terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A Impecabilidade da Santíssima Theotokos (Hegúmeno Gregório Zaiens)

Nos últimos anos, entre alguns professores de nossa Santa Igreja Ortodoxa, uma questão foi aberta em referência à Theotokos: Será que a Theotokos pecou? Como surgiu a pergunta? Qual tem sido a opinião aceita da consciência da Igreja sobre este tópico? Através das orações da Santíssima Theotokos tentaremos agora formular uma resposta a estas perguntas.

Uma monja Ortodoxa uma vez deu uma palestra na qual ela falou da Impecabilidade [ausência de pecado] da Mãe de Deus. Aconteceu que um sacerdote presente observou que isso era falso e que, de fato, São João Crisóstomo e outros dos primeiros Padres da Igreja disseram que ela pecou. Ao ser questionado sobre isto depois, este clérigo ofereceu-se para enviar ao inquiridor um documento que ele escreveu enquanto estava no seminário que tratava deste assunto. Basicamente, todas as fontes foram mencionadas por estudiosos Católicos Romanos modernos, fazendo referência aos primeiros Padres da Igreja. É aqui que eu acredito que descobrimos uma fonte do problema.  Devemos, portanto, considerar as diferenças entre a concepção Ortodoxa e a Católica Romana da Theotokos, e para isso, devemos primeiro discutir suas visões conflitantes sobre o pecado "original" ou "ancestral". 

O conceito de ausência de pecado da Theotokos é uma crença antiga da Igreja que data desde antes do "Grande Cisma" de 1054. No Catolicismo Romano existe um dogma que foi formulado muito mais tarde (em 1854) chamado de "Imaculada Conceição". Embora os Católicos Romanos afirmem que esta é uma crença antiga que foi formalmente declarada dogma no século XIX, ela é desconhecida na história da Ortodoxia. Sabemos que a Mãe de Deus nasceu de uma mulher que tinha sido estéril e, portanto, a mão de Deus estava presente na concepção e nascimento da Theotokos, que foi de acordo com a natureza humana. Mas a isso, o Catolicismo Romano acrescenta que ela foi concebida de uma forma tão sobrenatural e "imaculada" que ela não sofreu os efeitos da queda de Adão. É uma incompreensão da consequência da queda de Adão aos seus descendentes que está na raiz deste erro. 

O pecado de nossos antepassados ou primeiros pais -  "ancestral" é literalmente traduzido do grego - obviamente, teve um efeito sobre toda a humanidade. O Bem-aventurado Agostinho, que marcou o rumo da doutrina Católica Romana sobre este tópico, seguiu a opinião errônea de que a culpa pessoal de Adão é herdada por todos os seus descendentes e, portanto, também a responsabilidade e a punição pelo pecado dele. Foi em reação a um erro no outro extremo, que veio a ser chamado de pelagianismo, que ele expressou esta opinião em sua pregação e escritos. Pélágio foi um teólogo britânico que ensinou em Roma no final do século IV e início do V. O pelagianismo reduziu o efeito da queda ao dizer que o pecado de Adão não teve efeito sobre seus descendentes, e os pelagianos mais extremos negaram qualquer transmissão do pecado ancestral. 

Em ambos esses erros há uma confusão entre pessoa e natureza no ser humano. Se ao examinarmos o pecado ancestral, construirmos os fundamentos de nossa teologia somente sobre a natureza humana, teremos a conclusão agostiniana. Isto torna a natureza humana, que é comum a toda a humanidade, a portadora da culpa de Adão e co-participante da responsabilidade pelo pecado dele. Os pelagianos ensinam com razão que somente a pessoa efetua o pecado e que cada pessoa em particular deve ser responsável pela culpa de seus próprios pecados. Entretanto, negligenciando a natureza humana e concentrando-se unicamente na pessoa, eles concluem incorretamente que o pecado de Adão não teve nenhum efeito sobre a natureza humana na qual todos os seus descendentes compartilham. 

Então o que é o ensino Ortodoxo sobre estes assuntos? A saber, que herdamos o efeito do pecado pessoal de Adão sobre sua natureza humana, uma natureza que é comum a todos nós. Isto resulta em uma distorção do ser humano, uma vez que existe uma certa hierarquia no homem, na qual a faculdade [poder] racional da alma deve governar  as demais faculdades, a (faculdade) desiderativa e a irascível. Entretanto, com a queda, esta hierarquia é virada de cabeça para baixo, e a faculdade racional é escravizada pelas outras duas faculdades da alma, assim, a alma se torna escrava das paixões.  Este estado é um estado de separação em relação a Deus e, portanto, um estado de pecado, uma condição na qual todos nós nascemos. Portanto, é isto, juntamente com a morte do corpo, que herdamos de Adão. 

No entanto, o conceito Católico Romano de pecado original não é compatível com este ensino. Assim, ao considerar a Theotokos sem pecado, a doutrina da Imaculada Conceição é uma necessidade. Reitero que no ensino deles, a Theotokos foi concebida e nasceu de uma forma "imaculada", com o resultado de que ela foi isenta do efeito do pecado de Adão sobre a natureza humana como encontrado em todos os seus descendentes. Portanto, eles concluíram que ela nasceu no estado de Adão antes da queda, e assim foi colocada sobre um pedestal acima do pecado. Não é assim na perspectiva Ortodoxa. Embora acreditemos que a Theotokos não tivesse pecado real [atual], ela nasceu, assim como todos os descendentes de Adão, com o efeito do pecado sobre sua natureza humana. No entanto, ela foi trazida ao templo aos três anos de idade, e ali levou uma vida de oração, jejum e estudo das Escrituras. Ela lutou com o efeito do pecado sobre sua natureza humana e o venceu. Neste aspecto, ela foi vitoriosa e não pecou, apesar de ter tido a natureza de homem caído.

Nas citações do documento acima mencionado do clérigo, em que a ausência de pecado da Theotokos estava em questão, os primeiros Padres da Igreja estavam basicamente falando de lutas dela na Cruz. Eles expressam as opiniões de que ela estava confusa, em dor, e sofreu emocionalmente. Contemplando seu Filho na Cruz, pode-se concluir que ela foi atacada com dúvidas quanto a quem era seu Filho. Para os Ortodoxos tudo isso não é pecado, mas sim a luta de nossa natureza humana contra o pecado. Neste caso, é especialmente verdade quando consideramos o fato de que o conhecimento completo não foi dado até a Ressurreição e Pentecostes. Entretanto, quando você tem o conceito Católico Romano da "Imaculada Conceição", que a coloca acima da luta humana natural, e depois lê tais coisas dos Padres, pode-se concluir que estas coisas são pecado. Isto é o que se vê em alguns estudiosos ocidentais mais recentes. Na América, temos livros limitados disponíveis em inglês por autores Ortodoxos; muitas vezes os estudantes de nossas escolas teológicas precisam recorrer a fontes não-Ortodoxas para obter informações, e assim, muitas vezes encontram tais opiniões não-Ortodoxas.

Como respondemos à afirmação errônea de que alguns dos primeiros Padres da Igreja ensinam que a Theotokos tinha pecado, devemos também abordar a observação do clérigo acima mencionado a respeito de São João Crisóstomo. A passagem de São João em questão é encontrada em sua 45ª homilia sobre o Evangelho de São Mateus. A passagem em que ele pregou foi o capítulo 12, versículos 46 a 49; lê-se: "E, falando ele ainda à multidão, eis que estavam fora sua mãe e seus irmãos, pretendendo falar-lhe. E disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te. Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos."

Em sua homilia, Crisóstomo faz o seguinte comentário: "aquilo que ela [a Theotokos] tentou fazer, foi de vaidade supérflua; na medida em que ela queria mostrar ao povo que tinha poder e autoridade sobre seu Filho". [1] Mais adiante, ao falar da Mãe de Cristo e Seus irmãos São João diz que "eles eram vangloriosos". [2] Este comentário de Crisóstomo foi uma vez discutido por um renomado estudioso Athonita, o Padre Theocletos do Mosteiro de Dionysiou. O Padre Theocletos comentou: "Crisóstomo era um grande homem asceta e espiritual, profundo no Espírito Santo. Ele era um pensador contemplativo que procurava penetrar no sentido das coisas. Então, ele estava considerando esta passagem e procurando penetrar em seu significado. E ele refletia: É possível que a Mãe de nosso Senhor tenha sido movida pela paixão da vanglória?" -- Aqui o Padre Theocletos estava falando como que na pessoa de São João, e ele parou aqui por um momento, fazendo um gesto como se estivesse pensando profundamente em algo, e então continuou -- "Bem, talvez". Então ele continuou abruptamente: "Mas por que discutimos essas coisas? Nós sabemos o que a Igreja ensina!"  [3]

"Nós sabemos o que a Igreja ensina!" A pergunta em questão não deveria ser: "A Theotokos pecou?" mas sim: "Por que a Igreja não fez algum julgamento sobre estas palavras de São João Crisóstomo?" A resposta é porque foi somente durante as controvérsias cristológicas, que começaram em escala real após a morte de São João, que a posição da Theotokos foi definida. Portanto, não seria justo ou razoável fazer julgamentos em tal situação. Além disso, deveríamos considerar mais exatamente a situação em que esta homilia foi proferida. As homilias de Crisóstomo sobre o Evangelho de São Mateus foram feitas em Antioquia, e provavelmente na última parte do período em que ele pregou como um presbítero. [4] Naquela época " Crisóstomo pregava domingo após domingo e durante a Quaresma, às vezes duas vezes ou com mais frequência durante a semana, até mesmo cinco dias seguidos".  [5] Ele "pregava frequentemente sem um texto escrito para os fiéis na Igreja ... Portanto, enquanto João pregava escribas habilidosos escreviam o que ele dizia". [6] Então foi sob estas condições, e com o propósito de um tema moral e não teológico, que São João fez este comentário. Devemos julgar Crisóstomo por este comentário, ou devemos responsabilizá-lo por ele? A Igreja definiu sua posição sobre isso durante sua vida? Ele teve oportunidade de mudar sua opinião? 

Talvez alguns de nós possam levantar outra questão, relativa à tradição onde Crisóstomo é visto escrevendo em sua mesa ao lado do Santo Apóstolo Paulo olhando sobre ele, testemunhando assim a verdade de suas interpretações? Isto, entretanto, só aconteceu depois que Crisóstomo foi consagrado Patriarca de Constantinopla, enquanto ele escrevia seus comentários sobre as epístolas de São Paulo, ao passo que a homilia em questão foi pregada anteriormente em Antioquia "sem um texto escrito".

Tendo falado até agora a partir de uma perspectiva defensiva, é apropriado neste momento alterar nossa abordagem para uma visão positiva do assunto em questão. Nos escritos de São Silouan, o Athonita, lemos: "Na igreja eu estava ouvindo uma leitura do profeta Isaías, e nas palavras: 'Lavai-vos, purificai-vos', refleti: 'Talvez a Mãe de Deus tenha pecado em um momento ou outro, nem que seja só em pensamento'.  E, é maravilhoso relatar, em uníssono com minha oração, uma voz soou em meu coração, dizendo claramente: 'A Mãe de Deus nunca pecou nem mesmo em pensamento'. Assim o Espírito Santo deu testemunho em meu coração sobre a pureza dela" [7].

Mas como é possível para qualquer ser humano não pecar, nem mesmo em pensamento? Para responder a isto, vamos rever algumas das informações que temos sobre a vida da Mãe de Deus. Com a tenra idade de três anos, a Theotokos foi dedicada a Deus, tendo sido trazida ao templo por seus pais. E como era a vida dela lá? No Evangelho apócrifo de São Mateus, lemos:
Maria era admirada por todo o povo de Israel; e quando tinha três anos de idade, ela andava com um passo tão maduro, falava tão perfeitamente e passava seu tempo tão assiduamente nos louvores de Deus que todos ficavam espantados com ela e se maravilhavam... Ela era tão constante na oração e sua aparência era tão bela e gloriosa, que quase ninguém conseguia olhar em sua face... E esta era a regra que ela havia estabelecido para si mesma: Da manhã até a terceira hora ela continuava em oração; da terceira até a nona hora ela se ocupava com a tecelagem; e a partir da nona hora ela se dedicava novamente à oração. Ela não abandonava a oração até que lhe aparecesse o anjo do Senhor de cuja mão ela poderia receber alimento; e assim ela se tornava cada vez mais perfeita na obra de Deus. Então, quando as virgens mais velhas descansavam dos louvores de Deus, ela não descansava; de modo que nos louvores e vigílias de Deus não se encontrava ninguém antes dela, ninguém mais instruído na sabedoria da lei de Deus, mais modesta e humilde, mais elegante no canto, mais perfeito em toda virtude. Ela era de fato firme, imóvel, imutável e avançando diariamente à perfeição... Ela estava sempre empenhada na oração e buscando a lei.... (8)
Entrada da Santíssima Theotokos no Templo

Segundo São Gregório Palamas, foi nesta época que ela adquiriu um estado de incessante oração interior. Em uma homilia Sobre a Entrada da Theotokos no Templo, São Gregório, enquanto descreve sua permanência ali, faz de Maria o modelo para a vida daquele que percorre o caminho da oração interior. Louvando a Puríssima, ele nos diz que ela 

escolheu viver em solitude, fora da vista de todos, dentro do santuário. Ali, tendo se libertado de todos os laços com as coisas materiais, rompido cada vínculo e até mesmo ascendido acima dessa simpatia em relação a seu próprio corpo, ela uniu sua mente com a inclinação desta para voltar-se para dentro de si mesma, com atenção e oração incessante e santa. Tendo-se tornado sua própria mestra por este meio, e estando estabelecida acima da confusão de pensamentos em todas as suas diferentes facetas, e acima de absolutamente toda forma de ser, ela construiu um novo e indescritível caminho para o céu, que poderia ser chamado de silêncio da mente. Com este silêncio, ela voou alto acima de todas as coisas criadas, viu a glória de Deus mais claramente do que Moisés (cf. Êxodo 33:18-23), e contemplou a graça divina. Tais experiências estão completamente fora do alcance dos sentidos dos homens, mas são uma visão graciosa e santa para almas e mentes imaculadas. (9)

Então, de acordo com São Gregório Palamas, nossa Puríssima Senhora enquanto habitava no Templo, através da "oração incessante e santa" ascendeu a uma grande altura espiritual antes desconhecida. Ao falar da experiência de esforçar-se em tal oração e dos frutos que a mesma transmite, ele escreve:

É através da contemplação que uma pessoa é feita divina [deificada], não por analogias especulativas com base em raciocínios e observações habilidosas - pois isto é terreno e humano - mas sob a orientação da quietude [hesíquia]. Continuando no quarto de cima de nossa vida (cf. Atos 1:13-14), como se fosse em orações e súplicas noite e dia, de alguma forma tocamos aquela natureza bem-aventurada que não pode ser tocada.

Assim, a luz que está além de nossa percepção e compreensão é difundida inefavelmente dentro daqueles cujos corações foram purificados pela santa quietude, e eles vêem Deus dentro de si mesmos como em um espelho (cf. 2Cor. 3:18). (10) 

Assim, Maria adquiriu uma intimidade única com Deus que a preparou para se tornar Sua morada. Não é de se admirar que, tendo alcançado tal estado, quando foi obrigada a deixar o Templo e se casar, ela tenha feito um voto de virgindade. Pois como poderia alguém que estava assim unida a Deus, unir-se a um homem! E tal é o poder da oração interior que a Mãe de Deus alcançou, que foi esta ação divina que a manteve livre do pecado durante toda a sua vida. 

Embora isto possa parecer difícil de acreditar, ainda assim através da "oração incessante e santa" - utilizando a terminologia de São Gregório - Maria, a Mãe de Deus, realizou isto. Mas por que esta oração é denominada "santa" e por que São Gregório diz "é através da contemplação que uma pessoa é feita divina"? Para responder a isto e concluir nossa discussão, vamos definir tanto a oração como seus estágios. Isto ilustrará adequadamente o poder da oração cheia de graça, o mesmo poder que manteve a Theotokos livre do pecado.

O Arquimandrita Sofrônio nos apresenta um esquema dos estágios da oração quando, em referência à Oração de Jesus, ele escreve:

É possível estabelecer uma certa sequência no desenvolvimento desta oração. Primeiro, é algo verbal: dizemos a oração com nossos lábios enquanto tentamos concentrar nossa atenção no Nome e nas palavras. Em seguida, não movemos mais nossos lábios, mas pronunciamos o Nome de Jesus Cristo, e o que se segue, em nossa mente, mentalmente. No terceiro estágio, a mente e o coração se combinam para agir juntos: a atenção da mente é centrada no coração e a oração é dita ali. No quarto estágio, a oração se torna auto-propulsante. Isto acontece quando a oração é confirmada no coração e, sem nenhum esforço especial de nossa parte, continua lá, onde a mente está concentrada. Por fim, a oração, repleta de bênçãos, começa a agir como uma chama suave dentro de nós, como uma inspiração do Alto, alegrando o coração com uma sensação de amor divino e deleitando a mente na contemplação espiritual. Este último estágio às vezes é acompanhado por uma visão de Luz. (11)

O Bispo Kallistos Ware nos apresenta uma série de definições sobre orações que têm certa relação com os estágios explicados acima. Ele primeiro se refere a uma definição em um dicionário de inglês que descreve a oração como "um pedido solene a Deus". (12) Isto pode corresponder às duas primeiras etapas de que fala o Arquimandrita Sofrônio. A oração descrita como um ato de petição do homem a Deus pode ser verbalizada ou pronunciada na mente de alguém. Em uma segunda definição ele cita São Teófano o Recluso, que diz a respeito da oração que "a coisa mais importante é estar diante de Deus com a mente no coração, e continuar permanecendo diante dEle incessantemente dia e noite até o fim da vida". (13) O Bispo Kallistos assinala que orar "não é mais pedir coisas", mas é "estar diante de Deus, entrar em um relacionamento imediato e pessoal com Ele". (14) Isto pode corresponder ao terceiro estágio mencionado acima, mas esta ainda é predominantemente uma ação iniciada pelo homem. Como continua o Bispo Kallistos, "a ênfase é colocada principalmente no que é feito pelo homem, e não por Deus". (15) A terceira definição dada pelo Bispo Kallistos refere-se ao quarto e quinto estágios de que fala o Arquimandrita Sofrônio. Ele cita São Gregório do Sinai que diz: "A oração é Deus, que opera todas as coisas em todos os homens" (16) - não é algo que eu inicio, mas no qual eu participo; não é primariamente algo que eu faço, mas que Deus está fazendo em mim - é deixar de fazer as coisas por nós mesmos e entrar na ação de Deus". (17) É este estágio da oração que é uma participação na ação ou energia ou vida de Deus que muitos de nossos Santos Pais alcançaram e levaram a um grau de perfeição através de sua ascese. O fim deste estágio é uma "manifestação do batismo", (18) é um nascimento a partir de Deus; portanto, é um novo começo, um novo modo de vida no qual a graça do Espírito Santo é perceptível e operativa. Este é o nascimento e estágio da graça que João o Teólogo escreve quando diz: "Todo o que é nascido de Deus não peca, porque a semente divina reside nele; e não pode pecar, porque nasceu de Deus." (19) É por isso que a oração incessante pode ser chamada de "santa" e pode ser dito que a contemplação torna uma pessoa "divina".

O que então podemos dizer sobre a estatura espiritual da Theotokos? Que estatura espiritual Maria, a Theotokos, adquiriu enquanto vivia no Templo? Ela foi levada para lá aos três anos de idade, providencialmente protegida das tentações deste mundo, viveu em estrita ascese e foi alimentada com as Escrituras e com a oração a Deus. E no momento da Anunciação, quando o "Espírito Santo desceu sobre ela e o poder do Altíssimo a cobriu com a sua sombra" (20), a qual estado de pureza e graça ela foi elevada? Isso está além de nossa compreensão. Só podemos nos maravilhar com o estado de graça do Espírito Santo que ela adquiriu e com o qual foi abençoada. Foi o poder desta graça do Espírito Santo que a preparou para ser a morada puríssima e santíssima de Deus e que a manteve livre do pecado durante todos os seus dias.

Como então, como Ortodoxos, podemos aceitar ou entreter especulações de pessoas de fora da Igreja? Devemos viver dentro da Santa Tradição de nossa Igreja. Esta vivência dentro da tradição foi magnificamente descrita por Vladimir Lossky quando disse que "estar dentro da Tradição, é manter a verdade viva na Luz do Espírito Santo" (21) A Mãe de Deus é nossa "Líder Vitoriosa" (22), que compartilhou de nossa natureza humana caída, mas não sucumbiu ao pecado através da fraqueza humana. Ela lutou contra o pecado e o venceu. Ela é o protótipo da vida de um monástico, sendo a mãe e fundadora do caminho da oração interior e da quietude. Ao cultivar estas práticas ascéticas, ela atingiu tal estado de pureza que Deus a escolheu para ser Sua mãe de acordo com a carne. Ela se tornou assim a mediadora entre o céu e a terra, e nossa "Líder Vitoriosa". Como mãe ela compartilhou do sofrimento e da Cruz de seu Filho e de nosso Deus, e ao carregar esta cruz, ela foi levada a um estado superior de perfeição. Assim ela é nosso modelo de luta, e mais uma vez, nossa "Líder Vitoriosa". Ó Theotokos, "como Tu possuis o poder invencível, liberta-nos de toda calamidade, para que possamos clamar a Ti: rejubila, ó Noiva Inesposada"(23).

O texto acima é um capítulo do livro "O Full of Grace Glory to Thee" escrito pelo Hegúmeno Gregório Zaiens.

Notas

(1) The Nicene and Post-Nicene Fathers, First Series, WM. B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, Michigan, 1956, Vol. X, pg. 279.

(2) Ibid.

(3) Esta é uma citação de uma conversa entre Pe. Theocletos e o autor, em 1992, no Santo Mosteiro de Dionysiou, na Montanha Santa.

(4) The Nicene and Post-Nicene Fathers, First Series, WM. B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids Michigan. 1956, Vol. X pg ix.

(5) The Nicene and Post-Nicene Fathers, First Series, WM. B. Eerdmans, Publishing Company, Grand Rapids Michigan, 1956, Vol. IX pg. 11. 

(6) The Great Collection of the Live of Saints. Chrysostom Press House Springs, Missouri, 1997 Vol. III: November, pg. 262. 

(7) Saint Silouan the Athonite, Archimandrite Sophrony (Sakharov), trans. Rosemary Edmons, Stavropegic Monastery of St. John the Baptist, Essex, England pg. 392. 

(8) The Ante-Nicene Fathers. VIII, WM. B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids Michigan, 1956, p. 371. 

(9) Mary the Mother of God, Sermons by Saint Gregory Palamas, editado por Christopher Veniamin, Mount Thabor Publishing, South Canaan, PA, 2005, pg, 47 (veja também, Little Russian Philokalia, Vol. IV: St. Paisius Velichkovsky, St. Herman Press * St. Paisius Abbey Press, 1994, pgs. 33-34).

(10) Ibid. pgs, 43-44, (veja também, Litlle Russian Philokalia IV; St. Paisius Velichkovsky, St. Herman Press * St. Paisius Abbey Press, 1994, pg. 33).

(11) His Life Is Mine, Archmandrite Sophrony (Sakharov), trad. Rosemary Edmonds, St. Vladimir's Seminary Press, Crestwood, New York, 1977, pg. 113.

(12) The Power of the Name, Bishop Kallistos of Diokleia, (Oxford: SGL Press, 1986), p. 1. 

(13) Ibid, pg. 1.

(14) Ibid. pg. 1.

(15) Ibid. pg. 1.

(16) Ibid. pg. 2.

(17) Ibid. pg. 2.

(18) Ibid. pg. 2.

(19) 1 João 3:9.

(20) Lucas 1:35.

(21) The Meaning of Icons, Leonid Ouspensky & Vladimir Lossky, trans. G. E. H. Palmer & E. Kadloubovsky, St. Vladimir's Seminary Press, Edição Revisada, Crestwood, New York, 1982, pg. 19.

(22) Kontakion of the Annunciation, trad., Book of Canons, St. Tikhon's Seminary Press, Very Rev, Theodore Heckman, pg 89.

(23) Ibid. pgs. 89-90.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O Significado do Ícone da Natividade de Cristo (Leonid Ouspensky)


A iconografia clássica da Natividade de Cristo, que vemos no ícone aqui reproduzido, tem seu protótipo nas ampullae dos séculos V e VI, em que os peregrinos costumavam trazer para casa o óleo da Terra Santa proveniente das lâmpadas queimadas nos lugares sagrados. [1] 

A parte descritiva do ícone corresponde ao Kontákio da festa: "Hoje a Virgem dá à luz ao Transcendente, e a terra oferece uma caverna ao Inacessível. Os anjos dão glória com os pastores, e os magos com a estrela avançam; pois Tu nasceste para nós, ó Menino, Deus pré-eterno." Duas outras cenas, baseadas na Tradição, aparecem nos cantos inferiores.

Em seu conteúdo, o ícone da Natividade de Cristo tem dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar, revela a própria essência do evento, o fato imutável da Encarnação de Deus; nos coloca diante de um testemunho visível do dogma fundamental da fé cristã, salientando por seus detalhes tanto a Divindade quanto a natureza humana do Verbo que se fez carne. Em segundo lugar, o ícone da Natividade nos mostra o efeito deste evento sobre a vida natural do mundo, dando-nos como que uma perspectiva de todas as suas conseqüências. Pois, segundo as palavras do Teólogo São Gregório, a Natividade de Cristo "não é uma festa de criação, mas uma festa de re-criação" [2], de uma renovação, que santifica o mundo inteiro. (Veniens mundum consecrare, diz o "Martyrologium Romanum"-"Ele veio para consagrar o Universo"). Através da Encarnação de Deus, toda a criação adquire um novo significado, que reside no propósito final de seu ser - sua transfiguração última. Assim, toda a criação participa do evento e ao redor da Criança Divina, recém-nascida, vemos representantes de todo o mundo criado, cada um prestando seu serviço adequado, ou como diz a Igreja - cada um dando graças à sua própria maneira. "O que traremos a Ti, ó Cristo, quando Tu nasceres na terra como Homem por nós; pois cada uma das criaturas, que têm o seu ser a partir de Ti, traz graças a Ti: os anjos seus cânticos, os céus uma estrela, os magos presentes, os pastores sua maravilha, a terra uma caverna, o deserto uma manjedoura. Quanto a nós, nós Te oferecemos uma Virgem Mãe" (Estiquério nas Vésperas da Natividade). A isso o ícone acrescenta presentes dos mundos animal e vegetal.

Do ponto de vista do significado e composição, o centro do ícone, ao qual todos os detalhes se relacionam de uma forma ou de outra, é o Bebê envolto em faixas, deitado na manjedoura, com a caverna escura onde ele nasceu como cenário de fundo [3]. Numa homilia atribuída a São Gregório de Nissa encontramos uma comparação feita entre o nascimento de Cristo em uma caverna e a luz espiritual resplandecendo na sombra da morte que envolve a humanidade. A abertura negra da caverna no ícone é, em seu significado simbólico, precisamente este mundo, atingido pelo pecado devido à falta do homem, no qual "o Sol da verdade" resplandeceu.

O Evangelho de Lucas (ii, 7) fala da manjedoura e das faixas, "e envolveu-o em faixas, e deitou-o numa manjedoura", e ainda as menciona como o sinal distintivo dado pelo anjo, pelo qual os pastores deveriam reconhecer no Bebê seu Salvador: "Isto vos servirá de sinal: achareis o bebê envolto em faixas e posto numa manjedoura." (Lucas ii, 12). O estiquério nos diz que a manjedoura era a oferta do deserto à Criança Divina.  O significado desta oferta é revelado nas palavras de São Gregório, o Teólogo, que escreve: "Curva-te diante das manjedouras através das quais tu, que eras mudo, és formado pela Palavra" (isto é, você cresce, alimentado pelo pão da Eucaristia). [4] O deserto (neste caso um lugar vazio e desabitado), que ofereceu refúgio ao Salvador, que desde Seu nascimento o mundo não aceitou, foi o cumprimento da prefiguração do Antigo Testamento - o deserto onde o símbolo da Eucaristia foi dado - maná.  Aquele que tinha feito chover maná do céu - sobre o povo judeu, Ele mesmo tornou-se o pão da Eucaristia - o Cordeiro, colocado sobre o altar, cujo símbolo é a manjedoura trazida pelo deserto do Novo Testamento como uma oferta ao Bebê.

Caverna, manjedoura, vestes de faixas - são indicações da kenosis da Divindade, de Seu abaixamento, da total humildade d'Aquele que, invisível em Sua natureza, torna-se visível na carne pelo bem do homem, nasce em uma caverna, é envolto em vestes de faixas, assim prefigurando Sua morte e sepultamento, o sepulcro e as vestes funerárias.

Na caverna, perto da manjedoura, encontra-se um boi e um asno. Os Evangelhos não falam deles. No entanto, em todas as imagens da Natividade de Cristo, eles estão próximos à Criança Divina. O lugar deles no centro do ícone aponta para a importância dada pela Igreja a este detalhe. É nada menos que o cumprimento da profecia de Isaías (i, 3), que tem um significado instrutivo muito profundo: "O boi conhece o seu dono, e o jumento a manjedoura do seu senhor, porém Israel não Me conhece, e o povo não Me levam em consideração.Pela presença dos animais, o ícone nos lembra a profecia de Isaías e nos chama ao conhecimento e à compreensão do mistério da Dispensação Divina.

Olhando para o ícone da Natividade de Cristo, a primeira coisa que chama nossa atenção é a posição da Mãe de Deus e o lugar que Ela ocupa. Nesta "festa de re-criação", Ela é "a renovação de todos os nascidos na terra", a nova Eva. Assim como a primeira Eva se tornou a mãe de todos os seres vivos, também a nova Eva se tornou a Mãe de toda a humanidade renovada, deificada através da Encarnação do Filho de Deus. Ela é a mais elevada ação de graças a Deus, que o homem, dentre todos os seres criados, traz para o Criador. Com esta oferta na pessoa da Mãe de Deus, a humanidade caída dá o consentimento para sua salvação através da Encarnação de Deus. O ícone da Natividade enfatiza graficamente este papel da Mãe de Deus, destacando-a entre as outras figuras por Sua posição central e, às vezes, por Seu tamanho. Ela está deitada próxima ao Bebê, mas comumente já fora da caverna, em uma cama, do tipo daquelas que os judeus levavam consigo em suas viagens.

A postura da Mãe de Deus é sempre cheia de profundo significado e está imediatamente conectada com questões dogmáticas, que surgiram em diferentes épocas ou lugares. As alterações desta postura enfatizam, de acordo com a necessidade, ou a natureza divina ou a natureza humana do Salvador. Assim, em algumas imagens, Ela está meio sentada, o que aponta para a ausência no caso dEla dos sofrimentos habituais e, portanto, para a natureza virgem da Natividade e a origem Divina do Babe (contra o erro nestoriano). Mas na grande maioria das imagens da Natividade de Cristo a Mãe de Deus está deitada, mostrando em Sua postura uma grande lassidão, que deve lembrar aos que oram acerca da natureza indubitavelmente humana do Bebê, "a fim de que não se suspeite que a encarnação seja uma ilusão", como diz Nicolau Mezarites. [5]

Ao redor do grupo central - a Criança Divina e Sua Mãe - estão reunidos todos os detalhes que, como já dissemos, testemunham a própria Encarnação e seus efeitos sobre todo o mundo criado. 

Os anjos realizam um serviço duplo: eles glorificam e trazem as boas novas. Em um ícone, isto é normalmente expresso pelo fato de alguns deles voltarem-se para cima e cantarem glória a Deus, outros se inclinarem para baixo, para os homens, a quem trazem as boas novas. 

Estes homens são os pastores. Eles são mostrados ouvindo a mensagem dos anjos; e muitas vezes um deles está tocando flauta, adicionando assim arte humana - música - ao coro dos anjos.

Do outro lado da caverna estão os magos, guiados pela estrela. Eles são representados como cavalgando ou, como em nosso ícone, caminhando com presentes. Um longo raio da estrela aponta diretamente para a caverna. Este raio conecta a estrela com uma parte da esfera que vai além dos limites do ícone - uma representação simbólica do mundo celestial. Desta forma, o ícone mostra que a estrela não é apenas um fenômeno cósmico, mas também um mensageiro do mundo do alto, trazendo as novas notícias sobre o nascimento dAquele que é "celestial sobre a terra". É aquela luz que, de acordo com as palavras de São Leão o Grande, estava escondida aos judeus, mas que resplandeceu para os pagãos. Nos pastores, os primeiros filhos de Israel a adorar o Bebê, a Igreja vê o início da Igreja judaica, e nos magos - "o início das nações" - a Igreja dos pagãos.De um lado estão os pastores - homens simples e pouco sofisticados, com os quais o mundo do alto entra em comunicação diretamente, em meio à vida cotidiana deles de trabalho, do outro estão os magos - homens do saber, que têm que realizar uma longa jornada a partir do conhecimento do que é relativo ao conhecimento do que é absoluto, através do objeto que eles estudam. Na adoração por estes magos, a Igreja testemunha que aceita e santifica toda a ciência humana que conduz a ela, desde que a luz relativa da revelação não-cristã traga aqueles que a servem para a adoração da luz absoluta. Deve-se notar que os magos são representados como sendo de idades diferentes, o que enfatiza o fato de que a revelação é dada aos homens independentemente dos seus anos e experiência mundana. 

Em um canto inferior do ícone, duas mulheres estão lavando a Criança. Esta cena é baseada em uma tradição, que também nos é transmitida pelos Evangelhos apócrifos de pseudo-Mateus e pseudo-Tiago. As duas mulheres são as duas parteiras que José trouxe para a Mãe de Deus. Esta cena da vida cotidiana mostra claramente que a Criança é como qualquer outro bebê recém-nascido e está sujeita às exigências naturais da natureza humana.

Outro detalhe enfatiza que na Natividade de Cristo "a ordem da natureza é superada" - e este é José. Ele não faz parte do grupo central do Filho e Sua Mãe; ele não é o pai e está enfaticamente separado deste grupo. Diante dele, sob o disfarce de um pastor velho e curvado, encontra-se o diabo tentando-o. Em alguns ícones, ele é representado com pequenos chifres ou uma cauda curta. A presença do diabo e seu papel de tentador adquire um significado particularmente profundo em relação a esta "festa de re-criação". Aqui, com base na tradição, o ícone transmite o significado de certos textos litúrgicos, que falam das dúvidas de José e do estado inquieto de sua alma. Este estado é expresso no ícone por sua atitude desanimada e é enfatizado pela abertura negra da caverna, que às vezes serve de pano de fundo para sua figura. A tradição, transmitida também pelos apócrifos, relata como o diabo tentou José dizendo-lhe que um nascimento de uma virgem não é possível, sendo contrário às leis da natureza. Este argumento, assumindo formas diferentes, continua reaparecendo ao longo de toda a história da Igreja. É a base de muitas heresias. Na pessoa de José o ícone revela não apenas seu drama pessoal, mas o drama de toda a humanidade - a dificuldade de aceitar aquilo que está "além das palavras ou da razão" - a Encarnação de Deus.

Em alguns ícones a Mãe de Deus é representada olhando para o Bebê, "guardando em seu coração" as palavras sobre Ele, ou olhando diretamente diante dEla para o mundo externo, em nosso ícone, como em muitos outros, Ela olha para José como se expressasse por este olhar compaixão pelo estado dele. Nisso o ícone ensina uma atitude tolerante e compassiva para com a descrença e a dúvida humana.

Fonte: retirado do livro The Meaning of Icons por Leonid Ouspensky e Vladimir Lossky

Notas

1. Estes recipientes trazem imagens dos eventos evangélicos, que aconteceram na localidade particular onde os recipientes foram feitos. Eusébio de Cesaréia relata, em sua História da Igreja, que no lugar da Natividade de Cristo São Constantino construiu uma igreja, cuja cripta era a própria caverna de Belém. É lá, segundo a opinião dos arqueólogos, que a cena da Natividade de Cristo reproduzida nas ampullae foi representada com toda a exatidão histórica possível. Esta cena formou a base de nossa iconografia desta Festa.

2. São Gregório o Teólogo, Discurso 38; P.G. 36, col. 316B. 

3. Os Evangelhos não dizem nada sobre a caverna: sabemos sobre ela pela Tradição. As evidências escritas mais antigas datam do século ll: São Justino o Filósofo em seu diálogo com Trifão (por volta do ano de 155-160), citando o Evangelho de São Mateus acrescenta, "como José não encontrou lugar para ficar naquela vila, ele se estabeleceu em uma caverna não muito longe de Belém". 

4. São Gregório o Teólogo, Discurso 38; P.G. 36, col. 332A. 

5. A. Heisenberg, Graheskirche und Apostclkirche, Leipzig, 1908. Parte II, p. 47.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Encíclica de São Fócio, o Grande, aos Patriarcas Orientais (867 d.C.)



São Fócio, Patriarca de Constantinopla, "o farol brilhante da Igreja", viveu durante o século IX, e veio de uma família de cristãos zelosos. Seu pai Sérgio morreu como um mártir em defesa dos santos ícones. São Fócio recebeu uma excelente educação e, como sua família estava relacionada à casa imperial, ocupou o cargo de primeiro secretário de estado no Senado. Seus contemporâneos diziam dele: "Ele se distinguiu tanto com os conhecimentos em quase todas as ciências seculares, que seria legítimo levar em conta a glória de sua idade e compará-la com os antigos".

Miguel, o jovem sucessor ao trono, e São Cirilo, o futuro Iluminador dos Eslavos, foram ensinados por ele. Sua profunda piedade cristã protegeu São Fócio de ser seduzido pelos encantos da vida da corte. Com toda a sua alma ele ansiava pelo monaquismo.

Em 857, Bardas, que governou com o Imperador Miguel, depôs o Patriarca Inácio (23 de outubro) da Sé de Constantinopla. Os bispos, conhecendo a piedade e o amplo conhecimento de Fócio, informaram ao imperador que ele era um homem digno de ocupar o trono arquipastoral. São Fócio aceitou a proposta com humildade. Ele passou por todas as posições clericais em seis dias. No dia da Natividade de Cristo, ele foi consagrado bispo e elevado ao trono patriarcal.

Logo, porém, surgiu a discórdia dentro da Igreja, estimulada pela remoção do Patriarca Inácio de seu ofício. O Sínodo de 861 foi convocado para pôr fim à agitação, no qual foi confirmado a deposição de Inácio e a posse de Fócio como patriarca.

O Papa Nicolau I, cujos enviados estavam presentes neste concílio, esperava que, ao reconhecer Fócio como patriarca, ele pudesse subordiná-lo ao seu poder. Quando o novo patriarca se mostrou insubmisso, Nicolau anatematizou Fócio em um concílio romano.

Até o final de sua vida, São Fócio foi um firme opositor das intrigas e desígnios papais contra a Igreja Ortodoxa do Oriente. Em 864, a Bulgária se converteu voluntariamente ao cristianismo. O príncipe búlgaro Boris foi batizado pelo próprio Patriarca Fócio. Mais tarde, São Fócio enviou um arcebispo e sacerdotes para batizar o povo búlgaro. Em 865, os Santos Cirilo e Metódio foram enviados para pregar sobre Cristo na língua eslava. No entanto, os partidários do Papa incitaram os búlgaros contra os missionários Ortodoxos.

A situação calamitosa na Bulgária se desenvolveu porque uma invasão dos povos germânicos os obrigou a buscar ajuda no Ocidente, e o príncipe búlgaro pediu ao Papa que enviasse seus bispos. Quando chegaram à Bulgária, os legados papais começaram a substituir os ensinamentos e costumes latinos em lugar das crenças e práticas Ortodoxas. São Fócio, como firme defensor da verdade e denunciador da falsidade, escreveu uma encíclica informando os bispos orientais sobre as ações do Papa, indicando que o afastamento da Igreja Romana em relação à Ortodoxia não se deu apenas em ritual, mas também em sua confissão de fé. Um concílio foi convocado, censurando a arrogância do Ocidente.

Em 867, Basílio, o macedônio se apoderou do trono imperial, após o assassinato do imperador Miguel. São Fócio denunciou o assassino e não permitiu que ele participasse dos Mistérios Sagrados de Cristo. Portanto, ele foi removido do trono patriarcal e preso em um mosteiro sob guarda, e o Patriarca Inácio foi restaurado à sua posição.

O Sínodo de 869 reuniu-se para investigar a conduta de São Fócio. Este concílio ocorreu com a participação dos legados papais, que exigiram que os participantes assinassem um documento (Libellus) condenando Fócio e reconhecendo a primazia do Papa. Os bispos orientais não concordaram com isso, e discutiram com os legados. Convocado ao concílio, São Fócio enfrentou todas as acusações dos legados com um silêncio digno. Somente quando os juízes lhe perguntaram se ele desejava se arrepender, ele respondeu: "Por que vocês se consideram juízes?". Após longas disputas, os oponentes de Fócio saíram vitoriosos. Embora o julgamento deles fosse infundado, eles anatematizaram o Patriarca Fócio e os bispos que o defendiam. O santo foi enviado à prisão por sete anos e, em seu testemunho, agradeceu ao Senhor por ter resistido pacientemente a seus juízes.

Durante este tempo o clero latino foi expulso da Bulgária, e o Patriarca Inácio enviou seus bispos para lá. Em 879, dois anos após a morte do Patriarca Inácio, outro concílio foi convocado (muitos o consideram o Oitavo Concílio Ecumênico), e novamente São Fócio foi reconhecido como o legítimo arquipastor da Igreja de Constantinopla. O Papa João VIII, que conhecia Fócio pessoalmente, declarou através de seus enviados que as antigas decisões papais sobre Fócio foram anuladas. O concílio reconheceu o caráter inalterável do Credo niceno-constantinopolitano, rejeitando a distorção latina ("filioque"), e reconhecendo a independência e igualdade de ambos os tronos e ambas as igrejas (ocidental e oriental). O concílio decidiu abolir os usos e rituais latinos na igreja búlgara introduzidos pelo clero romano, que terminou suas atividades lá. [1]


* * * 

Encíclica aos Patriarcas Orientais (867 d.C.)

Inúmeros têm sido os males concebidos pelo diabo ardiloso contra a raça dos homens, desde o início até a vinda do Senhor. Mas mesmo depois, ele não cessou, através de erros e heresias, de seduzir e enganar aqueles que o escutam. Antes da nossa época, a Igreja, testemunhou vários erros ímpios de Ário, Macedônio, Nestório, Eutiques, Dióscoro e uma multidão imunda de outros, contra os quais foram convocados os santos Sínodos Ecumênicos, e contra os quais os nossos santos Padres, portadores de Deus, lutaram com a espada do Espírito Santo. Mas, mesmo depois dessas heresias terem sido vencidas e a paz reinado, e a partir da Capital Imperial as correntes da Ortodoxia fluíram pelo mundo; depois que algumas pessoas que tinham sido atingidas pela heresia jacobita (monofisita) voltaram à Fé Verdadeira por causa de suas santas orações; e depois que outros povos bárbaros, como os búlgaros, passaram da idolatria ao conhecimento de Deus e da Fé Cristã: eis que o diabo ardiloso se agitou por causa de sua inveja.

Pois os búlgaros não haviam sido batizados nem mesmo por dois anos quando homens desonrosos emergiram da escuridão (isto é, do Ocidente), e caíram como granizo ou, melhor, atacaram como javalis a vinha recém plantada do Senhor, destruindo-a com cascos e presas, ou seja, por suas vidas vergonhosas e dogmas corrompidos. Pois os missionários e clero papais queriam que esses cristãos Ortodoxos se afastassem dos dogmas corretos e puros de nossa Fé irrepreensível.

O primeiro erro dos ocidentais foi impor aos fiéis o jejum aos sábados. (Menciono este ponto aparentemente pequeno porque o menor afastamento em relação à Tradição pode levar a um desdém de todos dogmas de nossa Fé). Em seguida, convenceram os fiéis a desprezar o casamento dos sacerdotes, semeando assim em suas almas as sementes da heresia maniqueísta. Da mesma forma, eles os persuadiram de que todos os que haviam sido batizados pelos sacerdotes tinham de ser novamente ungidos pelos bispos. Dessa forma, esperavam mostrar que a crisma realizada pelos sacerdotes não tinha valor, ridicularizando assim esse Mistério Cristão divino e sobrenatural. De onde vem esta lei que proíbe os padres de ungir com o Santo Crisma? De que legislador, Apóstolo, Padre, ou Sínodo? Pois, se um sacerdote não pode crismar os recém batizados, então certamente ele também não pode batizar. Ou, como pode um sacerdote consagrar o Corpo e Sangue de Cristo Nosso Senhor na Divina Liturgia se, ao mesmo tempo, ele não pode crismar com o Santo Crisma? Se essa graça, então, é subtraída dos sacerdotes, a posição episcopal é diminuída, pois o bispo está à cabeça do coro dos sacerdotes. Mas os ocidentais ímpios não cessaram a sua iniquidade nem mesmo aqui.

Tentaram com suas falsas opiniões e palavras distorcidas arruinar o santo e sagrado Símbolo [Credo] Niceno da Fé - que por decisões tanto sinodais como universais possui poder invencível - acrescentando-lhe que o Espírito Santo procede não só do Pai, como o Símbolo declara, mas também do Filho. Até agora, ninguém jamais ouviu sequer um herege pronunciar tal ensinamento. Que cristão pode aceitar a introdução de duas fontes na Santíssima Trindade; isto é, que o Pai é uma fonte do Filho e do Espírito Santo, e que o Filho é outra fonte do Espírito Santo, transformando assim a monarquia da Santíssima Trindade em uma divindade dupla?

E por que o Espírito Santo deve proceder tanto a partir do Filho como a partir do Pai? Pois se a Sua processão a partir do Pai é perfeita e completa - e é perfeita porque Ele é Deus perfeito a partir de Deus perfeito - então por que há também uma processão a partir do Filho? O Filho, além disso, não pode servir como intermediário entre o Pai e o Espírito, porque o Espírito não é uma propriedade do Filho. Se dois princípios, duas fontes, existem na divindade, então a unidade da divindade seria destruída. Se o Espírito procede tanto a partir do Pai como a partir do Filho, Sua processão, a partir do Pai somente, seria necessariamente ou perfeita ou imperfeita. Se for imperfeita, então a processão a partir de duas hipóstases seria muito mais artificiosa e menos perfeita do que a processão a partir de uma hipóstase somente. Se não é imperfeita, por que seria necessário que o Espírito procedesse também a partir do Filho?

Se o Filho participa na qualidade ou propriedade própria da hipóstase do Pai, então o Filho e o Espírito perdem suas próprias distinções pessoais. Aqui se cai no semi-sabelianismo. A proposição de que na divindade existem dois princípios, um que é independente e outro que recebe sua origem do primeiro, destrói a própria raiz da concepção cristã de Deus. Seria muito mais consistente expandir esses dois princípios em três, pois isso estaria mais de acordo com a compreensão humana da Santíssima Trindade.

Mas como o Pai é o princípio e a fonte, não pela natureza da divindade, mas pela propriedade de Sua hipóstase (e a hipóstase do Pai não inclui a hipóstase do Filho), o Filho não pode ser um princípio ou fonte. O Filioque na realidade divide a hipóstase do Pai em duas partes, ou então a hipóstase do Filho torna-se uma parte da hipóstase do Pai. Através do ensinamento do Filioque, o Espírito Santo se encontra a dois graus ou etapas afastado do Pai, e por isso tem uma posição muito mais inferior do que o Filho. Se o Espírito Santo procede a partir do Filho também, então entre as três Hipóstases Divinas, apenas o Espírito Santo tem mais de uma origem ou princípio.

Pelo ensinamento da processão a partir do Filho também, o Pai e o Filho se tornam mais próximos um do outro do que o Pai e o Espírito, pois o Filho possui não só a natureza do Pai, mas também a propriedade de Sua Pessoa [hipóstase]. A processão do Espírito a partir do Filho ou é a mesma que a do Pai, ou então ela é diferente, e nesse caso existe uma oposição na Santíssima Trindade. Uma dupla processão não se pode conciliar com o princípio de que o que não é comum às três hipóstases pertence exclusivamente a uma só das três hipóstases. Se o Espírito procede também a partir do Filho, por que, então, algo não procederia a partir do Espírito, para que se mantivesse o equilíbrio entre as Hipóstases Divinas?

Pelo ensinamento de que o Espírito procede também a partir do Filho, o Pai se mostra parcial para com o Filho. O Pai ou é uma fonte maior do Espírito do que o Filho, ou uma fonte menor. Se maior, a dignidade do Filho é ofendida; se menor, a dignidade do Pai é ofendida. Os latinos tornam o Filho maior que o Espírito, porque O consideram um princípio, colocando-O irreverentemente próximo do Pai. Ao introduzir um princípio duplo na Santíssima Trindade, como fazem, os latinos ofendem o Filho, pois, ao torná-Lo uma fonte do que já tem uma fonte, tornam-No desnecessário como uma fonte. Também dividem o Espírito Santo em duas partes: uma parte a partir do Pai e uma parte a partir do Filho. Na Santíssima Trindade, que está unida numa unidade indivisível, todas as três hipóstases são invioláveis. Mas, se o Filho contribui para a processão do Espírito, a Filiação é então prejudicada, e a propriedade hipostática sofre dano.

Se, através da geração do Filho, o poder foi assim dado ao Filho para que o Espírito Santo procedesse a partir dEle, então como não seria destruída a Sua própria Filiação quando Ele, que Ele mesmo tem uma fonte, se tornou uma fonte de Outro que é igual a Ele e é da mesma natureza que Ele? De acordo com o ensinamento Filioque, é impossível saber por que o Espírito Santo não poderia ser chamado de neto! Se o Pai é a fonte do Filho, que é a segunda fonte do Espírito, então o Pai é simultaneamente a fonte imediata e a fonte mediada do Espírito Santo! Uma fonte dupla na divindade termina inevitavelmente em um resultado duplo; assim, a hipóstase do Espírito deve ser dupla. Portanto, o ensinamento do Filioque introduz na divindade dois princípios, uma diarquia, que destrói a unidade da divindade, a monarquia do Pai.

Tendo aqui explicado apenas brevemente o entendimento latino, deixarei sua apresentação detalhada e refutação até que sejamos reunidos em concílio. Esses chamados bispos introduziram, assim, esse ensinamento ímpio, juntamente com outras inovações inadmissíveis, entre o povo búlgaro simples e recém-batizado. Estas notícias nos corta o coração. Como não lamentar quando vemos diante dos nossos olhos o fruto do nosso ventre, a criança a quem demos à luz através do Evangelho de Cristo, sendo dilacerada por feras? Aquele que pelo seu suor e sofrimento os revitalizou e aperfeiçoou na Fé, sofre uma grande dor e tristeza com a destruição de seus filhos. Portanto, pranteamos por nossos filhos espirituais, e não cessamos de prantear. Porque não daremos sono aos nossos olhos até que, na medida do nosso poder, os retornemos à Casa do Senhor.

Em relação a esses precursores da apostasia, corruptores profanos e servos do inimigo, nós, por decreto divino e sinodal, condenamo-los como impostores e inimigos de Deus. Não é como se estivéssemos agora mesmo pronunciando julgamento sobre eles, mas declaramos abertamente a condenação ordenada pelos antigos sínodos e cânones apostólicos. Se persistirem obstinadamente em seu erro, os excluiremos da comunhão de todos os cristãos.  Eles introduziram o jejum aos sábados, embora isso seja proibido pelo 64º Cânone Apostólico, que afirma: "Se algum clérigo for encontrado jejuando aos domingos ou sábados, exceto o único Grande Sábado antes da Páscoa, que seja removido das fileiras do clero, e se for leigo, que seja excomungado." Da mesma forma, pelo 56º Cânone do Santo Quarto Sínodo Ecumênico, que diz: "Como ficamos sabendo que na cidade da Velha Roma alguns, durante o Grande Jejum, em oposição à ordem eclesiástica que nos foi transmitida, mantêm o jejum mesmo aos sábados, o santo Sínodo Ecumênico ordena que na Igreja da Velha Roma o Cânone Apostólico que proíbe o jejum aos sábados e domingos deve ser observado com precisão".

Da mesma forma, há um cânone do sínodo regional de Gangra que anatematiza aqueles que não reconhecem sacerdotes casados. Isto foi confirmado pelo Santo Sexto Sínodo Ecumênico, que condenou aqueles que exigem que os sacerdotes e diáconos deixem de coabitar com suas legítimas esposas após sua ordenação. Tal costume estava sendo introduzido já então pela Igreja da Velha Roma. Esse Sínodo lembrou à Igreja da Velha Roma o ensinamento evangélico e o cânon e a constituição dos Apóstolos, e ordenou-lhe que não insultasse a santa instituição do matrimônio cristão estabelecida pelo próprio Deus. Mas mesmo que não citássemos todas essas e outras inovações dos latinos, a simples citação de sua adição da frase Filioque no Símbolo da Fé Nicena seria suficiente para submetê-los a mil anátemas. Pois essa inovação blasfema o Espírito Santo, ou mais corretamente, toda a Santíssima Trindade.

Tendo apresentado esta questão perante a nossa fraternidade no Senhor, segundo o antigo costume da Igreja, o convidamos e pedimos que venham e se juntem a nós em concílio, com o propósito de condenar estes ensinamentos imundos e ímpios. Não abandonem a ordem estabelecida pelos Santos Padres que eles, por seus atos e obras, nos transmitiram como um legado a preservar. Mas com muito zelo e boa vontade enviem seus representantes e deputados, adornados com a piedade e o sacerdócio e pela bondade de suas vidas e palavras, e por decreto sinodal comum esta recente gangrena blasfema será extirpada da Igreja. Uma vez que tenhamos erradicado essa impiedade, podemos esperar que o recém-baptizado povo búlgaro volte à Fé que aceitou inicialmente. E não só o povo búlgaro, mas também todo o povo anteriormente terrível, o chamado Rus, pois mesmo agora estão abandonando sua fé pagã e estão se convertendo ao cristianismo, recebendo de nós bispos e pastores, assim como todos os costumes cristãos. Consequentemente, se agora vos moverdes para ajudar a eliminar este mal recém iniciado, então o rebanho de Cristo aumentará ainda mais e o aprendizado apostólico chegará aos confins do mundo. Com este propósito, portanto, enviem os vossos representantes e deputados equipados com a autoridade dos tronos apostólicos que herdastes pelo Espírito Santo, para que estes e todas as outras questões possam ser levadas a julgamento por uma autoridade legítima.

Da região italiana, recebemos uma carta sinodal citando muitas questões graves contra o bispo da Velha Roma. Assim, os Ortodoxos de lá nos pedem para libertá-los da grande tirania dele, pois naquela área a lei sagrada está sendo desprezada e a ordem da Igreja pisoteada. Isso nos foi dito anteriormente por monges que vieram até nós de lá, e agora recebemos muitas cartas que nos dão notícias assustadoras sobre aquela região e nos pedem para transmitir a mensagem deles para todos os bispos e também para os Patriarcas Apostólicos. Por essa razão, comunico a vós o pedido deles por meio desta epístola. Uma vez reunido um sínodo santo e ecumênico cristão, caberá a nós, juntos, resolver todas estas questões com a ajuda de Deus e segundo as regras dos sínodos passados, para que, ao fazer isto, uma paz profunda possa novamente prevalecer na Igreja de Cristo.

Além disso, é necessário confirmar o santo Sétimo Sínodo Ecumênico, a fim de que todos os fiéis da Igreja, em todos os lugares, reconheçam e incluam esse Sínodo como Ecumênico juntamente com os outros seis. Pois ouvimos dizer que em alguns lugares ele ainda não é assim considerado, embora suas decisões sejam aceitas e honradas. Este foi o Sínodo que venceu e destruiu a grande iniquidade herética do iconoclasmo. Representantes dos outros quatro patriarcas participaram de suas sessões. Depois de todos reunidos, juntamente com nosso tio, o muito bem-aventurado Tarásio, Arcebispo de Nova Roma, este grande e ecumênico sínodo esmagou a heresia blasfema do Anticristo. Portanto, este Sínodo deve ser declarado e enumerado com os seis anteriores, a fim de mostrar a união da Igreja de Cristo e negar aos ímpios iconoclastas a afirmação de que sua heresia foi condenada por um só trono. Assim procuramos e nos propomos como um irmão aos irmãos, e suplicamos a Vossa Santidade e também pedimos que se lembrem destes pobres em tuas orações.

* * * 

Nota do tradutor: a presente tradução foi feita a partir da versão em inglês incluída no livro "On the Mystagogy of the Holy Spirit" publicada pelo Holy Transfiguration Monastery, Studion Publishers. O texto é ligeiramente diferente do mesmo disponível em outras línguas (russo, grego, romeno). 

[1] Nota do tradutor: a introdução foi retirada de https://www.antiochpatriarchate.org/en/page/st-photius-the-patriarch-of-constantinople/1332/.

Sobre São Fócio e concílio de 879 veja: 
São Fócio o Grande, o Concílio Fociano e as relações com a Igreja Católica Romana (Dr. David Ford) 



sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Cristianismo e Comunismo (Metropolita Filareto Voznesensky)

Metropolita Filareto (1903 - 1985) Bispo e Primaz da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior
e Metropolita de Nova York e leste americano.

Examinemos agora mais precisamente a questão da relação do cristianismo com o comunismo, àquela forma particular de comunismo que surgiu agora como uma tentativa de realizar as idéias do socialismo. Esta forma de comunismo emergiu na história como um inimigo declarado e feroz do cristianismo. Por sua vez, o cristianismo o reconhece como completamente estranho e hostil a si mesmo.

A história da Igreja nos tempos apostólicos revela que, naquela época, ela tinha seu próprio comunismo cristão e os fiéis tinham tudo em comum, como dizem os Atos dos Apóstolos. Mesmo agora, este comunismo cristão existe sob a forma de monaquismo coenobítico. Tanto o conceito quanto a realidade da propriedade comunal é um tipo brilhante e idealisticamente elevada de inter-relação cristã, de que sempre existiram exemplos na Igreja Ortodoxa.

Como é grande a diferença entre esse comunismo cristão e o comunismo soviético! Um está tão longe do outro quanto os céus estão da terra. O comunismo cristão não é um objetivo independente e auto-motivado para o qual o cristianismo pode se empenhar. Ao contrário, ele é uma herança do espírito de amor pelo qual a Igreja respirou desde o início. Além disso, o comunismo cristão é totalmente voluntário. Ninguém diz: "Dê-nos o que é seu, isso nos pertence", ao contrário, os próprios cristãos se sacrificaram de tal forma que "nenhum deles considerava seus bens como sendo seus".

O comunalismo de propriedade no comunismo soviético é um objetivo auto-motivado que deve ser alcançado não importando quais sejam as consequências e independentemente de quaisquer considerações. Os construtores deste tipo de comunismo estão alcançando-o por meios puramente violentos, não hesitando em tomar qualquer medida, mesmo com o massacre de todos aqueles que não estão de acordo... As bases deste comunismo não são a liberdade, como no comunismo cristão, mas a força; não o amor sacrificial, mas a inveja e o ódio.

Em sua luta contra a religião, o comunismo soviético chega a tais excessos que exclui até mesmo aquela justiça mais elementar que é reconhecida por todos. Em sua ideologia de classe, o comunismo soviético pisoteia toda a justiça. O objeto de sua obra não é o bem comum de todos os cidadãos do Estado, mas apenas os interesses de uma única classe. Todos os demais grupos estatais e sociais de cidadãos são "jogados para fora", fora dos cuidados e da proteção do governo comunista. A classe dominante não tem nenhuma preocupação com eles.

Ao falar de sua nova ordem, de seu estado "livre", o comunismo promete constantemente uma "ditadura do proletariado". No entanto, há muito tempo ficou claro que não há sinais desta prometida ditadura do proletariado, mas, em vez disso, existe uma ditadura burocrática sobre o proletariado. Além disso, não há manifestação de liberdade política ordinária sob este sistema: nem a liberdade de imprensa, nem a liberdade para se reunir, nem a inviolabilidade do lar. Somente aqueles que viveram na União Soviética conhecem o peso e a intensidade da opressão que reina ali. Sobre tudo isso, reina um terror político como nunca antes experimentado: execuções e assassinatos, exílios e prisões em condições incrivelmente duras. Isto é o que o comunismo deu ao povo russo ao invés da liberdade prometida.

Em sua propaganda política, o comunismo afirma que está alcançando a realização da liberdade, igualdade (ou seja, justiça) e fraternidade [irmandade]. Já falamos do primeiro e do segundo. A idéia de "fraternidade" foi tomada emprestada dos cristãos que se chamam uns aos outros de "irmão". O apóstolo Pedro disse: "Honrai a todos. Amai a fraternidade" (1 Pedro 2: 17). Na prática, o comunismo trocou a palavra "irmão" pela palavra "camarada". Isto é muito indicativo, já que os camaradas podem ser co-participantes (mas não irmãos) em qualquer atividade, mas não se pode realmente falar de "fraternidade" de qualquer maneira, lá onde se prega a luta de classe, a inveja e o ódio.

Todas estas diferenças citadas entre cristianismo e comunismo ainda não esgotam nem mesmo a própria essência da contradição entre eles. A diferença fundamental entre comunismo e cristianismo encontra-se ainda mais profunda, na ideologia religiosa de ambos. Não admira, portanto, que os comunistas lutem tão maliciosa e obstinadamente contra nossa fé.

O comunismo é supostamente um sistema ateísta que renuncia a toda religião. Na realidade, é uma religião - uma religião fanática, obscura e intolerante. O cristianismo é uma religião do céu; o comunismo, uma religião da terra. O cristianismo prega o amor por todos; o comunismo prega o ódio de classe e guerra e é baseado no egoísmo. O cristianismo é uma religião de idealismo, fundada na fé da vitória da verdade e do amor de Deus. O comunismo é uma religião de pragmatismo seco e racional, perseguindo o objetivo de criar um paraíso terrestre (um paraíso de saciedade animalista e de reprovação espiritual). É significativo que, ao passo que uma cruz é colocada sobre o túmulo de um cristão, o túmulo de um comunista é marcado por uma estaca vermelha. Que indicativo e simbólico para ambos. Um deles - a fé na vitória da vida sobre a morte e do bem sobre o mal. O outro - trevas ignorantes, desânimo e vazio, sem alegria, conforto ou esperança para o futuro. Enquanto as relíquias sagradas dos santos ascetas da fé de Cristo florescem com incorruptibilidade e fragrância, o cadáver apodrecido de Lênin, frequentemente embalsamado, é o melhor símbolo do comunismo.

Do livro "On the Law of God," por Metropolita Filareto (Voskresensky). 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O Monge Católico Romano da Itália que ficou sem palavras por causa de São Porfírio de Kavsokalyva

São Porfírio de Kavsokalyvia


Para cada pessoa que se aproximava dele, o Ancião Porfírio era uma revelação. Isto também aconteceu com os não-Ortodoxos. Gostaria de lhes contar uma história muito característica.

Uma vez, quando estávamos no Novo Skete, recebemos um monge Católico Romano que tinha vindo ao Monte Athos para aprender mais sobre como vivem os monges, a vida ascética e a organização geral do Monte Athos. Contamos a ele sobre o Ancião Porfírio e quando ele foi a Atenas, ele foi ao seu encontro.

Quando o Ancião Porfírio o viu, sem lhe perguntar nada, começou a descrever o mosteiro deste monge na Itália e seu modo de vida lá. Ele até descreveu um convento vizinho. Ele viu todos os monges e monjas de lá e mencionou cada um deles em detalhes específicos!

O monge ficou literalmente boquiaberto porque foi a primeira vez em sua vida que ele encontrou um homem assim. Quando ele voltou ao Monte Athos, ele nos disse: "Se alguém tivesse me falado destas coisas; que ele tinha visto e ouvido estas coisas, eu nunca acreditaria. Como é possível que essa pessoa que vive na Grécia descreva em detalhes nosso mosteiro no norte da Itália, que me conte todos esses detalhes, que me fale dos monges, que me fale das monjas, cada um individualmente?" 

Como este monge nos disse, quando perguntou ao Ancião Porfírio como ele era capaz de ver todas estas coisas, ele lhe respondeu: "A graça de Deus revela os mistérios para nós, os Ortodoxos".

Do livro "Elder Porphyrios Testimonies and Experiences" por Klitos Ioannidis

domingo, 6 de dezembro de 2020

Buscadores da Verdade, o Mito Igualitarista e a Aristocracia do Espírito: Reconectando Hoje com a Tradição Mística (Doru Costache)

Meu artigo discutirá questões relativas ao acesso à verdade. [1] Argumentarei que paralelamente à chamada verdade objetiva, mais ou menos estabelecida cientificamente e por consenso público, existe uma verdade existencial ("subjetiva"), como a vivida pelos santos e que transcende toda a competência secular. 

Primeiramente, tratarei do mito igualitarista da opinião pública, uma característica importante da cultura moderna, juntamente com algumas de suas principais implicações para a mentalidade contemporânea. Em segundo lugar, examinarei a parábola de São Silouan, o Athonita, com as galinhas, o galo e a águia, como um contraponto tradicional e hierárquico em relação à perspectiva igualitarista moderna. Em terceiro lugar, tentarei oferecer um insight sobre a tradição mística dos santos bizantinos, representada por Máximo o Confessor, Simeão o Novo Teólogo e Gregório Palamas.

Evidentemente, o objetivo deste artigo não será o de demonstrar a superioridade da tradição bizantina sobre qualquer outra tradição. Na realidade, ao escolher analisar os ensinamentos dos santos acima mencionados, fui motivado pelo fato de que eles representam marcos para minha própria estrutura. Assim, o objetivo deste artigo será enfatizar a alternativa eclesial à pobreza existencial, intimamente ligada e conatural com o mito igualitarista. Meu argumento é que se a mentalidade moderna (cuja abreviação será MM, mentalidade moderna) quiser superar a perspectiva de sua própria desertificação inescapável, ela deve se voltar mais perceptivamente para a sabedoria tradicional dos santos e reconhecer o valor da mesma (cuja abreviação será MT, mentalidade tradicional). Por fim, este ensaio aponta para uma teoria existencial do conhecimento. 

Já testemunhamos a aurora de tal processo com o surgimento de uma série de espiritualidades exóticas dentro da cultura ocidental, durante o século passado. Talvez seja a hora de os teólogos contemporâneos, na medida em que ainda são portadores da tradição eclesial, apresentarem a espiritualidade cristã como um sério contribuinte para um desenvolvimento holístico de nossa sociedade.

Uma Teoria Democrática do Conhecimento 

Uma das características mais interessantes da cultura moderna é a tentativa de democratizar o acesso ao conhecimento, para abrir indiscriminadamente suas portas para o público em geral. Isto mostra, no entanto, apenas um aspecto do complexo fenômeno representado pela cultura moderna, cujo lado mais obscuro consiste em última instância em uma mentalidade não-tradicional (se não anti-tradicional). O epítome desta principal tendência da modernidade foi sem dúvida, desde o início, o slogan da revolução francesa - liberté, egalité, fraternité. Enfaticamente, este slogan afirma os direitos dos indivíduos de participar livre e igualmente em todos os assuntos relativos à sociedade, como um desafio dirigido aos ideais da sociedade hierárquica medieval. Em nível epistemológico, o conteúdo desta grande mudança cultural sem precedentes pode ser expresso como a passagem do paradigma tradicional dos guardiões do jardim proibido para o da fonte do conhecimento à disposição de todos.

Esta mudança não-tradicional já se tornou manifesta com o Iluminismo e o projeto enciclopédico francês. Reagindo ao estabelecimento anterior do sistema hierárquico - como expresso, por exemplo, no ofício eclesiástico do magisterium - os promotores do Iluminismo lançaram o manifesto igualitarista rotulado por Karl Popper como o mito da opinião pública. [2] De acordo com este manifesto, dentro da estrutura moderna é concedido a todos o acesso ao conhecimento, com a especificação subsequente de que a opinião da maioria estabelece o que é a verdade. A conquista fundamental do processo é eminentemente representada pelas ciências modernas, falando, em teoria, uma linguagem universal e objetivando configurar a mentalidade geral da sociedade.

Entretanto, três aspectos questionáveis deste fenômeno podem ser facilmente localizados, representando em última instância três etapas no processo de dissolução da forma tradicional de acesso à verdade. Embora a situação tenha mudado ligeiramente com a ciência contemporânea (por exemplo, as implicações filosóficas e epistemológicas da teoria quântica) e com o pós-modernismo, estes aspectos ainda são muito influentes (inclusive nos meios eclesiásticos).

(1) Confusão da verdade e consenso público. 

O processo de democratização do conhecimento resultou na lamentável confusão do consenso epistemológico do público em geral (se não apenas da comunidade científica) e da verdade (como uma imagem precisa, em sua complexidade, da realidade [3]).

A mentalidade moderna tornou-se gradualmente menos motivada a olhar para além de suas próprias idéias, recentemente estabelecidas, e menos motivada a reconhecer o caráter pluralista do ato de conhecer, as múltiplas percepções coexistentes da realidade. De fato, e em proporção direta, a mentalidade moderna rendeu-se à tentação de superestimar suas próprias aproximações, de canonizar por consenso público uma representação geralmente aceita da realidade, não importando quão reducionista um modelo tão comum [mediano] possa ser. O caso extremo que ilustra esta tendência é o de um cientista que se recusa a reconhecer a realidade como tal, tentando substituí-la por modelos simplificadores.4 Junto com este exemplo extremo, e como uma tendência geral dentro das ciências duras e humanas, esta situação torna-se óbvia na propensão de discutir as teorias e opiniões dos outros, em vez de se envolver no exame dos próprios objetos. Refletimos sobre reflexões em vez de refletir sobre realidades. As reflexões tornaram-se o objeto de nosso esforço intelectivo - em última análise, nossa verdade 'objetiva' e pública.

(2) Abandono das premissas tradicionais do processo cognitivo. 

A cultura moderna condena ao esquecimento o que representa a norma comum de uma cultura tradicional. As premissas básicas de qualquer abordagem humilde ao conhecimento - tais como a transcendência da verdade, os graus indefinidos de percepção e os pré-requisitos existenciais de acesso à verdade - são rigorosamente ignoradas e marginalizadas. Baseando-se acriticamente em uma corrente dominante racionalista orgulhosa, na maioria, hoje, a perspectiva complexa da experiência mística e da mentalidade holística (tradicional) parece ser absurda. Não há dúvida de que eventualmente, e não muito longe no futuro, as premissas tradicionais do conhecimento serão completamente removidas do horizonte da mentalidade moderna. Não é surpreendente, portanto, neste contexto, que a humildade, como pré-requisito de qualquer abordagem reverente ou apofática da realidade, seja deslocada de sua posição central e substituída pela tendência antropocêntrica arrogante da exaustão sistemática dos mistérios.

Em resumo, as premissas tradicionais do conhecimento são substituídas por ideologias (tais como o positivismo e o cientificismo), alimentando a apoteose da vanglória como experimentada pela mentalidade moderna.

(3) Classificação da formação espiritual como obsoleta. 

Embora generoso em sua aspiração de elevar o nível de consciência das massas, o manifesto igualitarista falha ao ignorar a distinção entre conhecimento edificante, ou sabedoria, e informação pura. Sob o peso do crescente acúmulo de dados, o antigo ditado non multa, sed multum [5] - sugerindo sabedoria como o núcleo da educação - deixa de ilustrar uma característica cultural relevante. A informação é substituída pela sabedoria, dentro de um processo que prioriza dados existencialmente neutros contra a formação pessoal.

Com esta tendência, desaparece a consciência da estreita conexão entre a experiência pessoal e o conhecimento. As pessoas elaboram teorias e promovem idéias com "objetividade" ou desapego intelectual, ignorando o sentido tradicional do verdadeiro conhecimento (theoria) como encarnado em uma forma de viver (praxis). Isto resulta, por um lado, em um processo de privar o domínio da vida pessoal de qualquer critério existencial sólido e, por outro lado, de transformar a mente humana em uma enciclopédia de conhecimento fútil (a mente disco-rígido). O clímax deste processo já foi alcançado com o abandono de quaisquer ideais de transformação interior. A linguagem cotidiana testemunha abundantemente esta tendência, que fala de pessoas bem informadas, mas nunca de pessoas bem formadas.

*

O resultado inesperado do sonho democrático é a relativização absoluta da verdade e, correlativamente, a extinção dos grandes ideais espirituais. As consequências existenciais deste fracasso - desorientação pessoal, ansiedade, psicoses, alienação, depressão, etc. - estão além do alcance das estatísticas habituais, minando a estabilidade e a coerência da sociedade moderna. Daí exatamente essas conseqüências impõem à consciência contemporânea a busca de critérios mais sólidos e a introdução da geodésica espiritual no caos da vida pessoal e social. Portanto, dada a eficácia antropológica e existencial dos sistemas tradicionais, a reconexão com as formas tradicionais de acesso à verdade parece ser urgente para nossa cultura. Ou, é um fato que o encontro entre a mentalidade moderna e a mentalidade tradicional encontra obstáculos exatamente na distância introduzida pela primeira; quanto à mentalidade tradicional, ela já e passionalmente abraça a mentalidade moderna...

A parábola de São Silouan, o Athonita 

A parábola com as galinhas, o galo e a águia ilustra perfeitamente a abordagem tradicional da verdade e seus pré-requisitos existenciais. Ela também representa uma história significativa, sugerindo os meios necessários para superar a questão da pobreza existencial resultante da implementação do mito da igualitarista. Um resumo da parábola se faz necessário.[6]

Parafraseando, a história fala de um galo que um dia voou para a cerca da fazenda, como ele costumava fazer, para observar os arredores. O que houve de especial naquele mesmo dia foi a determinação do galo em compartilhar sua experiência com as galinhas que nunca saíram do chão, pois se preocupavam exclusivamente com a busca de alimentos. O galo começou a contestar as galinhas, pedindo-lhes que levantassem os olhos para os céus e que se juntassem a ele no topo da cerca. Previsivelmente, as galinhas não tinham intenção de abrir mão de suas atividades importantes e zombaram do galo por desperdiçar tempo com coisas tão sem sentido como a contemplação do mundo. E como o galo continuava insistindo, dizendo-lhes quão grande é o mundo quando percebido a partir de uma certa altitude, elas o rejeitaram firmemente. Na realidade, elas expressaram sua absoluta convicção de que não existe um mundo mais amplo do que a fazenda onde elas sempre viveram. Dominado pela angústia de ser mal compreendido, o galo voltou à sua atividade favorita - de contemplar o mundo a partir de cima. Mais tarde, uma águia desceu das regiões superiores, convidando o galo a juntar-se a ela em sua contemplação superior. E embora a águia tenha se esforçado para convencê-lo da perspectiva mais ampla que se tem a partir do zênite, nosso galo resistiu com bravura. Para ele, uma contemplação superior àquela que ele tinha no topo da cerca era simplesmente impossível...


A parábola, recontada pelo Arquimandrita Sofrônio (Saint Silouan, the Athonite, 486): 

Uma águia estava voando alto nos céus, deleitando-se com a beleza do mundo; e ela pensou: "Eu vôo atravessando grandes extensões, e vejo vales e montanhas, mares e rios, prados e florestas. Vejo uma multidão de bestas selvagens e pássaros. Olho para as cidades e aldeias, e vejo como vivem os homens. Mas o galo do campo não sabe de nada, a não ser de seu galinheiro, onde ele põe os olhos em apenas um pequeno número de pessoas e alguns poucos bois. Vou descer voando e contar-lhe sobre a vida do mundo." 

A águia voou até o telhado de uma cabana e viu o galo se pavoneando entre suas galinhas, e pensou consigo mesma: "então ele está contente com sua sorte. Mas mesmo assim, eu lhe direi as coisas que sei".

E a águia começou a contar ao galo a beleza e a riqueza do mundo. No início, o galo ouviu atentamente, mas não entendeu nada, então a águia ficou irritada e se tornou um esforço para falar com o galo; ao passo que o galo, não entendendo o que a águia estava dizendo, começou a se cansar, e achou difícil ouvir a águia. Mas cada um deles permaneceu contente com sua sorte. [7]

Não sem um humor sutil, São Silouan (m. 1938) reitera aqui um tema clássico, compartilhado por respeitados Pais da Igreja, como o Santo Basílio o Grande,8 Gregório o Teólogo, [9] Gregório de Nissa [10] e Dionísio o Areopagita. [11] Basicamente sua parábola reitera para os cristãos modernos o insight tradicional sobre o significado místico da ascensão de Moisés no Sinai. Na mesma linha dos Pais mencionados, São Silouan diferencia várias percepções da realidade, distinguindo uma multidão de verdades 'subjetivas' ou existenciais. 

Na economia da parábola, [13] as galinhas representam a maioria das pessoas, vivendo somaticamente, isto é, preocupadas exclusivamente com esta vida transitória e ignorando o horizonte da nobreza mais elevada. Enredadas no mito do igualitarismo e interpretando a vida em termos materialistas, elas não podem sonhar em perceber a realidade de outra forma que não seja olhando para baixo, para o chão. O comportamento do galo é completamente estranho e absurdo para elas: elas são totalmente incapazes de entender por que alguém afirmaria que a realidade pode ser mais do que alimentar-se e pôr ovos... Por sua vez, o galo ilustra aqueles que questionam a forma unilateral da vida terrena, epidérmica, juntamente com sua percepção limitada da realidade. Apesar de não estar necessariamente situado muito acima das galinhas, existencialmente falando, o galo se esforça com atividades superiores - intelectuais e espirituais -, tentando compreender o sentido da vida e do mundo. Fornecendo à sua mente o alimento espiritual necessário, e tomando consciência de si mesmo e do complexo relevo da realidade, ele avança no sentido de perceber o cenário da vida de uma forma mais nuançada. É, portanto, surpreendente que, embora ele seja ininteligível para as galinhas, quando confrontado com o insight superior da águia, o galo se comporta como qualquer outra galinha acomodada. [14] Ele não pode suportar a idéia de uma percepção mais elevada e mais ampla da realidade, pela simples razão de não poder seguir a águia na jornada ascendente da mesma. No final, a barreira experimentada tanto pelas galinhas quanto pelo galo é a mesma, embora eles a experimentem de forma diferente: uma tendência idiossincrática de ignorar ao mesmo tempo os vários graus de acesso à verdade e a evidente preeminência da aristocracia de espírito. No entanto, dentro da parábola e além dela, duas coisas são certas. A primeira: a realidade é complexa, e pode ser percebida de pontos de vista indefinidos, [15] correspondendo às diversas formas de vida. A segunda: o acesso superior à verdade permanece condicionado pela intensidade do próprio compromisso de cada um com a vida virtuosa. Chegando a esta conclusão, a parábola enfatiza o nexo íntimo entre a experiência e o conhecimento.

Se Francis Bacon formulou a relação entre conhecimento e poder em termos de proporcionalidade, tantum possumus quantum scimus (adquirimos poder de acordo com a medida de nosso conhecimento) ou scientia potentia est (ciência é poder), São Silouan revela outra faceta do processo cognitivo: conhecemos proporcionalmente à nossa experiência pessoal no caminho virtuoso. Aqui torna-se evidente a principal diferença entre a orientação externa da mentalidade moderna, disposta a operar demiurgicamente como princípio 'ecossistêmico', e respectivamente a orientação interna da mentalidade tradicional, interessada na transformação da pessoa humana. 

Consequentemente, quando se trata de um processo de transformação pessoal - como na ascensão da condição das galinhas para a do galo, ou da condição do galo para a da águia - o know how pressuposto não pode mais ser mera informação. Em vez disso, o know how exigido consiste na sabedoria dos santos que estiveram lá e fizeram isso... Para ter acesso à verdade existencial e transformadora, é necessária uma orientação espiritual e uma estrutura tradicional.

Aproximando-se da Verdade com os Pais Bizantinos

Agora nos voltamos para outra dimensão da mentalidade tradicional, aquela da complexidade da tradição e da necessidade de orientação espiritual. Durante os primeiros séculos, e ecoando os ritmos litúrgicos da Igreja primitiva, a consciência relativa à coexistência de múltiplas percepções da verdade cristã manifestou-se através da distinção de dois níveis de tradição e seus correspondentes graus de iniciação. [16] Em consonância com a complexa estrutura da liturgia, com suas duas partes principais - a liturgia dos catecúmenos (aqueles que serão iluminados) e respectivamente dos fiéis (os iluminados) -, São Basílio o Grande [17] discerniu os níveis de κηρύγματα e δόγματα. Por κηρύγματα ("proclamações") ele indicou a camada exterior, ou a manifestação pública da vida eclesial, ao passo que por δόγματα ("opiniões", ["crenças"]) ele designou o lado interior da tradição, uma soma de critérios que caracterizam a mentalidade eclesial. Para São Basílio, o nível de δόγματα, ao qual não há verdadeiro acesso sem uma orientação superior, lança a luz definitiva sobre o significado e a finalidade do de κηρύγματα. De maneira semelhante, toda uma série de catecismos pré-batismos e pós-batismos do século IV testemunhou o desenvolvimento de um processo de iniciação, sob a cuidadosa orientação de um bispo ou de um catequista designado. [18] O epítome deste complexo processo continua sendo sem dúvida as relações estabelecidas entre os anciãos e os noviços, como retratado pelos famosos Ditos dos Padres do Deserto. [19]

A presente seção de meu artigo se concentrará, entretanto, nos esforços de três Pais posteriores, que contribuíram imensamente para o esclarecimento do que consistia o lado interior da tradição. Estes ilustres autores - São Máximo o Confessor, São Simeão o Novo Teólogo e São Gregório Palamas (representando a chamada tradição filocálica) - também apresentaram uma resposta inequívoca para a questão do acesso à verdade. Ao contrário da idéia ocidental do magisterium, eles identificaram os verdadeiros mistagogos (ou guias para o mistério) não exclusivamente com os representantes da hierarquia estabelecida; ao invés disso, eles reconheceram a prioridade da aristocracia de espírito como sendo representada pelos santos. Correlativamente, eles colocaram em relevo o conteúdo existencial do lado interior da tradição. Como uma característica comum aos três, eles enfatizaram a conexão orgânica entre o acesso à verdade e o viver virtuosamente. Viver a verdade era para eles, em última instância, participar na vida divina e deificante, uma experiência impossível de ser realizada fora da tradição dos santos.

Para introduzir sua interessante teoria das cinco polaridades da realidade (em sua obra principal, Ambigua), São Máximo o Confessor faz menção explícita à sucessão mística, ou tradição, dos santos. Segundo ele, os santos recebem o conhecimento das coisas divinas através de duas formas distintas: pela mediação de outros santos e pela experiência direta. [21] Começando pelos apóstolos, como seguidores e servos do Logos, esta cadeia de santos representa a sucessão ininterrupta de uma tradição mística fora da qual não é possível o acesso real à verdade (cristã). Máximo estava tão convencido da importância capital da tradição mística, que em sua famosa obra Mistagogia, introduziu um personagem central, o ancião, que aparentemente o iniciou nos mistérios celebrados dentro da liturgia. Todo o tratado [22] pode servir como prolegômenos ao método tradicional bizantino de acesso à verdade. Em uma obra anterior, Sobre a Vida Ascética, São Máximo ilustrou como as coisas ocorriam com a instrução existencial ou a tradição viva, imaginando um diálogo envolvendo um ancião e um noviço. O diálogo ecoa as conversas dos Ditos mencionados acima.

Por sua vez, São Simeão enfatiza mais a antítese entre aqueles iniciados pelos santos e todas as outras pessoas. Em seu XV discurso catequético, [23] ele contrasta as "pessoas carnais", "vivendo sob o domínio das trevas", por um lado, e os "homens espirituais e santos" e seus "pensamentos sobre a luz", por outro lado. Ele enfatiza as dificuldades experimentadas pelos primeiros quando atingidos pela mensagem desafiadora e pela superioridade experiencial dos santos. Indispostas a contemplar a luz espiritual, e por causa de sua "ignorância e descrença", as pessoas carnais sentem-se estimuladas a se opor e odiar os santos. Caracterizadas pela "escuridão das paixões", "cegueira mental", "insensibilidade e ignorância", longe de participar da "mente de Cristo", essas pessoas carnais acabam se recusando de serem ensinadas. Incapazes de reconhecer o estado espiritual superior dos outros, por obtusidade, elas preferem imaginar que sabem, mesmo que "não saibam nada"', permanecendo longe da experiência mística. Quanto aos santos, eles gozam do privilégio de receber - de acordo com o grau de seu merecimento - características divinas por meio de uma participação insondável. Sendo Deus luz, "àqueles que entraram em união com Ele, Ele transmite Seu próprio brilho na medida em que eles foram purificados". Aqueles que se aproximam de Deus por meio da purificação são concedidos a se tornarem "deuses por adoção", "filhos do Altíssimo de acordo com a imagem do Altíssimo e de acordo com Sua semelhança". Sem promover a idéia de uma elite gnóstica, São Simeão em última instância descreve a experiência dos santos por razões pedagógicas, para revelar o ícone da verdadeira vida cristã e convidar a todos a buscá-la: "por nosso discurso mostramos, como em um pilar, quem são cristãos e qual é sua natureza, para que esses homens se comparem ao modelo e descubram até onde estão aquém daqueles que são verdadeiramente cristãos". Embora uma minoria, os santos tornam visível a nobreza interior de todos aqueles que querem se tornar, como eles, filhos e filhas de Deus. Indiretamente eles nos ensinam como, tendo chances iguais diante de Deus, nós as utilizamos de maneira diferente.

São Gregório Palamas, na Declaração da Santa Montanha, [24] continua esta tendência, sintetizando as principais idéias dos Pais anteriores. Em consonância com São Basílio, ele distingue dentro das doutrinas cristãs aquelas "proclamadas abertamente" e respectivamente aquelas "reveladas mística e profeticamente pelo Espírito" aos santos. O acesso aos ensinamentos místicos não é uma coisa fácil e é um fato que para muitos estes ensinamentos representam absurdos se não blasfêmias. Palamas observa, como São Simeão antes dele, a simetria entre os judeus que são incapazes de interpretar cristologicamente o Antigo Testamento e os cristãos que, privados de "reverência apropriada", rejeitam por ignorância "os mistérios do Espírito". Ou, estes mistérios ou as "bênçãos da era por vir", sendo "prometidos aos santos", já são "revelados profeticamente àqueles a quem o Espírito considera dignos." O acesso à verdade exige transformação pessoal e é óbvio que não são muitos os que estão dispostos a renunciar a suas idiossincrasias em prol de uma vida superior. Os santos, tornados dignos pelo Espírito Santo, são no entanto "pessoas que foram iniciadas por experiência real, que renunciaram às posses, à glória humana e aos horrendos prazeres do corpo em prol da vida evangélica". A influência de São Máximo torna-se visível neste ponto: embora tenham sua própria experiência como indivíduos, os santos não estão isolados. Todos eles vivem e crescem dentro da tradição: "eles também fortaleceram sua renúncia, submetendo-se àqueles que alcançaram a maturidade espiritual em Cristo". Mesmo a este respeito, há vários níveis a serem distinguidos. Se nem todos aqueles que se esforçam por uma vida superior conseguem alcançar o clímax da perfeição e do conhecimento místico, eles possuem no entanto a possibilidade de aprender "sobre estas coisas através de sua reverência, fé e amor" pelos santos.

Para os bizantinos, a tradição representa uma estrutura complexa onde princípios teóricos e critérios - expressões da mentalidade eclesial - se fundem com a vida da Igreja como excelentemente manifestada pela experiência dos santos. Emerge um novo significado de hierarquia e aristocracia: nada tendo a ver com um estabelecimento social injusto, os santos - provenientes de todas as camadas sociais - revelam com compaixão, gradual e exemplarmente, a nobreza interior à qual são chamados todos os seres humanos. Os santos encarnam, em última instância, os marcos reais necessários para qualquer busca espiritual. Em vez de serem os guardiões, eles ilustram um caminho vivo na busca da verdade e da realização deste esforço na própria forma de sua maneira de viver.

Observações finais 

A busca da verdade não é um esforço marginal; mesmo que estejamos longe de alcançar a verdade, em última análise, esta busca define quem somos. Mas a busca da verdade é um processo a ser realizado dentro de um sistema aristocrático ou hierárquico (com o sentido descrito no acima). A busca da verdade - a verdade existencial - torna-se possível em sabedoria e seguindo as pegadas daqueles que foram guiados por outros antes de nós, já experimentando o que todos nós somos chamados a experimentar.

Para a tradição bizantina, como para São Silouan, é certo que o acesso à verdade e a aquisição de maior nobreza pessoal andam em paralelo. Sem o esforço pessoal para realizar a transformação interior e as diretrizes da tradição, nenhuma verdade relevante pode ser encontrada - pelo menos não uma verdade capaz de enriquecer significativamente e dar consistência à nossa vida. Restabelecer a aristocracia do espírito ou a tradição dos santos como critério epistemológico decisivo não significa voltar a uma estratificação de tipo medieval. Representa, por sua vez, uma bela chance de recuperar a normalidade, uma possibilidade de abrir às pessoas uma forma madura de remodelar suas vidas e de adquirir plena humanidade. 

Uma pergunta permanece ainda sem resposta: estamos prontos para desistir de nossos preconceitos e começar a voar para o alto, com a águia?


Notas

1 Esta é uma versão ampliada do meu artigo, com o mesmo título, apresentado na Conferência Bienal de Filosofia, Religião e Cultura - "Truth and Truthfulness in Uncertain Times " (Instituto Católico de Sydney, 29/09/06 - 01/10/06).

2 Cf. K. Popper, Conjectures and Refutations: The Growth of Scientific Knowledge (London and New York: Routledge, 2002) 467-9.

3 Como em Tomás de Aquino adaequatio intellectus et rei 'correspondência entre pensamento e realidade' (Summa Theologiae, I, q. 16, a. 2).

4 Cf. Al. Mironescu, Certitudine şi adevăr [Certeza e verdade] (Bucharest: Charisma, 2002) 92-3.

5 Em paráfrase, sabedoria não é saber muitas coisas (informação), mas ter uma compreensão profunda das coisas.

6 Cf. Wisdom from Mount Athos: The Writings of Staretz Silouan 1866-1938; editado pelo Arquimandrita Sofrônio; trad. do russo por R. Edmonds (Crestwood, NY: SVS Press, 1975) 107. Veja também Arquimandrita Sofrônio (Sakharov), Saint Silouan the Athonite; trad. do russo por R. Edmonds (Essex: Stavropegic Monastery of St John the Baptist, 1991) 486-7. 

7 Minha paráfrase apresenta a história a partir do ponto de vista de uma galinha que quer voar, uma perspectiva ascendente. Por sua vez, a de Pe. Sofrônio apresenta a perspectiva descendente de uma águia.

8 Cf. São Basílio o Grande, Homilias sobre Hexamerão 1:1 (Nicene e Post-Nicene Fathers Series, vol. VIII) (Grand Rapids: Wm.B. Eerdmans Publishing Co., 1978) 52-3. 

9 Cf. São Gregório de Nazianzus, Theological Orations 2:2-3. Em On God and Christ: The Five Theological Orations and Two Letters to Cledonius, trad., intro. e notas de F. Williams & L. Wickham (Crestwood, NY: SVS Press, 2002) 37-9. 

10 Cf. São Gregório de Nissa, The Life of Moses II.152-161 (Classics of Western Spirituality Series); trad., intro. e notas de A.J. Malherbe e E. Ferguson; pref. de J. Meyendorff (New York & Ramsey & Toronto: Paulist Press, 1978) 91-4. 

11 Cf. Dionísio, o Areopagita, Teologia Mística 1:3. Em Pseudo-Dionysius, The Complete Works (The Classics of Western Spirituality Series), trad. por C. Luibheid; prefácio, notas e colaboração de trad. por P. Rorem; pref. por R. Roques; introdução por J. Pelikan, J. Leclerq, e K. Froelich (New York & Mahwah: Paulist Press, 1987) 136-7.

12 Para um significado mais nuançado da hierarquia, veja Arcebispo Stylianos (Harkianakis), 'Prioridades na verdadeira cultura' Phronema vol. 20 (2005) 1-7. 

13 As galinhas, o galo e a águia ecoam os três estágios clássicos das comunidades tradicionais da Antiguidade Tardia, respectivamente o somatikoi (o somático), o psychikoi (o psíquico) e o pneumatikoi (o espiritual). O Novo Testamento faz alusão às três categorias: Romanos 7:14; Judas 19; 1 Coríntios 2:13 & 3:1. Devo ao Pe. Patrick McInerney (Columban Centre for Christian-Muslim Relations, Sydney) que me indicou a possibilidade de interpretar a perspectiva dos três estágios à luz do Método em Teologia de B. Lonergan (Toronto: University of Toronto Press, 1990) 81-100. Segundo Lonergan, existem quatro domínios de experiência: o mundo do senso comum; o mundo da teoria; o mundo da interioridade; o mundo da transcendência (os dois últimos correspondem ao terceiro estágio, da águia).

14 Comentando sua própria parábola, São Silouan observa que "quando o homem espiritual se encontra com seu oposto, o discurso deles é tedioso e cansativo para ambos". Cf. S. Sakharov, São Silouan, o Athonita, 487. 

15 Sem ênfase na dimensão existencial do ato de conhecer, B. Nicolescu (Nous, la particule et le monde (Paris: Rocher, 2002) 267-272) menciona níveis indefinidos de realidade e respectivos níveis de percepção. Veja também A. Nicolaidis, 'The Metaphysics of Reason', em B. Nicolescu & M. Stavinschi (eds.), Science and Religion: Antagonism or Complementarity? (Bucharest: XXI The dogmatic eon, 2003) 235-8. 

16 Cf. J. Day, 'Adherence to Disciplina Arcani in the Fourth Century' Studia Patristica vol. XXXV (Leuven: Peeters, 2001) 266-70; D. Costache, 'The Inner Side of the Visible': Apostolic Criteria and Spirit in the Orthodox Tradition', em Prof. Univ. Dr Teodosie Petrescu (ed.), Omagiu Profesorului Nicolae V. Dura la 60 de ani [Em Celebração Prof. Nicolae V. Dura aos 60 anos] (Constanta: Editura Arhiepiscopiei Tomisului, 2006) 387-8. 

17 Cf. São Basílio o Grande, On the Holy Spirit 66; trad. e intro. por D. Anderson (Crestwood, NY: St Vladimir's Seminary Press, 1980) 98-9. 

18 Cf. por exemplo E. Mazza, Mystagogy: A theology of Liturgy in the Patristic Age, trad. por M. J. O'Connell (New York: Pueblo Publishing Co., 1989). O volume explora as práticas catequéticas de Ambrósio de Milão, Teodoro de Mopsuéstia, João Crisóstomo e Cirilo de Jerusalém. 

19 Cf. The Sayings of the Desert Fathers: The Alphabetical Collection (edição revisada), tradução, com prefácio de B. Ward, SLG; prefácio do Metropolita Antônio de Sourozh (Kalamazoo: Cistercian Publications, 1984).

20 Cf. N. Russell, The Doctrine of Deification in the Greek Patristic Tradition (Oxford: Oxford University Press, 2004) 262-95, 301-9. 

21 Cf. Ambigua 41, PG 91, 1304. 

22 Cf. A Mistagogia da Igreja, em Maximus Confessor: Selected Writings (Classics of Western Spirituality Series), trad. e notas de G.C. Berthold, intro. de J. Pelikan, pref. de I.H. Dalmais (New York & Mahwah: Paulist Press, 1985) 183-214. 

23 Cf. São Simeão o Novo Teólogo, The Discourses (The Classics of Western Spirituality Series), trad. por C.J. de Cantazaro; introdução por G. Maloney S.J.; pref. por B. Krivocheine (Londres: SPCK, 1980) 193- 7. Da mesma forma, São Silouan observa: "O homem espiritual medita dia e noite sobre a lei do Senhor, e em oração se eleva para Deus; ao passo que a mente do homem indiferente está atada à terra, ou engajada em pensamentos fúteis. A alma do homem espiritual se deleita em paz, ao passo que a alma do outro permanece vazia e distraída. Como a águia, o homem espiritual voa nas alturas, e com sua alma sente Deus, e contempla o mundo inteiro, embora ele esteja orando na escuridão da noite; ao passo que a alma do homem que não é espiritual se deleita em vanglória ou em riquezas, ou busca os prazeres da carne". Cf. S. Sakharov, Saint Silouan the Athonite, 487.

24 "A Declaração da Montanha Santa em defesa daqueles que praticam devotamente uma vida de quietude", prólogo. Na Philokalia, vol 4, trad. do grego e editado por G.E.H. Palmer, Ph. Sherrard, K. Ware (Londres: Faber & Faber, 1994) 418-9.