sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A Reforma Magisterial - Protestantismo (Pe. Andrew Stephen Damick)


A reforma magisterial 

O fim da Europa católica romana 

Começamos nossa discussão da reforma magisterial. Eu gostaria de começar com algumas citações dessa época. A primeira é de Martinho Lutero, em sua resposta à Inquisição, na Dieta de Worms, em 1521.
A menos que eu seja convencido pelo testemunho das Santas Escrituras, ou pela razão evidente, eu não posso crer apenas nos papas ou nos concílios, pois está claro que eles erraram repetidamente e caíram em contradição. Eu me considero convencido pelo testemunho das Sagradas Escrituras, que é minha base. Minha consciência é cativa da palavra de Deus, assim, eu não posso e não irei abjurar, pois agir contra a própria consciência não é seguro ou correto. Que Deus me ajude, amém.

De João Calvino, nas "Institutas da Religião Cristã": 
Por predestinação nós entendemos o decreto eterno de Deus, pelo qual Ele determina consigo mesmo o que quer que Ele deseje que aconteça com cada homem. Nem todos são criados nas mesmas condições, mas alguns são pré-ordenados à vida eterna, outros, à danação eterna. E segundo cada pessoa foi criada para um ou outro desses fins, dizemos que ela foi "predestinado" à vida ou à morte.

E de Ulrico Zuínglio, nos 67 artigos de 1523: 
Do Evangelho, aprendemos que as doutrinas e tradições dos homens não tem serventia alguma para a salvação.
O momento icônico que deu início à reforma protestante do século XVI ocorreu quando as 95 teses foram pregadas à porta da Igreja de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517 por Martinho Lutero, um monge agostiniano desesperado pela reforma da Igreja Católica. Ele nunca teve inteção de criar uma nova igreja, mas sua insistência na abolição das indulgências e de sua venda, bem como sua afirmação da supremacia da Bíblia sobre a hierarquia da Igreja provocaram sua excomunhão por Roma em 1520. 

Os historiadores chamam a primeira fase da reforma de "Reforma Magisterial", porque ela teve o apoio das autoridades civis, dos "magistrados", especialmente onde é agora a Alemanha. Esses primeiros reformadores não tinham problemas em trabalhar em conjunto com as autoridades seculares para o bem de suas igrejas. Com a ajuda desses magistrados, o sólido domínio de Roma sobre a unidade religiosa da Europa  ocidental chegou a fim.

As denominações produzidas pela Reforma Magisterial, todas elas com diferenças entre si a respeito de importantes pontos de doutrina e de prática, incluem luteranos, as igrejas reformadas, tanto calvinistas quanto zuinglianos, incluindo presbiterianos, puritanos, congregacionalistas e reformados holandeses, e também anglicanos, geralmente chamados de "episcopais" nos EUA e na Escócia. Apesar de historicamente posteriores, grupos surgidos no século XVIII a partir do anglicanismo, como metodistas e wesleylianos, podem ser classificados neste grupo. 

As cinco "solas"

Apesar da reforma rapidamente ter se dividido doutrinariamente, havia cinco "solas" - que em latim significa "apenas" - cinco "solas" que caracterizam a maior parte da teologia da reforma: 1) "sola scriptura" - apenas a escritura; 2) "sola fide" - apenas a fé; 3) "sola gratia" - apenas a graça; 4) "solus Christus" - apenas Cristo; e 5) "soli Deo Gloria" - graças a Deus apenas. As primeiras três são encontradas no século XVI, enquanto que as outras, sob essa forma, são articuladas mais tarde. Essas cinco posições doutrinárias são os pilares da reforma protestante. Sob uma forma ou outra, as denominações da reforma magisterial continuam a acreditar nelas e sua influência é profunda em todas as igrejas protestantes. De algumas maneiras, a Ortodoxia concorda com essas cinco "solas", mas também difere delas de maneira importante. 

Sola scriptura 

Em sua forma mais simples, "sola scriptura" significa "apenas pela escritura." No começo da Reforma, ela não significava o abandono completo de toda a tradição da Igreja, mas apenas uma tentativa de elevar as Escrituras ao ponto mais alto e central da vida cristã. Não foi preciso muito tempo, porém, para que a sua separação implícita da tradição, especialmente da tradição hermenêutica, ou seja, como se interpreta a Bíblia, conduzisse a diversas revoluções doutrinárias. Sob Lutero, "sola scriptura" foi especialmente definida em termos anti-eclesiais. No debate de Leipzig, em 1519, ele afirmou o seguinte: 
 "Um simples leigo, de posse das Escrituras, deve ser ouvido acima de um Papa ou de um concílio sem elas. Nem o Papa nem a Igreja podem estabelecer artigos de fé, eles devem vir das Escritura. Em favor das Escrituras, nós devemos rejeitar tanto os Papas quanto os Concílios." 
As palavras de Lutero devem ser entendidas especificamente em termos do contexto de sua época. Os reformadores estavam tentando combater os abusos de Roma, especialmente o que eles consideravam um vasto acúmulo de práticas e doutrinas não-cristãs em nome da tradição, tais como a venda de indulgências, o uso das relíquias e o ensinamento de que a confirmação é um sacramento. No entanto, o novo princípio de autoridade da reforma traz em si as sementes de uma forma completamente nova de cristianismo, o que se torna mais visível agora, quando os protestantes não estão mais em confronto com Roma, exceto na retórica dos púlpitos. 

Dito isso, a insistência de Lutero de que a Bíblia está acima dos Papas e dos Concílios, de que ele rejeita em favor da Igreja, deixa uma importante pergunta sem resposta: e se os Papas e os Concílios estiverem usando as Escrituras em seus pronunciamentos? Esse simples leigo com uma Bílbia nas mãos está enfrentando Papas e Concílios que supostamente também possuem Bíblias. Quem está certo?  O problema em dizer que alguém está sem as Escrituras é que ele presume que as Escrituras não precisam ser interpretadas, aquele grupo está errado porque eles não devem estar usando a Bíblia. 

Mas a maior parte dos grupos envolvidos em debates cristãos estão usando a Bíblia. João Eck, o oponente católico de Lutero no debate de Leipzig, no qual ele fez afirmação citada acima, sabia disso. Ele respondeu em Leipzig que a abordagem de Lutero era: "Dar mais peso a sua própria interpretação da Bíblia do que à interpretação dos Papas, dos Concílios, dos Doutores e das Universidades." A resposta de Lutero a Eck simplesmente dobrava a aposta de sua insistência inicial. Ele disse: 
"Eu sou forçado não apenas a afirmar, mas a defender a verdade com meu sangue e minha vida. Eu quero crer livremente, e não ser escravo da autoridade de ninguém, Concílio, Universidade ou Papa. Eu confessarei com confiança o que parece ser a verdade para mim, mesmo que ela tenha sido afirmada por uma católico ou por herege, mesmo que ela tenha sido aprovada ou reprovada por um Concílio." 
Em outras palavras, para Lutero, a sua interpretação da Bíblia é correta de uma maneira auto-evidente, não importando o que qualquer outra pessoa tenha a dizer a respeito. Mas por que a interpretação de Lutero é segura? Ele possui mesmo essa autoridade? 

Então, quem possuiu autoridade para interpretar as Escrituras? A pergunta continua se perdendo. Para o reformador suíço Zuínglio, o princípio da "sola scriptura" veio a significar mais do que significava para Lutero. Ele chegou mesmo a afirmar que a Bíblia era a fonte exclusiva de toda a doutrina e prática cristã, o que o levou a abolir todos os rituais cristãos que ele não conseguiu encontrar na Bíblia. Zuínglio concluiu que as doutrinas e tradições dos homens, ou seja, as coisas que ele não via na Bíblia, eram irrelevantes para a salvação. Essa é a posição da maioria das denominações hoje em dia, que praticamente abandonaram por completo a noção de tradição. Alguns discordam se o que não é mencionado na Bíblia é proibido ou deve ser deixado para ser decidido pelos costumes locais. De uma maneira ou de outra, a tradição é rejeitada sob esse ponto de vista. 

A tradição não completamente rejeitada por todos os protestantes, no entanto. Para alguns luteranos e cristãos reformados, certas declarações doutrinárias, credos ou compilações de doutrina possuem autoridade, apesar de sua autoridade se basear no fato de que eles são vistos apenas como a maneira correta de interpretar a Bíblia. Esta herança da tradição protestante é chamada de "confessionalismo" e apesar de não ser geralmente descrita como uma tradição oficial, é geralmente assim que ela funciona. Uma pessoa pode, por exemplo, ser excomungada, caso ela discorde de forma substantiva de algum documento confessional aprovado por uma denominação. Nessa abordagem, as Escrituras geralmente são vistas como uma "autoridade suprema". 

A dedicação dos primeiros reformadores à "sola scriptura" serviu a seus objetivos de tentar recuperar a Igreja Primitiva das camadas que, em sua opinião, a Igreja Católica havia acumulado sobre ela. A Bíblia era a única testemunha infalível do cristianismo primitivo que eles conheciam, uma espécie de cabo de ligação à antiga Igreja Apostólica, por isso eles adotaram o lema "ad fontes" - às fontes. 

Por exemplo, a Vulgata medieval, a Bíblia em latim usada no século XVI demonstrava sinais de "corrupção". "Arrependimento" foi substituído por "devida penitência".  Essa ideia de que camadas de coisas supérfluas tinham sido acrescentadas por cima do "verdadeiro cristianismo" levou os reformadores a fazerem uma espécie de arqueologia com outras fontes também. Por exemplo, o argumento de Calvino contra a iconografia era de que não havia ícones antes do século VI, o que não é verdade, mas ele provavelmente não tinha acesso às fontes que pudesse provar isso a ele. 

Em contraste, a Ortodoxia tem as Escritures em altíssima consideração, mas as vê como um livro escrito como parte da vida da Igreja, assim, para lê-las da maneira correta é necessária a luz da santa tradição, a fé dada aos apóstolos por Cristo, via ensinamentos orais e preservada na Igreja. Os Ortodoxos tampouco precisam de "arqueologia" no que diz respeito à vida e à fé cristãs, segundo eles, na Ortodoxia nunca houve uma ruptura de continuidade com a Igreja Primitiva. Certamente, os Ortodoxos concordariam com os reformadores que Roma fez acréscimos ao depósito apostólico mas não que para recuperá-lo seria necessário suspeitar de quase toda a tradição da Igreja. 

"Sola scriptura" é a doutrina mais importante e definidora para todo o protestantismo. Com esse princípio, qualquer prática ou doutrina pode ser "provada" a partir das Escrituras, dependendo de como elas são lidas. Sobre esse princípio, todas as denominações protestantes foram fundadas. Sem ele, a questão da autoridade eclesiástica vem à tona e o fiel acredita que ele deve ser obediente à interpretação de outra pessoa. 

A maior parte das denominações protestantes acreditam que toda a doutrina cristã pode ser derivada das Escrituras por meio do sentido direto do texto, que deriva do estudo textual, da história e da razão. Seu objetivo é descobrir o que os autores "realmente queriam dizer" quando eles escreveram os livros da Bíblia. Com isso em mente, a maior parte dos defensores da "sola scriptura" considera sua própria interpretação da Bíblia como correta, enquanto aqueles que discordam estão errados. Os que estão errados geralmente o estão devido a supostas falhas em sua lógica. 

Uma exceção notável é o anglicanismo clássico que, desde o fim do século XVI alega basear suas doutrinas em três pilares: as Escrituras, a razão e a tradição. A maior parte do anglicanismo moderno acabou rejeitando todos os três de qualquer maneira inteligível. Alguns o fazem ao adicionar um quarto pilar, a experiência, que supostamente justifica a revisão doutrinária. Nos Estados Unidos, no Reino Unido e em outros lugares, é possível ensinar qualquer coisa e permanecer um bom anglicano. No entanto, os anglicanos da África e em outras partes do sul são muito mais conservadores em sua abordagem doutrinária. Existem também importantes movimentos de anglicanos conservadores nos EUA e no Reino Unido, apesar deste serem divididos e minoritários. 

Os Ortodoxos têm diversas objeções à doutrina da "sola scriptura", com base na razão, na prática e também com base na tradição e na história da Igreja. Primeiro, a "sola scriptura" não passa em seu próprio teste, já que tal ideia não se encontra em parte alguma da Bíblia. É verdade que a Bíblia possui uma elevada opinião das Escrituras, por exemplo em II Timóteo 3, 16, mas ela nunca diz possuir a autoridade exclusiva nem a autoridade suprema. Ironicamente, a Bíblia descreve a Igreja, e não a si mesma, como "a coluna e o sustentáculo da verdade" em I Timóteo 3,15. 

São Paulo também comanda os fiéis em Tessalônica não apenas a ler a Bíblia, mas também para que fiquem firmes e guardem as tradições recebidas, seja por palavras, seja por cartas, II Tessalonicenses 2, 15. Ou seja, Paulo espera que eles guardem a tradição da Igreja, seja ela escrita - as Escrituras - ou transmitida oralmente. Os leitores da tradução feita por protestantes - a Nova Versão Internacional (NVI) - não entenderão esse detalhe porque a NVI traduz o termo grego "parádosi", que significa "tradição", como "ensinamento" quando ele é usado de forma positiva, mas como "tradição" quando a conotação é negativa. Essa abordagem distorce o que diz a Bíblia, ela cria uma distinção entre dois tipos de "parádosi", a tradição dos homens e a tradição de Deus. 

Outro problema lógico em transformar a Bíblia em uma fonte exclusiva ou suprema de autoridade e que a sua própria concepção não se presta a isso. Não existe uma teologia sistemática ou catecismo na Bíblia, não há um manual nela sobre algo tão importante quanto a celebração da liturgia. A Bíblia é uma coleção de documentos de gêneros diversos, escritos com objetivos diversos: história, poesia, ensinamento pastoral, profecia, um apocalipse. Mas em nenhum lugar nós encontramos nela um manual exaustivo sobre a vida cristã. 

A "sola scriptura" também introduz outros problemas práticos. A velha descrição católica romana da "sola scriptura": "cada homem é seu próprio Papa" é válida também para os Ortodoxos, apesar de nós vermos a infalibilidade individual como o problema, não importando quem a reivindique. Já que cada fiel se torna uma autoridade ao interpretar as Escrituras, temos de nos perguntar como é possível se defender das heresias. Se todos estão qualificados para interpretar as Escrituras, quem é capaz de julgar se alguém está ensinando uma heresia? E como os protestantes podem objetar contra um papado infalível, se eles mesmos ensinam sua própria infalibilidade pessoal? O Papa não é infalível, mas eu sou? 

Ironicamente, ao rejeitarem a tradição da Igreja, os protestantes ainda tendem a interpretar de acordo com as tradições de qualquer modo; há uma certa consistência entre a maioria dos Presbiterianos, Luteranos, Batistas e assim por diante, pois eles estão seguindo seus próprios mestres na fé, assim, eles violam seus próprio princípio em cada sermão ou aula sobre a Bíblia, porque, em todos esses casos, um professor supõe estar ensinando a outra pessoa como ler a Bíblia. 

Como indicado antes, alguns protestantes de fato recorrem a seus textos tradicionais, como os confessionalistas, e isso às vezes é visto como uma distinção entre "sola scriptura" - "apenas pelas Escrituras", onde a Bíblia é a autoridade suprema, o que torna aceitável certa tradição -; e "solo scriptura" - "nada além das Escrituras", onde a Bíblia é a autoridade exclusiva, rejeitando toda a tradição. Alguns podem até admitir que a comunidade eclesial possui autoridade para interpretar a Bíblia, mas então temos de levantar a questão: por que a Confissão de Westminster, por exemplo, possui autoridade? A autoridade de quem ela representa? Por que escolher a ela e não a tradição Católica Romana, ou a Ortodoxa? No fim, o problema é mesmo: sem um eclesiologia que faz de uma Igreja a responsável pela doutrina, termina-se com opiniões conflitantes cuja autoridade reside em sua atração sobre os ouvintes. 

Em termos do funcionamento real da interpretação das Escrituras, a maioria dos defensores da "sola scriptura" dirão que o Espírito Santo guia o leitor individual. Mas, se isso é verdade, por que há tantos conflitos no protestantismo a respeito do significado da Bíblia? Se o texto é claro por si só, por que essa hermenêutica, esse princípio interpretativo, não uniu a todos os protestantes, mas, ao contrário, continua a dividi-los? Como o fiel honesto, porém confuso, decide entre as diferentes pessoas que insistem que a Bíblia afirma claramente diversas coisas, mas ainda assim todos discordam entre si? Como ele decide quem está falando a verdade quando diz ser guiado pelo Espírito Santo? Ele simplesmente recorre à sua própria compreensão? Caso ele o faça, aparentemente não há autoridade. 

Alguns dizem que partes da Bíblia são menos claras, e que deveríamos interpretar as passagens obscuras por meio daquelas que são claras, mas quem decide quais trechos serão definidos como "claros"? Uma vez mais, nos confrontamos com o problema da autoridade. 

Outros, com uma opinião elevada do mundo acadêmico, recorrerão aos eruditos bíblicos usando métodos histórico-críticos de exegese e crítica textual para tornar claro o que é obscuro. No entanto, qualquer um que conheça minimamente o mundo dos estudos acadêmicos da Bíblia verá a sua confusão e divisão. Os estudos acadêmicos da Bíblia frequentemente produzem a negação de verdades cristãs básicas, tais como a realidade histórica de Jesus ou da Ressurreição. A unidade por meio desse método está ainda mais distante.

E o que acontece quando a próxima variação nos manuscritos ou descoberta arqueológica vem à luz? Deveríamos revolucionar uma vez mais a fé cristã? Aqueles que acompanham a mídia na época do Natal e da Páscoa notarão que eles sempre aparecem com alguma descoberta incrível do mundo antigo que deveria fazer os fiéis questionarem aquilo que sempre afirmaram: "o verdadeiro túmulo de Jesus", o "Evangelho da esposa de Jesus", etc. 

"Sola scriptura" também tem diversos problemas históricos. Primeiro, essa doutrina está ausente dos escritos dos Padres da Igreja; agora, sejam eles considerados ou não como autoridades, o que isso quer dizer é que se os apóstolos ensinaram a "sola scriptura", apesar de deixá-la de fora do Novo Testamento, o seus discípulos e os seguidores destes não parecem ter aprendido essa lição. Os Padres falam elogiam as Escrituras  e, por vezes, chegam a utilizar uma linguagem que parece conferir a elas a autoridade suprema, mas eles estão sempre interpretando as Escrituras desde o interior da tradição ortodoxa. 

A "sola scriptura" também teria sido uma impossibilidade prática para a Igreja Primitiva. Após a ressurreição de Jesus, passaram-se aproximadamente entre 20 e 40 anos antes do Novo Testamento começar a ser escrito. Alguns acadêmicos indicam a I Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses como o primeiro livre a ser escrito, enquanto outros conferem essa distinção à Epístola aos Gálatas. O último dos documentos do Novo Testamento, o Apocalipse de São João, foi provavelmente escrito no fim do século I, entre os anos 81-96, mais ou menos. Os cristãos tiveram de esperar décadas, portanto, antes de que ele estivesse completo. 

E, no entanto, ao terminar o seu Apocalipse, o apóstolo João não enviou o manuscrito para uma editora juntamente com os outros livros do Novo Testamento com o objetivo de distribuir os livros impressos nas igrejas. Esses vários livros circularam em separado por um bom tempo, sendo lidos em serviços litúrgicos e citados por escritores cristãos posteriores, com frequência ao lado de outros livros que hoje em dia nós não reconhecemos como bíblicos. 

Ainda que existam listas antigas de livros canônicos, tais como uma lista produzida por Orígenes no século II, e o "fragmento Muratori" que tradicionalmente foi datado como sendo do século II, mas que pode ser até do IV, foi apenas no ano 367 que a lista exata mais antiga dos 27 livros do Novo Testamento tal como o conhecemos foi escrita. Naquele ano, Santo Atanásio, o Grande, Papa e Patriarca de Alexandria e herói do Primeiro Concílio Ecumênico, realizado em Nicéia em 325 (ele era apenas um diácono na época), escreveu uma carta para suas igrejas instruindo-as sobre quais livros deveriam ser considerados canônicos em termos de seu uso em serviços litúrgicos. 

Esse é o contexto em que surgiu o cânone das Escrituras: o que era lido em voz alta nos serviços na igreja. No início, havia livros incluídos ao lado do Novo Testamento que conhecemos e lidos na igreja, tais como o Apocalipse de Pedro ou uma epístola dos Coríntios a Paulo. Ao longo do tempo, em seu cuidado pelas igrejas, os bispos começaram a comparar anotações e fazer listas do que ere permitido ser lido em voz alta. A lista de Atanásio em 367 é a primeira vez em que vemos o Novo Testamento que reconhecemos, mas foi apenas no século V que aquela mesma lista foi usada em toda parte na Igreja. 

Do momento da descida do Espírito Santo em Pentecostes até o momento em que os cristãos puderam finalmente indicar um cânone para o Novo Testamento, passaram-se mais de 300 anos, quase 400. A pergunta "o que diz a Bíblia?" não podia ser colocada, porque a pergunta "o que é a Bíblia?" ainda não havia sido respondida. A própria Bíblia possui uma história, não apenas os detalhes das palavras nos textos, mas quais textos vieram a ser considerados como Escrituras. 

Ironicamente para os reformadores, "o que é a Bíblia?" voltou a ser perguntado no século XVI, porque eles começara a editar o cânone para conformá-lo a seus próprios gostos, removendo livros do Velho Testamento que eram considerados canônicos havia séculos, por exemplo os Macabeus, Tobias, etc. De que vale a "sola scriptura" quando você pode alterar a que constitui a Escritura? E onde no cânone se encontra a definição do próprio cânone? Aquele índice tem de vir de algum lugar. 

Para os Ortodoxos, a Bíblia, seu conteúdo, canonização e interpretação, foram sempre uma questão para a comunidade da Igreja. A autoridade foi dada por Cristo à sua Igreja e assim a Igreja utilizou essa autoridade para escrever a Bíblia, compilá-la e canonizá-la. A Igreja ainda usa essa autoridade para interpretá-la. As Escrituras, portanto, não podem ser interpretadas de maneira confiável fora da Igreja Una.

Sola fide

A doutrina do sola fide ensina que a justificação vem somente pela fé. Na doutrina protestante clássica, a justificação é ser “declarado justo” por Deus, recebendo a justiça “imputada”. A doutrina da justiça imputada está em contraste com o ensinamento católico romano de justiça infundida (que Deus coloca a justiça no crente e se torna parte dele através do mérito recebido na vida espiritual).


Ter a justiça imputada é ser considerado ou visto como justo por Deus porque Ele “vestiu” o crente com a justiça de Cristo; porém não há sentido em que o crente é realmente justo em si mesmo. A imputação é uma mudança no status legal, mas não na santidade pessoal, nem mesmo uma mudança efetuada pela graça. Nisso, a doutrina descende diretamente da teologia ocidental do final da Idade Média baseada em uma visão jurídica do pecado com sua ênfase no status legal (uma visão que foi menos enfatizada na teologia católica romana mais recente).

Especialmente em Lutero, somente a fé é especificamente contrastada com as boas obras. Para ele, as boas obras nada têm a ver com a salvação apenas são um sinal ou resultado da verdadeira fé. A verdadeira fé sempre levará a duas coisas: justificação e boas obras. Lutero descreveu sola fide como sendo a doutrina pela qual a igreja se mantém ou desmorona.

A Sola fide encontra suas formulações mais claras tanto na Confissão de Augsburgo quanto na Confissão de Fé de Westminster, que são afirmações doutrinárias autoritativas entre cristãos luteranos e presbiterianos, respectivamente:

Nossas igrejas de comum acordo. . . ensina que os homens não podem ser justificados diante de Deus por sua própria força, méritos ou obras, mas são livremente justificados por amor a Cristo, pela fé, quando crêem que são recebidos em favor, e que seus pecados são perdoados por amor de Cristo que, por sua morte, pagou por nossos pecados. Essa fé Deus imputa a justiça aos Seus olhos. (Confissão de Augsburgo, 1530)
Aqueles a quem Deus chama efetivamente, Ele também justifica livremente; não infundindo justiça neles, mas perdoando seus pecados, e contabilizando e aceitando suas pessoas como justos; não por qualquer coisa forjada neles, ou feita por eles, mas pelo amor de Cristo somente; não imputando a fé em si, o ato de crer, ou qualquer outra obediência evangélica a eles, como sua justiça; mas, imputando a obediência e satisfação de Cristo a eles, recebendo e repousando sobre Ele e Sua justiça pela fé, cuja fé eles não têm de si mesmos, ela é o dom de Deus. (Confissão de Fé de Westminster, 1647)

Sola Fide foi formulada principalmente em resposta à insistência católica romana em boas obras (e todo o sistema de mérito, satisfação, purgatório e indulgências), que foi interpretado por Lutero como uma tentativa de ganhar o caminho para o céu. (Isso não é o que o Catolicismo Romano ensinava oficialmente, mas era um entendimento popular da doutrina católica no século XVI e provavelmente era pregado por aqueles que vendiam indulgências.) Daí vem a tradição protestante quase universal sobre o catolicismo romano, que ele ensina “works righteousness”, que os católicos acreditam que eles “ganham” a salvação. Os reformadores também viam o monasticismo dessa maneira, que é uma tentativa de ganhar a salvação. Devemos notar aqui, no entanto, que a linguagem da “satisfação” é preservada do catolicismo romano, continuando sua ênfase legal na soteriologia.

Lutero foi tão insistente nesta formulação de salvação vinda pela fé e não obras que, quando ele estava traduzindo Romanos 3:28 para o alemão, ele adicionou a palavra alemã allein (“somente”), de modo que o versículo dizia: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé somente sem as obras da lei”. Mas a palavra somente não está presente no texto grego nem mesmo sugerida pelo contexto.

Apesar dessa oposição estabelecida entre a fé e as boas obras, Lutero se engajou em uma longa controvérsia contra os antinomianos, que ensinavam que a moralidade era totalmente irrelevante para a vida cristã. Ele não via as boas obras como irrelevantes, mas como resultado da fé.

Lutero também ficou tão aborrecido com a aparente oposição à sua doutrina sola fide na epístola de Tiago que ele questionou sua autoria apostólica porque é "categoricamente contra São Paulo e todo o resto das Escrituras, [pois] atribui justiça às obras, e diz que Abraão foi justificado por suas obras” (Prefácio às Epístolas de São Tiago e São Judas). E assim, Lutero conclui que, comparado a outras obras do Novo Testamento, “A epístola de São Tiago é realmente uma epístola de palha. . . pois não tem nada da natureza do evangelho sobre isso” (Luther’s Works, 35: 362). Enquanto Lutero inicialmente queria omitir Tiago de seu cânon, ele finalmente escolheu deixar a epístola no lugar.

Ele questionou a autoridade não apenas de Tiago, mas também de Judas, Hebreus e Apocalipse - livros que também haviam sido questionados muito antes na história da igreja, mas que foram aceitos pela Igreja. (Em algumas denominações luteranas, quando um candidato a ordenação assina o Juramento de Subscrição, ele pode, na verdade, optar por não aceitar a canonicidade desses livros.) Ironicamente, o único lugar em que “fé somente” (ou às vezes “fé apenas”) aparece como uma frase no Novo Testamento está em Tiago 2:24: “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.” Tiago também diz, em 2:17: “Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.”

Em alguns setores do protestantismo desde o Segundo Grande Despertar no século XIX, o sola fide passou a ser entendido como significando simples crença ou concordância com certas proposições doutrinárias, tais como a salvação não depende da fidelidade, mas de um assentimento único, geralmente como parte de uma experiência de conversão.

A Ortodoxia ensina com as Escrituras que é pela graça através da fé que somos salvos, e não das obras (Efésios 2: 8–9). Onde a ortodoxia difere da doutrina do sola fide está em seu entendimento de fé, obras e justificação. A fé para o cristão ortodoxo inclui boas obras, não porque elas ganham a salvação, mas porque são uma forma de cooperação com a graça divina, que realiza o trabalho de transformação. A justificação para os ortodoxos é ser verdadeiramente feito justo, não simplesmente declarado assim ("imputado"), e é efetuada pelo batismo. Isso é possível por causa da presença de Deus na pessoa. Além disso, a Ortodoxia tem uma visão muito mais ampla da justificação (em grego, dikaisyne), mais em consonância com o uso de Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5-7), em vez da noção jurídica mais estreita, desenvolvida desde o século XVI na teologia romana e protestante. 

Baseado em sua dialética Lei / Evangelho, Lutero interpreta erroneamente as “boas obras” na Escritura como sendo idênticas às “obras da lei”, isto é, a Lei mosaica dos judeus. No entanto, enquanto São Paulo prega contra a eficácia da lei judaica para a salvação, ele em nenhum lugar prega contra as boas obras, nem opõe elas à fé. “As obras da Lei” que não nos ajudam são tradição judaica, mas as boas “obras” sem as quais a fé é “morta” (Tiago 2: 17–26) constituem a vida justa do crente.

Mesmo assim, essas boas obras não realizam nada por si mesmas. É a graça de Deus que faz a transformação acontecer. Boas obras são apenas parte de abrir a porta para essa transformação. É a nossa vida de fé e boas obras que é a nossa cooperação com a graça divina, o dom gratuito de Deus. Os ortodoxos acreditam em sinergia, trabalhando em conjunto com Deus para nossa salvação (1 Coríntios 3: 9, 2 Co 6: 1), um conceito não totalmente ausente, mas mal compreendido e efetivamente ignorado na maioria da teologia protestante.

Sola gratia

O ensinamento do sola gratia é que é somente a graça de Deus que efetua a salvação. Nenhum ato do homem contribui para a salvação de qualquer maneira. Essa doutrina está intimamente associada ao sola fide, pois a fé é o que ativa a graça salvadora. Os crentes do sola gratia geralmente declaram sua doutrina em termos opostos ao Pelagianismo (a doutrina de que o homem pode alcançar a salvação sem ajuda divina, porque ele não está sujeito ao pecado original / ancestral, ou seja, sua vontade permanece inalterada pela Queda). Qualquer um que sugira que o homem tenha algum papel substancial em sua salvação é geralmente acusado de ser pelagiano ou semi-pelagiano.

A forma mais extrema dessa doutrina é sustentada pelo predestinacionismo clássico (freqüentemente associado ao calvinismo, mas com uma história anterior entre católicos dominicanos), que sustenta que o homem não tem absolutamente nenhum papel em sua salvação, nem mesmo consentimento. Isto é, Deus te salva, quer você queira ou não. Ele também condena você quer você queira ou não. Essa visão é chamada de monergismo (“um ator”, ou seja, Deus). Essas duas ações juntas são chamadas de dupla predestinação - tanto os salvos quanto os condenados são predestinados a seus destinos. Neste caso, tanto a fé quanto a graça são dons de Deus e não envolvem a vontade do homem de forma alguma. A graça é geralmente chamada de "irresistível". A maioria dos crentes sola gratia não são extremos; eles acreditam que o homem deve pelo menos concordar com a salvação em algum momento, mesmo que apenas uma vez. Alguns teólogos reformados dosam essa visão com o que é chamado de “compatibilismo”, permitindo espaço nos decretos irresistíveis de Deus para o verdadeiro consentimento do homem - um consentimento que ele é incapaz de dar a menos que Deus deseje. (Sim, parece uma contradição.)

Ortodoxos podem concordar com sola gratia se for entendido que significa que é a graça de Deus que faz a obra transformadora da salvação. No entanto, a Ortodoxia acredita na sinergia, que Deus e o homem são colaboradores (1 Coríntios 3: 9; 2 Coríntios 6: 1), que o homem deve "trabalhar [sua] salvação com temor e tremor" (Fp 2: 12). O episódio da Anunciação, na verdade, ilustra muito bem a visão Ortodoxa - a saber, que Deus não impôs Sua vontade à Virgem Maria, mas desejou seu consentimento, que ela deu no fiat mihi ("Cumpra-se em mim").

Um dos principais problemas com sola gratia é que a graça é entendida como algo diferente do próprio Deus. Na teologia da Reforma, a graça é "favor imerecido", uma atitude em Deus, muitas vezes contrastada com a Sua ira. Para a Ortodoxia, a graça é incriada - isto é, a graça é Deus, Sua presença e atividade reais - Suas energias. Mas se a graça é meramente "favor", então a união com Deus (theosis) é impossibilitada. A distância de Deus encontrada às vezes na teologia católica romana é mantida no protestantismo.

Solus Christus

Solus Christus, o ensinamento de que “somente Cristo” é o meio de salvação, foi formulado em resposta à forte compreensão mediadora popular entre os clérigos católicos romanos do século XVI - que somente através do clero o homem pode se aproximar de Deus. Os protestantes também tendem a rejeitar a intercessão dos santos, uma vez que “somente Cristo” tem algo a ver com a salvação. O medo é que um ser humano falível se atrevesse estar entre um crente e Deus, que um padre realmente impedisse alguém de ter acesso à salvação ou que um crente pensasse que ele não poderia chegar a Deus sem passar por um santo.

A interpretação da doutrina católica romana sobre o clero como mediador encontra sua mais alta expressão no ensinamento de que o papa é o vigário de Cristo na terra, a noção de obras meritórias feitas pelos santos e, principalmente, a idéia de que o papa pode dispensar esses méritos como ele quiser. Embora o catolicismo romano freqüentemente enfatize o papel mediador do clero, em nossos dias, pelo menos, não é tão extremo quanto os reformadores o caracterizaram. Essa atitude da reforma é uma espécie de donatismo, mas em vez de negar a eficácia dos sacramentos de um sacerdote iníquo em particular, é uma negação do sacerdócio por causa da falibilidade do clero.

No sentido de que os reformadores geralmente queriam dizer que a salvação só é possível em e por meio de Cristo, o Solus Christus é aceitável para a Ortodoxia. No entanto, a rejeição que acompanha do papel clerical, mais especialmente em servir os sacramentos, que alguns reformadores interpretaram esta doutrina como incluindo, não é aceitável para a Ortodoxia. Enfatizaram o “sacerdócio de todos os crentes”, excluindo o sacerdócio sacerdotal, colocando assim os leigos contra o clero. A Ortodoxia também acredita no sacerdócio de todos os crentes, mas não no presbiterado de todos os crentes. A antiga Israel tinha uma noção semelhante para todos os crentes (Êxodo 19: 6), mas ainda mantinha um sacerdócio sacrificial para conduzir a adoração no templo. A Igreja Ortodoxa nunca enfatizou o clero principalmente como mediadores, porque há apenas um Mediador entre Deus e o homem, Jesus Cristo (1 Timóteo 2: 5). Eles são, no entanto, intercessores, assim como os santos são. Os Ortodoxos não vêem santos como pessoas que falam com Deus porque não podemos. Eles são irmãos que chamamos ao nosso lado para orar conosco e por nós. E o clero também tem um papel a desempenhar na salvação como ministros dos sacramentos, como aqueles que são ícones de Cristo ao oferecer o sacrifício, mas não é um papel absoluto. Deus pode salvar alguém apesar da iniqüidade de um sacerdote, e consideramos todos os crentes como ícones de Cristo e membros do sacerdócio real.

A maior fraqueza de solus Christus é que esse ensinamento subtrai da plenitude de Cristo em Seu Corpo, a Igreja, não apenas colocando o clero contra os leigos e ignorando o papel dos membros da Igreja que partiram (os santos), mas sugerindo uma disjunção mesmo entre a Cabeça (Cristo) e o Corpo (a Igreja). Se isolarmos Cristo “somente” e não prestarmos atenção em como Ele nos salva através de e com outros membros do Corpo, então estamos, em essência, descartando a eclesiologia, ou pelo menos reduzindo-a grandemente.

Soli Deo Gloria

Soli Deo gloria é o ensinamento de que só a Deus é devido a glória. Esta doutrina é uma rejeição da veneração de santos e outros objetos sagrados ou pessoas. É uma reação à glória terrena ostensiva do catolicismo romano do século XVI. De certa forma, a soli Deo gloria pode ser considerado redundante com o solus Christus, uma vez que enfatiza a salvação como sendo somente de Deus; mas acrescenta a ideia de que os seres humanos não devem buscar sua própria glória (em outras palavras, prega a humildade).

Soli Deo gloria também confunde adoração com veneração, ensinando assim que só Deus é adorado e venerado. Essa mistura pode ser o motivo pelo qual muitos protestantes, ao ver a veneração praticada no Cristianismo Ortodoxo, confundem com adoração e, assim, concluem que o cristão ortodoxo beijando um ícone ou curvando-se diante de uma cruz está cometendo idolatria.

Ortodoxia concorda com a essência desta doutrina, que só Deus é digno de nossa adoração. No entanto, é uma rejeição da Sua Encarnação e da Sua obra nos seres humanos na história negar honra àquelas pessoas e lugares, porque vemos a santidade que entrou na matéria na Encarnação como se estendendo em toda parte que a bênção de Cristo é dada.

Na Ortodoxia, a adoração é uma doação total e união com Deus principalmente através do sacrifício. Portanto, não faz sentido que adoraríamos santos ou objetos sagrados. A veneração, ao contrário, é mostrar o respeito e a honra devida onde Deus trabalhou, seja em uma pessoa (como um santo) ou até em objetos inanimados (como o túmulo de Cristo).

A veneração é dada aos santos somente por causa da obra de Cristo neles. Isso não diminui a adoração devida somente a Deus. É claro que nunca devemos buscar nossa própria glória, mas não há nada de errado em mostrar respeito e veneração aos santos de Deus, que mostram Sua glória. Os protestantes muitas vezes mostram uma espécie de veneração para as pessoas em suas próprias tradições que eles admiram, embora geralmente parem com o tipo de piedade que é normal nas práticas de veneração ortodoxa, como beijar ícones ou cantar hinos. Eles podem nomear igrejas ou mesmo denominações inteiras segundo seus heróis, no entanto, e há uma tradição de contar as histórias de mártires ou missionários protestantes que de certa forma se assemelha à hagiografia Ortodoxa.

Soli Deo gloria, enquanto tentando preservar a adoração exclusiva de Deus, na verdade, diminui sua obra salvadora em Sua criação, porque nega o mais completo senso de reconhecimento pela obra que Deus faz em Seus santos. Por trás desse ensinamento está a sensibilidade de que não pode haver união verdadeira entre o Incriado e o criado, apenas uma concessão de “favor”. Quando aplicada à Cristologia, isto é uma forma de Nestorianismo.

Uma nota interessante: Em sua ênfase na humildade, a frase soli Deo gloria tem sido usada como uma maneira de dar graças a Deus por uma obra de arte em particular. O grande compositor barroco Johann Sebastian Bach, por exemplo, escreveu “SDG” em muitos de seus manuscritos musicais.

Denominações de Reforma Magisterial 

Além da herança geral das cinco solas da Reforma Magisterial, as várias denominações que surgiram da primeira onda da Reforma também têm suas próprias características.

Luteranismo

As visões sobre a interpretação escritural hoje variam dentro do luteranismo e diversificaram desde o tempo do próprio Lutero. Alguns são influenciados pelo racionalismo do século XVIII, que questionou a autoridade da própria Bíblia. Alguns luteranos seguem uma abordagem do século XIX que enfatizou a inerrância bíblica, uma reação ao racionalismo, enfatizando a exatidão da Bíblia na maioria dos detalhes (e para alguns no extremo, em todos os detalhes). O século XIX também viu um interesse renovado no confessionalismo, colocando a autoridade nos primeiros textos luteranos (por exemplo, o Livro da Concórdia, a Confissão de Augsburgo, etc) - essencialmente um apelo à tradição luterana. 

A Ortodoxia considera toda a Escritura confiável e interpretada apenas dentro da Igreja Ortodoxa. O racionalismo não tem lugar dentro da Ortodoxia, porque a razão humana é notoriamente falível. A inerrância bíblica é também problemática para os ortodoxos, na medida em que isola as Escrituras como um ciritério da Igreja que as produziu. Se pudéssemos adotar algum senso de inerrância ou infalibilidade, seria em um contínuo ininterrupto entre Cristo e Sua Igreja e a Escritura, não no isolamento de qualquer um deles um do outro.

A Ortodoxia louva os apelos para retornar à tradição, mas no caso do confessionalismo luterano, é uma tradição que é divorciada da Santa Tradição e, portanto, incompleta ou incorreta de várias maneiras. No entanto, o respeito confessional luterano pela tradição é algo que atrai os ortodoxos, e nós compartilhamos um terreno comum, especialmente quando os luteranos fazem referência aos Padres da Igreja, embora em muitos casos os lemos de maneira diferente.

Os luteranos em geral consideram a hermenêutica das Escrituras dividida em Lei e Evangelho. A Lei é a obediência aos mandamentos de Deus, enquanto o Evangelho é a obra misericordiosa de Deus em Cristo que concede a salvação. Somente o Evangelho é verdadeiramente necessário para a salvação (veja acima sobre sola fide e sola gratia), mas a Lei pode ajudar a nos levar à salvação na medida em que nos mostra nossos pecados. Embora haja algo nesse arranjo que possamos apreciar como algo abreviado, a Ortodoxia não divide as Escrituras dessa maneira.

Em contraste com a Ortodoxia, os luteranos reconhecem apenas dois sacramentos, o batismo e a sagrada comunhão, embora não haja uma enumeração oficial. A confissão foi praticada durante o primeiro século do Luteranismo (e foi inicialmente vista por Lutero como um sacramento) e está vendo um pequeno retorno em nosso tempo. Luteranos variam quanto a se algo “real” acontece nos sacramentos, dependendo em grande parte de suas divisões de acordo com os campos hermenêuticos descritos acima.

Os luteranos tradicionalmente acreditam que o batismo é uma obra salvadora de Deus (embora eles diferem sobre o que isso significa), e eles o administram aos bebês. Nisto, eles são semelhantes aos ortodoxos.

Para os luteranos, a Santa Comunhão tradicionalmente inclui uma crença na presença real de Cristo, mas não em termos do pão e do vinho sendo transformados no Corpo e Sangue de Cristo nos termos aristotélicos adotados por Roma. Roma ensina a transubstanciação, que a “substância” do pão e do vinho é mudada, mas que seus “acidentes” permanecem, e é por isso que eles ainda parecem iguais. Lutero acreditava que o Corpo e o Sangue de Cristo estavam “dentro, com e sob” o pão e o vinho (embora ele não estabeleça uma formulação específica para isso até seu Catecismo Menor, que usa “sob”), linguagem usada para expandir a teologia em uma direção mais mística.

Luteranos salientam que tanto Cristo como Paulo continuam a usar os termos pão e vinho para o que foi mudado - isto significa que o pão e o vinho ainda estão presentes mesmo enquanto o Corpo e o Sangue de Cristo estão presentes. Essa visão é às vezes chamada de consubstanciação por não-luteranos, mas esse termo é geralmente rejeitado pelos luteranos como filosófico demais e sugerindo algo muito “carnal”, isto é, que eles acreditam em “empanação” (que Cristo se encarna como pão). Em termos do que eles realmente acreditam, a maioria dos luteranos são agora consubstanciacionistas de algum tipo, mesmo que não usem o termo.

A Ortodoxia sempre se esquivou de tal especulação ou definição e diz simplesmente que o pão e o vinho se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo. Como isso acontece, se o pão e o vinho ainda estão de alguma forma presentes, se continua-se a referir-se a eles como pão e vinho significa algo sobre a natureza dessa presença, e assim por diante, não são tratados como questões dogmáticas. A linguagem de “em, com e sob” de Lutero também pode ser entendida de uma maneira essencialmente ortodoxa.

O próprio Lutero também ensinou uma doutrina da theosis (em alemão, vergoettlich ung), mas ela não é bem conhecida entre os luteranos mais modernos. Um número de luteranos finlandeses fizeram um trabalho para revelar isso como parte da tradição luterana, embora seu trabalho seja principalmente conhecido apenas nos círculos acadêmicos europeus. Na Finlândia, esse terreno comum com os ortodoxos serviu de base para o diálogo teológico.

Na segunda geração do luteranismo, foi realizada uma correspondência entre os teólogos de Tübingen e o patriarca ecumênico Jeremias II de Constantinopla. Os luteranos estavam convencidos de que os ortodoxos se tornariam como eles mesmos, uma vez que também rejeitavam a supremacia papal. O diálogo finalmente não teve solução ao longo de linhas que ainda existem hoje - a rejeição pelos luteranos do monasticismo, os pontos de vista sobre as boas obras, etc. Jeremias finalmente interrompeu a correspondência, dizendo que os luteranos deveriam escrever para ele apenas por uma questão de amizade. (Vamos mencionar mais sobre isso abaixo.)

As principais denominações luteranas na América são a Igreja Evangélica Luterana na América (ELCA, que foi uma fusão de três denominações em 1988), a Igreja Luterana - Missouri Synod (LCMS), e Wisconsin Evangelical Lutheran Synod (WELS). A Igreja Evangélica Livre, que também tem presença nos EUA, é uma divisão das igrejas luteranas da Europa.

Em geral, a ELCA, a maior, é considerada a mais liberal. Ordena mulheres, aceita uniões e ministros homossexuais e é a menos confessional de todas as igrejas luteranas. A LCMS e a WELS são muito mais conservadoras, não ordenam mulheres e são mais propensas a serem confessionais. Há muitas denominações luteranas menores nos Estados Unidos, incluindo a recém-formada Igreja Luterana Norte-Americana (NALC), que é um corpo dissidente da ELCA e se descreve como representante do "centro teológico" do luteranismo na América. A NALC mantém a ordenação de mulheres, mas é menos provável que mantenha posições morais liberais em questões como a homossexualidade ou o aborto.

As denominações mais conservadoras são mais propensas a ter um tipo de culto litúrgico, vindo da tradição ocidental da missa - algumas pode até usar a palavra missa e às vezes chamar seu clero de “Padre”. Esse culto ainda é relativamente informal em comparação com as tradições mais católicas, no entanto, com maior ênfase na pregação do que na maioria das igrejas litúrgicas. A maioria das igrejas do WELS são não litúrgicas, o que também é comum na LCMS. Os estilos tradicionais às vezes também são oferecidos ao lado dos serviços de estilo contemporâneo. Algumas denominações luteranas, como os luteranos suecos, mantêm uma teologia de sucessão apostólica para seus bispos, embora seja apenas em termos de sucessão de ordenação, não de manutenção da fé apostólica. Nem todos os luteranos têm bispos. Para aqueles que posseum, no entanto, o bispo é principalmente um ofício administrativo e não sacramental.

Em outros países, os luteranos são chamados simplesmente de "evangélicos" (o termo original), que tem um significado diferente de seu significado dentro dos EUA. Na Alemanha, Evangelische se refere ao protestantismo em geral. Em seu uso original na Alemanha, Evangélico significava “do Evangelho” e se referia à hermenêutica Lei/Evangelho. 

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(Nota do Tradutor: Foram omitidos da tradução aqui os tópicos "The Reformed Churches" e "Anglicanism and its Heirs")
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Terreno comum: o que poderia ter sido

Quase tão logo começou, a Reforma Protestante começou a se dividir em facções, todas com diferenças em questões importantes da teologia. Os principais pontos de discórdia foram as questões de (1) se o livre-arbítrio tinha algum papel a desempenhar na salvação do homem e (2) a verdadeira natureza da Eucaristia. Muitos estudiosos de Lutero, observando a mudança na teologia de um "jovem Lutero" em comparação com um "Lutero posterior", reconhecem que o pai da Reforma alterou suas próprias concepções teológicas sobre a eclesiologia e os sacramentos com o passar do tempo.

Na geração depois de Lutero, quando várias facções teológicas de protestantes se formaram, uma correspondência teológica começou entre vários teólogos luteranos de segunda geração em Tübingen e o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, cujo patriarcado esteve sob domínio turco otomano por mais de um século.

Os luteranos, aparentemente, esperavam encontrar no Oriente Ortodoxo um aliado contra seu inimigo comum no papado romano. Porque os reformadores não se entendiam como inovadores na doutrina, mas como expurgando a igreja ocidental das inovações, e porque se acreditava que o Oriente mantivera sua pureza contra o papado, esses luteranos claramente esperavam que os ortodoxos ("a igreja grega") fossem de fato teologicamente luteranos.

Ao longo de oito anos, foram trocadas cartas entre a faculdade teológica universitária de Tübingen e o patriarca ecumênico Jeremias II de Constantinopla, discutindo teologia e prática dentro de suas respectivas comunhões. Para o desânimo dos luteranos, no entanto, o patriarca acabou pedindo a eles que parassem de escrever para ele sobre questões teológicas, porque estava claro para ele que eles nunca seriam capazes de concordar.

Havia, é claro, muito que eles tinham em comum, mas havia muito em que diferiam, alguns sendo herança da Roma medieval (como o filioque, justificação, pão ázimo na Eucaristia, a não comunhão dos bebês) e outros sendo distintamente posições luteranas (incluindo o papel da tradição, o monasticismo, o lugar das boas obras, o livre arbítrio, o número de sacramentos, como e quando o batismo e a crisma deveriam ser administrados, a natureza da Eucaristia, se a Igreja e os concílios ecumênicos poderiam ser infalível, a veneração dos santos e seus ícones e relíquias, e a celebração dos dias de festa). Algumas áreas de terreno comum incluíam a predestinação, a Eucaristia (para os primeiros luteranos) e a cristologia.

Em resumo, embora houvesse comunalidade em vários assuntos, restavam dois tipos de desacordo substancial: a herança teológica de Roma e as inovações por parte dos reformadores. Em particular, os reformadores continuaram, com Roma, a olhar para a salvação, enfatizando principalmente os termos legais, em vez de transformação pessoal e comunhão com Deus. As duas ênfases estavam presentes no catolicismo medieval e nos primeiros luteranos, mas o modelo legal predominava.

O eixo de todas as inovações do protestantismo foi a doutrina da sola scriptura. Como os reformadores acreditavam que podiam ler a Bíblia e derivar toda a teologia dela sem depender da tradição autoritária da Igreja, ou pelo menos sem ter que ser obediente a essa tradição, eles estavam fadados a cometer erros. Cada pessoa traz alguma tradição para ler a Bíblia - todos nós temos lentes e preconceitos através dos quais lemos. O erro está em negar que isso é verdade e também em rejeitar que existe a tradição, ou seja, a Sagrada Tradição transmitida pelos apóstolos.

A única maneira de garantir que você lê a Bíblia corretamente é certificar-se de que você está funcionando dentro da sucessão da tradição iniciada pelos apóstolos. Como os reformadores aceitaram sem questionar muitas das pressuposições teológicas da igreja cismática romana, não era de surpreender que se afastariam mais da tradição quando partissem de Roma.

Dito isso, os reformadores conceberam amplamente a tradição em termos do que viram em Roma. Provavelmente não estava claro para eles que os ortodoxos representavam uma continuidade ininterrupta da tradição livre das mudanças feitas por Roma.

Sem sola scriptura, todas as doutrinas distintivas do protestantismo são colocadas em questão. Com isso, no entanto, pode-se ir em quase qualquer direção teológica e afirmar estar baseando-se na Bíblia. Para os ortodoxos, porém, a Igreja é a coluna e o fundamento da verdade (1Tm 3:15).

Imagina-se como a história do cristianismo ocidental poderia ter sido diferente se os luteranos de segunda geração tivessem lido as cartas do Patriarca Ecumênico com um espírito de humildade e verdadeiro diálogo; ou se outros teólogos, como Martin Chemnitz (que de muitas maneiras ecoou os Padres da Igreja), pudessem ter participado da conversa. Talvez então o contato deles com a Igreja Oriental tivesse se movido em uma direção mais favorável. Seu respeito pela pureza da “Igreja Grega”, no entanto, não era maior do que sua devoção à sua própria doutrina, derivada de suas pressuposições isoladas da tradição ortodoxa.

Infelizmente, esse desejo por parte de alguns luteranos de se conectar com a Ortodoxia desapareceu rapidamente, e as várias denominações do protestantismo continuaram sua evolução. Hoje, a maioria dos metodistas não seria reconhecível por João e Carlos Wesley, nem a maioria dos luteranos seria reconhecível por Martinho Lutero, nem a maioria dos calvinistas por João Calvino.

Tudo isso dito, o grande amor dos protestantes tradicionais pela Escritura e, em muitos casos, sua devoção à história e tradição (embora uma tradição muito mais jovem), são pontos de contato entre as igrejas da Reforma Magisterial e a Igreja Ortodoxa. Esse contato levou muitas pessoas formadas nessas igrejas a encontrar um lar na Ortodoxia, mesmo na era moderna. Esses convertidos incluem pelo menos um que se tornou um mártir da fé ortodoxa, Santa Isabel a Nova Mártir (1918; ela foi criada luterana), e o maior escritor do nosso tempo no campo da história da igreja em inglês, o professor Jaroslav Pelikan de Universidade de Yale (ex-clérigo luterano). Há também muitos antigos luteranos, calvinistas, anglicanos e metodistas entre o clero ortodoxo.

Ainda há muito trabalho em termos de contato entre estas várias tradições e da tradição Ortodoxa. Hoje, a maioria dos protestantes não sabe que a Ortodoxia existe, e muitos ortodoxos que conhecem os cristãos dessas tradições têm pouco ou nenhum conhecimento do que eles acreditam.

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