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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Cientificismo Gnóstico e Totalitarismo Tecnocrático (Diácono Dr. Ananias Sorem)



 Introdução

Arquimandrita Aimilianos explica que a tecnologia não é inerentemente má: "A tecnologia em si não é, evidentemente, prejudicial, sendo fruto do raciocínio e do intelecto do Homem, que foi formado à imagem de Deus. Mas quando, descontrolada e desenfreada, ela corre apressadamente em direção ao seu destino, então ela se torna Lúcifera, embora não trazendo a luz, mas sim a escuridão. O perigo para nós é a ausência de responsabilidade na forma como a tecnologia é administrada e explorada, uma forma que tem como objetivo o domínio sufocante da vida humana e a solução dos problemas por meios técnicos, independentemente dos princípios morais e metafísicos"[i].

A ciência, como conhecimento aplicado, requer certos objetivos a serem alcançados. O cientista tenta aplicar seus conhecimentos a fim de atingir determinados fins. Portanto, o que se torna particularmente relevante aqui é a questão dos fins. Que fins ou objetivos devemos buscar? A resposta a estas perguntas requer uma análise não apenas das condições necessárias para a possibilidade do conhecimento em geral (ou seja, estabelecer o fundamento para a ordem inteligível do ser), mas requer uma investigação sobre a própria natureza do próprio homem, o mundo, o cosmos, a polis e o lugar próprio do homem em relação a todos eles. É claro que estas questões serão respondidas de diferentes maneiras, de acordo com os compromissos filosóficos, os paradigmas assumidos da pessoa e a narrativa geral que se situa historicamente dentro dos movimentos ideológicos particulares que dominam uma cultura. 

A modernidade e o Iluminismo marcaram uma mudança nítida na forma como o homem entendia a natureza, a si mesmo, e sua relação com a natureza. Ao rejeitar a tradição cristã e a perspectiva filosófica geral da antiguidade, a Modernidade mecanizou a natureza ao abolir quaisquer essências objetivas reais no mundo, criando o mundo à imagem do homem - de acordo com as ideias do homem. O homem moderno agora vê a natureza como algo a ser manipulado e explorado. Já não se vê mais como uma criatura da terra, "moldada a partir da terra e voltando a ela, todo o seu ser interior nutrido e enriquecido por seu contato orgânico com a natureza e com o sopro do Espírito que o moldou como obra-prima da natureza"[ii] Isto resultou em um conjunto de ideologias e práticas desmoralizadas que consideravam toda a natureza, inclusive o próprio homem, sem nenhum significado objetivo real e, portanto, o homem moderno começou a entender a natureza como algo inteiramente maleável de acordo com suas próprias escolhas pessoais. [iii] Sem, "um ponto último de orientação moral, significado e aplicação da moral...", e sem a orientação da Igreja, o mundo moderno contemporâneo tomou as considerações antropológicas e morais e as transformou "em micro escolhas de estilo de vida", e com isso, "a perda da autoridade do ponto de vista moral" [iv]. O homem, rompendo seu vínculo com o divino (o fundamento inteligível da ordem do ser) e com a natureza, substitui a autoridade objetiva por sua resolução puramente subjetiva da vontade (libido dominandi). O cosmos não era mais visto como uma ordem divina, mas um sistema criado pelo homem[v], criado por uma vontade de poder e exploração da natureza. O projeto Moderno e Iluminista reduziu a agência humana às faculdades da razão e da vontade, resultando em uma concepção mecanizada e instrumentalizada da pessoa humana. Nesta recriação gnóstica da ordem do ser, o homem percebeu que devia aparecer como o mestre ilimitado do ser, o que exigiu que ele "delimitasse de tal forma que as limitações não fossem mais evidentes"[vi]. Consequentemente, o projeto moderno exigiu uma "técnica de gestão a serviço dos mais fortes"[vii], instituída por, como explica Lancellotti, "uma elite tecnocrática que não está unida ao resto da população por nenhum vínculo ideal real." [viii] Como explica Sherrard, "neste mundo - o mundo do ambiente artificial, da manipulação sofisticada de máquinas e técnicas - o elemento humano está sendo gradualmente eliminado. O que este mundo representa é um novo tipo de ordem, uma nova ordem inorgânica; uma ordem não criada por Deus, mas inventada pelo homem - uma ordem que é, de fato, precisamente uma externalização do desejo do homem de fazer seu próprio mundo sem Deus"[ix].

Isto contrasta fortemente com a era da antiguidade, que muitas vezes se pensa erroneamente não ter desenvolvido nenhuma tecnologia avançada devido a sua falta de conhecimento.[x] No entanto, esta simplificação exagerada perde de vista que os antigos, embora possuíssem um certo conhecimento tecnológico, propositalmente não empregavam ou desenvolviam estas técnicas além de um certo ponto. Como a principal preocupação dos antigos era religiosa e não técnica, eles não empregavam ou desenvolviam estas técnicas além do ponto em que "impediam ou preveniam o que era muito mais importante", ou seja, a busca das ordens superiores da realidade e do fundamento transcendente desta ordem[xi]. Por exemplo, um "dos arquitetos de Hagia Sophia em Constantinopla era plenamente capaz de fazer uma máquina a vapor (cerca de mil e duzentos anos antes de James Watt "inventá-la"), mas ele usou sua habilidade apenas para fazer a casa que vivia tremer como se houvesse um terremoto para se livrar de um vizinho desagradável que vivia no último andar"[xii]. Em contraste com a mentalidade antiga, a modernidade responde às perguntas de "por que devo produzir isto?" ou "por que devo aprender isto?" quase sempre em termos de eficiência. Como Neil Postman aponta: "Tal resposta é considerada inteiramente adequada, uma vez que no Tecnopólio, eficiência e interesse não precisam de justificativa... 'Eficiência e interesse' é uma resposta técnica, uma resposta sobre meios, não fins..."[xiii] Claro, isto traz à mente "o meio é a mensagem" de Marshall McLuhan, que revela muito sobre a abordagem moderna da tecnologia.

Portanto, não é a tecnologia em si que é a questão. A questão-chave aqui é que vemos uma mudança fundamental no panorama metafísico e na orientação geral do homem moderno em comparação com a antiguidade. Descobrimos que as atividades, objetivos e até mesmo o que constitui conhecimento são essencialmente diferentes dos do mundo antigo. Para a modernidade, a maior atividade e objetivo final do homem e da sociedade é aquela que diz respeito em última análise à praticidade, onde o homem moderno agora deseja meios mais do que fins. A modernidade toma a contemplação e a orientação sócio-política para o divino e a troca por produção e eficiência, considerando-as como o mais elevado tipo de atividade. Na realidade, o próprio conhecimento é eventualmente redefinido apenas em termos pragmáticos. Além disso, a fim de dar lugar à nova era do homem e à nova ciência, o velho mundo deve ser destruído e, junto com ele, sua orientação e buscas predominantes. É por isso que Sherrard explica que "o Ocidente se desenvolveu tecnicamente em relação direta com o declínio da consciência cristã, pela simples razão de que a 'secularização' da natureza, que permite que ela seja considerada como um objeto e assim explorada tecnicamente, está em contradição direta com o espírito sacramental do cristianismo..."[xiv] Na modernidade, o velho mundo é destruído e a sociedade não existe mais como uma ordem divina, mas feita pelo homem. Isto, veremos em breve, significa o que Voegelin identifica como gnosticismo contemporâneo/moderno. Comentando sobre isto, Ellis Sandoz afirma: "A linha traçada no material anterior é principalmente entre filosofia e anti-filosofia na forma de gnosticismo"[xv] Entretanto, é Eric Voegelin quem explica a diferença entre os dois:

A filosofia brota do amor ao ser; é o esforço amoroso do homem para perceber a ordem do ser e se sintonizar com ela. A Gnose deseja domínio sobre o ser; a fim de tomar o controle do ser o Gnóstico constrói seu sistema. A construção de sistemas é uma forma Gnóstica de raciocínio, não uma forma filosófica [xvi].

De fato, Voegelin argumenta que a essência da modernidade é o gnosticismo. Como vamos descobrir, existem ligações definitivas entre modernidade, gnosticismo, industrialização e política que se relacionam com a tecnocracia e o cientificismo. Aqui só precisamos fazer uma breve observação sobre como a modernidade se conecta à industrialização, à luz do que acabamos de discutir. Heidegger observou certa vez: "Aquilo que é inicial em relação a sua dominância torna-se manifesto para nós homens somente mais tarde"[xvii], o que ecoa muito da famosa linha de Nietzsche de Gaia Ciência, "O tremendo evento ainda está a caminho, ainda está viajando - ainda não chegou aos ouvidos dos homens. Relâmpagos e trovões requerem tempo, a luz das estrelas requer tempo, os atos requerem tempo mesmo depois de feitos, antes que possam ser vistos e ouvidos"[xviii] Assim, a dominância da modernidade e os projetos do Iluminismo levaram tempo para se tornarem manifestos e alcançarem os ouvidos dos homens. Por volta dos séculos XVIII e XIX a sociedade começou a manifestar suas ideias iniciais e a pensar em uma escala de produção mais eficaz, utilizando "máquinas e aparelhos para produzir resultados concretos de natureza quantitativa...". E como Sherrard prossegue argumentando, "eles começaram a pensar isto porque tinham aceitado como sendo verdadeira uma filosofia que proclamava que basicamente o homem era um animal terrestre de duas pernas, cujo destino e necessidades podiam ser melhor satisfeitos através da busca do interesse próprio social, político e econômico e da provisão de um número cada vez maior e variedade de bens materiais"[xix] A consequência de tais ideias representou uma maior exploração tanto do homem quanto da natureza. Entretanto, "os recursos do mundo, naturais e outros, não poderiam ser explorados significativamente a menos que houvesse um grande desenvolvimento nos meios de exploração. Assim, talvez pela primeira vez na história, os cientistas - e especialmente os cientistas que iriam aplicar seus conhecimentos - deveriam se mover para o centro do cenário social e econômico"[xx] Aqui encontramos o caminho da modernidade para a industrialização e sua conexão essencial com a tecnocracia. 

O que precisamente é então tecnocracia? As sementes da tecnocracia começam com o positivismo de Saint-Simon e Comte e o cientificismo deles. Entretanto, as ideias gerais começam muito mais cedo do que Saint-Simon e Comte. Vimos a mudança radical tanto no pensamento quanto na orientação que ocorreu na modernidade e no Iluminismo, que incluiu como o homem abordou a tecnologia e definiu o conhecimento. Por exemplo, foi Francis Bacon quem famosamente declarou que "o conhecimento humano e o poder humano é a mesma coisa, pois onde a causa não é conhecida o efeito não pode ser produzido"[xxi] Não só o conhecimento é redefinido puramente em termos de efeitos pragmáticos e preditivos,[xxii] uma nova ciência, moralidade, estética e filosofia é criada - em suma, um novo mundo. Como diz Sherrard, "quando Bacon concluiu que seu novum organum deveria se aplicar 'não apenas à ciência natural, mas a todas as ciências' (incluindo a ética e a política) e que deveria 'abranger tudo', ele abriu o caminho para o domínio científico abrangente de nossa cultura e para o industrialismo urbano que é sua criação"[xxiii]. Esta é a prescrição de Bacon para "a cientificização total do nosso mundo..."[xxiv] Em seu Nova Atlântida, Bacon "concebeu uma nova ordem social dedicada à expansão da ciência moderna e ao progresso na realização humana através do domínio sobre a natureza..."[xxv] No entanto, o projeto moderno de mecanização é aperfeiçoado em semelhantes a Galileu, Descartes e Newton, cujos projetos só aceitam uma abordagem quantitativa universal para tudo e a aplicação de técnicas matemáticas a toda a natureza. Nesta nova ordem social, qualquer coisa que não se submeta a este projeto quantitativo universal simplesmente não é ciência. Como explica Sherrard, "o que não podia ser capturado pela rede dos números era a não-ciência, o não-conhecimento, e mesmo, no final, não-existente"[xxvi] Isto, juntamente com o espírito revolucionário[xxvii] do novo homem que em sua pretensa autonomia se revoltou contra o céu, resultou em um período que "é caracterizado pela crescente dominância de formas antropocêntricas de especulação política, em oposição às questões teocêntricas"[xxvii].O próprio Mircea Eliade definiu as sociedades modernas como "aquelas que impulsionaram a secularização da vida e do Cosmos longe o suficiente"[xxix] Na modernidade, como tipificado pelo pensamento iluminista de Kant, não somente a natureza e suas leis devem ser concebidas como radicalmente autônomas em relação a Deus, a rebelião prometeica contra Deus também deve se aplicar à vontade humana. Tanto a natureza quanto a vontade humana são agora concebidas como sendo radicalmente autônomas em relação a Deus. Uma natureza e o homem mecanizados autônomos nos deixam sem nenhum significado objetivo ou fundamentação no transcendente. Como conclui Bruce Foltz, "tal mundo não oferece nenhuma resistência interna à manipulação e ao controle, não apresenta nenhum grão contra o qual não devemos cortar. Nas palavras de Heidegger, é um mundo que se tornou um inventário ou recurso (em alemão, Bestand) para controle tecnológico e consumo"[xxx] A tecnologia, portanto, está sendo usada agora como o único meio para explorar a natureza e recriar o homem e a sociedade de acordo com as ideias gnósticas, ateístas, para aperfeiçoar a experiência humana sem fundamentar isto no Deus vivo como o fundamento não-condicionado do ser[xxxi].

Como a tecnocracia se relaciona com nossas considerações sócio-políticas? O poder político do Estado secular, que tenta manter uma moral canônica sobre uma cultura relativista e niilista que abrange uma pluralidade de moralidades,[xxxii] tem sido trocado por uma "Nova Atlântida". As instituições políticas, como aponta John Gunnell, começaram a ser "substituídas por um 'parlamento' de especialistas técnicos"[xxxiii] Esta classe de elite de especialistas técnicos passou a ser chamada de tecnocratas. A imagem tecnocrática[xxxiv] agora substitui o político e fornece à humanidade uma "visão de uma sociedade industrial onde uma classe de elite de engenheiros, cientistas, industrialistas e planejadores aplicam sistematicamente o conhecimento técnico à solução de problemas sociais e à criação de uma ordem social racional"[xxxv] Muitas de suas ideias e técnicas de engenharia social ("física social") estão sendo empregadas no momento em meio à nossa atual "ciência". A teoria e a ideologia tecnocrática é ainda articulada e promulgada pelos seguintes intelectuais importantes: Max Weber, Karl Mannheim, Edward Bellamy, Bertrand Russell, Arthur Koestler, Zbigniew Brzezinski, et. al. Entretanto, o termo "tecnocracia" teve origem com um engenheiro chamado William Smith em 1919, e se popularizou como uma ideia em resposta à Grande Depressão, um movimento que John Gunnell explica que "durante um tempo ganhou considerável notoriedade e um grande número de seguidores", e "começou com um grupo de técnicos e engenheiros dedicados à reforma social, cujos conceitos foram modelados com base na república tecnológica no romance utópico de Edward Bellamy do final do século 19. Eles também foram influenciados pelas teorias econômicas de Thorstein Veblen e pelos princípios de gestão científica que surgiram a partir do trabalho de Frederick W. Taylor, ambos sugerindo, muito parecido com o trabalho posterior de James Burnham em The Managerial Society, que políticos e empresários industrialistas deveriam, e dariam, lugar às elites técnicas"[xxxvi]. C. P. Snow, que abordou dramaticamente o problema da influência dos especialistas nas decisões políticas, argumentou que "uma das características mais bizarras de qualquer sociedade industrial avançada em nosso tempo é que as escolhas fundamentais devem ser feitas por poucos homens" em um mundo de "política fechada" e "escolhas científicas secretas" onde não há "nenhum apelo a uma assembleia maior ... no sentido de um grupo de opinião, ou eleitorado"[xxxvii].

A tecnocracia está intrinsecamente ligada ao sistema sócio-político em uma forma única e interessante. John Gunnell explica a relação da tecnocracia com a política da seguinte forma: "1. Em circunstâncias nas quais as decisões políticas envolvem necessariamente conhecimentos especializados e o exercício de habilidades técnicas, o poder político tende a gravitar em direção às elites tecnológicas. 2. A tecnologia se tornou autônoma, portanto, a política se tornou uma função de determinantes estruturais sistêmicos sobre os quais ela tem pouco ou nenhum controle. 3. A tecnologia (e a ciência) constituem uma nova ideologia legitimadora que mascara sutilmente certas formas de dominação social"[xxxviii]. Mais uma vez, muito disto remonta ao positivismo de Saint-Simon e Comte. Em relação a Saint-Simon, Dante Germino explica que havia "uma mania de construção de sistemas característica do século XIX em particular... Ele estava obcecado com a necessidade de reduzir todas as explicações, todos os princípios a uma única fórmula mais abrangente. Só poderia haver uma ciência, um governo, uma religião, uma organização de classes sociais"[xxxix] O progressivismo, o socialismo,[xl] e o positivismo de Saint-Simon se fundiriam na ideologia do cientificismo, providenciando a elite gerencial tecnológica da futura tecnocracia com sua própria religião[xli] Como prevê H. G. Wells, a elite tecnológica pode usar a religião para dominação social para controlar as populações e as estruturas sócio-políticas[xlii].            

 Gnosticismo e Gnosticismo Moderno [xliii]

Uma vez que, como já assinalamos, o gnosticismo é "anti-filosofia", na medida em que rompe o fundamento transcendente (Sabedoria) do mundo inteligível do ser e cria um projeto especulativo feito pelo homem, cujo objetivo é ter domínio sobre o ser, o conhecimento da ordem do ser torna-se impossível. Portanto, o fato da impossibilidade de alcançar o conhecimento da ordem do ser deve ser ocultado. Por exemplo, Hegel esconde isso mesmo "traduzindo philosophia e gnosis para o alemão para que ele possa passar de um para o outro jogando com a palavra 'conhecimento'"[xliv] Veremos que esta é uma tática comum nos vários sistemas gnósticos, que visa ocultar o próprio questionamento dos primeiros princípios dos projetos. Como diz Voegelin a respeito do projeto de Hegel, "Se, portanto, eu posso construir um sistema, a verdade da premissa do mesmo é então estabelecida; o fato de eu poder construir um sistema baseado em uma premissa falsa não é sequer considerado."[xlv] Ao contrário da filosofia, onde o jogo de palavras se destina a iluminar o pensamento, o jogo de palavras gnóstico é usado para ocultar o "não-pensamento"[xlvi].

Antes de prosseguirmos em nossa investigação do gnosticismo e sua relação com a "ciência" atual, obtenhamos uma imagem mais clara do pensamento da Voegelin sobre o tópico. Recordando, Voegelin afirma que a "essência da modernidade é o gnosticismo". No entanto, o que exatamente Voegelin tem em mente aqui? Em Ordem e História, a Voegelin nos fornece uma explicação do gnosticismo em geral, tanto antigo quanto moderno, e relaciona isto com a ideia de conhecimento (gnosis), afirmando: "O conhecimento, a Gnosis, do psicodrama é a pré-condição para o engajamento exitoso na operação de libertar o pneuma [espírito] no homem de sua prisão cósmica"[xlvii] O núcleo essencial de qualquer sistema gnóstico é uma construção feita pelo homem (sistema especulativo) que cria um "esforço de devolver o pneuma no homem de seu estado de alienação no cosmos ao divino pneuma do Além através da ação baseada no conhecimento"[xlvii]. Como explica também Dante Germino, "todas as variedades de gnosticismo, antigo e moderno, são tentativas de aliviar a ansiedade existencial do homem, criando uma 'segunda realidade' ou mundo de sonhos no qual ele pode encontrar libertação de sua fundamental (e na verdade irreconciliável) inquietação"[xlix]. Segundo Voegelin, o gnosticismo e os sistemas gnósticos políticos modernos são uma doença espiritual [l] "As construções de 'sistema' de Hobbes e Spinoza, o progressivismo iluminista, o idealismo hegeliano, o comunismo marxista, o racismo nazista e vários tipos de ideologias seculares militantes estão todas relacionadas entre si, quaisquer que sejam suas aparentes contradições, como tipos mais ou menos pervertidos de especulação gnóstica" [li]

Ciência e Gnosticismo

Os sistemas surgiram na história, onde a ciência deixou de ser ciência, mas no entanto operou sob o disfarce da ciência. Como Voegelin identifica, estes incluem (mas não estão limitados ao) marxismo e nacional-socialismo. Em tais estruturas sócio-políticas, a sociedade em geral e a maioria dos cientistas dessas sociedades removem Deus como o fundamento inteligível do ser, aquele que fundamentaria a ciência, e começam a criar empreendimentos e sistemas especulativos que tornam certas questões prática e conceitualmente impossíveis[lii] Por exemplo para Karl Marx, seu ocultamento em sua especulação gnóstica assume a forma de uma "fraude intelectual". Voegelin afirma: "A proibição de perguntas por Marx tem que ser caracterizada como uma tentativa de proteger a 'fraude intelectual' de sua especulação contra a exposição pela razão; mas do ponto de vista do adepto, Marx, a fraude, era a 'verdade' que ele havia criado através de sua especulação, e a proibição de perguntas foi destinada a defender a verdade do sistema contra a irracionalidade dos homens"[liii].

Perguntas recentes que se tornaram proibidas são as perguntas sobre o que faz da ciência realmente ciência. Mais uma vez, a ciência só pode ser ciência quando tem seu fundamento em Deus, que é o fundamento inteligível do ser. Outras ações conceitualmente impossíveis dentro dos sistemas gnósticos incluem o questionamento da "ciência estabelecida". Se forem dadas respostas, muitas vezes ela é encontrada com outra explicação especulativa que não pode ser verificada nem falseada. Assim, a "ciência" que é incapaz de ser falseada sai do âmbito da ciência e se move para o domínio da pseudociência. Voegelin continua argumentando que isto assume uma qualidade religiosa e se torna conhecido como cientificismo. Augusto Del Noce aponta que "a ideologia distintiva da 'sociedade tecnológica' é o cientificismo, a concepção da ciência como o 'único' verdadeiro conhecimento...". Isto, ele argumenta, inevitavelmente leva a um totalitarismo tecnocrático. Ele afirma: "Agora, um defensor do cientificismo, e uma sociedade baseada em seu modo de pensar, não pode deixar de ser totalitário na medida em que sua concepção da ciência . . . não pode ser objeto de qualquer prova . . ... [ele] não tem a intenção de elevar outras formas de pensamento a um nível superior ..., mas ele simplesmente 'as nega'"[liv] No cientificismo, não apenas métodos não-falseáveis são empregados, a tática totalitária do sentimento social (pensamento de grupo social, que pode ser imposto através da mídia, educação, política, corporações, o estado, etc.) é usada para impor a "ciência estabelecida". De fato, tanto os positivistas como os fundadores do cientificismo, Saint-Simon e Comte, defenderam o uso de táticas de "sentimento social" para subordinar indivíduos e conformá-los ideologicamente ao novo sistema em nome do "progresso". Voegelin identifica estas coisas como componentes essenciais dos sistemas gnósticos e características-chave do cientificismo.

Há uma ligação definitiva entre cientificismo e tecnocracia. Neil Postman afirma:

Por cientificismo, quero dizer três idéias inter-relacionadas que, consideradas em conjunto, constituem um dos pilares do Tecnopólio... [1] os métodos das ciências naturais podem ser aplicados ao estudo do comportamento humano... [2] a ciência social gera princípios específicos que podem ser usados para organizar a sociedade de forma racional e humana. Isto implica que os meios técnicos - na maioria das vezes "tecnologias invisíveis" supervisionadas por especialistas - podem ser projetados para controlar o comportamento humano e colocá-lo no rumo apropriado... [3] A fé na ciência pode servir como um sistema de crenças abrangente que dá sentido à vida, assim como uma sensação de bem-estar, moralidade e até mesmo de imortalidade [lv].

O que deve nos preocupar é que estamos encontrando exatamente esses mesmos elementos, atitudes e coisas que estão acontecendo agora em meio ao vírus. Na realidade, é algo que existia antes do vírus com as questões que envolvem a "ciência estabelecida" da mudança climática. Embora possa haver cientistas que acreditam em Deus, a esmagadora maioria dos cientistas e no próprio sistema em que a ciência agora existe, opera com base em claros pressupostos ateístas seculares. Este sistema atual está historicamente situado em nossa estrutura sócio-política pós-iluminismo, tecnocrático-gnóstica. Se há alguma dúvida de que este é o sistema em que nossa ciência agora opera, em particular a "ciência" relativa à covid, basta ler "Covid-19: o Grande Reset" de Klaus Schwab. Ele não apenas nos fornece grandes insights sobre como a ciência pode ser manipulada ou corrompida por sistemas e ideologias ateístas e gnósticos seculares, mas nos fornece uma visão clara e um exemplo de tecnocracia.

É importante notar que a ciência não existe em um vácuo. Como vimos, a ciência está imersa em certas estruturas sócio-políticas e opera com base nos pressupostos dessas ideologias dominantes.[lvi] Portanto, nossa ciência deve ser avaliada à luz da atual tecnocracia gnóstica e sua filosofia. A análise científica a este nível de paradigma envolverá inevitavelmente questões epistemológicas. Em relação à discussão original apresentada anteriormente, nossas considerações epistemológicas em última instância envolvem questões de confiança. Isto significa que os problemas recentes observados com a ciência da nutrição, a mudança climática e a ciência do covid devem ser avaliados dentro do contexto da filosofia tecnocrática dominante. Devemos nos perguntar se as ideias gnósticas tecnocráticas são compatíveis com o cristianismo Ortodoxo, se a ciência pode ser corrompida pela autoridade sócio-política dessa tecnocracia, se o consenso científico pode ser confiado à luz disso, e se isso torna certas alegações "científicas" bastante suspeitas e duvidosas?

Várias corporações, empresas de tecnologia, fundações, bancos, organizações, etc., que formam grande parte do nexo da tecnocracia e financiam a pesquisa científica, muitas vezes impedirão que outras descobertas científicas sejam publicadas. Isto demonstra que tais organizações estão frequentemente menos compromissadas com a ciência qua ciência e mais com certas ideias e agendas filosóficas (conforme delineadas no positivismo), que estão quase sempre em desacordo com nossas crenças cristãs. Além disso, há inúmeros exemplos de pesquisas e publicações de ponta que admitem descobertas e publicações fraudulentas. Um exemplo recente é o editor do Lancet Journal (o mais respeitado dos periódicos médicos revisados por pares), Richard Horto, que admitiu em 2015 que "grande parte da literatura científica, talvez metade, pode simplesmente ser falsa. Atingida por estudos com amostras pequenas, efeitos minúsculos, análises exploratórias inválidas e conflitos de interesse flagrantes, juntamente com uma obsessão por buscar tendências em moda de importância duvidosa, a ciência deu uma virada em direção à escuridão"[lvii]. O Dr. John Ioandis, um dos maiores especialistas mundiais em pesquisa médica, acrescenta a isto que 90% da pesquisa médica é contaminada, se não mesmo fraudulenta, devido à influência da indústria. Marcia Angell (médica e editora-chefe de longa data do New England Medical Journal) declarou: "Simplesmente não é mais possível acreditar em grande parte da pesquisa clínica que é publicada, ou confiar no julgamento de médicos conceituados ou diretrizes médicas autorizadas"[lviii] Entendendo isto dentro do contexto do atual sistema totalitário gnóstico tecnocrático, descobrimos que muitos dos problemas não se devem simplesmente a erros, tamanhos de amostras ou análises exploratórias inválidas. Nossos julgamentos e procedimentos científicos podem de fato ser corrompidos pela "autoridade específica"[lix] de nosso sistema gnóstico dominante. Por exemplo, o sistema tecnocrático gnóstico pode determinar a narrativa científica geral e promulgar essas ideias através das estruturas políticas, da mídia, da academia, das corporações, da OMS, de DAVOS, etc. (algo que Gunnell aponta) que são gerenciados e controlados pela elite tecnocrática. Evidentemente, o "sentimento social", como apontam Saint-Simon e Comte, torna-se necessário para controlar e determinar os pensamentos e ações das pessoas. De fato, esta tática gnóstica de ocultação de "sentimento social" tem sido usada recentemente para acabar com as questões sobre se Covid é uma pandemia, se os números e dados são precisos, se os testes são confiáveis, se as soluções propostas funcionaram ou funcionarão, se há corrupção e manipulação dos dados coletados, etc. Muitas vezes recebemos as respostas pseudocientíficas "não falseáveis" a muitas destas perguntas (por exemplo, "bem, não funcionou porque não fizemos lockdown por tempo suficiente, não havia pessoas suficientes usando suas máscaras, etc."). Este é outro indicador de que a suposta "ciência" não é mais ciência. Estes são os sinais essenciais de um sistema gnóstico moderno, como Voegelin apontou. Evidentemente, isto não significa que às vezes não fazemos realmente uma boa ciência; no entanto, ilustra como a ciência pode ser corrompida e tornar-se duvidosa ou não confiável.

Ciência vs Cientificismo

O problema em questão, portanto, pode ser rastreado até uma mudança fundamental no pensamento e na orientação que ocorreu na modernidade. O homem moderno começou a ver a si mesmo, o mundo, o cosmo, a polis e seu próprio lugar em relação a todos eles de uma maneira radicalmente diferente dos antigos. Em sua rebelião prometeica, o homem separou o fundamento transcendente de ser do mundo inteligível, mecanizou a natureza, e deu a si mesmo uma pretensa autonomia pela qual ele pensava que agora poderia exercer pleno domínio sobre o ser. Em seu deicídio nietzschiano, o homem moderno criou sistemas gnósticos especulativos, e como Adão e Eva, ele tentou esconder seu pecado fazendo com que seu sistema escondesse a verdade. A abolição tanto do Deus transcendente quanto da natureza resultou em uma perda de objetividade, algo que teria servido como uma restrição proveitosa à moral, aos pensamentos e às ações do homem. Consequentemente, a libido dominandi tornou-se o único princípio orientador, uma pura vontade de poder onde o homem poderia usar (ou abusar) a tecnologia para controlar, dominar e explorar a natureza, tudo em nome da "ciência" e do progresso. Para o homem moderno, insiste-se em ser chamado de "ciência", "o sistema especulativo no qual o gnóstico desdobra sua vontade de se tornar mestre do ser"[lx] Entretanto, para cometer tais atos, a ciência teve que tornar-se absolutizada, e com ela, toda a cientificização do mundo. Isto se tornou a própria essência do cientificismo. É, "literalmente, uma determinação da vontade: a determinação de aceitar como real apenas o que pode ser verificado empiricamente por todos"[lxi] No entanto, para realizar uma completa cientificização do mundo, o cientificismo tinha que se relacionar com a esfera sócio-política. Assim, os especuladores gnósticos ateus criaram o que é conhecido como tecnocracia. Dentro de nosso atual sistema totalitário tecnocrático, encontramos outra ideologia gnóstica que é desumanizante, anti-científica, ateísta e completamente em conflito com o cristianismo. Como tais sistemas gnósticos corrompem a ciência, devemos estar cientes de sua presença, domínio e poder para corromper. Além disso, devemos reconhecer que o totalitarismo tecnocrático, como todos os sistemas gnósticos modernos, tenta ocultar estes pecados construindo um sistema operacional sócio-político que impede que se façam questões paradigmáticas fundacionais, tornando tais questões - assim como outras - prática e conceitualmente impossíveis.

Conclusão

Qual é então a solução para nosso atual gnosticismo e totalitarismo tecnocrático, além de apenas tomar consciência dele como tal? Como explica o próprio Sherrard: "É supérfluo salientar que esta desordem cósmica, refletindo a desumanização radical de nossa sociedade, e incurável à parte de uma total re-personalização das condições de trabalho em nossa sociedade, já está bem avançada..." E uma vez que "nossa sociedade não pode ser re-personalizada ou re-humanizada sem um desmantelamento de toda a estrutura industrial científica atual, temos alguma dimensão da tarefa que temos pela frente"[lxii]. No entanto, se quisermos reconstruir nossa "sociedade à imagem de uma humanidade integrada, devemos primeiro deixar claro em nossa mente o que significa ser humano"[lxiii] Uma vez que a ideia do que significa ser humano no cristianismo não é a mesma na tecnocracia ateísta secular do cientificismo, devemos primeiro admitir que simplesmente não existe um terreno comum em tais assuntos[lxiv]. Isto é algo do qual o próprio Tristram Engelhardt estava muito consciente, particularmente no domínio da bioética e da ciência médica. Não há um terreno comum com o secularismo porque, como Engelhardt argumenta, "objetivo deles é que a ética profissional secular triunfe sobre outras obrigações morais, incluindo as obrigações de alguém para com Deus. O profissionalismo secular 'desinteressado' e a justiça social são assim invocados como normas morais objetivas que exigem que os profissionais de saúde violem suas obrigações 'privadas' para com Deus..."[lxv] Ele prossegue afirmando que nosso paradigma cristão e "compromisso de honrar as obrigações diante de Deus é caracterizado como um foco egocêntrico e egoísta em assuntos privados ou 'sentimentos' religiosos privados que são inferiores em sua força e que conflitam com, e são ultrapassados por, obrigações sociais seculares públicas..."[lxvi].

Aqui temos dois mundos: uma cidade do homem e uma cidade de Deus, e nos lembramos da passagem do Evangelho que nos adverte: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro" [lxvii] Pluralismo e multiculturalismo são experiências fracassadas. As sociedades seculares pluralistas tentam combinar e misturar culturas, valores e ideologias contraditórias. No entanto, como os valores centrais, a moral, as ideias e os compromissos de culturas distintas e sistemas filosóficos concorrentes estão fundamentalmente em desacordo uns com os outros, é inevitável que um grupo tenha que abrir mão de suas crenças essenciais.  Isto cria uma situação onde os conflitos ideológicos são simplesmente resolvidos pela vontade do mais forte, um apelo mais uma vez ao princípio gnóstico do libido dominandi. Em nossa situação atual, são os totalitários ateus tecnocráticos, utilizando o estado secular, que exercem sua vontade de poder para eliminar qualquer ideologia ou prática concorrente. Portanto, os hinos multiculturais e pluralistas são simplesmente cavalos de Troia, trazendo um inimigo cujas idéias e ethos são incompatíveis com o cristianismo. Como diz Engelhardt, "Não compartilhamos um terreno comum. O cristianismo tem raízes antigas que são imunes à consequência do colapso do projeto moral-filosófico ocidental"[lxviii] Assim, encontramos dois paradigmas, o cristão e o secularista moderno, duas visões de mundo que são simplesmente incompatíveis entre si. Dentro da sociedade, direito, governo, educação, ética, ciência e medicina, encontramos conflitos ideológicos, bem como prescrições conflitantes sobre como conduzir a própria vida nas áreas acima mencionadas. Continuamos a descobrir afirmações sobre a ciência e o que constitui um cuidado médico adequado que são simplesmente incompatíveis com o cristianismo. Só precisamos olhar para os vários conflitos bioéticos para reconhecer "a incompatibilidade das afirmações feitas pelo estado secular contemporâneo sobre o que deve contar como conduta profissional médica adequada e aquelas afirmações fundamentadas nas exigências de Deus"[lxix]. Além disso, as políticas públicas e diretrizes de saúde relativas à covid-19 estão agora sendo realizadas pelo estado secular e pelas elites tecnocráticas que muitas vezes contradizem nossas práticas litúrgicas e nossa fé. Identificamos vários problemas com a ciência absolutizadora que se recusa a avaliar criticamente as afirmações e abordagens científicas. Destacamos os perigos do cientificismo e da pseudociência, assim como apontamos preocupações gerais sobre a confiança em uma ciência que agora opera dentro da estrutura de uma tecnocracia gnóstica ateísta e anti-humana.

Portanto, o verdadeiro krisis (julgamento) é o seguinte: devemos agora tomar uma decisão, fazer um julgamento. Onde colocamos nossa confiança? Depositamos nossa confiança na cidade do homem ou na cidade de Deus? Depositamos nossa confiança nos tecnocratas seculares, imorais e anti-cristãos (onde a "ciência" - tenho argumentado muitas vezes - não funciona mais como ciência), elevando as ciências empíricas (a forma mais inferior de raciocínio) com suas conclusões sempre mutáveis ao status de revelação divina e verdade absoluta? Ou colocamos nossa fé na vida dos santos, na vida da Igreja, na Fé que nos foi entregue pelo próprio Deus, a Fé dos Ortodoxos, a Fé que estabeleceu o Universo? Não está claro as formas precisas que o cristão deve proceder para lidar a fim de proporcionar um ambiente adequado para conduzir a ciência e a política; entretanto, é minha esperança que através de nossa crise atual comecemos a ver a natureza religiosa da ameaça à nossa frente. É minha esperança que possamos identificar a corrupção da filosofia na filodoxia que culmina na transformação radical da estrutura política/social na qual a ciência existe e é compreendida. Como tenho argumentado, agora existimos em uma nova ordem sócio-político-paradigmática, onde a ciência se tornou algo diferente da ciência. Ela se tornou uma religião. A nova religião é o cientificismo ou a ciência-dolatria, onde os sumos sacerdotes são os "especialistas" científicos[lxx] e as elites tecnocráticas, e os devotos/adoradores são aqueles que seguem ou participam das estruturas gnósticas do terror totalitário da tecnocracia. Como afirma Voegelin: "Hoje, por pressão do terror totalitário, talvez estejamos inclinados a pensar primariamente nas formas físicas de oposição. Mas elas não são as mais bem-sucedidas. A oposição só se torna radical e perigosa quando o questionamento filosófico em si é posto em questão, quando a doxa assume a aparência da filosofia, quando arrogou para si mesma o nome de ciência e proíbe a ciência como não-ciência"[lxxi]. Entramos em uma nova era baseada nos velhos temas gnósticos recorrentes. Encontramos uma absolutização da ciência (substituindo filosofia, epistemologia, ontologia e metafísica por ciências empíricas), uma elevação dos "especialistas técnicos" ao infalível magistério da nova religião universal, e a supressão - se não a abolição completa - de todo questionamento e análise crítica de seu projeto e da nova religião gnóstica. Como explica Voegelin, "surgiu um fenômeno desconhecido para a antiguidade que permeia nossas sociedades modernas tão completamente que sua ubiquidade dificilmente nos deixa espaço para vê-lo: a proibição do questionamento"[lxxii]. Embora estes projetos gnósticos modernos e programas especulativos (em oposição à filosofia) tenham existido nos paradigmas políticos do Socialismo, Marxismo e Nacional Socialismo, a "obstrução consciente, deliberada e cuidadosamente elaborada"[lxxiii] do logos não se limitou apenas a estes paradigmas. Vivemos no cientificismo gnóstico do totalitarismo tecnocrático da era presente.

Portanto, devemos contar isto como uma bênção. Pois uma crise tornará as coisas mais claras para nós. Ela nos ajudará a ver com que ideias e crenças estamos verdadeiramente dedicados. Nos ajudará a ver onde colocamos nossa fé e nossa confiança. Não esqueçamos, como oram os Padres de Optina: "Ensina-nos a tratar tudo o que possa acontecer com paz de alma e firme convicção de que Tua vontade governa tudo". Esta crise é a vontade do Senhor. Glória a Deus! Tiremos o melhor proveito disso e nos perguntemos: a quem servimos e onde está nossa cidadania? Digamos, como o povo disse a Josué: "Eu servirei ao Senhor". Com a graça e ajuda de Deus, resistamos ao espírito da época e a este mundo e declaremos, como diz o salmista: "Alguns confiam nas carruagens e outros nos cavalos, mas nós confiamos no nome do Senhor nosso Deus"[lxxiv] Que possamos orar para que, naquele dia terrível do julgamento, nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo nos diga "muito bem, servo bom e fiel"[lxxv] e não "afaste-se de mim. Pois eu nunca te conheci"[lxxvi].


Texto original: https://www.patristicfaith.com/senior-contributors/gnostic-scientism-and-technocratic-totalitarianism/


Notas

[i] Arquimandrita Aimilianos, “The Authentic Seal: Spiritual Instruction and Discourses,” Anthropology and Technology.

[ii] Phillip Sherrard, “Modern Science and Dehumanization,” 2.

[iii] Como afirma Lancellotti: "a sociedade tecnológica não é mais unificada por qualquer ideia compartilhada do bem, e o único objetivo "moral" comum possível é a expansão do bem-estar individual, a ser alcançado removendo todas as formas de "repressão" e banindo da esfera pública qualquer reivindicação sobre verdades e valores objetivos que possam restringir a busca de apetites essencialmente instintivos. (Carlo Lancellotti, "Augusto Del Noce sobre o Novo Totalitarismo, 326)

[iv] Tristram Engelhardt, After God: Morality and Bioethics in the Secular Age, 27.

[v] Ao destruir o mundo antigo, que possuía uma orientação espiritual preponderante em suas buscas, Sherrard afirma que o homem moderno criou uma sociedade que é "feita pelo homem, não uma ordem divina. É uma sociedade na verdade que representa uma projeção da mente humana que cortou seus laços com o divino e com a terra; e na medida em que tem quaisquer ideais, estes são puramente temporais e finitos e dizem respeito apenas ao bem-estar terrestre de seus membros".

[vi] Eric Voeglin, Science, Politics, and Gnosticism, 40 

[vii] Jean-Marie Domenach, citado em Del Noce, The Crisis of Modernity, 251.

[viii] Carlo Lancellotti, “Augusto Del Noce on the New Totalitarianism, 326.

[ix] Sherrard, “Modern Science and Dehumanization,” 2

[x] "Diz-se frequentemente que o mundo medieval também teve suas técnicas e que estas não eram desenvolvidas porque ninguém sabia como desenvolvê-las". (Sherrard, "Modern Science and Dehumanization", 6)

[xi] Como Sherrard aponta a respeito do mundo medieval, "É verdade que o mundo medieval teve suas técnicas. Mas estas técnicas deliberadamente não foram empregadas ou desenvolvidas além de um certo ponto - o ponto no qual elas começariam a impedir ou prevenir o que era muito mais importante: a realização de uma visão abrangente e imaginativa da vida. Aqui a principal preocupação era religiosa, não técnica, e os processos técnicos que perturbavam as concepções abrangentes de harmonia, beleza e equilíbrio foram, pura e simplesmente, rejeitados. ("Modern Science and Dehumanization", 6)

[xii] Sherrard, “Modern Science and Dehumanization,” 7.

[xiii] Neil Postman, Technopoly, 161.

[xiv] Sherrard, “Modern Science and Dehumanization,” 7

[xv] Ellis Sandoz, “Introduction to Science, Politics, and Gnosticism,” xiii.

[xvi] Eric Voeglin, The New Science of Politics, 32.

[xvii] Martin Heidegger,  The Question Concerning Technology, 259.

[xviii] Frederick Nietzsche, The Gay Science, 125.

[xix] Phillip Sherrard, “Modern Science and Dehumanization,” 7.

[xx] Ibid.

[xxi] Francis Bacon, Novum Organum, 3.

[xxii] Comte had his famous dictum: Savoir pour prevoir (“To know in order to predict”).

[xxiii] Phillip Sherrard, “Modern Science and Dehumanization,” 8.

[xxiv] Ibid.

[xxv] John G. Gunnell, “The Technocratic Image,” 394.

[xxvi] Phillip Sherrard, “Modern Science and Dehumanization,” 8.

[xxvii] Pois a ciência moderna tem seu ponto de partida em uma revolução na consciência, ou revolta contra o céu, que resultou na razão primeiro ignorando, depois negando, e por fim se fechando à fonte de conhecimento que está acima dela; e isto significou que ela foi forçada a se voltar - a fim de obter seu conhecimento -exclusivamente para o que está abaixo dela - para o mundo "externo" dos dados sensoriais e da impressão sensorial". (ibidem, 13)

[xxviii] Dante Germino, Machiavelli to Marx, 7.

[xxix] Mircea Eliade, Myths, Dreams, and Mysteries: The Encounter Between Contemporary Faiths and Archaic Realities, 25.

[xxx] Bruce Seraphim Foltz, “The Gnosticism of Modernity and the Quest for Radical Autonomy,” 3.

[xxxi] Engelhardt vê a moralidade fundamentada "não na filosofia, mas em uma experiência do Deus vivo que comanda". (H. T. Engelhardt, After God, 217)  

[xxxii] "Depois da metafísica e depois de Deus, o estado fundamentalista secular torna-se um substituto de Deus porque, uma vez que a realidade, a moralidade e a bioética são cortadas de um fundamento não condicionado no ser, e uma vez que a razão moral é reconhecida como plural em conteúdo, o indivíduo não só é deixado com uma pluralidade de moralidades e bioética, mas também a coisa mais próxima de uma moralidade comum e uma bioética comum torna-se que a moralidade e a bioética são estabelecidas como lei e em políticas públicas"... (Engelhardt, After God, 92-93)

[xxxiii] John G. Gunnell, “The Technocratic Image,” 394.

[xxxiv] "Muitas das particularidades características da imagem tecnocrática podem ser encontradas na obra de Henri de Saint-Simon (1760-1825) e a visão dele de uma sociedade industrial onde uma classe de elite de engenheiros, cientistas, industrialistas e planejadores aplicam sistematicamente o conhecimento técnico à solução de problemas sociais e à criação de uma ordem social racional". (John G. Gunnell, "The Technocratic Image," 394)

[xxxv] John G. Gunnell, “The Technocratic Image and the Theory of Technocracy,” Technology and Culture, 396.

[xxxvi] John G. Gunnell, “The Technocratic Image,” 393.

[xxxvii] C.P. Snow, Science and Government (Cambridge, 1961), 1.

[xxxviii] John Gunnell, “The Technocratic Image and the Theory of Technocracy,” 397.

[xxxix] Dante Germino, Machiavelli to Marx, 280.

[xl] "Saint-Simonianos estiveram entre os primeiros a usar o termo 'socialismo', que entrou no vocabulário político ocidental no final da década de 1820". (Ibid, 283)

[xli] "Os cientistas começaram a tomar o lugar dos sacerdotes, iniciando não obviamente no reino dos céus, mas no admirável mundo novo de mais bens de consumo e crescimento econômico sem limites. Foi por cortesia dos cientistas que os industrialistas e banqueiros do século XIX abriram caminho à fortuna e produziram a devastação do mundo industrial moderno". (Phillip Sherrard, "Modern Science and Dehumanization," 8.)

[xlii] Veja H.G. Well’s God the Invisible King.

[xliii] Voegelin enumera seis características do gnosticismo: 1) É preciso primeiro ressaltar que o gnóstico está insatisfeito com sua situação. Isto, por si só, não é especialmente surpreendente. Todos nós temos motivos para não estarmos completamente satisfeitos com um ou outro aspecto da situação em que nos encontramos. 2) Não tão compreensível é o segundo aspecto da atitude gnóstica: a crença de que os inconvenientes da situação podem ser atribuídos ao fato de que o mundo é intrinsecamente mal organizado. Pois é igualmente possível pressupor que a ordem do ser tal como é dada a nós homens (qualquer que seja sua origem) é boa e que somos nós, seres humanos, que somos inadequados. Mas os gnósticos não estão inclinados a descobrir que os seres humanos em geral e eles mesmos em particular são inadequados. Se em uma dada situação algo não é como deveria ser, então a culpa é encontrada na maldade do mundo. 3) A terceira característica é a crença de que a salvação contra o mal do mundo é possível. 4) Daí decorre a crença de que a ordem do ser terá que ser mudada em um processo histórico. A partir de um mundo miserável, um mundo bom deve evoluir historicamente. Esta pressuposição não é inteiramente evidente, porque a solução cristã também pode ser considerada - isto é, que o mundo ao longo da história permanecerá como está e que a realização salvacional do homem é realizada através da graça na morte. 5) Com este quinto ponto chegamos ao traço gnóstico no sentido mais estreito - a crença de que uma mudança na ordem do ser reside no âmbito da ação humana, que este ato salvacional é possível através do próprio esforço do homem. 6) Se é possível, no entanto, realizar uma mudança estrutural na ordem do ser dada para que possamos estar satisfeitos com ela como perfeita, então se torna tarefa do gnóstico buscar a prescrição para tal mudança. O conhecimento - gnosis - do método de alterar o ser é a preocupação central do gnóstico.  Como a sexta característica da atitude gnóstica, portanto, reconhecemos a construção da fórmula para a salvação do eu e do mundo, bem como a prontidão do gnóstico em se apresentar como profeta que proclamará seu conhecimento sobre a salvação da humanidade". (Eric Voegelin, Science, Politics, and Gnosticism, 64-65)

[xliv] Ibid., 31.

[xlv] Ibid., 13.

[xlvi] "Este ponto é digno de nota porque os gnósticos alemães, especialmente, gostam de brincar com a linguagem e esconder seu não-pensamento no jogo de palavras". (Ibid., 32)

[xlvii] Eric Voegelin, Order and History Vol. 4, 19.

[xlviii] Como diz Dante Germino, "para Voegelin, o pensamento político moderno está espiritualmente doente em seu cerne" (From Machiavelli to Marx, 14).

[xlix] Ibid.

[l] Ibid.

[li] Ibid.

[lii] "O assassinato de Deus, então, é da própria essência da recriação gnóstica da ordem do ser". (Eric Voegelin, Science, Politics, and Gnosticism, 41)

[liii] Eric Voegelin, Science, Politics, and Gnosticism, 11.

[liv] Augusto Del Noce, The Crisis of Modernity, 231.

[lv] Neil Postman, Technopoly, 391.

[lvi] "A autoridade específica exige, portanto, não apenas devoção aos princípios de uma tradição, mas subordinação do julgamento final de todos à decisão discricionária por um centro oficial". Michael Polanyi, Science, Faith, and Society, 59.

[lvii] Dr. Richard Horton, Offline: What is medicine’s 5 sigma? Vol 385, April 11, 2015). Offline: What is medicine’s 5 sigma? (thelancet.com)

[lviii] Dr. Marcia Angell, NY Review of Books, January 15, 2009, “Drug Companies & Doctors: A Story of Corruption”

[lix] Veja Michael Polanyi, Science, Faith and Society.

[lx] Eric Voegelin, Science, Politics, and Gnosticism, 32.

[lxi] Augusto Del Noce, The Age of Secularization, 104.

[lxii] Sherrard, “Modern Science and Dehumanization,” 5

[lxiii] Ibid.

[lxiv] Na realidade, como afirma o próprio Lancellotti: "a sociedade tecnológica não está mais unificada por qualquer ideia compartilhada do bem..." (“Augusto Del Noce on the ‘New Totalitarianism’,” 326), e portanto, não pode haver um fundamento comum com uma sociedade que não tem nenhuma ideia unificada e compartilhada do bem, muito menos uma ideia do bem cristão.
[lxv] H. Tristram Engelhardt, After God, 254.

[lxvi] Ibid.

[lxvii] Mateus 6:24

[lxviii] Tristram Engelhardt, After God, 389.

[lxix] Ibid., 19.

[lxx] "Os cientistas começaram a tomar o lugar dos sacerdotes, iniciando não obviamente no reino dos céus, mas no admirável mundo novo de mais bens de consumo e crescimento econômico sem limites. Foi por cortesia dos cientistas que os industrialistas e banqueiros do século XIX abriram caminho à fortuna e produziram a devastação do mundo industrial moderno". (Phillip Sherrard, "Modern Science and Dehumanization," 8.)

[lxxi] Eric Voegelin, Science, Politics, and Gnosticism, 15.

[lxxii] Ibid., 16.

[lxxiii] Ibid.

[lxxiv] Salmo 20:7

[lxxv] Mateus 25:23

[lxxvi] Mateus 7:23


domingo, 6 de dezembro de 2020

Buscadores da Verdade, o Mito Igualitarista e a Aristocracia do Espírito: Reconectando Hoje com a Tradição Mística (Doru Costache)

Meu artigo discutirá questões relativas ao acesso à verdade. [1] Argumentarei que paralelamente à chamada verdade objetiva, mais ou menos estabelecida cientificamente e por consenso público, existe uma verdade existencial ("subjetiva"), como a vivida pelos santos e que transcende toda a competência secular. 

Primeiramente, tratarei do mito igualitarista da opinião pública, uma característica importante da cultura moderna, juntamente com algumas de suas principais implicações para a mentalidade contemporânea. Em segundo lugar, examinarei a parábola de São Silouan, o Athonita, com as galinhas, o galo e a águia, como um contraponto tradicional e hierárquico em relação à perspectiva igualitarista moderna. Em terceiro lugar, tentarei oferecer um insight sobre a tradição mística dos santos bizantinos, representada por Máximo o Confessor, Simeão o Novo Teólogo e Gregório Palamas.

Evidentemente, o objetivo deste artigo não será o de demonstrar a superioridade da tradição bizantina sobre qualquer outra tradição. Na realidade, ao escolher analisar os ensinamentos dos santos acima mencionados, fui motivado pelo fato de que eles representam marcos para minha própria estrutura. Assim, o objetivo deste artigo será enfatizar a alternativa eclesial à pobreza existencial, intimamente ligada e conatural com o mito igualitarista. Meu argumento é que se a mentalidade moderna (cuja abreviação será MM, mentalidade moderna) quiser superar a perspectiva de sua própria desertificação inescapável, ela deve se voltar mais perceptivamente para a sabedoria tradicional dos santos e reconhecer o valor da mesma (cuja abreviação será MT, mentalidade tradicional). Por fim, este ensaio aponta para uma teoria existencial do conhecimento. 

Já testemunhamos a aurora de tal processo com o surgimento de uma série de espiritualidades exóticas dentro da cultura ocidental, durante o século passado. Talvez seja a hora de os teólogos contemporâneos, na medida em que ainda são portadores da tradição eclesial, apresentarem a espiritualidade cristã como um sério contribuinte para um desenvolvimento holístico de nossa sociedade.

Uma Teoria Democrática do Conhecimento 

Uma das características mais interessantes da cultura moderna é a tentativa de democratizar o acesso ao conhecimento, para abrir indiscriminadamente suas portas para o público em geral. Isto mostra, no entanto, apenas um aspecto do complexo fenômeno representado pela cultura moderna, cujo lado mais obscuro consiste em última instância em uma mentalidade não-tradicional (se não anti-tradicional). O epítome desta principal tendência da modernidade foi sem dúvida, desde o início, o slogan da revolução francesa - liberté, egalité, fraternité. Enfaticamente, este slogan afirma os direitos dos indivíduos de participar livre e igualmente em todos os assuntos relativos à sociedade, como um desafio dirigido aos ideais da sociedade hierárquica medieval. Em nível epistemológico, o conteúdo desta grande mudança cultural sem precedentes pode ser expresso como a passagem do paradigma tradicional dos guardiões do jardim proibido para o da fonte do conhecimento à disposição de todos.

Esta mudança não-tradicional já se tornou manifesta com o Iluminismo e o projeto enciclopédico francês. Reagindo ao estabelecimento anterior do sistema hierárquico - como expresso, por exemplo, no ofício eclesiástico do magisterium - os promotores do Iluminismo lançaram o manifesto igualitarista rotulado por Karl Popper como o mito da opinião pública. [2] De acordo com este manifesto, dentro da estrutura moderna é concedido a todos o acesso ao conhecimento, com a especificação subsequente de que a opinião da maioria estabelece o que é a verdade. A conquista fundamental do processo é eminentemente representada pelas ciências modernas, falando, em teoria, uma linguagem universal e objetivando configurar a mentalidade geral da sociedade.

Entretanto, três aspectos questionáveis deste fenômeno podem ser facilmente localizados, representando em última instância três etapas no processo de dissolução da forma tradicional de acesso à verdade. Embora a situação tenha mudado ligeiramente com a ciência contemporânea (por exemplo, as implicações filosóficas e epistemológicas da teoria quântica) e com o pós-modernismo, estes aspectos ainda são muito influentes (inclusive nos meios eclesiásticos).

(1) Confusão da verdade e consenso público. 

O processo de democratização do conhecimento resultou na lamentável confusão do consenso epistemológico do público em geral (se não apenas da comunidade científica) e da verdade (como uma imagem precisa, em sua complexidade, da realidade [3]).

A mentalidade moderna tornou-se gradualmente menos motivada a olhar para além de suas próprias idéias, recentemente estabelecidas, e menos motivada a reconhecer o caráter pluralista do ato de conhecer, as múltiplas percepções coexistentes da realidade. De fato, e em proporção direta, a mentalidade moderna rendeu-se à tentação de superestimar suas próprias aproximações, de canonizar por consenso público uma representação geralmente aceita da realidade, não importando quão reducionista um modelo tão comum [mediano] possa ser. O caso extremo que ilustra esta tendência é o de um cientista que se recusa a reconhecer a realidade como tal, tentando substituí-la por modelos simplificadores.4 Junto com este exemplo extremo, e como uma tendência geral dentro das ciências duras e humanas, esta situação torna-se óbvia na propensão de discutir as teorias e opiniões dos outros, em vez de se envolver no exame dos próprios objetos. Refletimos sobre reflexões em vez de refletir sobre realidades. As reflexões tornaram-se o objeto de nosso esforço intelectivo - em última análise, nossa verdade 'objetiva' e pública.

(2) Abandono das premissas tradicionais do processo cognitivo. 

A cultura moderna condena ao esquecimento o que representa a norma comum de uma cultura tradicional. As premissas básicas de qualquer abordagem humilde ao conhecimento - tais como a transcendência da verdade, os graus indefinidos de percepção e os pré-requisitos existenciais de acesso à verdade - são rigorosamente ignoradas e marginalizadas. Baseando-se acriticamente em uma corrente dominante racionalista orgulhosa, na maioria, hoje, a perspectiva complexa da experiência mística e da mentalidade holística (tradicional) parece ser absurda. Não há dúvida de que eventualmente, e não muito longe no futuro, as premissas tradicionais do conhecimento serão completamente removidas do horizonte da mentalidade moderna. Não é surpreendente, portanto, neste contexto, que a humildade, como pré-requisito de qualquer abordagem reverente ou apofática da realidade, seja deslocada de sua posição central e substituída pela tendência antropocêntrica arrogante da exaustão sistemática dos mistérios.

Em resumo, as premissas tradicionais do conhecimento são substituídas por ideologias (tais como o positivismo e o cientificismo), alimentando a apoteose da vanglória como experimentada pela mentalidade moderna.

(3) Classificação da formação espiritual como obsoleta. 

Embora generoso em sua aspiração de elevar o nível de consciência das massas, o manifesto igualitarista falha ao ignorar a distinção entre conhecimento edificante, ou sabedoria, e informação pura. Sob o peso do crescente acúmulo de dados, o antigo ditado non multa, sed multum [5] - sugerindo sabedoria como o núcleo da educação - deixa de ilustrar uma característica cultural relevante. A informação é substituída pela sabedoria, dentro de um processo que prioriza dados existencialmente neutros contra a formação pessoal.

Com esta tendência, desaparece a consciência da estreita conexão entre a experiência pessoal e o conhecimento. As pessoas elaboram teorias e promovem idéias com "objetividade" ou desapego intelectual, ignorando o sentido tradicional do verdadeiro conhecimento (theoria) como encarnado em uma forma de viver (praxis). Isto resulta, por um lado, em um processo de privar o domínio da vida pessoal de qualquer critério existencial sólido e, por outro lado, de transformar a mente humana em uma enciclopédia de conhecimento fútil (a mente disco-rígido). O clímax deste processo já foi alcançado com o abandono de quaisquer ideais de transformação interior. A linguagem cotidiana testemunha abundantemente esta tendência, que fala de pessoas bem informadas, mas nunca de pessoas bem formadas.

*

O resultado inesperado do sonho democrático é a relativização absoluta da verdade e, correlativamente, a extinção dos grandes ideais espirituais. As consequências existenciais deste fracasso - desorientação pessoal, ansiedade, psicoses, alienação, depressão, etc. - estão além do alcance das estatísticas habituais, minando a estabilidade e a coerência da sociedade moderna. Daí exatamente essas conseqüências impõem à consciência contemporânea a busca de critérios mais sólidos e a introdução da geodésica espiritual no caos da vida pessoal e social. Portanto, dada a eficácia antropológica e existencial dos sistemas tradicionais, a reconexão com as formas tradicionais de acesso à verdade parece ser urgente para nossa cultura. Ou, é um fato que o encontro entre a mentalidade moderna e a mentalidade tradicional encontra obstáculos exatamente na distância introduzida pela primeira; quanto à mentalidade tradicional, ela já e passionalmente abraça a mentalidade moderna...

A parábola de São Silouan, o Athonita 

A parábola com as galinhas, o galo e a águia ilustra perfeitamente a abordagem tradicional da verdade e seus pré-requisitos existenciais. Ela também representa uma história significativa, sugerindo os meios necessários para superar a questão da pobreza existencial resultante da implementação do mito da igualitarista. Um resumo da parábola se faz necessário.[6]

Parafraseando, a história fala de um galo que um dia voou para a cerca da fazenda, como ele costumava fazer, para observar os arredores. O que houve de especial naquele mesmo dia foi a determinação do galo em compartilhar sua experiência com as galinhas que nunca saíram do chão, pois se preocupavam exclusivamente com a busca de alimentos. O galo começou a contestar as galinhas, pedindo-lhes que levantassem os olhos para os céus e que se juntassem a ele no topo da cerca. Previsivelmente, as galinhas não tinham intenção de abrir mão de suas atividades importantes e zombaram do galo por desperdiçar tempo com coisas tão sem sentido como a contemplação do mundo. E como o galo continuava insistindo, dizendo-lhes quão grande é o mundo quando percebido a partir de uma certa altitude, elas o rejeitaram firmemente. Na realidade, elas expressaram sua absoluta convicção de que não existe um mundo mais amplo do que a fazenda onde elas sempre viveram. Dominado pela angústia de ser mal compreendido, o galo voltou à sua atividade favorita - de contemplar o mundo a partir de cima. Mais tarde, uma águia desceu das regiões superiores, convidando o galo a juntar-se a ela em sua contemplação superior. E embora a águia tenha se esforçado para convencê-lo da perspectiva mais ampla que se tem a partir do zênite, nosso galo resistiu com bravura. Para ele, uma contemplação superior àquela que ele tinha no topo da cerca era simplesmente impossível...


A parábola, recontada pelo Arquimandrita Sofrônio (Saint Silouan, the Athonite, 486): 

Uma águia estava voando alto nos céus, deleitando-se com a beleza do mundo; e ela pensou: "Eu vôo atravessando grandes extensões, e vejo vales e montanhas, mares e rios, prados e florestas. Vejo uma multidão de bestas selvagens e pássaros. Olho para as cidades e aldeias, e vejo como vivem os homens. Mas o galo do campo não sabe de nada, a não ser de seu galinheiro, onde ele põe os olhos em apenas um pequeno número de pessoas e alguns poucos bois. Vou descer voando e contar-lhe sobre a vida do mundo." 

A águia voou até o telhado de uma cabana e viu o galo se pavoneando entre suas galinhas, e pensou consigo mesma: "então ele está contente com sua sorte. Mas mesmo assim, eu lhe direi as coisas que sei".

E a águia começou a contar ao galo a beleza e a riqueza do mundo. No início, o galo ouviu atentamente, mas não entendeu nada, então a águia ficou irritada e se tornou um esforço para falar com o galo; ao passo que o galo, não entendendo o que a águia estava dizendo, começou a se cansar, e achou difícil ouvir a águia. Mas cada um deles permaneceu contente com sua sorte. [7]

Não sem um humor sutil, São Silouan (m. 1938) reitera aqui um tema clássico, compartilhado por respeitados Pais da Igreja, como o Santo Basílio o Grande,8 Gregório o Teólogo, [9] Gregório de Nissa [10] e Dionísio o Areopagita. [11] Basicamente sua parábola reitera para os cristãos modernos o insight tradicional sobre o significado místico da ascensão de Moisés no Sinai. Na mesma linha dos Pais mencionados, São Silouan diferencia várias percepções da realidade, distinguindo uma multidão de verdades 'subjetivas' ou existenciais. 

Na economia da parábola, [13] as galinhas representam a maioria das pessoas, vivendo somaticamente, isto é, preocupadas exclusivamente com esta vida transitória e ignorando o horizonte da nobreza mais elevada. Enredadas no mito do igualitarismo e interpretando a vida em termos materialistas, elas não podem sonhar em perceber a realidade de outra forma que não seja olhando para baixo, para o chão. O comportamento do galo é completamente estranho e absurdo para elas: elas são totalmente incapazes de entender por que alguém afirmaria que a realidade pode ser mais do que alimentar-se e pôr ovos... Por sua vez, o galo ilustra aqueles que questionam a forma unilateral da vida terrena, epidérmica, juntamente com sua percepção limitada da realidade. Apesar de não estar necessariamente situado muito acima das galinhas, existencialmente falando, o galo se esforça com atividades superiores - intelectuais e espirituais -, tentando compreender o sentido da vida e do mundo. Fornecendo à sua mente o alimento espiritual necessário, e tomando consciência de si mesmo e do complexo relevo da realidade, ele avança no sentido de perceber o cenário da vida de uma forma mais nuançada. É, portanto, surpreendente que, embora ele seja ininteligível para as galinhas, quando confrontado com o insight superior da águia, o galo se comporta como qualquer outra galinha acomodada. [14] Ele não pode suportar a idéia de uma percepção mais elevada e mais ampla da realidade, pela simples razão de não poder seguir a águia na jornada ascendente da mesma. No final, a barreira experimentada tanto pelas galinhas quanto pelo galo é a mesma, embora eles a experimentem de forma diferente: uma tendência idiossincrática de ignorar ao mesmo tempo os vários graus de acesso à verdade e a evidente preeminência da aristocracia de espírito. No entanto, dentro da parábola e além dela, duas coisas são certas. A primeira: a realidade é complexa, e pode ser percebida de pontos de vista indefinidos, [15] correspondendo às diversas formas de vida. A segunda: o acesso superior à verdade permanece condicionado pela intensidade do próprio compromisso de cada um com a vida virtuosa. Chegando a esta conclusão, a parábola enfatiza o nexo íntimo entre a experiência e o conhecimento.

Se Francis Bacon formulou a relação entre conhecimento e poder em termos de proporcionalidade, tantum possumus quantum scimus (adquirimos poder de acordo com a medida de nosso conhecimento) ou scientia potentia est (ciência é poder), São Silouan revela outra faceta do processo cognitivo: conhecemos proporcionalmente à nossa experiência pessoal no caminho virtuoso. Aqui torna-se evidente a principal diferença entre a orientação externa da mentalidade moderna, disposta a operar demiurgicamente como princípio 'ecossistêmico', e respectivamente a orientação interna da mentalidade tradicional, interessada na transformação da pessoa humana. 

Consequentemente, quando se trata de um processo de transformação pessoal - como na ascensão da condição das galinhas para a do galo, ou da condição do galo para a da águia - o know how pressuposto não pode mais ser mera informação. Em vez disso, o know how exigido consiste na sabedoria dos santos que estiveram lá e fizeram isso... Para ter acesso à verdade existencial e transformadora, é necessária uma orientação espiritual e uma estrutura tradicional.

Aproximando-se da Verdade com os Pais Bizantinos

Agora nos voltamos para outra dimensão da mentalidade tradicional, aquela da complexidade da tradição e da necessidade de orientação espiritual. Durante os primeiros séculos, e ecoando os ritmos litúrgicos da Igreja primitiva, a consciência relativa à coexistência de múltiplas percepções da verdade cristã manifestou-se através da distinção de dois níveis de tradição e seus correspondentes graus de iniciação. [16] Em consonância com a complexa estrutura da liturgia, com suas duas partes principais - a liturgia dos catecúmenos (aqueles que serão iluminados) e respectivamente dos fiéis (os iluminados) -, São Basílio o Grande [17] discerniu os níveis de κηρύγματα e δόγματα. Por κηρύγματα ("proclamações") ele indicou a camada exterior, ou a manifestação pública da vida eclesial, ao passo que por δόγματα ("opiniões", ["crenças"]) ele designou o lado interior da tradição, uma soma de critérios que caracterizam a mentalidade eclesial. Para São Basílio, o nível de δόγματα, ao qual não há verdadeiro acesso sem uma orientação superior, lança a luz definitiva sobre o significado e a finalidade do de κηρύγματα. De maneira semelhante, toda uma série de catecismos pré-batismos e pós-batismos do século IV testemunhou o desenvolvimento de um processo de iniciação, sob a cuidadosa orientação de um bispo ou de um catequista designado. [18] O epítome deste complexo processo continua sendo sem dúvida as relações estabelecidas entre os anciãos e os noviços, como retratado pelos famosos Ditos dos Padres do Deserto. [19]

A presente seção de meu artigo se concentrará, entretanto, nos esforços de três Pais posteriores, que contribuíram imensamente para o esclarecimento do que consistia o lado interior da tradição. Estes ilustres autores - São Máximo o Confessor, São Simeão o Novo Teólogo e São Gregório Palamas (representando a chamada tradição filocálica) - também apresentaram uma resposta inequívoca para a questão do acesso à verdade. Ao contrário da idéia ocidental do magisterium, eles identificaram os verdadeiros mistagogos (ou guias para o mistério) não exclusivamente com os representantes da hierarquia estabelecida; ao invés disso, eles reconheceram a prioridade da aristocracia de espírito como sendo representada pelos santos. Correlativamente, eles colocaram em relevo o conteúdo existencial do lado interior da tradição. Como uma característica comum aos três, eles enfatizaram a conexão orgânica entre o acesso à verdade e o viver virtuosamente. Viver a verdade era para eles, em última instância, participar na vida divina e deificante, uma experiência impossível de ser realizada fora da tradição dos santos.

Para introduzir sua interessante teoria das cinco polaridades da realidade (em sua obra principal, Ambigua), São Máximo o Confessor faz menção explícita à sucessão mística, ou tradição, dos santos. Segundo ele, os santos recebem o conhecimento das coisas divinas através de duas formas distintas: pela mediação de outros santos e pela experiência direta. [21] Começando pelos apóstolos, como seguidores e servos do Logos, esta cadeia de santos representa a sucessão ininterrupta de uma tradição mística fora da qual não é possível o acesso real à verdade (cristã). Máximo estava tão convencido da importância capital da tradição mística, que em sua famosa obra Mistagogia, introduziu um personagem central, o ancião, que aparentemente o iniciou nos mistérios celebrados dentro da liturgia. Todo o tratado [22] pode servir como prolegômenos ao método tradicional bizantino de acesso à verdade. Em uma obra anterior, Sobre a Vida Ascética, São Máximo ilustrou como as coisas ocorriam com a instrução existencial ou a tradição viva, imaginando um diálogo envolvendo um ancião e um noviço. O diálogo ecoa as conversas dos Ditos mencionados acima.

Por sua vez, São Simeão enfatiza mais a antítese entre aqueles iniciados pelos santos e todas as outras pessoas. Em seu XV discurso catequético, [23] ele contrasta as "pessoas carnais", "vivendo sob o domínio das trevas", por um lado, e os "homens espirituais e santos" e seus "pensamentos sobre a luz", por outro lado. Ele enfatiza as dificuldades experimentadas pelos primeiros quando atingidos pela mensagem desafiadora e pela superioridade experiencial dos santos. Indispostas a contemplar a luz espiritual, e por causa de sua "ignorância e descrença", as pessoas carnais sentem-se estimuladas a se opor e odiar os santos. Caracterizadas pela "escuridão das paixões", "cegueira mental", "insensibilidade e ignorância", longe de participar da "mente de Cristo", essas pessoas carnais acabam se recusando de serem ensinadas. Incapazes de reconhecer o estado espiritual superior dos outros, por obtusidade, elas preferem imaginar que sabem, mesmo que "não saibam nada"', permanecendo longe da experiência mística. Quanto aos santos, eles gozam do privilégio de receber - de acordo com o grau de seu merecimento - características divinas por meio de uma participação insondável. Sendo Deus luz, "àqueles que entraram em união com Ele, Ele transmite Seu próprio brilho na medida em que eles foram purificados". Aqueles que se aproximam de Deus por meio da purificação são concedidos a se tornarem "deuses por adoção", "filhos do Altíssimo de acordo com a imagem do Altíssimo e de acordo com Sua semelhança". Sem promover a idéia de uma elite gnóstica, São Simeão em última instância descreve a experiência dos santos por razões pedagógicas, para revelar o ícone da verdadeira vida cristã e convidar a todos a buscá-la: "por nosso discurso mostramos, como em um pilar, quem são cristãos e qual é sua natureza, para que esses homens se comparem ao modelo e descubram até onde estão aquém daqueles que são verdadeiramente cristãos". Embora uma minoria, os santos tornam visível a nobreza interior de todos aqueles que querem se tornar, como eles, filhos e filhas de Deus. Indiretamente eles nos ensinam como, tendo chances iguais diante de Deus, nós as utilizamos de maneira diferente.

São Gregório Palamas, na Declaração da Santa Montanha, [24] continua esta tendência, sintetizando as principais idéias dos Pais anteriores. Em consonância com São Basílio, ele distingue dentro das doutrinas cristãs aquelas "proclamadas abertamente" e respectivamente aquelas "reveladas mística e profeticamente pelo Espírito" aos santos. O acesso aos ensinamentos místicos não é uma coisa fácil e é um fato que para muitos estes ensinamentos representam absurdos se não blasfêmias. Palamas observa, como São Simeão antes dele, a simetria entre os judeus que são incapazes de interpretar cristologicamente o Antigo Testamento e os cristãos que, privados de "reverência apropriada", rejeitam por ignorância "os mistérios do Espírito". Ou, estes mistérios ou as "bênçãos da era por vir", sendo "prometidos aos santos", já são "revelados profeticamente àqueles a quem o Espírito considera dignos." O acesso à verdade exige transformação pessoal e é óbvio que não são muitos os que estão dispostos a renunciar a suas idiossincrasias em prol de uma vida superior. Os santos, tornados dignos pelo Espírito Santo, são no entanto "pessoas que foram iniciadas por experiência real, que renunciaram às posses, à glória humana e aos horrendos prazeres do corpo em prol da vida evangélica". A influência de São Máximo torna-se visível neste ponto: embora tenham sua própria experiência como indivíduos, os santos não estão isolados. Todos eles vivem e crescem dentro da tradição: "eles também fortaleceram sua renúncia, submetendo-se àqueles que alcançaram a maturidade espiritual em Cristo". Mesmo a este respeito, há vários níveis a serem distinguidos. Se nem todos aqueles que se esforçam por uma vida superior conseguem alcançar o clímax da perfeição e do conhecimento místico, eles possuem no entanto a possibilidade de aprender "sobre estas coisas através de sua reverência, fé e amor" pelos santos.

Para os bizantinos, a tradição representa uma estrutura complexa onde princípios teóricos e critérios - expressões da mentalidade eclesial - se fundem com a vida da Igreja como excelentemente manifestada pela experiência dos santos. Emerge um novo significado de hierarquia e aristocracia: nada tendo a ver com um estabelecimento social injusto, os santos - provenientes de todas as camadas sociais - revelam com compaixão, gradual e exemplarmente, a nobreza interior à qual são chamados todos os seres humanos. Os santos encarnam, em última instância, os marcos reais necessários para qualquer busca espiritual. Em vez de serem os guardiões, eles ilustram um caminho vivo na busca da verdade e da realização deste esforço na própria forma de sua maneira de viver.

Observações finais 

A busca da verdade não é um esforço marginal; mesmo que estejamos longe de alcançar a verdade, em última análise, esta busca define quem somos. Mas a busca da verdade é um processo a ser realizado dentro de um sistema aristocrático ou hierárquico (com o sentido descrito no acima). A busca da verdade - a verdade existencial - torna-se possível em sabedoria e seguindo as pegadas daqueles que foram guiados por outros antes de nós, já experimentando o que todos nós somos chamados a experimentar.

Para a tradição bizantina, como para São Silouan, é certo que o acesso à verdade e a aquisição de maior nobreza pessoal andam em paralelo. Sem o esforço pessoal para realizar a transformação interior e as diretrizes da tradição, nenhuma verdade relevante pode ser encontrada - pelo menos não uma verdade capaz de enriquecer significativamente e dar consistência à nossa vida. Restabelecer a aristocracia do espírito ou a tradição dos santos como critério epistemológico decisivo não significa voltar a uma estratificação de tipo medieval. Representa, por sua vez, uma bela chance de recuperar a normalidade, uma possibilidade de abrir às pessoas uma forma madura de remodelar suas vidas e de adquirir plena humanidade. 

Uma pergunta permanece ainda sem resposta: estamos prontos para desistir de nossos preconceitos e começar a voar para o alto, com a águia?


Notas

1 Esta é uma versão ampliada do meu artigo, com o mesmo título, apresentado na Conferência Bienal de Filosofia, Religião e Cultura - "Truth and Truthfulness in Uncertain Times " (Instituto Católico de Sydney, 29/09/06 - 01/10/06).

2 Cf. K. Popper, Conjectures and Refutations: The Growth of Scientific Knowledge (London and New York: Routledge, 2002) 467-9.

3 Como em Tomás de Aquino adaequatio intellectus et rei 'correspondência entre pensamento e realidade' (Summa Theologiae, I, q. 16, a. 2).

4 Cf. Al. Mironescu, Certitudine şi adevăr [Certeza e verdade] (Bucharest: Charisma, 2002) 92-3.

5 Em paráfrase, sabedoria não é saber muitas coisas (informação), mas ter uma compreensão profunda das coisas.

6 Cf. Wisdom from Mount Athos: The Writings of Staretz Silouan 1866-1938; editado pelo Arquimandrita Sofrônio; trad. do russo por R. Edmonds (Crestwood, NY: SVS Press, 1975) 107. Veja também Arquimandrita Sofrônio (Sakharov), Saint Silouan the Athonite; trad. do russo por R. Edmonds (Essex: Stavropegic Monastery of St John the Baptist, 1991) 486-7. 

7 Minha paráfrase apresenta a história a partir do ponto de vista de uma galinha que quer voar, uma perspectiva ascendente. Por sua vez, a de Pe. Sofrônio apresenta a perspectiva descendente de uma águia.

8 Cf. São Basílio o Grande, Homilias sobre Hexamerão 1:1 (Nicene e Post-Nicene Fathers Series, vol. VIII) (Grand Rapids: Wm.B. Eerdmans Publishing Co., 1978) 52-3. 

9 Cf. São Gregório de Nazianzus, Theological Orations 2:2-3. Em On God and Christ: The Five Theological Orations and Two Letters to Cledonius, trad., intro. e notas de F. Williams & L. Wickham (Crestwood, NY: SVS Press, 2002) 37-9. 

10 Cf. São Gregório de Nissa, The Life of Moses II.152-161 (Classics of Western Spirituality Series); trad., intro. e notas de A.J. Malherbe e E. Ferguson; pref. de J. Meyendorff (New York & Ramsey & Toronto: Paulist Press, 1978) 91-4. 

11 Cf. Dionísio, o Areopagita, Teologia Mística 1:3. Em Pseudo-Dionysius, The Complete Works (The Classics of Western Spirituality Series), trad. por C. Luibheid; prefácio, notas e colaboração de trad. por P. Rorem; pref. por R. Roques; introdução por J. Pelikan, J. Leclerq, e K. Froelich (New York & Mahwah: Paulist Press, 1987) 136-7.

12 Para um significado mais nuançado da hierarquia, veja Arcebispo Stylianos (Harkianakis), 'Prioridades na verdadeira cultura' Phronema vol. 20 (2005) 1-7. 

13 As galinhas, o galo e a águia ecoam os três estágios clássicos das comunidades tradicionais da Antiguidade Tardia, respectivamente o somatikoi (o somático), o psychikoi (o psíquico) e o pneumatikoi (o espiritual). O Novo Testamento faz alusão às três categorias: Romanos 7:14; Judas 19; 1 Coríntios 2:13 & 3:1. Devo ao Pe. Patrick McInerney (Columban Centre for Christian-Muslim Relations, Sydney) que me indicou a possibilidade de interpretar a perspectiva dos três estágios à luz do Método em Teologia de B. Lonergan (Toronto: University of Toronto Press, 1990) 81-100. Segundo Lonergan, existem quatro domínios de experiência: o mundo do senso comum; o mundo da teoria; o mundo da interioridade; o mundo da transcendência (os dois últimos correspondem ao terceiro estágio, da águia).

14 Comentando sua própria parábola, São Silouan observa que "quando o homem espiritual se encontra com seu oposto, o discurso deles é tedioso e cansativo para ambos". Cf. S. Sakharov, São Silouan, o Athonita, 487. 

15 Sem ênfase na dimensão existencial do ato de conhecer, B. Nicolescu (Nous, la particule et le monde (Paris: Rocher, 2002) 267-272) menciona níveis indefinidos de realidade e respectivos níveis de percepção. Veja também A. Nicolaidis, 'The Metaphysics of Reason', em B. Nicolescu & M. Stavinschi (eds.), Science and Religion: Antagonism or Complementarity? (Bucharest: XXI The dogmatic eon, 2003) 235-8. 

16 Cf. J. Day, 'Adherence to Disciplina Arcani in the Fourth Century' Studia Patristica vol. XXXV (Leuven: Peeters, 2001) 266-70; D. Costache, 'The Inner Side of the Visible': Apostolic Criteria and Spirit in the Orthodox Tradition', em Prof. Univ. Dr Teodosie Petrescu (ed.), Omagiu Profesorului Nicolae V. Dura la 60 de ani [Em Celebração Prof. Nicolae V. Dura aos 60 anos] (Constanta: Editura Arhiepiscopiei Tomisului, 2006) 387-8. 

17 Cf. São Basílio o Grande, On the Holy Spirit 66; trad. e intro. por D. Anderson (Crestwood, NY: St Vladimir's Seminary Press, 1980) 98-9. 

18 Cf. por exemplo E. Mazza, Mystagogy: A theology of Liturgy in the Patristic Age, trad. por M. J. O'Connell (New York: Pueblo Publishing Co., 1989). O volume explora as práticas catequéticas de Ambrósio de Milão, Teodoro de Mopsuéstia, João Crisóstomo e Cirilo de Jerusalém. 

19 Cf. The Sayings of the Desert Fathers: The Alphabetical Collection (edição revisada), tradução, com prefácio de B. Ward, SLG; prefácio do Metropolita Antônio de Sourozh (Kalamazoo: Cistercian Publications, 1984).

20 Cf. N. Russell, The Doctrine of Deification in the Greek Patristic Tradition (Oxford: Oxford University Press, 2004) 262-95, 301-9. 

21 Cf. Ambigua 41, PG 91, 1304. 

22 Cf. A Mistagogia da Igreja, em Maximus Confessor: Selected Writings (Classics of Western Spirituality Series), trad. e notas de G.C. Berthold, intro. de J. Pelikan, pref. de I.H. Dalmais (New York & Mahwah: Paulist Press, 1985) 183-214. 

23 Cf. São Simeão o Novo Teólogo, The Discourses (The Classics of Western Spirituality Series), trad. por C.J. de Cantazaro; introdução por G. Maloney S.J.; pref. por B. Krivocheine (Londres: SPCK, 1980) 193- 7. Da mesma forma, São Silouan observa: "O homem espiritual medita dia e noite sobre a lei do Senhor, e em oração se eleva para Deus; ao passo que a mente do homem indiferente está atada à terra, ou engajada em pensamentos fúteis. A alma do homem espiritual se deleita em paz, ao passo que a alma do outro permanece vazia e distraída. Como a águia, o homem espiritual voa nas alturas, e com sua alma sente Deus, e contempla o mundo inteiro, embora ele esteja orando na escuridão da noite; ao passo que a alma do homem que não é espiritual se deleita em vanglória ou em riquezas, ou busca os prazeres da carne". Cf. S. Sakharov, Saint Silouan the Athonite, 487.

24 "A Declaração da Montanha Santa em defesa daqueles que praticam devotamente uma vida de quietude", prólogo. Na Philokalia, vol 4, trad. do grego e editado por G.E.H. Palmer, Ph. Sherrard, K. Ware (Londres: Faber & Faber, 1994) 418-9.

sábado, 1 de agosto de 2020

Conhecimento racional e apofático de Deus (Pe. Dumitru Staniloae)

Segundo a tradição patrística, há um conhecimento racional ou catafático de Deus e um conhecimento apofático ou inefável. Este último é superior ao anterior porque o completa. No entanto, nenhum deles conhece Deus em Sua essência. Conhecemos Deus através do conhecimento catafático apenas como criador e causa sustentadora do mundo, ao passo que através do conhecimento apofático obtemos uma espécie de experiência direta de Sua presença mística que ultrapassa o simples conhecimento dEle como causa investida de certos atributos similares aos do mundo. Este último conhecimento é denominado apofático porque a presença mística de Deus experimentada através do mesmo transcende a possibilidade de ser definido em palavras. Esse conhecimento é mais adequado a Deus do que o conhecimento catafático.

O conhecimento racional, porém, não pode simplesmente ser renunciado. Mesmo que o que diz sobre Deus possa ser não inteiramente adequado, ele não diz nada que seja contrário a Deus. O que diz deve ser aprofundado através do conhecimento apofático. Além disso, mesmo o conhecimento apofático, quando procura oferecer qualquer explicação de si mesmo, deve recorrer aos termos do conhecimento do intelecto, embora preencha esses termos continuamente com um significado mais profundo do que as noções da mente podem fornecer.

O conhecimento apofático é capaz de fazer isso, pois, para ele, os atributos de Deus não são meramente objetos de pensamento, mas são, em certa medida, experimentados diretamente. Por exemplo, no conhecimento apofático, a infinitude, a onipotência ou o amor de Deus não é apenas uma noção intelectual, mas uma questão de experiência direta. No ato de conhecer de forma apofática, o sujeito humano experimenta, de uma maneira real, uma espécie de submersão na infinitude, na onipotência ou no amor de Deus. Por meio do conhecimento apofático, o sujeito humano não apenas conhece que Deus é infinito, onipotente ou amoroso, mas também experimenta isto. No entanto, nesta experiência, a infinitude de Deus se mostra de fato tão avassaladora que o homem percebe que esse infinito é totalmente diferente daquele que ele pode conceber em sua mente, que é inefável. Também é verdade que, no curso do conhecimento racional, o homem percebe que o infinito de Deus é maior e diferente do que ele é capaz de compreender dentro de um conceito intelectual de Deus. Assim, ele corrige esse conhecimento por uma negação dele. Mas essa negação é igualmente intelectual enquanto uma expressão. O homem sabe que a infinitude de Deus é diferente do infinito que ele concebe com sua mente, mas a negação subsequente sempre se refere ao que foi afirmado. Esta é a via negativa da teologia ocidental. Na tradição patrística oriental, no entanto, a teologia apofática é uma experiência direta. É verdade que também deve recorrer a essa teologia negativa intelectual para se expressar, mas em si mesma difere da outra. [1]

Consideramos que essas duas formas de conhecimento não se contradizem nem se excluem, mas se completam mutuamente. Estritamente falando, o conhecimento apofático é completado pelo conhecimento racional de dois tipos, o que procede por meio de afirmação e o que procede por meio de negação. Ele transfere ambas as formas de conhecimento racional para um plano mais apropriado, mas, quando precisa se expressar - no entanto, de maneira longe de ser satisfatória -  o conhecimento apofático, por sua vez, recorre aos termos do conhecimento racional em ambos os seus aspectos (afirmação e negação). Aquele que tem um conhecimento racional de Deus muitas vezes completa o mesmo com o conhecimento apofático, ao passo que aquele cuja experiência apofática é mais acentuada recorrerá aos termos do conhecimento racional ao dar expressão a essa experiência. Assim, quando os Pais Orientais falam de Deus, eles transitam freqüentemente de um modo para o outro.

Assim como o conhecimento racional-afirmativo, o conhecimento apofático também é ocasionado pela visão do mundo, mas vai além desta visão e, às vezes, não precisa de nenhuma real visão do mundo para poder surgir, ainda que o conhecimento apofático pressuponha o conhecimento do mundo e o enriquecimento da alma que provém através dele. A presença mística de Deus é capaz de emergir na experiência do conhecimento apofático quando ocorre quer seja através do mundo ou diretamente. O conhecimento racional afirmativo está, no entanto, sempre conectado ao mundo. O mundo permanece sempre um termo que é mantido no pensamento daquele que conhece a Deus através da dedução, como causa do mundo e investido de atributos similares aos do mundo. O fato de que, no conhecimento apofático, a alma é absorvida ao discernir a presença de Deus, fez com que os Pais Orientais falassem por ocasião de um “esquecimento” do mundo durante este ato. Isso não significa, no entanto, um afastamento factual do mundo mundo. Mesmo permanecendo no mundo, o homem pode contemplar Deus como aquele que é inteiramente diferente do mundo, quer isso se torne aparente para ele através do mundo em si ou à parte dele.

O que mais distingue o conhecimento apofático, direto e místico de Deus do conhecimento racional e dedutivo é que, no primeiro, o sujeito humano experimenta a presença de Deus como pessoa de um modo mais premente. No entanto, a compreensão de Deus como pessoa não é excluída do conhecimento afirmativo e racional, embora o mistério de Deus como pessoa não seja revelado de forma acentuada, profunda e premente. Entretanto, é preciso ter em mente que, nestes dois tipos de conhecimento, a revelação sobrenatural medeia para nós, como um fato certo, o conhecimento de Deus como pessoa. Mesmo o conhecimento apofático, quando falta a ele a revelação sobrenatural, pode experimentar a presença inefável de Deus como uma profundidade impessoal. Não devemos, portanto, distinguir o conhecimento apofático do conhecimento afirmativo e racional apenas com base no fato de que o primeiro seria um conhecimento sobrenatural revelado, enquanto o segundo constituiria um conhecimento puramente natural. Ambos estão fundamentados na revelação sobrenatural quando é uma questão de conhecer a Deus como pessoa.

O conhecimento racional, no entanto, não faz uso de todo o conteúdo da revelação sobrenatural. Nesse sentido, assemelha-se ao conhecimento de Deus no judaísmo e no islamismo, já que estes também têm parte da revelação sobrenatural em sua base, mas não toda ela. Pelo fato de que este é um conhecimento mais pobre de Deus e, como tal, não precisa de toda a revelação sobrenatural, às vezes acontece que este mesmo conhecimento também pode ser visto em algumas pessoas que não compartilharam de nenhuma parte da revelação sobrenatural.

Por fim, a terceira coisa que deve ser mencionada com relação à relação entre esses dois tipos de conhecimento de Deus é que, na medida em que o homem progride na vida espiritual, o conhecimento intelectual sobre Deus - como criador do mundo e fonte do cuidado providencial do mesmo - que vem ao homem a partir do mundo, é imbuído com a contemplação direta e mais rica dele, isto é, com o conhecimento apofático.

Essa é mais uma razão pela qual os Pais frequentemente alternam seus discursos sobre o conhecimento racional afirmativo de Deus com discursos sobre o conhecimento apofático. Ou, talvez, na medida em que no caso deles o conhecimento racional afirmativo foi sobrecarregado pelo conhecimento apofático, eles falam mais sobre o último, embora mostrem que o primeiro não é excluído.

Em sua discussão sobre o conhecimento racional afirmativo de Deus que provém das coisas do mundo, São Gregório de Nazianzo diz: "Nossos próprios olhos e a lei da natureza nos ensinam que Deus existe e que Ele é a causa eficiente e que mantém todas as coisas: nossos olhos, porque caem sobre objetos visíveis, e os vêem em uma bela estabilidade e progresso, levados, por assim dizer, num movimento imóvel; a lei natural, porque através dessas coisas visíveis e de sua ordem, remontam ao autor das mesmas. Pois como este universo poderia ter vindo à existência ou ter sido unido, a menos que Deus o tivesse chamado à existência, e o tivesse mantido unido? Pois qualquer um que vê um alaúde belamente elaborado, e considera a habilidade com a qual ele foi encaixado e arranjado, ou quem ouve sua melodia, não pensaria em ninguém a não ser aquele que criou alaúde, ou o tocador de alaúde, e se lembraria dele em sua mente, embora desconhecendo-o pela vista. E assim também nos é manifestado o que fez e move e preserva todas as coisas criadas, mesmo que ele não seja compreendido pela mente. E muito deficiente no julgamento é aquele que não avançar até este ponto, seguindo provas naturais..." [2]

São Gregório o Teólogo observa apropriadamente que a racionalidade do mundo é inexplicável na ausência de uma pessoa que o concebeu como racional e que, na medida em que, em tal caso, essa racionalidade não estaria seguindo qualquer propósito, ele não teria, fundamentalmente, qualquer sentido e careceria de verdadeira racionalidade. Seria uma racionalidade absurda. Ao mesmo tempo, São Gregório observa que Deus não fez um mundo petrificado dentro de uma racionalidade estática ou de um movimento circular idêntico. Pelo contrário, este é um mundo através do qual Deus produz um cântico que avança em seus temas melódicos. Isto é, Deus continua a nos falar através do mundo e a nos conduzir em direção a um objetivo. Ele não é apenas o criador deste vasto alaúde, mas também Aquele que toca através dele um cântico de vastas proporções e complexidade.

Mas, para São Gregório, esse conhecimento intelectual de Deus que foi racionalmente deduzido a partir do mundo ainda é insuficiente. Tal conhecimento precisa ser completado por um conhecimento superior que é um reconhecimento do próprio mistério de Deus, um conhecimento apofático, um modo superior de captar Sua infinita riqueza - uma que, precisamente por causa de Sua infinitude, não pode ser compreendida ou expressa. Falando como se em nome de Moisés que, em sua ascensão do Monte Sinai, se tornou a imagem de todos os que se elevam acima de um conhecimento de Deus derivado das criaturas ao conhecimento de Sua presença ilimitada e mística, São Gregório também fala desse conhecimento apofático, mas ele alterna sua descrição com uma descrição de conhecimento racional catafático ou afirmativo. Ele diz: "Eu estava correndo para alcançar [compreender] Deus, e assim subi ao monte, e afastei a cortina da nuvem, e entrei afastado da matéria e das coisas materiais, e até onde pude me recolhi dentro de mim. E então, quando olhei para cima, eu dificilmente vi as partes detrás de Deus, embora eu estivesse protegido pela rocha, a Palavra que se fez carne por nós. E quando olhei um pouco mais de perto, eu vi, não a natureza primeira e pura, conhecida por si mesma - conhecida pela própria Trindade, quero dizer; não aquela que permanece dentro do primeiro véu e é escondida pelos Querubins, mas apenas aquela parte dela que está na extremidade e chega até nós. E esta é, tanto quanto posso dizer, a majestade, ou como o santo David a chama, a glória que se manifesta entre as criaturas, que ela produziu e governa.[Sl 8:2] Pois estas [isto é, a majestade e a glória] são as partes detrás de Deus, que Ele deixa para trás como sinais de si mesmo, como as sombras e reflexos do sol na água, que mostram o sol aos nossos olhos frágeis, porque não podemos olhar para o próprio sol,  pois devido à sua luz pura, ele é forte demais para nosso poder de percepção." [3]

Como podemos ver, elevar-se acima das coisas do mundo não significa que as mesmas desapareçam; significa, através delas, elevar-se para além das mesmas. E uma vez que permanecem, o conhecimento apofático de Deus não exclui o conhecimento racional afirmativo. Mas, como São Gregório pode ir de um ao outro, o último conhecimento é imbuído do primeiro. No conhecimento apofático, o mundo permanece, mas tornou-se transparente para Deus. Esse conhecimento é apofático porque Deus, que agora é percebido, não pode ser definido; Ele é experienciado como uma realidade que transcende toda possibilidade de definição. No entanto, mesmo este é um conhecimento do Deus que desceu até nós, não um conhecimento do ser dEle em Si mesmo. Tal conhecimento é combinado com o tipo de conhecimento afirmativo racional de tal forma que é difícil dizer quando São Gregório está falando de um ou de outro.

Quão impossível é conter o brilho da presença mística de Deus - juntamente com certas características atribuídas a Deus - dentro das noções da mente humana é expressado por São Gregório de Nazianzo em outra descrição da experiência de Moisés no Monte Sinai. Aqui, novamente, é difícil distinguir entre os dois tipos de conhecimento: "Deus sempre foi, e sempre é, e sempre será. Ou melhor, Deus sempre 'É'. Pois 'Foi' e 'Será' são fragmentos de nosso tempo, e de natureza mutável, mas Ele é sempre "Aquele que É", e deu-se a Si mesmo este nome quando se dirigiu a Moisés na montanha. Pois em Si mesmo Ele reúne e contém todo o Ser, não tendo nem início no passado nem fim no futuro; como algum grande Mar de Ser, ilimitado e incontido, transcendendo toda concepção de tempo e natureza. Ele é apenas esboçado pela mente, e isso de forma muito vaga e insuficiente... não a partir de coisas que dizem respeito a Si próprio, mas de coisas que O rodeiam; uma imagem sendo obtida de uma fonte e outra de outra, e combinada em algum tipo de representação da verdade, que nos escapa antes de ser apreendida, e que nos foge antes de ser compreendida, resplandecendo sobre nossa faculdade-diretiva, mesmo quando esta está purificada, como um relâmpago que não permanece em seu percurso". [4]

A presença de Deus como pessoa - uma presença premente e da qual resplandece Seu infinito - não é a conclusão de um julgamento racional, como no caso do conhecimento que é intelectual, catafático ou negativo; antes, é percebida por alguém em um estado de sensibilidade espiritual revivificada e isso não pode acontecer enquanto o homem é dominado por prazeres corporais ou paixões de qualquer tipo. Exige que o homem eleve-se acima das paixões e seja purificado delas. Após uma purificação mais duradoura, a sutileza da sensibilidade espiritual, capaz de tal percepção da misteriosa realidade de Deus, também é mais duradoura. Toda uma gradação existe tanto em relação à purificação quanto em relação à profundidade e duração da percepção apofática de Deus. Isso não exclui, contudo, o conhecimento de Deus como criador e fonte da providência, mas é combinado com o mesmo. O conhecimento apofático não é irracional, mas supra-natural, pois o Filho de Deus é o Logos e contém em si as “razões” de todas as coisas criadas. Mas é supra-racional da mesma forma que a pessoa - como alguém que é o sujeito da razão e de uma vida que tem seu próprio significado para sempre - é supra-racional.

São Gregório de Nazianzo diz, ainda falando em nome de Moisés: “Agora quando eu subo avidamente ao Monte - ou, utilizando uma expressão mais verdadeira, quando eu tanto avidamente anseio e, ao mesmo tempo, temo (um devido à minha esperança e o outro devido à minha fraqueza), entrar dentro da nuvem, e conversar com Deus, pois assim Deus ordena - se algum for um Arão, que ele suba comigo, e que ele fique próximo, estando pronto, se for preciso, para permanecer fora da nuvem. Mas se algum for um Nadab ou um Abihu, ou da ordem dos Anciãos, que suba de fato, mas que fique afastado, seu lugar de acordo com sua pureza. Mas se algum for da multidão, que não é digno desse nível de contemplação, se for inteiramente impuro, que não se aproxime, pois isso seria perigoso para ele; mas se ele for apenas temporariamente purificado, que permaneça abaixo e escute apenas a voz, e a trombeta, as palavras simples de piedade..."[5]

O fato de que a purificação das paixões e o profundo senso da própria pecaminosidade e insuficiência são condições necessárias para esse conhecimento mostra que não é um conhecimento intelectual negativo como foi entendido no ocidente, isto é, a simples negação de certas afirmações racionais sobre Deus. Tem a ver com um conhecimento que vem através da experiência. De fato, os Pais Orientais chamam essa abordagem a Deus mais união do que conhecimento. Na experiência desse conhecimento apofático, Deus é percebido, por um lado, mas, por outro, aquilo que é percebido nos dá a entender que há algo ali além de toda percepção. Ambas as percepções são expressas através dos termos da teologia afirmativa e negativa.

São Gregório continua: “Parece-me que, através do que é compreensível, Ele me atrai para Si (pois o que é totalmente incompreensível não oferece nenhuma esperança e e não é buscado); e através do que é incompreensível, Ele desperta minha admiração; e sendo admirado, Ele é desejado mais; e sendo desejado, Ele nos purifica; e nos purificando, Ele nos torna deiformes; e com aqueles que se tornaram tais, Ele conversa como com os seus próximos, - falo com veemente ousadia - Deus se une aos deuses, e é assim conhecido, talvez tanto quanto já conhece aqueles que lhe são conhecidos. Portanto, Deus é infinito e difícil de ser contemplado. E somente isto é compreensível nele: que é infinito." [6]

Os Pais insistem em enfatizar que mesmo este infinito experimentado não é o ser de Deus, porque poderia ser identificado com a essência do universo ou do espírito humano, ou visto como estando em uma continuidade da natureza com estes, como no pensamento de Plotino. Mas Deus não é a essência do mundo nem do espírito humano; Ele transcende esses porque é incriado enquanto eles são criados. Sua transcendência é assegurada por seu caráter pessoal, capaz de ultrapassar um infinito que não é em si mesmo uma pessoa.

Somente a Pessoa transcendente assegura um infinito, cuja essência não é contínua com a essência do mundo ou do espírito humano; antes, existe dentro de uma continuidade possibilitada pela graça e por uma participação humana que depende da benevolência da Pessoa divina e o esforço de nosso próprio ser. Neste caso, a participação do nosso ser no infinito implica a alegria da comunhão - sem sua anulação como pessoa - na perspectiva de tal comunhão se tornar uma realidade eterna. Se assim não fosse, o infinito apenas garantiria a realidade pessoal de maneira momentânea. É por isso que São Máximo o Confessor diz: “.. as obras de Deus que começaram a existir no tempo são todas aquelas que existem através da participação... Além disso, as coisas de Deus que não começaram a existir no tempo são aquelas que são participadas, uma participação através da graça, por aquelas coisas que participam. Tais, por exemplo, são a bondade - e tudo o que está contido no logos da bondade - e, em suma, toda a vida, imortalidade, simplicidade, permanência, infinitude e todas as coisas que são concebidas como existentes em sua essência ao redor de Deus.” [7] Conhecemos essas obras através de uma participação consciente nelas - embora as coisas em si não dependam do nosso ser -, mas não conhecemos o próprio ser de Deus; antes, percebemos que estamos em comunhão com Sua Pessoa.

O neoplatonismo considerava a divindade idêntica a essas coisas e, portanto, confundia a divindade com a essência do mundo ou do espírito humano, considerando que o espírito humano, uma vez elevado de sua preocupação com a multiplicidade das coisas, se identificaria com a divindade como uma unidade e uma simplicidade que eram desprovidas de toda determinação e, portanto, apofática. O neoplatonismo considerava, portanto, que a divindade é conhecida em sua essência. Esta foi a base para a afirmação dos eunomianos de ter conhecimento exato do ser de Deus. Isso implicava, no entanto, uma negação do caráter transcendental e pessoal de Deus. Se Deus é transcendente, ele é pessoal. O conhecimento cristão apofático implica que Deus desceu ao encontro da capacidade do homem de compreendê-Lo, assim como também implica a transcendência de Deus. Deus desce através de Suas energias ao passo que Seu caráter pessoal assegura Sua transcendência. Sua pessoa transcende até mesmo Sua infinitude.

Nesse sentido, Deus não é idêntico a nenhuma daquelas coisas que nomeamos como Suas qualidades; Ele não é idêntico ao infinito, à eternidade ou à simplicidade, mas transcende tudo isso. Elas não são nem a essência de Deus nem as pessoas nas quais Seu ser subsiste integralmente, mas estão “ao redor do ser de Deus”. Assim, a idéia de que ao conhecermos a infinitude de Deus não conhecemos Deus plenamente, São Gregório teólogo baseia no fato de que o ser de Deus não pode ser identificado com simplicidade, da mesma forma que o nosso não é idêntico à composição. Se isto fosse verdade, a distinção entre a divindade e nós mesmos seria apenas de modo, não de essência.

Como Deus é pessoa, entre Ele e nós é estabelecida uma relação de amor que mantém tanto Deus quanto nós mesmos como pessoas. Experimentamos esse amor não como um infinito sempre idêntico, mas como um infinito com a perspectiva de uma novidade contínua, como um oceano de riqueza sempre nova, onde sempre avançaremos. Nosso conhecimento de Deus nos faz procurar conhecê-Lo ainda mais; e nosso amor por Ele nos estimula a um amor ainda maior. Porque Deus é pessoa, o conhecimento dEle através da experiência está relacionado à extensão de nossa purificação em relação ao apego apaixonado e cego às coisas finitas. Mas é precisamente isto que nos faz ver que, para além dessa riqueza sempre nova que percebemos, sua fonte existe e esta fonte não entra dentro do alcance de nossa experiência.

Podemos dizer que existem dois tipos de apofatismo: o apofatismo do que é experimentado, mas não pode ser definido; e o apofatismo daquilo que não pode nem mesmo ser experimentado. Estes dois são simultâneos. O que é experimentado também tem um caráter inteligível, na medida em que é expresso em termos intelectuais - embora estes sejam afirmativos e negativos. No entanto, essa inteligibilidade é sempre inadequada. O ser que permanece além da experiência, que ainda assim sentimos ser a fonte de tudo o que experimentamos, subsiste na pessoa. Subsistindo como pessoa, o ser é uma fonte viva de energias ou de atos que nos são comunicados. Portanto, o apofático tem, como base fundamental, a pessoa; e assim mesmo esse apofatismo não significa um encerramento total de Deus em Si mesmo.

São Gregório de Nissa fala também sobre os dois tipos de conhecimento de Deus, às vezes distinguindo-os e outras vezes combinando-os. Mas ele fala mais sobre o conhecimento apofático, pois, a seu ver, o conhecimento catafático (racional afirmativo) está incluído no conhecimento apofático. Os primeiros capítulos da Grande Oração Catequética são dedicados ao conhecimento racional de Deus. Mas mesmo falando de conhecimento catafático, São Gregório diz que, mesmo nele, Deus se revela como um mistério que não pode ser definido - o que o torna equivalente ao início do conhecimento apofático e ao desejo de uma experiência mais profunda do último. "E assim, aquele que estuda seriamente as profundezas do mistério, recebe secretamente em seu espírito, de fato, uma quantidade moderada de apreensão da doutrina da natureza de Deus, mas ele é incapaz de explicar claramente em palavras a profundidade inefável deste mistério.” [9]

Mas São Gregório de Nissa, persistindo na descrição do conhecimento apofático, não o vê sempre separado da contemplação das coisas. Por outro lado, ele também exige, como condição para esse conhecimento, a purificação da alma das paixões, de modo que aquele que deseja contemplar não mais permaneça encerrado exclusivamente dentro do horizonte visível das coisas materiais.

São Gregório também faz uso da subida de Moisés na montanha como uma imagem da ascensão da alma em direção à intimidade com Deus: "Quando aquele que foi purificado e afiou a audição de seu coração ouve este som (refiro-me ao conhecimento do poder divino que provém da contemplação da realidade), ele é conduzido por ele até o lugar onde sua inteligência o permite entrar onde Deus está. Isso se chama trevas pela Escritura, que significa, como eu disse, o desconhecido e invisível". [10] "Por isso João o sublime, que penetrou na treva luminosa, diz: Ninguém jamais viu Deus (Jo 1,18), afirmando assim que o conhecimento da essência divina é inalcançável não só pelos homens, mas também por toda criatura inteligente." [11]

Mas São Gregório de Nissa nos oferece uma razão mais profunda pela qual deve haver primeiro uma passagem através do conhecimento das coisas criadas antes que a treva seja alcançada e que a incompreensibilidade de Deus seja confrontada. Nessa treva, Moisés viu o tabernáculo não feito por mãos, e este é "Cristo que é o poder e a sabedoria de Deus" (1 Cor 1,24) que " abrange tudo em si mesmo". "Pois o poder que abrange o universo, no qual habita a plenitude da divindade (Col 2,9), o protetor comum de todos, que abrange tudo dentro de si mesmo, é corretamente chamado de 'tabernáculo'." [12] Mas é através da contemplação de todas as coisas que crescemos na direção de sermos capazes de contemplar tudo nEle que abrange todas as coisas numa maneira simples e concentrada. O som da trombeta que Moisés ouve do alto, antes de entrar nas trevas onde Deus se encontra e onde ele vê o tabernáculo celestial, ou o poder de Deus que abrange todas as coisas, é interpretado por São Gregório como a manifestação da glória de Deus nas criaturas. Sem vê-lo, ninguém pode se elevar à experiência da presença incompreensível de Deus. "Quando aquele que foi purificado e afiou a audição de seu coração ouve este som (estou falando do conhecimento do poder divino que provém da contemplação da realidade), ele é conduzido por ele até o lugar onde sua inteligência o permite entrar onde Deus está. Isso se chama trevas pela Escritura (Ex 20:21), que significa, como eu disse, o desconhecido e invisível. Ao chegar lá, ele vê o tabernáculo não feito por mãos..." [13]

Deve-se observar que, seguindo a Escritura, São Gregório de Nissa mantém que Moisés alcançou a visão do tabernáculo celestial depois que ele entrou nas trevas da consciência da incompreensibilidade de Deus.  Isto nos leva a entender que uma vez que Moisés chegou à experiência do mistério incompreensível de Deus, ele o vê através de ou à parte das coisas criadas, ou então ele passa de uma para a outra, em um plano sempre mais elevado.  As coisas em si mesmas tornam-se cada vez mais transparentes para a glória de Deus que se revela através delas - pois entre as "razões" [logoi] das coisas e Deus não há contradição. "Então, ao subir mais alto em sua ascensão, ele ouve os sons das trombetas. Daí, ele penetra no santuário interior do conhecimento divino. E ele não permanece lá, mas ascende para o tabernáculo não feito por mãos (Heb 9.11).  Aqui, aquele que se elevou através dessas ascensões encontra o término." [14]

O conhecimento de Deus mantém continuamente um caráter paradoxal; na medida em que alguém ascende no conhecimento de Deus, ele ascende na compreensão do Seu mistério incompreensível. "Este é o verdadeiro conhecimento do que se busca; este é o ver que consiste em não ver, porque o que se busca transcende todo conhecimento, estando separado por todos os lados pela incompreensibilidade como que por um tipo de trevas". [15] “Quando, portanto, Moisés cresceu em conhecimento, ele confessa que vê Deus nas trevas, isto é, então ele sabe que Deus é por natureza além de todo conhecimento e compreensão... A palavra divina em primeiro lugar proíbe que o Divino seja comparado a qualquer das coisas conhecidas pelos homens, pois todo conceito formado pelo entendimento aproximado (phantasia périleptikè) para tentar alcançar e definir a natureza divina somente consegue moldar um ídolo de Deus, e não O torna conhecido." [16]

Isto mantém a ascensão ao conhecimento de Deus permanentemente aberta.  Toda compreensão a respeito de Deus deve ter uma certa fragilidade, uma transparência, uma falta de fixidez, deve ela mesma nos incitar a revogar esta compreensão e nos estimular a outra, mas na sua direção.  Se tal compreensão permanece fixa em nossa mente, colocamos limites a Deus correspondentes aos limites desta compreensão em particular, ou até mesmo esquecemos de Deus, com toda a nossa atenção concentrada nesta compreensão particular ou nas palavras que O expressam. Nesse caso, nossa "compreensão" se torna um "ídolo", um falso deus.  A compreensão ou a palavra que usamos deve sempre tornar Deus transparente, como Aquele que não está contido nela, como Aquele que transcende toda compreensão e se revela ora sob um aspecto de Sua infinita riqueza e ora sob outro.

Dionísio, o Areopagita, diz: "É por isso que tantos permanecem incrédulos diante das explicações dos mistérios divinos, pois nós os contemplamos somente por meio dos símbolos perceptíveis com os quais eles estão conectados. O que é necessário é desvelá-los, vê-los em sua total nudez. Ao contemplá-los desta maneira, podemos venerar esta "Fonte de vida" que se derrama em si mesma e que permanece em si mesma, esta Potência única e simples, fonte de seu próprio movimento e atividade, que não sai de si mesma, mas que constitui em si o conhecimento de todos os conhecimentos, porque jamais cessa de contemplar a si mesma." [17] De fato, é através de palavras e significados que devemos sempre passar para além das palavras e significados. Esta é a única maneira de perceber a presença cheia de mistério de Deus. Se nos apegamos demais a palavras e significados - e isto ocorre quando nos mantemos sempre com as mesmas palavras e os mesmos significados - então estes se interpõem entre nós e Deus e nós  permanecemos neles, tratando estas coisas como se elas mesmas fossem Deus.

Por um lado, temos necessidade de palavras e significados porque elas são emprestadas das criaturas de Deus e é nelas que se manifestam Seus poderes e através delas que Ele desceu ao nosso nível; por outro lado, porém, devemos ir para além delas para que possamos ascender acima das criaturas de Deus e de Suas obras e nos encontrarmos diante do próprio Deus como fonte das mesmas. Mesmo as obras de Deus, experimentadas como poderes que fizeram e guiam as coisas criadas, são elas mesmas superiores a essas coisas criadas e, portanto, também a essas palavras emprestadas delas.

Por um lado, devemos ascender aos significados ainda mais sublimes das coisas e das palavras que as expressam - até mesmo as palavras da Sagrada Escritura. Por outro lado, devemos nos elevar para além destas à experiência do mistério de Deus e de Suas operações. Todas as coisas criadas e as palavras emprestadas delas são símbolos em comparação com as operações de Deus e Sua realidade Pessoal como sua fonte. [18] Mas dentre estes símbolos existem vários níveis de significados, níveis que são sobrepostos uns aos outros e - até alcançá-los - desconhecidos por nós. Devemos estar sempre ascendendo a mais significados destes símbolos e a mais níveis e, em última instância, devemos elevar-nos acima de todos os seus significados. Quanto mais usamos palavras de maior sutileza e quanto mais ascendemos a seus significados mais sublimes, maior é nossa compreensão de Deus como Aquele que transcende todas as coisas e como Aquele que - como única fonte de suas razões - é pleno de todo o potencial de profundidade e complexidade delas. É precisamente por esta razão que Ele nos convida a deixar todos os símbolos para trás, a abandonar as palavras e seus significados. Mesmo quando as palavras se referem às operações da economia de Deus, ainda assim devemos ascender em nossa compreensão de seus significados e passar continuamente para outros que são mais adequados e então deixá-los para trás também; pois mesmo estas operações em si são ilimitadas: "Seus julgamentos são inescrutáveis", diz São João Crisóstomo, "seus caminhos são insondáveis, sua paz ultrapassa toda compreensão, seu dom é indescritível, aquilo que Deus preparou para aqueles que o amam não foi percebido pelo coração do homem, sua grandeza não tem limites, seu entendimento é infinito. Serão todos estes incompreensíveis, ao passo que somente o próprio Deus pode ser compreendido? ... O herege responde que Paulo não está falando da essência de Deus, mas de sua governança do universo. Muito bem, então. Se ele está falando sobre a governança do universo, nossa vitória é ainda mais completa. Pois se sua governança do universo é incompreensível, tanto mais é o próprio Deus para além de nossos poderes de compreensão."[19]

Deus é a fonte de poder e luz que nos atrai sempre mais para o alto no conhecimento e na perfeição da vida. Ele não é um teto que põe um fim à nossa ascensão. Ele é o Supremo, mas Sua supremacia é uma que é sem fim e inesgotável na atração que Ele exerce sobre nós e os dons que Ele derrama sobre nós. Na realidade, nada disso é possível a menos que Deus seja pessoa e nosso relacionamento com Ele seja um relacionamento de amor. Uma natureza impessoal é, em muitos aspectos, finita. Caso contrário, ela não estaria sujeita a uma lei. O amor do ser humano, além disso, se desenvolve através da virtude e isso pressupõe a liberdade. Portanto, o progresso na união com Deus tem mais do que apenas o caráter de um conhecimento teórico. A compreensão é alimentada pelo livre esforço da virtude (e vice-versa). E no relacionamento com Deus, o homem recebe o poder que para isso. Vemos aqui novamente que o conhecimento apofático não é alcançado no encerramento do espírito em relação à realidade do mundo e às pessoas de nossos semelhantes. É em relação a elas que crescemos em virtude.

Tal é o ensinamento tanto de São Gregório de Nissa quanto de São João Crisóstomo. O primeiro diz: "Da mesma forma, a alma se move na direção oposta. Uma vez libertada de seu apego terreno, ela se torna leve e rápida para seu movimento ascendente, elevando-se desde baixo até as alturas. Se nada vem do alto para impedir seu impulso para cima (pois a natureza do Bem atrai a si aqueles que a buscam), a alma se eleva cada vez mais alto e sempre voará ainda mais alto - por seu desejo das coisas celestiais avançando para as que estão adiante (Fil 3.14), como diz o Apóstolo. Feita para desejar e não abandonar a altura transcendente pelas coisas já alcançadas, ela faz seu caminho ascendente sem cessar, sempre através de suas conquistas anteriores renovando sua intensidade para o vôo. A atividade voltada para a virtude faz com que sua capacidade cresça através do empenho; este tipo de atividade por si só não diminui sua intensidade pelo esforço, mas a aumenta." [20]

Somente através de um esforço de purificação é que a sutileza do espírito aumenta e é somente esta sutileza que pode renunciar a qualquer compreensão sobre Deus que já tenha sido alcançada, ou a tendência indolente de permanecer fixa nela, ou a tendência adicional de torná-la um ídolo e assim imobilizar o espírito com a adoração de sua realidade limitada. A alma é carregada para cima por uma sede contínua e "ora a Deus para que ele se mostre a ela". As coisas já alcançadas são sempre símbolos ou imagens do arquétipo e é em direção a um maior conhecimento do arquétipo que essa alma se esforça incessantemente. E o arquétipo é Deus como suprema realidade Pessoal. Os símbolos básicos são as coisas do mundo e estas estão sempre sendo penetradas pela luz proveniente de significados mais sublimes.

São Gregório de Nissa descreve esta ascensão em parte da seguinte forma: "Tal experiência me parece pertencer à alma que ama o que é belo. A esperança não cessa de atrair a partir da beleza que se viu até à que está mais alem, sempre acendendo o desejo pelo escondido através do que é constantemente percebido. Portanto, o amante ardente da beleza, embora recebendo o que é sempre visível como uma imagem do que deseja, ainda assim anseia por ser preenchido com o próprio selo do arquétipo. E isto é o que quer a súplica audaz que ultrapassa o limite do desejo: desfrutar da beleza, não através de espelhos e reflexos, mas face a face." [21]

Deus não pode ser capturado em noções porque Ele é vida ou, mais precisamente, a fonte da vida. Além disso, nenhuma pessoa também pode ser definida, porque cada pessoa é viva e, em certa medida, uma fonte de vida. Muito menos [pode ser definida], então, a suprema realidade Pessoal. Qualquer um que pensa que conhece Deus, o que significa dizer que ele limita Deus por suas próprias noções, está - do ponto de vista cristão - espiritualmente morto. É assim que São Gregório de Nissa interpreta as palavras em Êxodo 33.20: "Porque homem nenhum verá a mim e viverá". "As Escrituras não indicam que isso causa a morte daqueles que olham, pois como seria a face da vida a causa da morte para aqueles que se aproximam dela?  Pelo contrário, o Divino é, por sua natureza, vivificante.  No entanto, a característica da natureza divina é transcender todas as características. Portanto, aquele que pensa que Deus é algo a ser conhecido não tem vida, porque se desviou do Ser verdadeiro para o que ele considera pela percepção sensorial ter ser.   O Ser verdadeiro é vida verdadeira. Este Ser é inacessível ao conhecimento. Se então a natureza vivificante transcende o conhecimento, o que é percebido certamente não é vida.  . . .  Ele aprende com o que foi dito que o Divino é, por sua própria natureza, infinito, circunscrito por nenhum limite. Se o Divino é percebido como se estivesse limitado por algo, deve-se por todos os meios considerar juntamente com esse limite o que está além dele..." [22] "Portanto, não se levará em consideração qualquer coisa que limite a natureza infinita.  Não está na natureza do que não é limitado ser compreendido... .   Esta é verdadeiramente a visão de Deus: nunca estar saciado no desejo de vê-lo." [23]

Dionísio, o Areopagita é considerado como tendo dado mais ênfase ao conhecimento apofático do que qualquer outro Pai da Igreja.  No entanto, se lermos seus escritos com atenção, vemos que ele combina em todos os lugares o conhecimento apofático com o catafático. Isto decorre do fato de que ele também fala de um progresso espiritual naquele que conhece a Deus. No conhecimento que pode ser dado expressão, portanto, ele não vê meramente uma soma de afirmações intelectuais, em parte positivas e em parte negativas - como a teologia escolástica praticou estes dois modos de conhecimento - mas sim, e sobretudo, o conhecimento oriundo da experiência que recorre a termos de afirmação e negação apenas para se expressar, na medida em que a consciência do mistério de Deus está simultaneamente envolvida nas coisas que são conhecidas sobre Deus. Somente considerando que Dionísio, o Areopagita, separa o conhecimento que pode ser expresso do conhecimento apofático, os teólogos Católicos puderam censurar a tradição oriental por ter se apropriado apenas da teologia apofática de Dionísio, isto é, como uma teologia intelectual negativa. [24]

Em sua obra Os Nomes Divinos, Dionísio o Areopagita enfatiza particularmente os termos de afirmação no conhecimento racional. Mas mesmo aqui Dionísio não separa as afirmações das negações, pois estes termos afirmativos também ou se baseiam em uma experiência apofática que simultaneamente evidencia o mistério de Deus ou estão ligados à experiência de Seu mistério, pois, por um lado, todos os poderes que criaram e sustentam os vários aspectos do mundo provêm de Deus e, por outro lado, Deus é uma unidade superior a estes. "Portanto, no que diz respeito ao ser supra essencial de Deus - situado além da substância e do bem - nenhum amante da Verdade que transcende toda verdade buscará louvá-lo como palavra ou poder ou mente ou vida ou ser. Não. Ele está totalmente afastado de toda condição, movimento, vida, imaginação, opinião, nome, discurso, pensamento, concepção, ser, estabilidade, princípio, unidade, limite, infinidade, a totalidade da existência. Mas, posto que é verdade que enquanto substância do Bem absoluto ela é a causa de tudo, é preciso louvá-la como Providência, Princípio teárquico de todo bem." [25]

Nem os atributos de Deus são conhecidos apenas a partir de deduções racionais, mas a partir de Suas operações refletidas no mundo, através da participação nelas. A luz delas é projetada no mundo e, de certa maneira, experimentada. Isto não entra em conflito com a consideração de que Deus é a causa do mundo. Esta última consideração é a razão pela qual mesmo Dionísio, o Areopagita, não separa completamente o conhecimento racional do conhecimento apofático - uma separação que também não é feita pelos outros Pais - mas alterna falando sobre ambos, mesmo descrevendo a experiência destas operações nos termos de uma teologia intelectual de afirmação. Falando da beleza de Deus, diz Dionísio: "Quando se trata do Belo supra-essencial, ele também é chamado Beleza, por causa desta potência de embelezamento que dispensa a todo ser na medida própria de cada um e porque, do mesmo modo que a luz, ele faz brilhar sobre todas as coisas, para revesti-las de beleza, as efusões desta fonte iluminadora que brota dele mesmo." [26]

Dionísio fala sempre de uma certa participação em Deus. Mas, no que nos é comunicado por Deus, experimentamos o fato de não participar dEle ou, melhor, o fato de que, em Sua essência, Deus permanece para nós como Aquele em Quem não podemos participar. No entanto, através do que Ele nos comunica, Deus nos atrai cada vez mais alto para o mistério do conhecimento de Sua existência: "Observarás que muitos teólogos não louvaram (a Divindade) ape­nas chamando-a invisível e incompreensível, mas ainda inexplorável e inescrutável, porque aqueles que pe­netraram até sua infinitude secreta não deixaram nenhum traço. E, contudo, o Bem em si não perma­nece totalmente incomunicável a todo ser, porque de sua própria iniciativa e como convém à sua Bondade ele manifesta continuamente este esplendor supra-essencial que nele permanece, iluminando cada criatura proporcionalmente a seus poderes receptivos, e assim atrai mentes santificadas para o alto à sua possível contemplação, à participação e ao estado de se tornar semelhante a ele." [27]

Assim, em união com essa luz que está além da natureza, as mentes purificadas recebem ao mesmo tempo a consciência de que ela é a causa de todas as coisas; e isto é o que as incita a expressá-la nos termos afirmativos de alguns dos atributos que podem ser considerados como causas de qualidades do mundo. Com esta experiência apofática, portanto, tudo é dado: a experiência das operações de Deus; a consciência de Seu ser como Aquele que transcende toda acessibilidade; a impossibilidade de qualquer expressão plenamente adequada destas operações; a evidência de que elas são as causas das coisas e, como tal, podem ser expressas em termos análogos àqueles usados na descrição das qualidades das coisas criadas; e, simultaneamente, a necessidade de corrigir estas expressões intelectuais afirmativas, negando-as.

De qualquer forma, na experiência das operações de Deus (uma experiência que transcende o entendimento) também é dada uma experiência delas como causas das coisas da criação e, portanto, a necessidade de expressar o que é experimentado tanto em termos afirmativos como negativos, juntamente com a consciência de que as operações em si transcendem estes termos. Por si mesmos, os termos negativos são tão inadequados quanto os afirmativos. Uma síntese entre eles deve ser sempre realizada. Na base desta síntese, porém, se encontra uma experiência que transcende tanto os termos de afirmação quanto os de negação que a expressam. Deus possui em Si tanto o que corresponde aos termos de afirmação quanto o que corresponde aos termos de negação, mas Ele os possui de uma forma absolutamente superior aos termos em si. E isto é uma questão de experiência, não de mera especulação. "A ela devemos referir e  dela devemos afirmar todos os atributos do que existe, por ser Causa de todas as coisas, mas com mais razão se lhe devem negar todos eles, na medida em que ela ultrapassa todo ser. Não por supor que as negações se opõem às afirmações, mas antes por que a causa é de longe anterior e superior às privações, e está para além de toda negação, para além de toda afirmação." [28]

O fato de que tanto as afirmações intelectuais quanto as negações têm uma base na experiência das operações de Deus no mundo atenua, tanto no caso de Dionísio como no dos outros Pais da Igreja, a distinção muito rigorosa entre o conhecimento intelectual e o conhecimento apofático de Deus. O conhecimento intelectual do Logos é a participação em Sua atividade que dá razão e sustenta. Se a teologia Católica Romana reduz todo o conhecimento de Deus a um conhecimento à distância, a teologia oriental o reduz a uma teologia de participação em vários graus que são ascendidos através da purificação.

Embora Dionísio afirme, por um lado, que as negações são mais adequadas a Deus do que as afirmações, ele afirma, por outro lado, que Deus transcende as negações muito mais do que as afirmações. Isto deve ser entendido como significando que em Si mesmo Deus é a realidade mais positiva. Mas Sua suprema positividade transcende todas as afirmações. E esta é mais uma razão para não deixar de falar sobre Deus em termos afirmativos.

Tem sido enfatizado muito o fato de que Dionísio chama Deus de "trevas", como sendo Aquele totalmente desconhecido. Mas Dionísio diz que o termo "trevas" também é inadequado para Deus. Ele está além das trevas e além da luz, não em um sentido privativo, mas como transcendendo-as. Ele é as trevas super-luminosa."A Treva divina é a 'Luz inacessível' onde se diz que 'Deus habita' (l Tm 6,16). E se o próprio excesso de sua claridade a torna invisível, se o transbordamento de suas efusões luminosas e supra-essenciais a subtrai a todo olhar, é todavia nela que nasce todo aquele que é digno de conhecer e de contemplar Deus. E é pelo próprio fato de não o ver e de não o conhecer que este olhar verdadeiramente se eleva além de toda visão e de todo conhecimento. Nada sabendo dele, a não ser que transcende totalmente o que é percebido e concebido..." [29]

Deus não é cognoscível, e ainda assim aquele que crê pode experimentá-Lo de maneira sensível e consciente. Este é um fato positivo. O homem está submerso no oceano incompreensível, indefinível e inexprimível de Deus; no entanto, ele está ciente disso. Deus é a realidade positiva para além daquilo que conhecemos como positivo; contudo, em comparação com o mundo criado, Ele é uma realidade negativa para além daquilo que conhecemos como negativo. Dionísio afirma isso também em sua caracterização paradoxal de Deus, embora o paradoxo não signifique que cada parte cancele a outra, mas sim que ambas as partes são transcendidas: "este Ser supra-existente. Mente além da mente, palavra inefável..." [30]

São Simeão, o Novo Teólogo, fala mais sobre a visão de Deus por parte daqueles que estão purificados, como uma luz que brilha através de todas as coisas. Ele observa continuamente, porém, que esta luz está acima de todo entendimento e por causa de seu caráter infinito mantém aberta a perspectiva de um progresso interminável nela. Ao mesmo tempo, São Simeão experimenta Deus como pessoa e o vê em Sua qualidade como causa de todos os bens. A luz tem um significado em si mesma e ela dá significado a todas as coisas:
e ele brilhará mais que os raios do sol visível;
assim como meu Senhor brilhou em Sua Ressurreição
e eis que os homens, estando diante d'Aquele que os glorificou,
ficarão estupefatos, pelo excesso da glória
e o incessante crescimento do esplendor divino,
o progresso será verdadeiramente infinito, no decorrer dos séculos,
porque a cessação do crescimento rumo a este fim infinito
seria nada mais do que a apreensão do inapreensível
e que aquele com o qual ninguém pode se saciar
se tornaria o objeto de saciedade:
pelo contrário, ser preenchido por Ele e ser glorificado em Sua luz
será um abismo de progresso e um começo sem fim;
da mesma forma que, embora possuindo Cristo que foi formado dentro
deles,
eles estão diante dAquele que brilha com uma luz inacessível,
assim mesmo neles o fim se torna o princípio da glória,
e - para te explicar melhor meu pensamento -
eles terão o começo no fim, e o fim no
começo. [31]
Aquele que resplandece para aqueles que, através da purificação, alcançaram a perfeição do amor, é Cristo como pessoa. Somente de uma pessoa vem uma luz inesgotável, uma contínua novidade de significados e amor:
Tu, ó Cristo, és o Reino dos Céus; Tu, a terra prometida aos mansos; Tu, as terras de pasto do paraíso;
Tu, o salão do banquete celestial...
E Tua graça, graça do Espírito de toda santidade, brilhará como o sol em todos os santos; e Tu, sol inacessível, brilharás no meio deles e todos resplandecerão, na medida da fé, da ascese, da esperança e do amor, da purificação e da iluminação deles pelo Teu Espírito. [32]
Ele é a causa de todas as coisas, mas Ele mesmo não é uma delas. Os termos afirmativos e negativos se completam uns aos outros, mas todos são a expressão de uma experiência apofática, não de uma reflexão especulativa realizada à distância.
Verdadeiramente, Tu não és nenhuma dessas criaturas, mas superior a
todas as criaturas, pois Tu és a causa de todas as criaturas,
uma vez que Tu és o Criador de todas
e é por isso que Tu estás à parte de todas elas,
muito elevado, para nossa mente, acima de todas as criaturas, invisível, inacessível, inapreensível, intangível, escapando de toda compreensão, Tu permaneces sem mudança,
Tu és a própria simplicidade e, no entanto, és toda diversidade...
e nossa mente é totalmente incapaz de compreender
a diversidade de Tua glória e o esplendor de Tua beleza.[33]
São Gregório Palamas concedeu uma precisão final à tradição patrística no que diz respeito ao conhecimento de Deus. Ele não nega que a mente natural é capaz de conhecer a Deus, mas mantém que os filósofos se desviaram do uso normal desse conhecimento. [34] Falando do conhecimento natural guiado pela razão que não foi desviado de seu uso natural, ele diz: "A visão e o conhecimento de Deus através das criaturas é chamado de lei natural. É por isso que, mesmo antes dos patriarcas e dos profetas e da lei escrita, esta lei natural chamou e trouxe de volta a Deus a raça humana e mostrou o criador àqueles que não se desviaram do conhecimento natural, como os filósofos gregos. Pois quem, possuindo a mente e percebendo tantas distinções de substâncias, os impulsos equilibrados dos movimentos opostos uns aos outros... não conhecerá Deus como a partir de uma imagem e do que é causado?... ele também terá o conhecimento de Deus através da negação. Assim, o conhecimento das criaturas trouxe a raça humana de volta a Deus antes da lei [ter sido dada]..."[35]

Evidentemente, uma vez que o Filho de Deus veio na carne, a fé que Ele nos trouxe nos elevou a um conhecimento superior. Além disso, qualquer pessoa que recuse este conhecimento é repreensível. Mesmo no Antigo Testamento existia uma fé que transcendia a razão, e através da Encarnação do Verbo essa fé foi ainda mais fortalecida. "De fato, esta fé é uma visão além da mente. E a posse do que é crido é uma visão além dessa visão que está além da mente. Mas o que é visto e possuído através desta última visão, estando além das coisas sensíveis e inteligíveis, não é a essência de Deus..." [36]

Aquele que ascendeu a este estado conhece Deus como a causa de tudo, não tanto através de sua própria razão, mas através de uma experiência do Seu poder.

A visão de Deus na luz é mais elevada não apenas do que o conhecimento racional, mas também do que o conhecimento que vem através da fé. Assim, ela é também mais sublime do que o conhecimento que vem através da negação.  Pois seu apofatismo é uma visão que transcende todo tipo de conhecimento, mesmo o conhecimento negativo. Este apofatismo faz uso de palavras negativas a fim de expressar sua visão, mas a visão em si transcende estas palavras. Dirigindo-se a Barlaão, que afirmava que o mais elevado conhecimento de Deus é aquele através da negação racional, São Gregório Palamas diz: "A visão (contemplação), meu caro, é uma coisa e a teologia é outra, porque não é a mesma coisa dizer algo sobre Deus e alcançar e ver Deus.  Pois teologia negativa é também uma palavra. Mas as visões (contemplações) estão acima das palavras..." [37]

A visão e a experiência de Deus são expressas, porém, também em palavras negativas, não porque esta visão não é uma visão real dEle, mas porque ela transcende tudo o que as palavras expressam. Deus é expresso como "trevas" não porque Ele não é visto de maneira alguma, mas num sentido transcendente; que esta treva é Deus, no entanto, é algo que é conhecido. Palamas interpreta desta forma as palavras de Dionísio da Epístola a Doroteu: "A Treva divina é a 'Luz inacessível' onde se diz que 'Deus habita' (l Tm 6,16). E... se o trasbordamento de suas efusões luminosas e supra-essenciais a subtrai a todo olhar, é todavia nela que nasce todo aquele que é digno de conhecer e de contemplar Deus. E é pelo próprio fato de não o ver e de não o conhecer que este olhar verdadeiramente se eleva além de toda visão e de todo conhecimento. Nada sabendo dele, a não ser que transcende totalmente o que é percebido e concebido...[38]

Comentando estas palavras Palamas diz: "Aqui ele diz que a mesma coisa é tanto trevas quanto luz, que ele vê e não vê, que ele conhece e não conhece. Portanto, como é esta treva luminosa? 'Por causa da efusão de seu dom transcendente de luz', diz ele. Portanto, num sentido próprio, é luz, e num sentido transcendente (καθ' ύπεροχήν) é trevas, uma vez que é invisível para aqueles que quereriam se aproximar e vê-la através das obras dos sentidos e da mente." E a capacidade de entrar nessas trevas pertence àqueles que estão purificados das paixões egoístas, como Moisés que viveu apenas para Deus e para o cumprimento da vontade dEle para com o povo de Israel. "A teologia através da negação, no entanto, é própria para todo adorador de Deus... Mas aquele que alcançou essa luz vê, diz ele, e não vê. Como é que, ao ver, ele não vê? Porque, diz ele, ele vê além da visão. Assim, ele conhece e vê no sentido próprio e ele não vê no sentido transcendente (ούχ ορα ύπεροχικώς), uma vez que ele não vê através de alguma operação da mente e dos sentidos, pois ele transcendeu toda operação do conhecimento, alcançando além da visão e do conhecimento, isto é, ele vê e opera num nível superior ao nosso, como aquele que alcançou acima do homem e é deus pela graça; e, estando unido a Deus, ele vê Deus através de deus." [39]

Poderíamos resumir a tradição patrística sobre o conhecimento de Deus nos seguintes pontos:

a. Existe uma capacidade natural para um conhecimento racional de Deus que é tanto afirmativo quanto negativo, mas à parte da revelação sobrenatural e da graça, esta capacidade dificilmente pode ser mantida. Esta mesma capacidade também deve sua existência a uma evidência de Deus no mundo.

b. O conhecimento através da fé baseado na revelação sobrenatural é superior ao conhecimento natural da razão e fortalece, esclarece e expande este último. Este conhecimento contém dentro de si uma certa experiência consciente de Deus, como a de uma pressão exercida sobre as pessoas humanas pela presença pessoal de Deus. Esta experiência é superior àquela que provém do conhecimento natural e, como tal, é algo que transcende o conhecimento racional tanto afirmativo quanto negativo, embora ela recorra a termos afirmativos e negativos a fim de dar a si mesma uma certa expressão.

c. Através da purificação das paixões, o conhecimento que provém da fé se desenvolve em uma participação nas coisas que nos são comunicadas por Deus, que está acima do conhecimento. Este conhecimento pode ser chamado de ignorância [desconhecimento], ou conhecimento apofático de um nível superior ao do conhecimento apofático através da fé mencionado acima, porque este transcende tudo o que somos capazes de conhecer através dos sentidos e da mente, e envolve mais do que a mera pressão exercida pela presença de Deus como pessoa. Ele não exclui um conhecimento de Deus como causa ou a necessidade de expressá-Lo mesmo aqui em termos afirmativos e negativos, embora o conteúdo do que é conhecido transcenda o conteúdo de tais termos em muito maior medida do que o conhecimento dEle pela fé simples.

d. Aquele que tem esta visão ou experiência de Deus está ao mesmo tempo consciente de que, em essência, Deus transcende essa visão ou a experiência. Esta é a experiência mais intensa do relacionamento com Deus como pessoa, que como tal, não pode ser definido, sendo totalmente apofático.

e. Em geral, a experiência apofática de Deus é uma característica que dá definição à Ortodoxia em sua liturgia, sacramentos e sacramentais e é superior à experiência ocidental que é ou racional ou sentimental ou ambos de uma só vez. A experiência apofática é equivalente a um senso de mistério, que não exclui razão e sentimento, mas é mais profundo que eles.

Pe. Dumitru Staniloae,
teólogo Ortodoxo romeno
 

Conhecimento de Deus nas Circunstâncias Concretas da Vida

Se o conhecimento intelectual, tanto afirmativo quanto negativo, é mais o produto de uma reflexão teórica e é no conhecimento apofático que as pessoas crescem espiritualmente, então este último conhecimento é essencial para todos os cristãos em sua vida prática.

Todo cristão conhece Deus em Sua ação providencial pela qual ele é conduzido nas circunstâncias particulares de sua própria vida, às vezes sendo dotado de bens, às vezes sendo pedagogicamente privado deles. Esta última forma de conduzir São Máximos chama condução através do julgamento. Todos conhecem Deus através do apelo que Ele faz a pessoa, colocando-a em várias circunstâncias e em contato com várias pessoas que exigem que ele cumpra certos deveres e que testam sua paciência de maneiras difíceis. Todos conhecem a Deus nas reprimendas da consciência que sente pelos males cometidos e, por fim, cada um O conhece em seus próprios problemas e fracassos - temporários ou duradouros - em sua própria doença ou na daqueles próximos a ele que decorrem de certos males cometidos ou como meio de perfeição moral e fortalecimento espiritual; mas cada um também conhece a Deus na ajuda que recebe dEle para superar estas e todas as outras barreiras e dificuldades que se interpõem em seu caminho. Este conhecimento ajuda a conduzir cada homem em seu próprio caminho de perfeição.

É um conhecimento palpitante, pesado, doloroso e alegre; desperta dentro de nós nossa responsabilidade; ele aquece a oração e a aproxima de Deus.

Neste conhecimento, o nosso ser experimenta na prática a bondade, o poder, a justiça e a sabedoria de Deus, o Seu cuidado atencioso por nós, e o plano especial de Deus a este respeito.  Neste contexto, a pessoa humana experimenta uma relação de particular intimidade com Deus como suprema realidade Pessoal.  Neste conhecimento já não vejo Deus apenas como o criador e o guia providencial de todas as coisas, ou como o mistério que se faz visível a todos, preenchendo todos com uma alegria que é em maior ou menor grau a mesma em todos os casos; mas conheço-O no Seu cuidado especial em relação a mim, no Seu relacionamento íntimo comigo, no Seu plano pelo qual, através do sofrimento particular, exigências e orientação que Ele dirige a mim na vida, Ele conduz-me de uma forma especial ao objetivo comum. Este relacionamento íntimo que Deus tem comigo certamente não me afasta da solidariedade com os outros ou das obrigações que tenho para com os outros, em relação à família, à nação, ao meu lar, ao meu tempo, e ao mundo do meu tempo. Mas Deus dá-se a conhecer através dos apelos que dirige especialmente a mim, de modo a incitar-me a cumprir os meus deveres, ou através do remorso que sinto pelo não cumprimento de meus deveres especiais.

Este caráter palpitante do conhecimento de Deus, imbuído como ele é de temor e tremor, foi evidenciado vigorosamente por São João Crisóstomo. Na concepção de Crisóstomo, ele resulta em grande medida da experiência geral do terrível mistério de Deus. Mas este mistério é vivido especialmente nos estados de responsabilidade, consciência da pecaminosidade, necessidade de arrependimento, e nas insuperáveis dificuldades da vida. Os salmos do Antigo Testamento dão uma expressão particular a este conhecimento de Deus. Todas estas circunstâncias produzem uma sensibilidade e um refinamento no nosso próprio ser que o levam a perceber as realidades para além do mundo e a buscar pelo significado das mesmas.  Em tais circunstâncias, especialmente, o conhecimento de Deus é acompanhado pela responsabilidade, temor, e tremor. Elas tornam a alma mais sensível à presença de Deus, ou à presença de Deus que quer algo especial para mim, pois é o Seu plano especial para mim que as produz.  Não é em um estado de indiferença que Deus é conhecido. Ele não deseja ser conhecido em tal estado, pois a indiferença não me ajuda a atingir a perfeição. É por isso que Deus me coloca em circunstâncias como as descritas, e através delas Ele se faz transparente, em virtude do Seu interesse em mim.  É especialmente com este propósito em mente que Ele é o mysterium tremendum.

As circunstâncias difíceis que perfuram nosso ser como pregos nos impulsionam a uma oração mais profundamente sentida. E durante este tipo de oração, a presença de Deus é mais evidente para nós. Em geral, é bom que a oração seja feita em todas as circunstâncias, porque em si a oração é um meio de tornar a alma sensível à presença de Deus e de aprofundar nosso próprio autoconhecimento diante de Deus. São João Crisóstomo diz: "A oração está em primeiro lugar; depois vem a palavra de instrução. E isso foi o que disseram os apóstolos: 'Nos dedicaremos à oração e ao ministério da palavra' (Atos 6.4). Paulo faz isto quando ora no início de suas epístolas, para que, como a luz de uma lâmpada, a luz da oração possa preparar o caminho para a palavra. Se vos habituardes a orar fervorosamente, não precisareis de instruções de outros servos de Deus, porque o próprio Deus, sem intermediários, iluminará vossa mente." [40]

O estado de oração é uma condição na qual, através de um aumento da sensibilidade, percebemos Deus como um "Tu" que está presente. É precisamente por esta razão que na oração falamos diretamente a Deus, ao passo que, durante o tempo de sua própria reflexão, o crente se sente sozinho e fora de um relacionamento direto com Deus.

Neste estado de relacionamento direto com Deus, o poder de Deus também é sentido diretamente, especialmente quando aquele que crê solicita a ajuda de Deus, consciente de que tal ajuda somente pode vir dEle. Se há graus diferentes da presença que uma pessoa tem diante de nós, ela tem o grau mais intenso dessa presença quando está diante de nós como uma segunda pessoa e quando conversamos com ela. Além disso, esta presença alcança uma intensidade ainda maior quando sentimos que aquela pessoa está aberta ao nosso apelo a ela. É por isso que Deus, a Quem nos dirigimos em oração na convicção de que Ele nos ouve e está determinado a nos ajudar, é sentido no grau de presença mais pronunciada diante de nós.

São João Crisóstomo interpreta isto da seguinte forma: "Não estou falando de uma oração oferecida de forma leve e descuidada, mas de uma oração fervorosa, que procede de uma alma aflita e de um espírito contrito. Este é o tipo de oração que sobe até o céu... Assim também acontece com o espírito humano. Enquanto desfrutar de plena liberdade do temor, ele relaxa e se dispersa. Mas quando as circunstância de baixo o aflige e o pressiona com força, ele envia para o céu orações puras e intensas. Assim, para que saibam que as orações que são proferidas em tempo de aflição têm a melhor chance de serem ouvidas, ouçam o que o profeta diz: 'Na minha angústia clamei ao Senhor, e ele me ouviu' (Sl 119.1). Reanimemos, portanto, o fervor da consciência, aflijamos a alma com a lembrança de nossos pecados, aflijamo-la, não para atormentá-la, e sim para dispô-la de modo a ser ouvida, torná-la sóbria e vigilante e assim permitir-lhe atingir os céus. Pois nada afasta tanto o descuido e a negligência quanto a dor e a aflição fazem. Elas concentram inteiramente o espírito, fazendo-o voltar a si." [41] Então apelamos diretamente à fonte última de todos os poderes, que é experimentada como pessoa, que não pode permanecer indiferente. E esta fonte de todos os poderes deseja que você se dirija a ela com todo o seu poder. A plena relação entre pessoa e pessoa é uma relação de poder no bom sentido da palavra, uma relação de sentimento que é contrária à indiferença e à negligência.

Deus faz-se conhecido para nós em todas as nossas dificuldades se nos esforçamos para ver nossas transgressões que são os fundamentos das mesmas. Na maioria das vezes estas dificuldades surgem porque nos esquecemos de ver tudo o que temos como dons de Deus e, como uma consequência direta, de usá-los nós mesmos como dons em relação aos outros. Pois Deus quer nos tornar também doadores de Seus dons, para que possamos aumentar nosso amor para com os outros ao agirmos assim. Simeão Metafrastes diz que quando aqueles que te louvavam te abandonaram, e te caluniam e perseguem, tu deves pensar que "estas coisas vieram sobre ti pelo justo julgamento e mandamento do Deus que ama a humanidade, porque tu te mostraste ingrato a ele. Pois as coisas que tu deste a teu Benfeitor são as mesmas que tu recebeste. A medida que tu usaste para dar será a medida usada quando receberes e justo é o julgamento de Deus realizado no teu caso, alma ingrata e insatisfeita que tu és, porque te esqueceste das bênçãos de Deus. Pois tu esqueceste os grandes e ricos dons que teu Benfeitor te deu". [42] Quando as coisas vão bem conosco, portanto, e também quando vão mal, devemos pensar na responsabilidade que temos por nossos irmãos perante Deus. Em ambas as situações isso mantém o pensamento da realidade Pessoal de Deus vigilante em nossa consciência, nos preserva em relação a Ele e nos faz dirigir nosso pensamento a Ele. Este pensamento, além disso, aprofunda nossa consciência dEle. Na primeira situação, quando Deus nos dá coisas boas, Ele nos convida a nos unirmos em amor com Ele e com os outros. Na outra situação, Ele nos admoesta precisamente porque não temos feito isso, e nos aconselha a nos arrepender e a fazer no futuro o que não fizemos no passado. Em ambos os casos Deus está falando conosco, chamando-nos a responder a Ele por nossas obras.

Deus se dirige a nós e desperta nossa responsabilidade de uma forma extremamente penetrante através dos rostos dos necessitados. Ele mesmo disse isto (Mt 25.31-46). Deus enfatiza o valor incomensurável do homem como homem diante dEle; este valor é tão grande que Deus se identifica diretamente com a causa do homem. Em tais casos, devemos considerar que, assim como Deus nos pede para ajudar os outros, também Ele pede a outros que nos ajudem quando estamos precisando de ajuda. "Ó minha alma, ajude aquele que sofre injustiça, para que tu possas escapar da mão dos injustos. Não demore em socorrê-lo para que Deus também possa te ajudar a ser libertada das mãos daqueles que te afligem." [43]

Em toda pessoa pobre, oprimida ou doente, é Cristo que nos encontra, pedindo - através de uma descida - a nossa ajuda. Na mão estendida dos pobres está a mão estendida de Cristo; na sua voz fraca ouvimos a voz fraca de Cristo; por causa da carência e humilhação em que o mantemos, seu sofrimento é o sofrimento de Cristo na cruz, que prolongamos. Em todas as coisas Deus desce até nós e se revela para nós. É esta mesma descida que torna evidente Seu mistério que ultrapassa todo entendimento, e torna evidente Seu amor que ultrapassa todos os amores do mundo. Todas as circunstâncias e pessoas através das quais Deus nos fala são apelos dEle, imagens vivas e transparentes dEle; o Deus que é simples desce até nós em uma infinidade de formas e situações, adequadas em todas as situações e formas de nossas vidas. E ainda assim, embora conhecido através de todas estas coisas, Seu mistério, no entanto, permanece além de todo entendimento. O mistério apofático de Deus se impõe mais dolorosamente no sofrimento do justo. Jó é atormentado não só pela dor, mas também por não compreender suas causas. Através do exemplo de Jó, Deus mostra que o amor por Ele e o amor pelo próximo deve passar pela prova do fogo do sofrimento.

Em sua explicação da visão que o profeta Isaías teve sobre os serafins que cobriam seus rostos ao olhar para Deus (Is 6.3) São João Crisóstomo diz: "Se, portanto, assegura o profeta que eles não podem sustentar a visão de Deus, mesmo em sua condescendência, não afirma outra coisa senão que eles não suportam o conhecimento claro, perfeito e compreensivo, e não ousam olhar fixamente sua essência tal qual é em sua integridade e pureza, nem mesmo em Sua condescendência." [44]

Esta experiência existencial de Deus é combinada com a experiência apofática dEle, embora dê mais ênfase ao caráter comovente e pessoal de Deus em seu relacionamento conosco do que a experiência apofática que vê a luz de Deus como num tipo de inundamento do mundo.  A experiência existencial também se combina com o conhecimento de Deus como criador e guia providencial do mundo (conhecimento catafático). Como resultado, ela torna Deus conhecido nestas capacidades de uma forma mais íntima para o homem, mas ao mesmo tempo a experiência existencial é ampliada por meio do conhecimento catafático. A combinação destes três tipos de conhecimento pode ser vista no caso de Jó ou em muitos lugares nos Salmos. Para Jó, que deseja entender por que Deus lhe enviou seu sofrimento, Ele mostra Suas maravilhas da natureza para que Jó possa aceitar o mistério de Seus atos que transcendem todo entendimento. O salmista também, conhecendo a partir de tantas circunstâncias de sua vida a presença de Deus que transcende o entendimento, louva-O ao mesmo tempo pela grandeza de Seus atos na natureza.

Através destes três tipos de conhecimento, o interesse pessoal que Deus demonstra pelo homem, juntamente com Seu mistério e Sua grandeza que estão além do entendimento, vêm à tona. Através dos três, Deus é conhecido como Aquele que ama de acordo com a medida de nosso amor por Ele e por nosso próximo.

Traduzido do livro 'Orthodox Dogmatic Theology: The Experience of God, Vol. 1: Revelation and Knowledge of the Triune God' (Capítulo VI)

Notas

1. O teólogo grego Christos Yannaras também nota a distinção entre as teologias negativas ocidentais e orientais, e ele inclui tanto as teologias negativas como as afirmativas do Ocidente dentro do quadro geral da teologia racional ocidental. Yannaras, entretanto, não atribui nenhum valor à teologia afirmativa, ao passo que nós reconhecemos uma certa necessidade para expressar a experiência apofática, embora estejamos sempre cientes de sua insuficiência. Yannaras diz: "É evidente aqui que a atitude apofática não pode ser identificada com a teologia das negações. Historicamente, esta identificação foi feita no apofatismo ocidental. Ela tem como pressuposto o conhecimento natural-afirmativo e sua negação simultânea...". De l'absence et de l'inconnaissance de Dieu (Paris 1971), pp. 87-88,
2. Oração 28.6, PG 36.32C-33A; ET E. R. Hardy/C. Richardson, Christology of  the Later Fathers, LCC 3 (Philadelphia 1954), pp. 139-40.
3. Oração 28.3, PG 36.29A-B: ET Hardy/Riehardson, pp. 137-38.
4. Oração 38.7, PG 36.317B-C; ET C. G. Browne/J. E. Swallow, NPNF 2ª Série, vol. 7, p. 346.
5. Oração 28.2,   PC 36.28Λ-Β; ET Hardy/Richardson, pp. 136-37.
6. Oração 38.7, PG 36.317C-D; ET Browne/Swallow, pp. 346-47
7. Capítulos Gnósticos 1.48-49, PG 90.1100C-D.
8. Tanto Lossky como Yannaras explicaram a teologia apofática oriental pelo ponto de partida do caráter pessoal de Deus. O que distingue a nossa posição da deles é que não nos retemos exclusivamente a um conhecimento de Deus que é apófático, mas que o consideramos como uma combinação do apófático e do catafático. O problema se estende por todo o Yannaras, De l'absence et de l'inconnaissance de Dieu, e cf. Lossky, The Mystical Theology, pp. 23-43.
9. Grande Oração Catequética 3, PC 4S.17C-D; ET W. Moore/H. A. Wilson, NPNF 2ª série, vol. 5, p. 477.
10. A Vida de Moisés, PG 44.380A; ET Malherbe/Ferguson [= 169], pp. 96-97.
11. Ibid. PG 44.377A; ET Malherbe/Ferguson [= 163], p. 95.
12. Ibid. PG 44.381A-D; ET Malherbe/Ferguson [= 174-77], pp. 98-99.
13. Ibid. PG 44.38GA; ET Malherbe/Ferguson [= 169], pp. 96-97.
14. Ibid. PG 44.377C-D; ET Malherbe/Ferguson [= 167], p. 96.
15. Ibid. PG 44.377A; ET Malherbe/Ferguson 163], p. 95.
16. Ibid. PG 44.377A-B; ET Malherbe/Ferguson [ = 164-65]. pp.95-%.
17. Carta 9.1, PG 3.1104B-C, ET Cohn Luibheid/Paul Rorem, Pseudo-Dionysius The Complete Works (NY/Mahwah, 1967), p.281.
18. Dionísio o Aeropagita, Os Nomes Divinos 2.8, PG 3.645C; ET Luibheid/Rorem, p. 64: " pois os causados trazem dentro de si apenas tais imagens das suas fontes de origem, tanto quanto lhes for possível...”
19. João Crisóstomo, A Natureza Incompreensível de Deus 1.5, PG 48.706; ET Harkins [ = 1,30-31], p. 64.
20.  A Vida de Moisés, PG 44.4Q1A-B; ET Malherbe/Ferguson [= 224-26], p. 113.
21. Ibid. PG 44.401D404A; ET Malherbe/Ferguson [= 231-32], pp. 114-15.
22. Ibid. PG 44.404A-B; ET Malherbe/Ferguson [= 234-36], p. 115.
23. Ibid. PG 44.404CD; ET Malherb/Ferguson [= 238-39], p. 116.
24. M. J. Le Cuillou, “Reflexions sur ia theologie trinitaire a propos de quciques livres anciens et rficents,”  Istina  17 (1972) p. 460.
25.  Os Nomes Divinos  1.5, PG 3.593C-D; ET Luibheid/Rorem, p. 54.
26. Ibid. 4.7, PG 3.701C; ET Lubbeid/Rorem, p. 76.
27. Ibid. 1.2, PG 3.588C-D; ET Luibheid/Rorem, p. 50.
28.  The Mystical  Theology  122, PG 3.1000B, ET Luibheid/Rorem, p. 265
29.  Carta 5, PG 3.1073A; ET Luibheid/Rorem, p. 265.
30.  Os Nomes Divinos 1.1, PG 3.588B; ET Luibheid/Rorent, p.50.
31. Simeão o Novo Teólogo,  Hino  1.175-190, ed. J. Koder,  SC  156, pp. 170/172: ET George A. Maloney, Hymns of  Divine Love by Saint Symeon the New Theologian  (Denville, NJ, 1976), p. 15.
32. Simeão o Novo Teólogo,  Hino 1.132-133,141-146, ed. Koder, p. 168; ET Maloney, p. 14.
33. Simeão o Novo Teólogo,  Hino 15.71-79. ed. Koder, p. 282; ET Maloney, pp. 52-53.
34. Defesa dos Santos Hesicastas  1.1.19-20, ed. P. Christou, Γρηγορίοϋ του Παλαμα. Συγγράμματα, vol. I (Thessalonike, 1962), pp. 382.20-38424; ET J. Meyendorff/N. Gendle,  Gregory Palamas, The Triads  (NY/Mahwah, 1983), pp. 27-28,
35. Defesa dos Santos Hesicastas 2.3.44, ed. Christou, vol. 1, p. 578.4-11,19-20, 21-24.
36. Defesa dos Santos Hesicastas 2.3.41, ed. Christou, vol. 1, p. 574.25-29.
37. Defesa dos Santos Hesicastas 2.3.49, ed. Christou, vol. 1, p. 582.3-6.
38. Carta 5 PG 3.1073A.
39. Defesa dos Santos Hesicastas 2.3.51-52, ed. Christou, voL 1, pp. 583.31-584.4,
14-23.
40.  A Natureza Incompreensível de Deus 3.6, PG 48.725-726; ET Harkins [= 3.35], p. 11.
41. Ibid. 5.6, PG 48.744; ET Harkins [ = 5.46-47], p. 157.
42. Simeão Metafrastes, Κατάνυζις (Athens, 1875), p. 381.
43. Ibid. p. 150.
44. João Crisóstomo, A Natureza Incompreensível de Deus, IV; P.G. 48, col. 731.