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terça-feira, 7 de agosto de 2018

O hesicasmo de São Gregorio Palamas e o ascetismo oriental


Na primeira parte desta introdução tentarei expor as teses básicas do pensamento de São Gregório Palamas sobre o hesicasmo, como elas são desenvolvidas nas Tríadas e abordarei os seguintes tópicos:

1. O método da oração e seu significado antropológico
2. O propósito da oração e seu perfeito cumprimento.
3. E suas pressuposições e condições teológicas.

Na segunda parte, especialmente, tentarei comparar e interpor as teses anteriores com algumas características da espiritualidade hindu. O tema básico é a demonstração se a experiência de Deus, que fala São Gregório Palamas, é exclusiva para o cristianismo, ou há experiências paralelas em outras tradições religiosas. Tem sido apontado que as duas experiências do cristianismo e do hinduísmo alcançam a extrema perfeição. Um escritor católico romano contemporâneo escreve categoricamente que: Se o cristianismo não pode aderir à experiência espiritual hindu à luz de uma verdade superior, a conclusão é que o Advaita  contém e supera a verdade do cristianismo e trabalha em um nível superior do nível do cristianismo. Voltaremos a este assunto abaixo.

No final do século XIII e na primeira metade do século XIV, o ideal de hesicasta atingiu o seu auge e se relacionou a um método técnico, onde a memória do nome de Jesus é acompanhada de uma vigilância disciplinada da respiração. São Gregório Palamas (1296-1359), em sua obra "sobre os santos hesicastas" e em outros escritos seus, expôs o fundamento teológico e antropológico da oração hesicasta e destacou seu valor como um meio que possibilita o homem de entrar em uma união e kinonia (comunhão, conexão) com Deus.

O ascetismo da oração começa com a metanoia e conecta-se inseparavelmente aos mandamentos evangélicos e o trabalho pelas virtudes. No que se refere ao método técnico de oração, Gregório enfatiza que é necessário que a oração delimite seu nous dentro do corpo, porque "nosso corpo é o templo do Espírito Santo em nós". (Cor 6,19). Assim, já que o Espírito Santo habita no corpo humano, não é desprezível para o nous que Ele habite o seu interior. Ele ainda enfatiza que o asceta pode alcançar a desejada união com Deus dentro de si, porque "a Realeza incriada de Deus está dentro de nós" (Lc 17,21). São Gregório persiste na antropologia bíblica sintética e sustenta que a psique e o corpo do homem são predestinados à imortalidade. Mau são os logismoi carnais (pensamentos) e o fato de que o nous pode ser aprisionado por eles. O asceta deve libertar seu nous da tirania deles. No caminho da luta, as dinamis (poderes e energias) da psique e do corpo são limpas, purificadas e metamorfoseadas, mas não anuladas. A apatheia (ausência de paixões maus e perversas) é alcançada com a substituição da lei do pecado que se instala nos membros do homem pela observação e vigilância da nous.

O coração é definido por Gregório como o lugar do nous. Este é o centro da parte logística da psique e o primeiro órgão logístico carnal. Seguindo a terminologia de São Dionisio o Aeropagita dos três movimentos do nous, o Santo fala sobre dois dos três movimentos do nous: o direto que depois da queda é enganoso e induz ao erro e o cíclico que é natural, inequívoco e inconfundível. O primeiro provoca a propagação do nous para fora e o segundo faz com que o nous retorne a si mesmo e opere e aja corretamente. O propósito da oração de Jesus é a união com Deus, é por isso que a ajuda da Jaris divina (graça, energia incriada) é essencial.

Um meio externo que nos ajuda a retornar o nous em si mesmo é a reunificação cíclica do corpo. Assim a atenção é fixada no tórax ou no umbigo e a força e energia do nous desce ao coração. Deste modo, a aquisição do movimento cíclico do nous e a obtenção da "reunificação unitária uniforme" é auxiliada, porque "o homem interior caiu aprisionado e assimilou às imagens externas depois da queda". Mas geralmente o método corporal para a oração não é essencial. O mesmo resultado pode ser alcançado de várias maneiras. Mas seja qual for a técnica externa, a ênfase especial é sempre dada à participação do corpo na oração, para que a santificação do homem seja plena pelo Deus encarnado.

Até agora, à primeira vista, alguns pelo menos, pode encontrar paralelos extraordinários entre o exercício da técnica hesicasta e a técnica hindu. Tendo destituído tudo e tendo se purificado com ascese (yama e niyama), então o buscador do brahmavidya (da gnosis do Ser Supremo) aprofunda-se em seu interior. Ele também usa o método psicossomático pela técnica clássica do yoga, ou seja, pela atitude do corpo em combinação com a atenção da sua respiração (panayama), de modo que a auto-concentração seja alcançada. Isso pode ser acompanhado pela recitação de um mantra curto. O objetivo é alcançar o coração, porque a "verdade", isto é, a experiência do Vedanta (anulação de qualquer dualidade) está escondida ali. Aqui, também, a necessidade do conselho de um guia (guru) para o iniciante é enfatizado. O que chama a atenção é que o importante na meditação não é a técnica, psicossomática ou não, mas seu conteúdo e propósito. Da mesma forma, como no hesicasmo, aqui também é certificada uma analogia entre o agente espiritual e o somático (corpóreo) e o valor deste último na busca pela theoria (contemplação).

Quanto à perfeição da oração de Hesicasta, São Gregório assegura que ela é coroada com a união com Deus dentro da visão da Luz Incriada. O Santo defende os Hesicastas contra a acusação de que eles recebem visões demoníacas, dizendo que a Luz é divina, incriada e deifica os dignos e merecedores com sua comunhão. O homem, cheio de luz, torna-se a mesma luz e vê a luz incriada dentro e fora de si.

Experiências em abundância são escritas na Índia dos Unipanisads ao Tantrismo. Os participantes dessas experiências percebem-nas como "súbito esplendor divino" ou como visão da luz interior (antah yoti). A luz é principalmente a imagem do atman (isto é, do eu humano), bem como do atman (Supremo Absoluto). Uma sagrada escritura hindu diz: Guie-me do falso para o verdadeiro, das trevas para a Luz e da morte para a Imortalidade!

Além disso, há muitas coleções e textos sagrados que implicam que o homem se torna Deus. Vamos examinar, por exemplo, o seguinte: Aquele que conhece o supremo Braham tornou-se o mesmo Braham, porque esse homem desapareceu na glória, este que queria conhecer a glória; assim como a borboleta que caiu na chama e se tornou uma chama e desapareceu.

Mas, vamos ver separadamente o conteúdo do hesicasmo e o da meditação hindu.

A oração Hesicasta é por excelência a imploração e, como tal, baseia-se no ensinamento dogmático da Igreja Ortodoxa. É verdade que a teologia não pode ser separada da gnosis e da experiência, como sustenta Floroski. Vice-versa também é válido: a vida e a experiência espirituais ortodoxas são baseadas no "dogma ortodoxo, na doxa = glória correta". Como Floroski corretamente aponta: todo o ensinamento de São Gregório Palamas pressupõe a energia incriada e o ato do Deus Pessoal. O Deus que cria do nada, e a separação do abismo que existe entre o criado e o incriado. O discernimento de São Gregório entre essência e energia resulta logicamente do fato de que Deus é pessoal. Deus permanece absolutamente transcendental sobre a Sua essência, mas cria, mantém, metamorfoseia e apocalipta (revela) através de Suas energias. Basicamente, a theosis do homem, da qual falamos antes, é uma doação do Deus Pessoal. O homem foi criado com destino ou finalidade sua theosis. E apesar disso, o homem na theosis permanece criado e o Deus permanece o que ele é, incriado.

Da mesma forma, a espiritualidade hindu é baseada em sua própria "teologia", cosmologia e antropologia. Mas, ao contrário do cristianismo, nas religiões hindus, o conceito de Deus, o Criador, está ausente. A gênese do mundo é mais emanação do que criação. O cosmos de uma maneira emana do Princípio Divino, movido por uma força centrífuga. Assim, não há discernimento claro entre os dois. Por um lado, os antigos Upanisads eram claramente panteístas, por outro lado, os posteriores imaginavam uma transcendência divina metacósmica, de modo que se torna exocósmica (exo, fora, exterior), a única Realidade que exclui todas as outras. Portanto, por causa do caráter essencialmente impessoal do Absoluto, o mundo tende a se fundir com ele. O axioma básico é: "Se houvesse algo que não é Deus, Deus não seria Deus". É verdade que em nenhum lugar dos Upanisads o panteísmo foi totalmente superado. Como Zaehner corretamente observa, nos Unipanisads "o monismo, o panteísmo e o monoteísmo coexistem e são considerados reciprocamente irreconciliáveis". O Absoluto Impessoal Hindu pressupõe e condiciona a ausência de qualquer contrário dentro do próprio Absoluto. Para o hindu "o infinito é um oceano de quietude, sem horizonte e onda que seria possível medir ou encontrar orientação". Basicamente a ausência do oposto significa superar cada qualidade, essencialmente a do bem e do mal e finalmente a do Ser, de modo que o Absoluto desmorona de certo modo dentro do Não-Ser. Portanto, conclui-se que o dialogismo ou meditação hindu difere muito do hesicasmo cristão, porque imagina um Princípio de Causa impessoal e, por essa razão, a imploração ou invocação não é com o mesmo conceito e significado que o Cristianismo. Sabe-se que na meditação predomina o relaxamento do corpo, enquanto na oração cristã o corpo e o nous estão em completa tensão durante a sua presença diante do Deus Pessoal.

Todos os itens acima nos levam ao próximo ponto. A oração Hesicasta é essencialmente cristocêntrica. É realizada pela imploração do nome do Salvador Jesus Cristo e é uma busca de união com Ele. O argumento central de São Gregório Palamas contra seus acusadores é exatamente que a luz incriada de Cristo que os hesicastas vêem e participam, é a mesma luz (incriada) que foi revelada por Ele aos seus discípulos no Monte Tabor, a luz incriada da Transfiguração que se revelará aos santos durante sua segunda Presença. A condição básica do ensinamento de São Gregório Palamas, e é verdade que é da tradição patrística, é que sem fé na divindade de Cristo, a verdadeira visão de Deus não pode acontecer. O Ancião Sofrônio declara categoricamente que os Apóstolos se tornaram dignos de entrar na esfera da Luz Divina incriada na Transfiguração no Monte Tabor, uma vez que anteriormente confessaram a divindade de Cristo. Ele também enfatiza que a mesma visão Divina testifica sobre a divindade de Cristo, assim como isto aconteceu com o apóstolo Paulo no caminho de Damasco. Para São Gregório, também todas as visões da luz do Absoluto que são testemunhadas nas Escrituras são cristocêntricas. Deste modo, ele interpreta o Novo e o Antigo Testamento. De acordo com o ensinamento de São Gregório Palamas, a oração Hesicasta é inseparável da história da salvação, na qual o Logos Divino foi encarnado para nossa cura e salvação. É claro que a meditação ou dialogismo hindu não têm um conteúdo desse tipo. Não é orientado para um Deus pessoal e não constitui o clamor pela redenção com significado e sentido cristão.

Como já assinalamos, o fruto da oração hesicasta para São Gregório Palamas é a união do homem com Deus e a conseqüente theosis ou glorificação do homem (pela Jaris incriada). Isso ocorre com uma extensão ou êxtase do nous superior à sua natureza. Mas Deus também se move em direção ao homem, envolvendo-o com sua Jaris em um modo de êxtase ou extensão condescendente de agapi (amor energia incriada), sem por isso deixar sua inefável, invisível luz incriada, na qual ele habita eternamente. Seguindo o pensamento de São Dionísio, o Aeropagita ele escreve: "Por um lado, o nosso nous sai de si mesmo e, portanto, une-se a Deus. Por outro lado, Deus também sai de si mesmo e se une a nós por condescendência... ".

Deus energiza e age livremente e chama o homem a responder em uma práxis de sinergia (cooperação de vontades). Nisto vemos um relacionamento dinâmico de Deus e homem, pessoa para Pessoa ou face a face. Durante a theosis do homem a união não anula o discernimento de Deus e do homem. (Tal como na encarnação, assim também na theosis, a união torna-se firme, inalterável, indivisível e inseparável). Além disso, quando essa união é alcançada, a autognosía ou autoconhecimento do homem não apenas não desaparece, mas adquire uma percepção espiritual clarividente sem precedentes: a visão de uma terrível contradição entre ele mesmo como uma criação caída e o Deus Misericordioso. São Gregório escreve: "Vença as fantasias e imaginações más, os pensamentos delas ... e sempre piedosamente com devoção e com amor a Deus ... coloque-se como 'surdo e mudo'... diante de Deus ... assim você se constrói em criação sublime ..."

[...]

Com a energia incriada e a condução da luz incriada, "ele é conduzido sobre montanhas eternas" (Sl 75) e admiravelmente se torna um visionário de coisas hipercósmicas. Então, com a percepção indescritível, ele ouve "logos, verbos indescritíveis" e "vê os invisíveis ... como um anjo verdadeiro, convertido como outro Deus na terra. E este não é o fim. Além disso, torna-se um intermediário entre Deus e a criação ... ". Desta forma, a "semelhança" é realizada com precisão e atesta que a verdadeira obra do homem deificado é a intercessão entre a criação e Deus. Esse crescimento ampliado ou ontológico é a perfeição infinita e a realização do homem como pessoa. A mesma experiência também expressa o Ancião Sofrônio, escrevendo que através da energia incriada desta Luz Incriada dentro do homem metanoizado (arrependido e convertido) brota uma flor admirável: A Pessoa - Hipóstase.

Pelo contrário, no dialogismo ou na meditação oriental, o sábio que retorna ao seu eu interior é libertado de todas as coisas, inclusive de si mesmo. O propósito da meditação é alcançar a autoconsciência ou o conhecimento da "realidade pura". Mas isso finalmente significa que o "Ego ou eu" da pessoa que entra no dialogismo não existe mais; seu "ego" é o "Ego" do Absoluto.

Assim como a água limpa que é lançada na água se torna uma com ela, o mesmo acontece com o eu que conhece a fusão silenciosa.

É uma tensão que tem como finalidade "anular as flutuações da consciência". Ao contrário do hesicasmo onde a pessoa deificada é introduzida em um novo relacionamento com o Salvador Deus, a relação Pai e filho, noiva e Noivo, nova criação e Criador, enquanto que no dialogismo ou meditação hindu ocorre o cancelamento de qualquer relacionamento, incluso o relacionamento com o Absoluto. A morte da pessoa humana é descrita da seguinte maneira: "Finalmente, o Arunachala (outro nome do Absoluto) não é mais Pai, nem Amante, nem Criador. Existe apenas Si mesmo. Quem mais falta para que ele pudesse ser Pai, Amante ou Criador?" Isto significa que o hinduísmo tem um caráter negativo da fuga ou saída do homem do mundo, do corpo e finalmente de si mesmo.

Mas qual é a natureza da luz contemplada pelo asceta hindu? Em seus escritos, São Gregório discerne entre diferentes tipos de luzes. Além da luz divina e deificante, há também a luz natural do nous humano (do espírito do coração psicossomático ou da psique humana) e a luz demoníaca. Referindo-se à luz intelectual, o Santo afirma que o nous criado "como imagem de Deus" tem uma natureza iluminada e, portanto, pode ser visto como luz com meios naturais. No que se refere à última luz nos mostra que ela vem do engano demoníaco e pode ser discernida da luz incriada da Jaris por suas "energizações, operações e atos". Acima de tudo, não traz "energia bondosa" para a psique, nem paz, nem alegria, nem humildade. Apesar do nosso respeito pelo ascetismo oriental e pela força dos argumentos que desenvolvemos anteriormente, a possibilidade da visão da primeira luz, isto é, da luz divina incriada, nesta tradição (hindu), é excluída. Não parece ser a luz incriada do Autor, Deus Criador. Em relação às duas últimas possibilidades, é possível que a seleção não seja tão clara. É interessante notar aqui que o escritor Aldous Huxley para adquirir a experiência religiosa Védica, foi necessário tomar o narcótico mescalina. Assim distingue-se que esta experiência pode ser obtida por meios técnicos naturais. Também seria relativo aqui que o catálogo de virtudes do yoga não se refere à humildade, nem ao orgulho ou arrogância como um impedimento à experiência.

Geralmente, com tudo o que foi dito acima, a solução para o dilema que os teólogos ocidentais estão combatendo é dada. A experiência do ascetismo hindu não é apenas inferior à experiência do hesicasmo, mas tem origens e conteúdos completamente diferentes. Pressupõe e condiciona uma teologia radicalmente oposta ou, antes, pressupõe uma ausência de teologia e a existência de uma cosmologia e antropologia diferentes. Os aparentes paralelos permanecem no nível do físico e do técnico. Mas há um desvio da orientação espiritual que é tão grande e distante quanto a diferença entre o criado e o incriado.

Arquimandrita Zacarías Doutor da Universidade de Thessaloniki


Traduzido de http://www.logosortodoxo.com/san-gregorio-palamas/el-hisijasmo-de-san-gregorio-palamas-y-la-ascetica-occidental/

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O Synodikon da Ortodoxia (Metropolita Hierotheos de Nafpaktos)

O "Synodikon da Ortodoxia" é um texto contido no "Triodion" e lido no Domingo da Ortodoxia, o primeiro domingo da Quaresma.

Sabe-se que, ao longo do tempo, surgiram várias heresias que negavam a experiência da revelação e, de fato, utilizavam a filosofia e as conjecturas, duvidando da verdade da Igreja em vários temas dogmáticos. Os Padres que formaram os Sínodos se opuseram a estes erros. As decisões dos Sínodos sobre temas dogmáticos são chamadas de "provisões". De um modo mais geral, cada decisão dos Sínodos é chamada de "Synodikon". Assim, temos o tomo sinodical e a provisão sinodical, e além disso, cada sínodo possui seu próprio synodikon.

O "Synodikon da Ortodoxia" é a decisão do Sétimo Concílio Ecumênico, que se refere à veneração de ícones sagrados. A leitura dele no Domingo da Ortodoxia deu o título "Synodikon da Ortodoxia". Claro, deve-se dizer que mais tarde também foi adicionado ao "Synodikon da Ortodoxia" a definição de fé dos concílios hesicastas do século XIV. Assim, o "Synodikon da Ortodoxia" compreende as decisões do Sétimo Concílio Ecumênico e dos Concílios do século XIV, que, como será dito abaixo, tem todos os elementos para ser caracterizado e considerado como um Nono Concílio Concílio.

Será feita uma análise do "Sínodo da Ortodoxia" em seus pontos centrais. Haverá uma análise mais ampla de todo o Concílio, mas o que considero ser os pontos principais será enfatizado, porque eles expressam o ethos da Igreja. E isso é necessário, porque a mente da Igreja está ligada e em harmonia com as decisões dos Padres da Igreja como foi expressada com autoridade conciliar.



l. Igreja e Sínodos

No entanto, antes de analisar o "Synodikon da Ortodoxia", penso que é necessário examinar brevemente o extenso assunto da relação da Igreja com o Sínodo.

Quando uma heresia brota, os santos Padres a enfrentam no lugar onde ela aparece. Arios, que proclamou que Cristo é a primeira criatura de Deus e essencialmente negava a divindade de Cristo, foi confrontado pelo Concílio de Alexandria. Mas então, quando suas opiniões heréticas começaram a ser disseminadas além das fronteiras de Alexandria, o assunto foi confrontado pelo Primeiro Concílio Ecumênico. Os santos Padres foram convocados para tomar uma decisão comum sobre a formulação do ensino ortodoxo. Nos Concílios, os santos Padres não procuraram encontrar a verdade, fazendo conjecturas por raciocínio e imaginação, mas para confrontar os hereges, eles tentaram formular em palavras a Verdade revelada já existente, da qual eles também tiveram sua própria experiência pessoal.

São Nikodemos, o Hagiorita, divide os Concílios em ecumênicos, locais e rurais. Esta divisão não é de acordo com os assuntos, mas de acordo com as pessoas que os uniu, pois é possível que os assuntos dos Concílios Locais possam se referir a sérias questões dogmáticas.

Um Concílio Rural é um encontro convocado pelo Bispo, Metropolita ou Patriarca sozinho com seu próprio Clero, sem a presença de outros Bispos.

Um Concílio Local é um encontro em que o Metropolita ou Patriarca se junta com seus próprios Bispos ou Metropolitas. Isso ocorre quando o Bispo de um distrito ou os Bispos de dois distritos se reúnem para enfrentar várias questões urgentes da Igreja.

Um Concílio Ecumênico é a assembléia de muitos Bispos de todos os distritos para discutir e decidir sobre uma questão da Igreja. O Concílio Ecumênico possui quatro marcas distintivas de acordo com São Nikodemos, o Hagiorita. A primeira é que é convocado "por ordem, não do Papa nem de tal e tal Patriarca, mas por ordens reais". A segunda é que deve haver discussão de tópicos de fé "e depois uma decisão e uma definição dogmática devem ser publicadas em cada um dos Patriarcados". A terceira é que os dogmas devem ser corretos em sua ortodoxia e de acordo com as Escrituras divinas, ou com os concílios ecumênicos anteriores ". As palavras de Máximo, o Confessor, são características: "A fé reta valida as reuniões que aconteceram e, novamente, a retidão dos dogmas julga as reuniões". E a quarta é que deve ter um reconhecimento universal. Todos os patriarcas e arcebispos ortodoxos da Igreja católica devem "concordar e aceitar as decisões e cânones dos Concílios Ecumênicos, seja através da sua presença pessoal ou através de seus próprios delegados e, na sua ausência, através das suas cartas".

Estas marcas características mencionadas por São Nikodemos, o Hagiorita, são dignas de nota. Mas devo esclarecer duas delas, a primeira e a quarta, que são as mais características dos Concílios Ecumênicos e os distinguem dos outros Concílios Locais.

Uma delas é que o concílio ecumênico era convocado pelos imperadores, quando o cristianismo se tornou uma religião oficial do Império, e o imperador queria tornar a definição do Concílio Ecumênico uma lei do Império para a paz dos Cidadãos. Pe. George Florovsky observa: "Em certo sentido, os Concílios Gerais, como inaugurado em Nicéia, podem ser descritos como "Concílios Imperiais", die Reichskonzile, e este foi provavelmente o primeiro e original significado do termo "Ecumênico", aplicado aos Concílios".

A outra era que a autenticidade dos Concílios Ecumênicos, bem como a dos outros Concílios, era dada principalmente pelos pais deificados e portadores-de-Deus. Pe. Georges Florovsky observa também neste ponto: "a autoridade máxima - e a capacidade de discernir a verdade na fé - é investida na Igreja, que é de fato uma "instituição divina" no sentido correto e estrito da palavra, ao passo que nenhum Concílio e nenhuma "instituição Conciliar" é "de jure divino", exceto na medida em que é uma verdadeira imagem ou manifestação da própria Igreja". Então ele diz: "As reivindicações dos Concílios foram aceitas ou rejeitadas na Igreja, não por motivos formais ou "canônicos". E o veredicto da Igreja tem sido altamente seletivo. O Concílio não está acima da Igreja, assim era a atitude da Igreja antiga".

Nos capítulos anteriores, explicamos em breve quem são os verdadeiros membros da Igreja, que são os vivos e quem são os membros mortos da Igreja. Assim, podemos dizer que a mente da Igreja é expressada pelos seus santos deificados. Portanto, todos os Concílios ecumênicos dependem do ensinamento dos santos do passado. O leitor pode encontrar essa visão desenvolvida em um estudo anterior meu. Aqui, eu só quero mencionar a opinião de Georges Florovsky de que "alguns poucos e solitários confessores da fé foram capazes de expressar essa experiência, e isso é suficiente ... a dignidade sagrada da reunião não depende do número de membros que representam sua igreja. Um grande sínodo "geral" poderia ser provado um sínodo de ladrões (latrocinium) ou mesmo de apóstatas ... Mas é possível em um sínodo que a minoria expresse a verdade. E o mais significativo, a verdade pode ser revelada mesmo sem um sínodo. As opiniões dos Padres e professores ecumênicos da Igreja muitas vezes têm maior valor espiritual e explicitação do que as decisões definitivas dos sínodos. Essas opiniões não são necessárias para confirmar e serem demonstradas por "acordo ecumênico"."

Da mesma forma, gostaria também de mencionar a opinião do Pe. John Romanides, que todos os santos Padres seguiram o mesmo método e tiveram experiência pessoal das verdades da Fé. A reunião deles em um Concílio Ecumênico deu-lhes a oportunidade de concordar com a mesma terminologia para a mesma experiência revelada. Ele escreve caracteristicamente:  "Nem a iluminação nem a glorificação podem ser institucionalizadas. A semelhança desta experiência de iluminação e glorificação entre aqueles que têm os dons da graça, que têm esses estados, não requer necessariamente igualdade de expressão dogmática, especialmente quando aqueles que possuem dons estão distanciados geograficamente por longos períodos de tempo. Em qualquer caso, quando se encontram, eles concordam facilmente sobre a mesma forma de formulação dogmática de suas experiências idênticas. Um grande impulso para a expressão dogmática idêntica foi dado no momento em que o cristianismo tornou-se uma religião oficial do Império Romano e satisfazia a necessidade do Império de distinguir os médicos genuínos dos pseudo-médicos, da mesma maneira em que os funcionários governamentais são responsáveis ​​por distinguir os genuínos membros da profissão médica dos charlatões e fraudantes da ciência médica, para a proteção de seus cidadãos".

Com essas pré-condições básicas, os Concílios Ecumênicos são infalíveis e expressam a consciência e a vida da Igreja. E, é claro, os termos dos Concílios Ecumênicos têm valor, porque, por um lado, asseguram a possibilidade de salvação e, por outro lado, indicam o verdadeiro caminho para a cura do homem, para alcançar a deificação. Podemos dizer que os termos dos Concílios Ecumênicos não são filosóficos nem servem a filosofia, mas são teológicos, isto é, terapêuticos e visam a cura do homem. Portanto, devemos agradecer aos Pais que formaram os Concílios Ecumênicos e atuaram como personalidades eclesiásticas.


2. Os dois Concílios Ecumênicos

No "Synodikon da Ortodoxia" há referência a todos os Padres que formaram os Concílios Ecumênicos, mas principalmente se limita a mencionar e referir-se a dois Concílios com grande autoridade e grande autenticidade. Eles são o Sétimo Concílio Ecumênico, que se pronunciou sobre a veneração dos ícones sagrados, e o que foi considerado o Nono Conselho Ecumênico, que governou sobre a essência incriada e a energia incriada de Deus, além de governar de maneira inspirada sobre hesicasmo, a maneira que devemos usar para chegar à deificação.

O Sétimo Concílio Ecumênico foi convocado pela graça de Deus, e o "decreto dos soberanos devotos de Deus Constantino e Irene, sua mãe", como é dito na definição de fé deste Concílio. De fato, diz-se que "o Senhor Deus, na Sua boa vontade, convocou os líderes do sacerdócio em todos os lugares, com o divino zelo e consentimento de Constantino e Irene, nossos soberanos mais fiéis". Eles contrastam com os hereges que, "embora sejam ditos sacerdotes, na realidade não são", porque fizeram acusações contra a verdadeira fé da Igreja, "seguindo homens ímpios das mesmas persuasões".

Muitas coisas aparecem neste texto. Primeiro, que o Concílio Ecumênico é convocado em nome dos soberanos imperiais. Em segundo lugar, que os hereges, enquanto são sacerdotes, não são realmente, uma vez que a sucessão apostólica não é apenas o sacerdócio ininterrupto, mas também a adesão à tradição apostólica e ao ensino. Em terceiro lugar, que os hereges repudiam o ensino católico da Igreja e seguem filósofos, que têm suas próprias opiniões e concepções.

Na "definição de fé" do Sétimo Concílio Ecumênico está o ensinamento ortodoxo sobre a veneração dos ícones sagrados, porque "a honra paga à imagem passa para o original" e "aquele que venera a imagem está venerando nela a pessoa daquele que é retratado".

No "Synodikon da Ortodoxia", toda a fé da Igreja sobre a veneração dos ícones sagrados é conservada.

A possibilidade de pintar um ícone de Cristo é proclamada precisamente porque Ele se encarnou e assumiu a natureza humana de fato, não na imaginação. Na pessoa da Palavra, a natureza divina se uniu à natureza humana de forma imutável, inalterável, inseparável e indivisível. É confessado que é diferente em essências e foi unido desta maneira na única hipóstasis do Logos "o criado e o incriado, o visível e o invisível, o passível e o impassível, o limitado e o ilimitado". Pois a essência divina pertence o incriado, o invisível, o impassível e o ilimitado, enquanto a essência humana pertence, além das outras coisas, também ao circunscrito. Por esta razão, podemos fazer ícones de Cristo, porque Ele se encarnou. Quem não tolera "a pintura de ícone do Verbo encarnado, e os seus sofrimentos por nós" é anatematizado.

Além disso, no "Synodikon da Ortodoxia" é proclamado que, curvando-se diante dos ícones sagrados e olhando-os, os olhos também são santificados e o nous é elevado para o conhecimento de Deus. É escrito de forma característica: "os lábios daqueles que santificam pela palavra, ou os ouvidos pela palavra daqueles que conhecem e proclamam, assim como os olhos daqueles que vêem são santificados pelos ícones puros, o nous é elevado por eles para o conhecimento de Deus, assim como também pelos templos divinos e instrumentos sagrados e outros vasos preciosos ".

Assim, temos a possibilidade de venerar a carne de Deus e ser santificados por esta veneração, naturalmente de acordo com a condição em que estamos, uma vez que a carne de Cristo é caracterizada como "igual a Deus e de igual valor".

O Nono Concílio Ecumênico na época de São Gregório Palamas estava ocupado com outro tópico doutrinário, que é uma sequência dos temas que diziam respeito à Igreja primitiva. No século IV, os santos Padres confrontaram a heresia de Arios, que ensinava que a Palavra de Deus é uma criatura. São Gregório Palamas em seu tempo confrontou a heresia de Barlaam, que dizia que a energia de Deus é criada. Além disso, como dissemos, o Concílio "justificou" o hesicasmo, que é o único método que conduz o homem à deificação.

Devemos dizer que o Nono Concílio Ecumênico tem todos os elementos e características que citamos acima para qualificá-lo como um Concílio Ecumênico.

Primeiro, foi convocado pelos imperadores. No tomo sinodical de 1341, diz-se, entre outras coisas: "Então, quando se reuniram, também na presença do governante eterno e abençoado ... e não poucos dos mais dignos arquimandritas e abades e membros reunidos do governo... ". Todos os três concílios que foram convocados neste período sobre o tema doutrinal que concernia a Igreja naquela época, foram convocados por ordem e na presença dos imperadores.

Então, como dissemos antes, o assunto da energia incriada de Deus, bem como o que se chamava de hesicasmo, eram questões teológicas sérias. Ou seja, elas não são assuntos que se referem a algumas questões canonísticas, mas temas dogmáticos sérios que se referem à salvação do homem. Pois, se a energia de Deus for criada, então terminamos no agnosticismo ou no panteísmo. Não podemos alcançar a comunhão com Deus. E, se o hesicasmo, o caminho da tradição ortodoxa pelo qual somos curados e atingimos a deificação, é substituído pela filosofia, isso também destrói as condições prévias verdadeiras para a salvação do homem. Portanto, esses assuntos são bastante sérios.

Muitos teólogos contemporâneos acreditam que os Concílios da época de São Gregório Palamas devem ser considerados como constituindo e compondo o Nono Conselho Ecumênico. E isso porque eles foram convocados pelos imperadores, estavam ocupados com um assunto doutrinário de grande importância, e São Gregório Palamas, que alcançou deificação e, portanto, teve experiência pessoal de deificação, estava lutando neles. Gostaria de me referir à opinião do Padre Athanasios Gievtits, que diz: "Mas pensamos que o Concílio de Constantinopla na época de São Gregório Palamas em 1351, julgando pelo menos pelo seu excelente trabalho teológico, pode ser e merecer ser contado entre os Concílios Ecumênicos da Igreja Ortodoxa, faltando nada quanto ao significado soteriológico de sua teologia. Este Concílio constitui a prova da conciliaridade da Igreja Ortodoxa e da experiência viva e da teologia sobre a salvação em Cristo ".

Esta é também a consciência da Igreja. É por isso que, no "Synodikon da Ortodoxia", que já existia e era lido nas Igrejas sobre a vitória e o triunfo dos Ortodoxos, eles acrescentaram também "os capítulos contra Barlaam e Akindynos", do que se chama o Nono Concílio Ecumênico. O imperador Kantakuzinos, no último Concílio que se ocupou com este tema, ou seja, no Concílio de 1351, resumiu as conclusões das reuniões e decisões, enquanto São Philotheos Kokkinos, então Metropolita de Heraklia, assistido por George Galisiotis e o sábio Maximos reuniu o tomo sinodical dos registros. Finalmente, o ensinamento hesicasta entrou no "Synodikon da Ortodoxia" pela primeira vez, no Domingo da Ortodoxia em 1352, para que os hereges fossem anatematizados e para que todos os que expressassem o ensino ortodoxo fossem aclamados. Após a morte de São Gregório Palamas, aclamações foram adicionadas a ele.

3. Anátemas - Aclamações

Quem lê o "Synodikon da Ortodoxia" perceberá imediatamente que, por um lado, os hereges são anatematizados e, por outro lado, os santos Padres e confessores são aclamados. Para os primeiros, os presentes proclamam "anátema" três vezes, para os últimos proclamam "memória eterna" três vezes em cada proposta.

Algumas pessoas ficam escandalizadas quando vêem e ouvem tais ações, especialmente quando ouvem "anátema". Eles consideram isso muito severo e dizem que o espírito de ódio a outras doutrinas está sendo expressado dessa maneira.

Mas os fatos não são interpretados dessa maneira. Os anátemas não podem ser considerados como idéias filosóficas e como estados de ódio por outras doutrinas, mas como ações médicas. Em primeiro lugar, os hereges  - pela escolha que eles fizeram - terminaram em heresia e na separação do ensino da Igreja. Ao usar a filosofia, eles se opuseram à teologia e à Revelação. Desta forma, eles demonstram que estão doentes e, na realidade, estão separados da Igreja. Assim, a excomunhão tem o significado de mostrar a separação do herege da Igreja. Os santos pais, por meio dessa ação, confirmam a condição já existente e, além disso, ajudam os cristãos a se protegerem da heresia - doença.

Há um extrato característico dos registros do Quarto congresso do Sétimo Concílio Ecumênico. Diz que os santos cumprem a palavra de Cristo, para que a lâmpada do conhecimento divino "no candelabro" brilhe sobre todos os que estão na casa e não a esconda "debaixo de um alqueire". Deste modo, aqueles que confessam o Senhor são ajudados a viajar sem obstáculos no caminho da salvação. Os santos pais "afastam todos os erros dos hereges, e se o membro podre é incurável, eles o cortam; e possuindo a pá, eles limpam a eira; e o grão, ou a palavra nutritiva,  que sustenta o coração do homem, eles armazenam no armazém da Igreja Católica, mas a palha do ensino herético incorreto eles jogam e queimam em fogo inextinguível ".

Assim, os hereges são membros incuravelmente apodrecidos da Igreja e, portanto, são cortados do Corpo da Igreja. Os hereges devem ser examinados nesta luz. Desta forma, pode-se ver o amor da Igreja pela humanidade. Pois, como enfatizamos em outros lugares também, quando alguém emprega um ensino médico errôneo, não há resultados terapêuticos e nunca se pode alcançar a cura. O mesmo é verdade com as doutrinas ou o ensino errôneo. Um ensino errôneo que se baseia em uma metodologia errada nunca pode levar o homem a deificação.

É nesta luz que devemos examinar o fato de que os anátemas, bem como as aclamações, são encaminhados a pessoas particulares, porque essas pessoas particulares são as que moldam esses ensinamentos e, como resultado, ganham aderentes. E, de fato, é característico que epítetos terríveis sejam usados para os hereges. Devemos acrescentar que os epítetos terríveis que são utilizados não devem ser examinados em um sentido moral, mas em um sentido teológico, pois muitos dos líderes das heresias eram homens "morais". No que se segue, gostaria de ver alguns desses epítetos e algumas caracterizações muito indicativas.

Os iconoclastas que se voltaram contra os ícones sagrados são chamados no "Synodikon da Ortodoxia" "prejudiciais" para a glória de Deus, "aventureiros contra o ícone e insolentes, covardes e fugidios." Aqueles que iniciaram a heresia da iconoclastia, na época dos Isaurianos, eram chamados de "sacrílegos e líderes da perdição". O Gerontios é anatematizado pelo "veneno de sua heresia abominável... com seus dogmas perversos". A heresia é uma doença e a crença dogmática herética é perversa, porque retorce a verdade da revelação da Igreja. O anátema é dado ao "ajuntamento odioso contra os ícones veneráveis".

Como dissemos, todos os hereges são mencionados no "Synodikon da Ortodoxia". Por isso, parece, por um lado, que todos os hereges usaram o mesmo método e, em essência, coincidem uns com os outros, e, por outro lado, que o Sétimo Concílio Ecumênico e o que é considerado o Nono Concílio Ecumênico se consideram como expressando a Igreja e como uma continuação dos primeiros Concílios Ecumênicos. Arios é chamado de aquele que luta contra Deus e líder das heresias, Pedro, o Purificador, é chamado de louco. A mesma caracterização "louco" é usada para muitos hereges. É claro que eles são chamados de loucos não em um sentido biológico, mas antes no sentido teológico. Barlaam, Akindynos, líderes dos ensinamentos anti-hesicastas e todos os seus seguidores são chamados de gangue perversa. Em contrapartida, para os defensores dos ensinamentos ortodoxos, adjetivos como devotos, santos e inesquecíveis são utilizados.

E, novamente, devo ressaltar que a heresia inverte o verdadeiro caminho da cura do homem para alcançar a deificação. Se pensarmos que a purificação do coração, a iluminação do nous é a terapia para que o homem toma no caminho para a deificação, então entendemos que a heresia inverte esse caminho e deixa o homem permanentemente sem cura, sem esperança de cura e salvação.


4. Alguns sinais característicos

É claro que é impossível analisar e interpretar o todo maravilhoso e significativo do "Synodikon da Ortodoxia". O leitor deve examiná-lo cuidadosamente e ele descobrirá sua importância. Mas eu gostaria de fazer com que vejamos alguns pontos característicos que eu acho que são a base de tudo o que é dito no "Synodikon da Ortodoxia", e também a base da vida cristã, e quais são as coisas que mostram até que ponto nós possuímos a mente genuína da Igreja.


a) A condenação da filosofia

Em todo o texto do "Synodikon da Ortodoxia" é visto claramente que a filosofia é condenada. Tanto a maneira como a filosofia se refere e apresenta Deus como as conclusões que chegam são condenadas. E, claro, ao falar da filosofia, nos referimos à metafísica, como foi desenvolvida por Platão, Aristóteles e outros filósofos posteriores. Devemos ver que tipos de ensinamentos heréticos foram banidos e rejeitados.

São rejeitados aqueles que aceitam os dogmas impíos dos gregos, isto é, aqueles dogmas idólatras, que se referem à criação do mundo e às almas humanas e misturam com o ensino da Igreja. Caracteristicamente, é dito: "Aqueles que prometeram reverenciar a Igreja Ortodoxa e Católica, e, em vez disso, introduzem desgraçadamente os dogmas irreverentes dos gregos sobre as almas dos homens, o céu e a terra, e outras coisas criadas, seja anátema". Deve-se ressaltar que aqueles que aceitam os dogmas dos gregos, mas se apresentam como devotos, são anatematizados. Parece que também naquela época havia homens que, entre outras coisas, fingiam reverência e tinham bons modos, mas não aceitavam o ensinamento dogmático da Igreja.

No entanto, não são essas obras dos filósofos que são anatematizadas, mas o fato de que os ensinamentos dos filósofos são preferidos à Fé, e essa filosofia é usada para distorcer a verdade da Igreja. Não é proibido estudar as obras dos antigos gregos, isto é, dos pagãos, mas são censurados os cristãos que seguem e aceitam suas teorias inúteis. Anátema é pronunciado "naqueles que aceitam os ensinamentos gregos, não naqueles que só os cultiva pela cultura, mas naqueles que também seguem essas doutrinas fúteis deles". E, como dissemos antes, são censurados aqueles que preferem "a sabedoria tola dos filósofos profanos" ao ensino ortodoxo.

O "Synodikon da Ortodoxia" não permanece em um plano teórico, mas também procede a tópicos concretos que condena. E, como será descoberto, se refere aos ensinamentos básicos da filosofia, da chamada metafísica. Entre esses está o ensino de Platão sobre as idéias. De acordo com essa noção, existem as idéias, e o mundo inteiro é uma cópia dessas idéias ou uma queda dessas ideias. Segundo Platão, a salvação do homem reside no retorno de sua alma ao mundo das idéias. No "Synodikon da Ortodoxia", os Santos Padres condenam essa visão e aqueles que aceitam "as idéias platônicas como verdadeiras".

Os filósofos antigos acreditavam que a matéria não tem começo e todas as coisas criadas são eternas e sem começo, e, de fato, a matéria é tão antiga quanto o Criador do mundo. Aqueles que aceitaram essas coisas são condenados. A matéria e o mundo foram criados por Deus e não permanecem inalteráveis.

Mas também sobre o tema da criação, a filosofia difere da teologia. É um ensinamento básico dos Padres da Igreja que o mundo foi criado a partir do nada, "a partir do não-ser", da "matéria inexistente". Este ensinamento abalou todos os fundamentos da filosofia. A filosofia acredita, como dissemos, que a matéria é eterna. Então, aqueles que aceitam que "todas as coisas não vieram a ser a partir do não-ser" são condenados pelo "Synodikon da Ortodoxia".

A filosofia também difere no que diz respeito à alma e, portanto, todos os que aceitam suas opiniões são condenados. Os filósofos antigos acreditavam na pré-existência da alma, nas transmigrações e no fato da alma ter um fim, que em algum momento a alma morrerá. Tais ensinamentos também entraram em alguns teólogos da Igreja, e eles também são condenados. Todos são anatematizados que aceitam "que as almas têm pré-existência", bem como todos os que aceitam "a transmigração das almas humanas, ou mesmo que são destruídas por animais, que são recebidos no não-ser" e, portanto, negam "a ressurreição, julgamento e a recompensa final pela conduta de suas vidas". Da mesma forma, estão condenados todos aqueles que afirmam que os homens serão ressuscitados com outros corpos e não serão julgados "com eles segundo a forma como se conduziram na vida presente".

Correspondentemente, também são condenados aqueles que aceitam a crença dos filósofos de que haverá uma restauração de todas as coisas, isto é, "que há um fim para o inferno ou uma restauração novamente da criação e dos assuntos humanos".

Como há ainda hoje, assim também houve homens que consideravam que os filósofos eram superiores aos Padres da Igreja e, portanto, aceitavam seus ensinamentos. No entanto, todos são anatematizados que ensinam que os filósofos, que foram condenados por todos os Concílios ecumênicos, "são muito maiores, tanto aqui como no julgamento vindouro, do que os santos Padres, todos os que rejeitam os ensinamentos dos santos Padres e os atos dos Concílios Ecumênicos, e todos os que não tomam os ensinamentos dos santos Padres como corretos e tentam "interpretá-los incorretamente e inverte-los" - todos esses são anatematizados. Pois os santos Padres são portadores da Tradição, eles são inspirados pelo Espírito Santo.

Mencionamos antes que todos os filósofos possuíam um método particular diferente da metodologia dos santos Padres. Os filósofos usaram a lógica e a imaginação para interpretar essas coisas, enquanto os santos Padres alcançaram a iluminação do nous e a deificação, e assim receberam a Revelação. O método errôneo dos filósofos, bem como aqueles que o utilizam, são condenados pelo "Synodikon da Ortodoxia". Em contraste, louva-se a fé pura e o coração simples e inteiro. Concretamente, diz: "Aqueles que não aceitam, com uma fé pura e um coração simples e inteiro, o que diz respeito do nosso Salvador e Deus e da nossa pura Theotokos, que deu a luz a Ele, e que não aceitam os milagres notáveis ​​do outro santos, mas que tentando, por provas e palavras sofisticadas, difamar como impossíveis ou mal interpretá-los de acordo com o que lhes parece, dando conselhos de acordo com sua própria opinião, seja anátema". Quando alguém se baseia apenas na lógica e na imaginação, ele está em um caminho errado. E, se observarmos cuidadosamente, descobriremos que todos os hereges tomam esse caminho. Eles tentam, através da lógica e da imaginação e pelo uso da filosofia, analisar e compreender todas as doutrinas da Igreja. Em contrapartida, os santos Padres usam um método diferente, que é chamado de "hesicasmo", que consiste na purificação do coração, na iluminação do nous e na deificação.

Ao dizer todas essas coisas, devemos enfatizar novamente que os filósofos em seu tempo fizeram uma grande tentativa de interpretar alguns problemas que estavam tentando resolver. Mas o que podemos observar é que eles empregaram um método diferente e, portanto, caíram longe da marca. Pelas coisas ditas no "Synodikon da Ortodoxia", somos exortados a não deixar de estudar os escritos dos filósofos e dos antigos gregos, mas não devemos usar seu método, que consiste em conjecturas e na regra da lógica, e também não aceitar suas noções, porque corrompem a fé ortodoxa. As teorias das idéias, do universo sem-começo e da matéria eterna, da eternidade do mundo, da pré-existência das almas, da transmigração ou da reencarnação, da criação do mundo a partir da matéria existente, da restauração de todas as coisas , etc. perturbam os ensinamentos da Igreja e desacreditam a Revelação.

b) A teologia da Luz incriada

Mencionamos antes que os Padres que escreveram o "Synodikon da Ortodoxia" condenaram a filosofia e seu método, bem como aqueles que seguem as filosofias antigas e aceitam suas doutrinas. Mas, correspondentemente, eles aclamaram os santos Padres, que aceitaram a verdade da Igreja e expressaram em seu tempo através do seu ensinamento e confissão no Concílio. Não devo referir-me a todos esses tópicos, mas quero especialmente enfatizar o que se relaciona com a teologia da Luz incriada e a distinção entre a essência e a energia de Deus, porque este foi um dos pontos mais centrais e fundamentais nos concílios do século XIV (1341, 1347, 1351).

Barlaam, um verdadeiro teólogo escolástico da época, que utilizou a filosofia à custa da visão de Deus e deu um lugar central a seu raciocínio e conjetura, como se observa no tomo do ano de 1341, sustentou que a filosofia é superior à teologia e à visão de Deus. Ele disse que a Luz do Monte Thabor não era inacessível, nem era a verdadeira luz da divindade, nem mais santa e divina do que os anjos, "mas inferior e menor do que nosso intelecto". Ele disse que, uma vez que a Luz atravessa o ar e atinge o poder sensorial, etc., todos os conceitos e entendimentos "são mais sagrados do que aquela luz". Essa luz vem e vai, porque é imaginada, dividida e finita. Segundo Barlaam, "nós nos elevamos de uma luz (racional) a conceitos e visões, que são incomparavelmente melhores que a luz". Por isso, ele disse que qualquer um que sustente que a Luz da Transfiguração está além da concepção e é verdade e inacessível "está completamente confuso ... irreverente e, portanto, está introduzindo doutrinas muito perniciosas na Igreja". Barlaam disse essas coisas porque estava saturado com a teologia escolástica do Ocidente, já que ele nem sequer conhecia a teologia da Igreja Ortodoxa.

Ao mesmo tempo, Barlaam lutava contra a distinção entre a essência e a energia em Deus, e especialmente contra o ensino dos santos Padres de que a energia de Deus é incriada.

O ensino ortodoxo sobre este assunto está estabelecido no "Synodikon da Ortodoxia". É dito que Deus tem essência e energia e que essa distinção não destrói a simplicidade divina. Confessamos e cremos que "a graça incriada e natural, a iluminação e a energia sempre procedem inseparavelmente a partir dessa essência divina. E uma vez que, de acordo com os santos, a energia criada também significa essência criada, a energia incriada caracteriza a essência incriada", portanto, a energia de Deus é incriada. De fato, o nome da divindade é colocado não só sobre a essência divina, mas também "sobre a energia divina". Isto significa que, no ensino dos santos Padres, "esta (essência) é completamente impossível de ser compartilhada, porém a graça divina e a energia podem ser compartilhadas".

Da mesma forma, no "Synodikon da Ortodoxia", apresenta-se a verdade de que a Luz da Transfiguração não é um fantasma e uma criação, não é algo que aparece e depois desaparece, mas é incriada e uma graça natural, iluminação e energia. Ou seja, é a glória natural da divindade. E esta Luz, que é a energia incriada de Deus e sai indivisivelmente da essência divina, aparece "através de benevolência de Deus para com aqueles que purificaram o nous". Portanto, essa luz incriada é uma  "luz inacessível ... e ilimitada; incompreensível natureza do esplendor divino, glória inefável, Divindade, glória supremamente perfeita e além da perfeição, glória intemporal do Filho e reino de Deus e verdadeira beleza, adorável em sua natureza divina e abençoada, glória natural de Deus, o Pai e o Espírito brilhando no Filho unigênito, e divindade ... ".

Os Santos Padres aclamados confessam "a energia divina procedendo da essência divina, procedendo sem divisão, e devido a essa processão, a inefável distinção das coisas presentes, mas devido ao "sem divisão", a maravilhosa união das coisas mostradas."

E, por fim, os hereges que aceitam tais visões errôneas, opostas ao ensino dos santos e portadores-de-Deus, são anatematizados. Em contraste, os santos Padres que expressam infalivelmente o ensino da Igreja Ortodoxa Católica são aclamados e pronunciados abençoados. Especificamente, São Gregório Palamas, Bispo de Salónica, é louvado. Ele é louvado por dois motivos. Um, porque ele enfrentou e derrotou, com sucesso, os hereges, que estavam ensinando idéias errôneas sobre estes assuntos teológicos cruciais e estavam tentando introduzir na Igreja de Cristo "as idéias platônicas e mitos gregos". O outro motivo é porque ele estabeleceu o ensino ortodoxo sobre esses assuntos, usando como intérpretes todos os santos Padres de Atanásio o Grande até o seu tempo. Então, aqui, São Gregório Palamas é apresentado como um sucessor dos santos Padres e campeão do ensino da Igreja Ortodoxa e, por esse motivo, o nome dele tem menção especial e particular no "Synodikon".

O tomo do Sínodo de 1347 escreve algo muito importante sobre o valor e a autoridade de São Gregório Palamas e todos aqueles monges que seguem seus ensinamentos. Ele o caracteriza como o mais digno. E, uma vez que anatematiza a todos os que não aceitam seus ensinamentos e se opõem a ele, diz ao mesmo tempo que, "se alguém for apanhado pensando ou falando ou escrevendo contra a autoridade do digno sacerdote Gregório Palamas e os monges com ele, e ainda mais contra os santos teólogos e esta Igreja, lançamos nosso voto contra ele, quer seja sacerdote ou leigo". Ou seja, quem fala contra São Gregório Palamas e seu ensinamento recebe excomunhão pelo Sínodo. E, de fato, está escrito que "sustentamos que São Gregório Palamas e os monges que com ele concordam são não apenas superiores aos que estão contra eles mas, ainda mais, a esses sofismas contra a Igreja de Deus..., mas declaramos que eles são protetores da Igreja, combatentes pela correta fé e seus auxiliares." 

Uma vez que até hoje existem alguns "teólogos" que duvidam dos ensinamentos de São Gregório Palamas e o consideram neo-platônico, escutemos a excomunhão e a anatematização do Sínodo que mencionamos e, em geral, o "Synodikon da Ortodoxia".

c) Hesicasmo

A teologia da Igreja, que foi expressada no século XIV por São Gregório Palamas, em relação à energia incriada de Deus e à luz incriada, está intimamente ligada ao chamado movimento hesicasta. Para que um homem atinja essa experiência, a visão da Luz incriada, que é identificada com a deificação, não é uma questão de desenvolver seu raciocínio e encher seu cérebro com conhecimento, mas um fruto de sua pureza, de seu nous retornando ao coração e a iluminação do nous.

Dos atos do tomo sinodal do ano 1341 torna-se visivel que Barlaam estava discutindo o modo de vida do monaquismo ortodoxo, o chamado caminho hesicasta. De fato, isso também é visto a partir de todo o ensino de São Gregório Palamas, especialmente sua refutação dos pontos de vista de Barlaam em seu conhecido trabalho "Em nome dos santos hesicastas". Gostaria, no entanto, de mencionar um trecho dos atos do Sínodo de 1341. Barlaam disse, entre outras coisas, "Das muitas coisa que teríamos o direito de impugnar ao orador sobre tais ensinamentos, não vejo nada pior do que, ao tentar perturbar os mistérios dos cristãos por meio de inalações, ele calunia os Santos Padres [dando a entender] que eles ensinaram antes o que ele ensina agora."

Nos escritos de São Gregório Palamas vemos uma remoção contínua da falsa doutrina desse ensinamento de Barlaam, que estava tentando abalar os alicerces do monaquismo tradicional.

Barlaam tinha em vista o monaquismo do Ocidente, que havia abandonado o método hesicasta e estava ocupado com uma atividade social. Na Idade Média, através da influência da teologia escolástica, a ação (práxis), que na teologia patrística é a purificação do coração, passou a ser interpretada como missão; e a visão, que na teologia dos santos Padres, é a oração noética e visão da Luz incriada, passou a ser interpretada como uma conjectura mental sobre Deus.

De fato, a inalação e a exalação, bem como outros métodos, são métodos psicotécnicos pelos quais tenta-se libertar o nous da escravização ao ambiente e ao raciocínio; isso é feito para o nous entrar no coração, onde é o seu lugar real, seu estado natural, e de lá para ascender à visão de Deus. O básico é ser capaz, através da graça de Deus e do próprio esforço, concentrar o nous no coração. É o que se chama hesicasmo e o movimento hesicasta. É a chamada hesíquia noética, sobre a qual tantos santos padres escreveram. Por este método, o nous é liberto da lógica e adquire seu modo natural e supranatural. Então ele se encontra em seu estado natural.

Todos os santos Padres seguiram o mesmo método, e é por isso que eles chegaram as mesmas conclusões. Hesicasmo é o único método para a cura do homem. Então, há, por um lado, os hesicastas ao longo dos tempos, que são os teólogos perfeitos e, por outro lado, os anti-hesicastas, que se entregam a sua imaginação e, portanto, terminam em heresias.

No Synodikon de 1341, há um parágrafo muito significativo e característico. Barlaam é condenado, porque ele estava acusando os monges "sobre a santa oração que os ocupava e muitas vezes eram oferecidos por eles". Os monges praticavam a oração e a hesíquia noética porque, como toda a Tradição também testemunha, é o método apropriado para concentrar o nous no coração. O Sínodo aceita este método, que parece ter sido aceito por todos os Padres da Igreja.

Mas, ao mesmo tempo, o Sínodo também condena todos aqueles que aceitam os mesmos pontos de vista que Barlaam e fazem acusações contra os monges que tentam viver de maneira hesicasta, porque os monges não fazem mais nada além de adotar o método que a Igreja possui. Diz caracteristicamente: "Mas também se qualquer outro sob ele, ou qualquer um dos que ofendem nessas coisas, estando sujeito a essa excomunhão por nossa humildade, é visto falando ou escrevendo blasfemamente e com falsas crenças contra a monges, ou ainda mais contra esta Igreja, que seja excomungado e cortado da santa Igreja católica e apostólica de Cristo e da comunidade ortodoxa de cristãos".

Considero que este é um texto muito importante e responde àqueles que não só condenam o monasticismo hesicasta contemporâneo, mas o consideram herético e buscam todos os meios para libertar-se de toda a tradição hesicasta e atribuir-lhe um lugar entre as comunidades antropocêntricas ou até mesmo em convenções religiosas da vida. A afirmação de que eles são cortados da Igreja de Cristo é assustadora.

d) As teologias divinamente inspiradas dos santos e a mente devota da Igreja

Qualquer um que estudar o "Synodikon da Ortodoxia" certamente observará, quando ele chegar aos capítulos que se referem à heresia de Barlaam e Akindynos, que esta frase ocorre seis vezes: "contra a teologia divinamente inspirada dos santos e a mente devota da Igreja". E, de fato, ele observará que o Sínodo usa a mesma frase ao se opor a todas as visões heréticas de Barlaam e Akindynos e ao se referir ao ensino da Igreja sobre esse assunto em particular. Os hereges são condenados porque não acreditam e não confessam "de acordo com as teologias divinamente inspiradas dos santos e a mente devota da Igreja".

Devemos notar que as declarações dos santos são caracterizadas como inspiradas por Deus. E, claro, a inspiração divina está ligada à Revelação. Os santos experimentaram Deus, alcançaram a experiência da graça divina, conheceram pessoalmente Deus, chegaram ao Pentecostes, receberam a Revelação e, portanto, são caracterizados como professores divinamente inspirados e infalíveis da Igreja.

Devemos sublinhar particularmente o método que eles usaram e a forma como eles viveram para se tornarem divinamente inspirados pela graça. Esta forma é o hesicasmo, que é explicitado nos três estágios da perfeição espiritual: purificação do coração, iluminação do nous e deificação. Esses santos deificados e inspirados por Deus são os profetas no Antigo Testamento, os Apóstolos e os santos Padres. Portanto, o "Synodikon da Ortodoxia" diz: "Como os Profetas viram, como os Apóstolos ensinaram, como a Igreja recebeu, como os Professores estabeleceram como doutrina, como o Mundo concordou, como a graça brilhou". Portanto, há identidade daquilo que foi experimentado por todos os santos, precisamente porque seguiram o mesmo método, eles experimentaram todo o mistério da Cruz, que é a nossa fuga do pecado, a fuga do pecado dentro de nós e a ascensão à visão de Deus.

Além disso, o ensino divinamente inspirado dos santos está intimamente relacionado com a mente devota da Igreja. A Igreja produz os santos e os santos expressam a mente devota da Igreja. Os santos não podem ser pensados à parte da Igreja e é impensável santos que possuem opiniões heréticas e errôneas sobre questões teológicas sérias.

Na Igreja, como diz São Gregório Palamas, há "aqueles iniciados pela experiência" e aqueles que seguem e reverenciam esses que experimentaram. Assim, se não possuímos nossa própria experiência nesses assuntos, devemos, no entanto, seguir os ensinamentos daqueles que vêem Deus, os santos deificados e experientes. É somente assim que temos a mente da Igreja e a consciência da Igreja. Caso contrário, abrimos o caminho para a autodestruição de várias maneiras. Devemos constantemente crer e confessar "de acordo com as teologias divinamente inspiradas dos santos e a mente devota da Igreja".

O "Synodikon da Ortodoxia" é um texto excelente e muito conciso, resumo de todo o ensino ortodoxo da nossa Igreja. É por isso que a Igreja o inseriu em sua adoração, no Domingo da Ortodoxia, e é lido numa atitude de atenção e oração. É um texto sagrado. E devemos harmonizar com ele todo o nosso pensamento e, acima de tudo, a nossa vida.

Precisamos estudá-lo de perto para reconhecer o que constitui a fé ortodoxa e a vida ortodoxa. E, de fato, o modo de vida ortodoxo é livre do escolasticismo e moralismo. É hesicasta e teológico.

Nosso posicionamento positivo ou negativo em relação a este texto mostra em que medida somos animados pela mente ortodoxa da Igreja ou somos possuídos pela escolástica. Somos da Igreja na medida em que somos dos santos Padres.

Metropolita Hierotheos de Nafpaktos, do livro The Mind of the Orthodox Church

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O Significado Teológico da Transfiguração de Cristo (Metropolita Hierotheos de Nafpaktos)






A teologia em torno da festa da Transfiguração de Cristo sempre me moveu, juntamente com a teologia da festa da Ressurreição e do Pentecostes. Mesmo lendo os hinos da festa da Transfiguração, sinto que aqueles que os escreveram tiveram a experiência da Luz Incriada, da divindade que emana do Corpo de Cristo.  
  
Os Santos Padres da Igreja, especialmente São Gregório Palamas, santo hagiorita, não só viu a luz Incriada da divindade, mas também desenvolveu teologicamente sobre este grande evento e então identificou a diferença entre teologia contemplativa e teologia hesicasta. A teologia contemplativa está associada à metafísica, enquanto a teologia hesicasta está associada à purificação do coração e à iluminação do nous. Aqui reside a diferença entre a teologia ocidental e a Ortodoxa e, é claro, a diferença entre os contemplativos - os metafísicos e os Padres Ortodoxos hesicastas. 
  
A visão da Luz Incriada, de acordo com os ensinamentos da Igreja, é a participação Reino de Deus e, certamente, sabemos que existe o reino de Deus que é a criação inteira, e o Reino de Deus que é a Graça Incriada e energia de Deus, que é hipostática, já que "o agente da energia é a hipóstase que usa a energia" (São João de Damasco). A partilha no Reino de Deus é em graus variados, de acordo com a nossa participação e comunhão com a Graça de Deus, que provamos não como um chamado místico, mas como o verdadeiro Corpo de Cristo. 
  
Quando o homem participa da glória Incriada de Deus, então ele é glorificado, de acordo com a confissão do apóstolo Paulo: "Se um membro é glorificado, todos se regozijam juntos" (1 Coríntios 12:16), porque a glorificação de um membro da Igreja tem consequências para todas as pessoas. Por exemplo, o Profeta Moisés foi glorificado, ele entrou na nuvem divina, e então guiou as pessoas com as leis, conselhos e toda a inversão. 
  
Com essas condições, entendemos que na Igreja Ortodoxa não podemos falar de uma Igreja militante e triunfante, no sentido de que aqueles que vivem biologicamente estão na Igreja militante e aqueles que estão dormindo e entraram na glorificação divina estão participando do triunfo de Cristo. Isto é assim porque cada santo que alcança a visão da glória de Deus e, portanto, é glorificado, definitivamente, já agora participa do triunfo de Cristo. Embora encontrados na vida biológica, eles participam da Igreja triunfante. Se alguém lê os escritos de São Simeão, o Novo Teólogo, ele verá essa verdade formulada de maneira teológica e empírica. 
  
Também deve-se dizer que na Igreja Ortodoxa atribuímos grande significado à metodologia que leva à glorificação e ao compartilhamento do triunfo de Cristo sobre a morte. Isso ocorre porque uma metodologia errada, como a metafísica associada à fantasia e o moralismo associado aos dispositivos humanos-exteriores, não resulta na visão da Luz Incriada e na salvação do homem. E isso é importante, porque a partilha no Reino de Deus, a Luz Incriada do século futuro, não pode ser percebida se a pessoa desde agora não se prepara para este propósito e não tenha provado os raios desta glória. Assim, através da purificação do coração, na oração noética, que é uma indicação da iluminação do nous, o homem pode participar da glória de Deus. 

Neste ponto, encontramos o valor do monaquismo Ortodoxo, que mantém a metodologia Ortodoxa não alterada que conduz a theosis, que é o propósito do homem. Fora dessa metodologia ortodoxa, prevalece a secularização da fé e da vida cristã. 
  
Em todas as suas obras, São Gregório Palamas fala desse método Ortodoxo. Em um de seus textos, ele escreve que é preciso a verdadeira fé, porque a distorção da fé não leva ao cumprimento da existência do homem. "Nós acreditamos, como foi ensinado por aqueles que foram iluminados por Cristo". Ele fala de Pais iluminados e da obediência a eles para a preservação da fé. Mas isso não é suficiente, é necessária uma experiência pessoal da Luz Incriada: "Prosseguimos para o brilho dessa luz". Isto não é um luxo da vida espiritual, mas o propósito autêntico de nossa existência. Para isso é necessário a purificação do nosso intelecto de toda a imundície terrena, com desprezo por tudo o que é delicioso e bonito, mas que não é permanente. "Devemos purificar os olhos do intelecto da imundície terrena, desprezando as coisas deliciosas e bonitas que não são permanentes". O delicioso que não é permanente é o desejo que causa o sofrimento e que "envolve a alma como uma túnica desagradável do pecado". Por este motivo, São Gregório Palamas argumenta claramente que nos livramos do fogo do inferno pelo "esplendor e consciência da luz intangível e pré-eterna da Transfiguração do Senhor". 
  
A teologia da Transfiguração está integralmente relacionada com o método que devemos usar para experimentar esta grande Luz, e a fé Ortodoxa está relacionada com o hesicasmo Ortodoxo, porque quando um está desconectado do outro, chegamos a metafísica ou ética exterior, que não salva o homem. 
  
Muitas vezes penso que nós, cristãos contemporâneos, cantamos os belos hinos da Transfiguração de Cristo, bem como a Apolytikion da festa, suplicando a Deus: "Deixe a sua luz eterna também resplandecer sobre nós, pecadores", ou rezamos a oração da Primeira Hora: "Que a luz do seu semblante brilhe sobre nós, para que, na sua luz, possamos ver a luz inacessível", mas toda a nossa vida eclesiástica orbita fora do caminho pelo qual poderíamos ver a Luz Incriada. Existe, isto é, como uma crise de identidade para o futuro da Igreja, quando não está coordenada com a experiência da energia purificadora, iluminadora e deificadora de Deus. 
  
A ciência contemporânea deslumbra os seres humanos, porque fala do "mapeamento do código genético", de "decodificação do código genético", de modo que muitas doenças possam ser curadas para estender a vida biológica, contudo, ignoramos o fato de que a maior doença é a morte, que só é destruída pela partilha da glória de Cristo. Devemos lembrar que o código genético real, a maravilha espiritual do homem, é a semelhança de Deus, theosis, que é o propósito original da criação do homem; e enquanto este não for cumprido, o homem permanece vazio. É característico que o dia em que foi descoberto e comunicado a decodificação do código genético (27 de junho de 2000), um jornal (AFP) escreveu: "A identidade (da vida) foi encontrada e seu significado é buscado". Quando o homem não encontra o significado da vida, sua vida é uma tragédia. 

 A ciência humana, quando não é entendida à luz de Deus, torna-se um desastre para o homem. Um exemplo concreto é o que aconteceu em 6 de agosto no ano de 1945, em Hiroshima. Enquanto a Igreja celebrava a Transfiguração de Cristo, e louvava a Luz da divindade de Cristo que propaga a paz e a alegria, oferecendo ao homem a oportunidade de vencer a morte, em Hiroshima outra luz brilhou, a luz do homem contemporâneo, a bomba atômica que criou catástrofe, dor, tristeza, morte. Duas luzes, a criada e a incriada, dois mundos diferentes com resultados opostos. 
  
A Transfiguração de Cristo, em conjunto com a Cruz e a Ressurreição de Cristo, bem como com a grande festa de Pentecostes, em que os discípulos se tornaram membros do Corpo de Cristo, mostram o propósito e o significado da existência do homem. Infelizmente, permanecemos longe da Transfiguração de Cristo e vivemos na distorção da nossa imagem. Nos distanciamo-nos do caminho da theosis e nos despedaçamos no caminho da desumanização. Nós cantamos os hinos da Transfiguração de Cristo, e dentro da nossa alma vivemos a tragédia da espiral descendente. 
  
"Cristo nosso Deus, ... Deixe a sua luz eterna também resplandecer sobre nós pecadores, através das orações da Theotokos..."