; me parecia que não havia ar e eu não conseguia respirar; além disso, eu não podia aguentar os serviços litúrgicos, exceto com grande dificuldade... No entanto, ali, naquela Igreja Russa, que abrigava as relíquias do bispo, era como se uma névoa estivesse subindo de mim. Embora ele não tivesse sido canonizado, as pessoas adoravam-no como se fosse um santo.

Voltei à Romênia muito animado para minha próxima viagem à Grécia. Meu pai me deu permissão para ir para Grécia, porque ele sabia que eu não tinha intenção de concluir o ensino médio de qualquer maneira. A senhora da classe me pediu para que eu fosse à escola para que os professores me vissem e me dessem uma avaliação para que eu não fosse reprovado, mas tudo que me interessava era como fazer progressos como um yogi. Na verdade, mesmo quando eu costumava ir à escola, yoga era minha única preocupação. Os estudos da escola parecia um desperdício! Apesar de ter frequentando a Faculdade de Ciências da Computação, que era a melhor em Bucareste naquele tempo, e apesar de ter ficado orgulhoso por ter passado no teste de entrada - afinal, eu sempre fui fascinado por ciência da computação por toda minha vida - yoga era minha grande paixão. Yoga havia me subjugado tão completamente que eu não podia me concentrar em qualquer coisa, exceto nas técnicas de meditação e asanas. Em toda a honestidade, eu tinha sofrido uma lavagem cerebral em pensar que somente poderia ler e estudar materiais de yoga - nada mais do que isso.

A data de partida estava se aproximando. Eu tinha colocado na cabeça que antes de chegar no ashram, que era próximo de Atenas, eu visitaria o Monte Athos, onde, eu tinha ouvido, os santos padres estavam praticando a Oração de Jesus. Eu queria ser iniciado na prática da Oração de Jesus também... Meu pai sugeriu que eu fosse conversar com o Padre Constantin Galeriu, um padre bem conhecido em Bucareste, que havia sofrido por Cristo nas prisões comunistas. 

Padre Galeriu me enviou ao Padre Ilie Cleopa do Mosteiro Sihastria na Moldávia, o que foi perfeito para mim, já que eu estava pensando em visitar alguns mosteiros para ver como a obediência monástica era praticada - como uma espécie de fase preparatória antes do ashram. No entanto, Padre Cleopa foi tão inflexível em sua oposição as práticas de yoga, e as minhas relações com os monges em Sihastria foram tão tensas em desacordo por eu ser um yogi, que eu deixei o mosteiro depois de uma estadia muito curta.

Ancião Cleopa
Depois de voltar a Bucareste, entrei para um outro grupo espiritual New Age, chamado "A Aliança para a Integração Espiritual no Absoluto", que combinava ensinamentos ortodoxos com ensinamentos espiritualistas e ensinavam as pessoas a ver auras, anjos e qualquer coisa que tinha a ver com o chamado mundo espiritual. Na verdade, tudo que eles faziam era fazer com que as pessoas se tornassem vítimas de enganos demoníacos, pois o diabo pode às vezes aparecer como um bom anjo também... Neste novo grupo, o diabo poderia trabalhar muito mais eficientemente que no grupo de yoga, ou, colocando de outra forma, ele era muito mais visível. Ao praticar yoga, pode-se visualizar o mundo espiritual só depois de muitos anos, neste grupo, podia se ver logo ali... Embora eu não tenha chegado a ver muitas coisas paranormais, eu tinha o poder de fazer com que os outros vissem; tudo o que eu tinha que fazer era colocar minhas mãos em cima de  suas cabeças, falar uma oração, e eles começavam a ver coisas de imediato...

Na escola, eu até mesmo comecei uma classe sobre adquirir poderes paranormais... Nós nos reuníamos no salão de festa e fazíamos nossos estudos paranormais lá. Indo acampar uma vez, eu ensinei a maioria das crianças que conheci lá a ver o mundo espiritual... Eu não tinha como saber que o que eles viam procedia de uma autossugestão ou de influências demoníacas. No acampamento eu quis ver se eu poderia hipnotizar alguém. Eu tentei e.. tive êxito. Foi fácil, muito mais fácil do que eu esperava...

Uma das vezes que me fez pensar sobre o que eu estava fazendo ocorreu durante meu encontro com um hieromonge. As pessoas do grupo New Age tinham me convencido de que minha ida a Grécia para ser discípulo de Swami Shivamurti Saraswati era inútil; numa comunidade monástica em nosso país havia um sacerdote, um homem santo, que era a reencarnação de São João Evangelista. Eu quis ver o "São João" com meus próprios olhos, então fui ao mosteiro com minha namorada e companheira de tantra yoga, que tinha vinte e quatro anos. Eu tinha quase dezoito anos. Quando nos aproximamos da cerca do mosteiro, vimos o reverendo padre de pé ao lado da cerca, como se ele estivesse esperando por nós. Ele nos perguntou,

"Vocês são iogues, não são? Vão embora, vocês, perdidos! Aqui é um mosteiro e este chão é sagrado... O que vocês estão fazendo aqui? Quem já ouviu falar de tal coisa - meninos e meninas vindo juntos para um mosteiro...? Vocês, pecadores, não tem vergonha de si mesmos? Como se atrevem a vir aqui, de todos outros lugares? Vocês, seguidores de Steiner, teosofistas e só Deus sabe mais o quê...",

ele murmurou, entrando no prédio que abrigava as celas monásticas. A minha namorada realmente tinha lido muitos escritos de Rudolf Steiner e outras obras teosóficas. O reverendo padre podia ver através de nós... Só mais tarde eu entendi por que ele tinha nos repreendido por ter ido juntos ao mosteiros - ele estava se referindo ao fato de que éramos amantes, mas naquela época eu não tinha a menor ideia de o que estávamos fazendo era fornicação e que era um pecado.

Minha namorada e eu demos um passo dentro da igreja, pensando que ele não iria nos expulsar de lá. Quando ele entrou na igreja, ele apontou o dedo para nós e perguntou,

"Vocês acreditam em reencarnação, não é?" -

"Sim", eu respondi, convencido de que eu tinha que defender a verdade em frente aos cristãos que não estavam familiarizados com a verdade. Em seguida, ele acrescentou:

"E vocês pensam que eu sou João Evangelista, não é?"

"Sim", eu respondi, com convicção.

"Saiam daqui, almas perdidas! Aqui é a Casa do Senhor, e se vocês não renunciarem suas loucuras, isso significa que vocês não pertencem aqui!"

Eu não esperava que ele nos expulsasse da Igreja. Eu sabia que tanto a tradição Cristã quanto a tradição oriental exigiam que a paciência do discípulo seja posta à prova nas formas mais inesperadas, então eu não quis desistir. Minha namorada, que era mais velha, se sentiu mal vendo a repreensão do padre e começou a chorar...

Teria sido natural que eu fosse convertido à fé Ortodoxa ali mesmo... Meus amigos do grupo "Nova Aliança" repetidamente me diziam que antes de aceitar-me como o seu discípulo secreto, o padre me colocaria num teste muito difícil e, de fato, eu pensei que se tratava do teste. Tendo sido manipulado e doutrinado por completo, eu não percebi que o reverendo padre realmente quis dizer o que ele tinha dito.

Voltamos para Bucareste, mas meu desejo para ver aquele sacerdote novamente foi ficando cada vez mais forte. Eu voltei ao mosteiro e ele me pediu pra escolher entre os ensinamentos da Igreja e os ensinamentos New Age que eu acreditava. Recusei deixar de lado meus compromissos espirituais errôneos e decidi fazer uma peregrinação aos mosteiros da Moldávia. Uma coisa estranha aconteceu comigo no Skete Sihla. Enquanto eu estava em pé em frente a uma cela monástica com a Bíblia na mão, um padre veio até mim e me pediu para ler uma determinada passagem para ele; seu cabelo e sua barba eram brancos e ele tinha um rosto suave; na passagem dizia que os hereges seriam punidos por seus caminhos errados. Então o padre foi embora e eu pensei,

"Sim, os hereges devem ser punidos, isso com certeza, mas por que ele me perguntou, de todas as pessoas, para ler essa passagem? Isso significa que sou um herege?"

Perto do Skete Sihla há uma caverna onde Santa Theodora viveu uma vida severa e ascética de eremita; os corvos ajudavam ela, trazendo comida para ela em seus bicos. Eu quis passar uma noite na caverna, orar lá, e pedir a Deus para me ajudar a escolher o caminho certo. O abade do mosteiro me deu sua bênção, então uma noite eu comecei a me preparar para ir à caverna. No caminho através da floresta, ouvi todos os tipos de ruídos estranhos. Alguém tinha me dito que três anos antes um homem estava comendo framboesas em um arbusto e do outro lado do arbusto tinha um grande urso... Eu não podia esperar para chegar à caverna onde eu pensava que seria agradável e pacífico; durante o dia, eu tinha ido lá várias vezes para orar e tinha sido tão quieto ...

No entanto, desta vez não foi assim... Aquela ia ser a mais terrível noite de minha vida... Eu pensei que eu iria ficar acordado a noite toda dizendo a Oração de Jesus, mas as tentações vieram muito rápido. Primeiro, havia os morcegos - muitos morcegos, voando bem perto de mim, batendo suas asas, eu sentia o vento frio feito por aquelas asas terríveis soprando diretamente no meu rosto. Eu estava assustado e me sentia mal. Tinha medo que um desses morcegos tentassem agarrar em meu cabelo. Embora eu tivesse raspado minha cabeça um ano antes, a fim de parecer com um verdadeiro yogi, meu cabelo tinha crescido nesse meio tempo, então cobri minha cabeça com meu casaco de couro para manter os morcegos longe de mim. Em algum momento, eu pensei que talvez Deus quisesse me punir por meus pecados e eu descobri minha cabeça, mas os morcegos não encostavam... Depois de um tempo, houve uma outra tentação: os ratos começaram a subir as minhas botas.

Foi uma tentação terrível... Algumas pessoas que estiveram na caverna antes de mim disseram-me que não havia morcegos nem ratos ali, mas eu os vi... Por outro lado, talvez o que eu vi tenha sido uma visão demoníaca... É difícil dizer...

Eu estava ficando cada vez mais assustado. Eu senti que a tensão nervosa estava chegando ao seu limite; na verdade, pensei que eu iria enlouquecer. Também pensei que se adormecesse o demônio iria se apossar de mim. É tão difícil de explicar, mas era o que sentia e o que pensava... Eu ficava pingando cera de vela nas minhas mãos, em diferentes pontos, a fim de que as queimaduras me mantivessem acordado. Orei e orei,

"Deus, pela graça da bênção do Hegúmeno, tem piedade de mim! Deus, pelo poder da obediência, tem piedade de mim!"

Eu não conseguia dizer a Oração de Jesus; tudo o que eu fiz durante toda noite foi ler as orações de um livro de oração, do início ao fim; assim que terminava, eu começava a ler as mesmas orações mais uma vez...

Em seguida, houve outra tentação que realmente superou as anteriores. De repente, eu vi um animal enorme andando na caverna através de sua entrada estreita; ele entrou e deu três grandes passos. O primeiro passo me fez levantar a cabeça, o segundo passo deixou-me bastante apreensivo, e o terceiro foi ameaçador. Era um grande animal e só poderia ter sido um urso. Eu pensei,

"Eu não tenho espaço para sair da caverna, nem mesmo se eu tentasse esquivar dele. Se eu tentar lutar com ele, eu não tenho a menor chance de derrotá-lo. A melhor coisa é morrer em oração ".

Eu tinha certeza que iria morrer ali mesmo - então eu só orava sem me virar pra olhar o urso... Ao perceber que não havia mais qualquer ruído atrás de mim, me virei para entrada da caverna, mas não havia nenhum animal em qualquer lugar à vista... tinha sido uma tentação demoníaca que assustou as luzes para fora de mim... Talvez houvesse morcegos e ratos naquela caverna, mas certamente não havia ursos, porque um urso não poderia sair daquela caverna sem fazer o mesmo barulho que fez quando pisou dentro dela - uma vez que a entrada era muito estreita... Aqueles que estão familiarizados com a caverna sabem do que estou falando e certamente concordarão comigo...

Deus viu que eu não tinha entrado na caverna para posteriormente me vangloriar sobre meus esforços ascéticos, mas que eu estava desesperado e queria orar e suplicar-lhe para me mostrar o caminho certo. Eu temia que a fé ortodoxa não fosse o verdadeiro caminho também e que teria que procurar um outro grupo espiritual. Eu preferia morrer do que ter que trocar um caminho errôneo por outro. Orei a Ele,

"Deus, me deixe morrer em vez de viver longe de Você e ensinar os outros a tomar o caminho errado"...

Uma noite após a noite aterrorizante que passei no interior da caverna, eu tive um sonho que mudou minha vida. Sonhei que estava procurando um livro canônico sobre a expiação dos pecados, em busca de um cânone que seria adequado para meus pecados. No sonho, eu ouvi uma voz clara e poderosa que me acordou. A voz disse,

"Aqui está seu cânone: você deverá ensinar os outros sobre a filosofia dos Padres da Igreja."

Eu acordei ao mesmo tempo tentando entender por que o cânon ordenado a mim, que eu tinha percebido como uma mensagem divina, não se referia a ensinar as pessoas sobre a teologia dos Padres da Igreja, mas sobre a filosofia. Um padre confessor experiente me explicou o que isso significava: Deus não queria que eu pensasse que o sonho tinha sido induzido por autossugestão, por isso eu ouvi "filosofia" em vez de "teologia". Na verdade, naquela época eu não sabia que a filosofia dos Padres da Igreja era, de fato, a sua teologia, isto é, falar com Deus e sobre Deus...

A voz divina que veio até mim naquele sonho marcou o momento decisivo na minha vida. Eu voltei ao reverendo padre que me expulsou duas vezes e lhe disse que queria abraçar a fé ortodoxa e tornar-me paroquiano. Preparei-me para confissão - escrevi meus pecados no papel (havia sete páginas no total) e depois fui a confissão. Senti que minha alma foi purificada do pecado e que minha vida mudou completamente... Embora eu ainda não merecesse, eu recebi a Sagrada Eucaristia, seguindo o conselho do reverendo padre e com sua bênção.

Desde então eu abandonei minha crença na reencarnação, as práticas de yoga e a libertinagem sexual. Houve alguns momentos difíceis, alguns muito difíceis, mas eu sempre senti que Cristo estava perto de mim... Dizendo essas palavras pra vocês e pensando no meu passado sinto como se estivesse contando a história de outra pessoa. É difícil me lembrar que eu era um yogi; parece que não era eu... Na verdade, o arrependimento purifica a mente e limpa a alma.

Depois de alguns anos, me casei e tive a impressão de que eu era virgem; eu realmente tive a sensação de que não tinha conhecido outra mulher antes e que minha esposa foi a primeira mulher na minha vida ... Na verdade, uma vida de pecado não se assemelha a uma vida familiar - nem um pouco. Embora na superfície possam parecer semelhantes, elas são duas coisas completamente diferentes.

O que aconteceu depois da minha primeira confissão de pecados? Comecei a frequentar os serviços da igreja, fui para a faculdade e estudei teologia, graduando no Departamento de Teologia Ortodoxa e, em seguida, fiz um mestrado em Estudos Denominacionais e Ecumenismo (focando nas aberrações do movimento New Age). Quando eu estava no colégio, conheci um padre que vivia como um santo; no momento, estou escrevendo um livro sobre sua vida e sobre os milagres que ele realizou. Ele me disse que eu iria escrever muitos livros, que atenderiam às necessidades espirituais... Depois de ter escrito meus primeiros livros - até agora, já ultrapassam vinte - um companheiro cristão que conheci ao visitar um mosteiro me disse,

"Você sabe, desde que você estava no colégio, Padre X (e nomeou o padre) disse que você iria escrever muitos livros. Vejo que suas palavras foram bastante proféticas..."

Eu comecei a escrever, a fim de convencer aqueles que estão longe da Igreja Ortodoxa que eles estão longe da Verdade, da beleza e da satisfação interior. Meus primeiros livros eram contra aberrações e delírios espirituais, contra a astrologia e horóscopos, contra a crença na reencarnação, contra os Evangelhos gnósticos. Um periódico da minha conversão - Da deusa da morte ao Imperador da Vida - descreve minha conversão à Ortodoxia, enquanto um dos últimos livros que escrevi, O Evangelho segundo Judas, eu combato não só o Evangelho gnóstico atribuído a Judas, mas também maneira de pensar de Judas, uma vez que essa se reflete na teologia contemporânea, nas artes e na literatura. Eu percebi que escrever para aqueles que foram iludidos pelo Movimento New Age não era suficiente: os que são "indiferentes" [Apocalipse 03:15] e levam uma vida cristã medíocre também precisam de ajuda. Eu tenho escrito livros para jovens, como, por exemplo, O Livro do Casamento - Como começar uma família e Juventudes e Sexualidade, apontando a maneira em que a devassidão perverte a mente dos homens e mulheres jovens de nossos dias... Eu tenho também escrito livros para pessoas maduras, lidando com formas em que se deve enfrentar problemas e doenças, e comentários sobre o Paterikon ...

Estou plenamente consciente do risco que eu estou tomando ... Na Ortodoxia, não são os jovens que devem falar, mas os anciões que têm uma experiência espiritual sólida ... Eu escrevo porque eu devo obediência ao meu pai espiritual, que disse que lamentava que eu não tivesse quatro mãos para que pudesse escrever mais... ele também disse que eu tinha que escrever, porque minha redenção dependia disto. Quando eu vim para a Grécia, para meu Ph.D., a primeira coisa que perguntei a um reverendo padre foi,

"Está correto que eu deva escrever tantos livros, tendo em conta o fato de que eu sou tão jovem e inexperiente, só porque devo obediência ao meu pai espiritual e porque estou sob a sua autoridade espiritual?"

Sua resposta foi:

"Se o seu pai espiritual reza por você e ele te sustenta por suas orações, tudo vai ficar bem. Mostre obediência a ele e tudo vai ficar bem ".

Eu tinha minhas dúvidas sobre obedecer: devo ou não devo seguir o caminho da obediência? Fiquei ainda tentado a deixar o meu pai espiritual, pois pareceu-me que ele não era o melhor guia e conselheiro eu poderia ter. Uma noite eu tive um sonho. Sonhei que estava dentro de uma igreja na qual havia as relíquias de São Nektarios. Meu pai espiritual estava orando em um lado do caixão e eu estava do outro lado. O santo começou a se mover no caixão... e pedi-lhe para me dar a sua bênção. Ele tinha uma grande cruz de metal em sua mão e começou a fazer o sinal da cruz em cima da minha cabeça. Ele fez isso várias vezes, dizendo:

"Deus te abençoe, te abençoe ..."

Ao despertar, e recordando o sonho, tive medo que pudesse ter vindo do demônio, de modo que eu chamei meu pai espiritual em seu telefone celular. Eu disse a ele

"Pai, você sabe que eu não levo sonhos a sério, mas..."

- E contei com o meu sonho para ele. Então eu lhe perguntei:

"Você acha que ele veio do demônio, do meu subconsciente ou de Deus?"

Ele respondeu,

"Como poderia ter vindo do demônio, se esta manhã eu estava orando por você sobre nas relíquias de São Nektarios? Estou na Grécia, você não sabe disso?"

Não, eu não tinha ideia de que ele estava na Grécia. Eu pensei que ele estivesse na Romênia, mas ele ativou seu roaming e tinha respondido seu telefone celular na Grécia... Eu também disse meu sonho a um ancião que levava uma vida santa em um mosteiro na Grécia e ele me disse:

"Seu pai espiritual não poderia ter dito abertamente que seu sonho tinha vindo de Deus, a fim de não cair no pecado do orgulho - especialmente por ter visto ele próximo ao caixão do santo. São Nektarios quer incentivá-lo a caminhar corretamente no caminho de testemunho de Cristo..."

Este sonho foi o incentivo que eu precisava para ir em frente. A estrada é acidentada, as tentações são grandes, mas eu nutri a esperança de que Cristo me ajudaria a dar mais um passo e depois outro ...

Minha vida em Cristo tem sido extraordinariamente bela... A coisa mais importante para mim foi que vim a conhecer a Verdade e saber que a Verdade é amor... Na Igreja Ortodoxa, eu aprendi a amar. O amor cristão é caloroso - não é como o amor do yogi, que é frio e superficial... Eu descobri a beleza da vida familiar, que é, de fato, um tesouro. Ao lado de minha esposa e nossos três filhos tenho a nítida sensação de que estou no meio de um belo sonho... Parece-me que as pessoas falam e escrevem muito pouco sobre as famílias cristãs. Casar para mim era quase como uma aposta de alguma maneira: estava esperando que seria uma bela vida, mas eu não tinha certeza. Minha vida familiar tem sido muito mais difícil do que eu imaginava, mas também muito mais bela ...

Eu dou testemunho da fé Ortodoxa porque alguns daqueles que praticaram ioga tem sérios problemas de comunicação e são socialmente desajustados, embora tenham formalmente convertido à fé Ortodoxa; eles receberam o ensinamento Cristão, mas ainda possuem um comportamento yogico.

Confesso que sou muito feliz em ser um fiel Ortodoxo... No passado, tinha medo que eu ficasse entediado e ficava me perguntando: "Será que a vida Cristã se tornará um lugar comum para mim?" Além disso, eu descobri que uma vida vivida em comunhão com Deus, com a Theotokos, com os santos e com os mártires da Igreja pode ser qualquer coisa, menos entediante.

Ao contrário, acredito que a vida de um cristão é extremamente cativante. Além disso, deve-se ser um verdadeiro herói para viver como um cristão neste mundo, que é tão cheio de pecado e tão afeiçoado de heresias.

Meu objetivo tem sido o de convencê-lo a alcançar aqueles que que estão afastados da Igreja. Normalmente, após uma conferência, as pessoas recolhem fundos para os pobres ou para os missionários cristãos em países africanos ou para variadas atividades sociais.

Não vou pedir-lhe para colocar dinheiro em uma caixa, mas para colocar uma parte de sua alma nisso e perceber que ao seu lado pode existir muitas pessoas que foram enganadas por diferentes religiões e denominações. Você pode fazer a diferença. Você pode ajudá-los através de uma vida verdadeiramente cristã.

Essas pessoas estão fartas de palavras vazias e sermões cristãos não convincentes. Elas precisam de exemplos brilhantes do modo cristão de viver. Eles querem ver em você um ícone vivo de Cristo.

Não force ninguém a vir até Cristo, mas conquiste-os com o seu amor cristão. Ninguém pode resistir amor. O mundo de hoje procura o amor nos lugares errados e tudo o que as pessoas encontram é um amor falso.

Ofereça a eles o amor verdadeiro, o amor sacrificial e você irá mudá-los. Mesmo aqueles que decidiram nunca mudar começarão no caminho da conversão - devagar, mas certamente.

Vejam bem, estou somente enviando para vocês essa caixa invisível, dentro da qual não estou pedindo para você colocar dinheiro, mas repito, algo muito mais precioso - uma parte de sua alma. Você está pronto para tal doação?

Você me faria muito feliz! Que Deus lhe ajudem em todas suas boas obras e conceda Sua graça para você. Amem. 
texto retirado do blog http://www.johnsanidopoulos.com