segunda-feira, 25 de junho de 2018

Formando Santos - Rumo ao estabelecimento de uma escola Ortodoxa (Hieromonge Gabriel)







O objetivo da educação totalitária nunca foi incutir convicções, mas destruir a capacidade de formar qualquer convicção. 
 -Hannah Arendt 

Eu tenho escrito muito sobre Ortodoxia e educação ultimamente. No entanto, eu ainda fiz pouco mais do que apontar a farsa absoluta que a educação pública moderna se tornou , bem como enfatizar a extrema necessidade de fundarmos escolas Ortodoxas para nossos filhos. Providencialmente, um amigo me enviou uma palestra sobre homeschooling e Ortodoxia, proferida recentemente por Pe Peter Heers, e isso me fez pensar mais profundamente sobre esse assunto. É ouro puro; por favor leia (ou assista / ouça) a coisa toda[1]. Abaixo vou citar algumas das seções mais importantes da fala do Pe. Peter e comentar sobre elas, e depois, com base em seus insights, eu vou oferecer alguns conselhos práticos sobre como as famílias Ortodoxas podem avançar em futuro imediato. 


A GUERRA contra a FAMÍLIA 


Uma das primeiras coisas que Pe. Peter discute é a total anormalidade histórica dos métodos modernos de educação: 

"A partir do século IV, a educação elementar dos Padres da Igreja - dos sete aos catorze anos - era feita exclusivamente em casa. São Basílio, o Grande: quando você acha que ele foi para a escola? O grande São Basílio, a quem todos se referem em termos de educação clássica e a compreensão cristã, quando você acha que ele foi para a escola - alguém quer adivinhar? Com cerca de quinze anos, quando ele realmente saiu de casa e foi para a escola. O ensino secundário começava por volta de catorze a quinze anos. 

  

Então essa ideia de que as crianças precisam sair aos cinco anos - e agora são quatro, três - pra ir à uma babá - é a exceção, é a inovação. E é muito perigoso e muito problemático para o desenvolvimento da criança, estar longe da mãe e do pai tão cedo. Jardim de infância e creche eram totalmente desconhecidos durante os tempos antigos; a maioria dos santos estudou em casa. Se você olhar para a vida dos santos e prestar atenção, verá que a ideia da escola estatal não existia. A educação era feita em uma base de tutoria, e a norma era muito depois do que é hoje. 

  
… Então, quando eles falam sobre “escolas”, pelo menos no primeiro milênio, eles não se referiam a universidades como as vemos hoje, com enormes quantidades de pessoas. Eles queriam dizer um professor ou dois e alguns alunos. Essa era a "escola" em muitos lugares. 
Quando as pessoas crescem, a partir dos cinco anos de idade, acompanhadas por seis estranhos diferentes por dia, em incrementos de 55 minutos, com a atenção de cada estranho sendo dividida entre trinta e cinco indivíduos aleatórios, quando todos os dias são arrastados de uma sala para outra, cada vez sendo misturados aleatoriamente com outro grupo aleatório de pares, quando eles estão sendo incessantemente perfurados com fatos e dados sem fim e informações sem propósito coesivo ou significado, tudo para que eles possam receber um número que avalie seu desempenho relativo em um teste padronizado, a fim de satisfazer burocratas sem rosto no governo, é alguma coincidência que muitos deles acabam se sentindo isolado, alienados, sem propósito e sozinhos? (Especialmente quando metade de todos os americanos voltam para suas famílias desfeitas quando chegarem aos 18 anos de idade?) 

E falando em famílias desfeitas, é por acaso que a desintegração da família começou logo após o surgimento da educação moderna? É alguma coincidência que a taxa de divórcios tenha disparado precisamente durante a primeira era da história humana na qual as crianças estão sendo efetivamente criadas pelo Estado, e não pelos pais? 

Ou é de admirar que houvesse um êxodo em massa de mulheres, deixando suas casas para o local de trabalho, logo depois que seus filhos de cinco anos começaram a deixar suas casas para as escolas do governo? E aqui está uma pergunta que ninguém está perguntando: quem exatamente é que se beneficia de tal arranjo? Mães e seus filhos, ou Wall Street e o PIB? Porque, de acordo com os dados reais, menos da metade das mulheres americanas se descrevem como felizes em seus empregos. Enquanto isso, 84% das mães que trabalham fora, dizem que querem ser mães em período integral, mas não podem arcar com isso. De alguma forma, parece que “empoderamento” e “libertação” acabaram significando “servidão contratada” e “escravidão assalariada”. 

Criar filhos piedosos é a maior alegria, o mais belo presente e a responsabilidade mais solene de qualquer pai ou mãe, seja homem ou mulher. E a ideia difundida de que a realização e o propósito na vida vêm principalmente (ou mesmo secundariamente) de uma carreira, e que a ausência de uma carreira é resultado de opressão e marginalização, não é senão um indicador gritante da insipidez e pobreza espiritual da era moderna. 

ESCOLAS: UM SISTEMA DE CONTROLE 

Mas, claramente, eu discordo. Voltemos à questão da educação pública. Pe. Peter discute as origens da escolarização estatal compulsória na Reforma (a fim de promover as novas ortodoxias religiosas), bem como na ascensão do Estado autoritário na Europa (a fim de garantir uma população condescendente, bem como uma força de trabalho industrializada). 
"Portanto, a socialização sempre esteve no coração da educação estatal compulsória. Quando as pessoas dizem: "Você precisa estar nas escolas estaduais porque precisa ser socializado", elas estão certas. É isso que o principal ponto da educação estatal é. Não é sobre educação. Claro, existem pessoas que realmente querem educação apesar do sistema, e há pessoas que estão sendo educadas apesar do sistema, mas estamos falando sobre como isso começou e porque começou politicamente."  

Em uma reviravolta interessante, nosso velho amigo John Stuart Mill, um dos  fundadores das espúrias teorias de liberdade e moralidade da modernidade, bem como o antigo mentor e depois arquinimigo de nosso herói, Sir James Stephen, não levou exatamente uma visão otimista do fenômeno da escolaridade obrigatória pelo estado: 
JS Mills disse há 250 anos - nenhum amigo da Ortodoxia, mas ele disse: “Uma educação geral do estado é um mero artifício para moldar as pessoas exatamente como umas como as outras, e na medida em que é eficiente e bem-sucedida, estabelece um despotismo sobre a mente, conduzindo por uma tendência natural a um (despotismo) sobre o corpo.”As pessoas perceberam isto quando todo este movimento no final do século XIX para a educação estatal compulsória estava acontecendo. Havia filósofos, havia pessoas na Europa que diziam que "isso não é sobre o interesse das crianças, não se trata do interesse dos pais, é sobre o interesse do Estado e de formar mentes." 
Como Pe. Peter menciona em sua palestra, as pessoas que faziam essas objeções não eram exatamente zelotes religiosos. Pelo contrário, eles eram as próprias pessoas que lançaram as bases para o mundo secular em que vivemos hoje. 

Pe. Peter também discute algumas das questões jurídicas contemporâneas que cercam o homeschooling na Europa. Como vivo na América e tenho pouca experiência ou conhecimento de assuntos europeus, não entrarei em detalhes sobre essas questões. Basta dizer: é realmente ruim por lá. Como "Hitler literalmente escreveu as leis sobre isso", a situação é ruim na Alemanha; e em muitos outros estados europeus a situação não é muito melhor. 

A PRESERVAÇÃO DA FÉ 

Depois de sua visão geral da história da educação pública e da atual legalidade de alternativas para ela no mundo ocidental, Pe. Peter chega ao cerne da questão: 
"Por que estou contando tudo isso em uma palestra chamada “Tenha Fé?” Bem, porque não é apenas sobre você e seu filho. É realmente sobre a sobrevivência da Igreja, é sobre a sobrevivência da identidade cristã, é sobre manter nossos filhos puros de um sistema demoníaco de controle sempre invasivo. E se você vir e entender a história da educação compulsória, perceberá como é importante mantermos o controle sobre a educação das crianças. É uma questão não apenas de educação, como eu disse no começo, mas de fé, de identidade e sobrevivência cristãs." 
E isso não é apenas o alarmismo de alguns padres Ortodoxos mal-encarados na internet, com expectativas irreais sobre pais e o mundo moderno. Os batistas estão dizendo exatamente a mesma coisa: 
"Isso causou uma impressão em mim quando eu estava fazendo a pesquisa para isso: os batistas, que eu acho que são o maior grupo protestante da América, planejam e discutem um êxodo em massa de escolas públicas há algum tempo. E se eles entenderam o que está em jogo e entenderam a urgência da educação escolar em casa, acho que os Ortodoxos também deveriam entendê-la definitivamente. O documento dos batistas que eu encontrei diz o seguinte: “Como cristãos, devemos estar planejando um futuro de educação cristã para nossos filhos. Os pais cristãos têm o dever de proporcionar aos filhos uma educação cristã.” Verdadeiramente nas Escrituras é muito claro, nos Provérbios e em outros lugares, que essa é uma das principais tarefas dos pais - não a educação per se, mas a formação da alma da criança. E quando estamos diante do tribunal de nosso Senhor, Ele não vai nos perguntar se eles entraram em Harvard ou se eram advogados ou médicos. Ele vai nos perguntar se eles eram fiéis e se haviam progredido na purificação, iluminação e deificação. E este documento batista diz aqui: “Algumas horas na escola dominical e na igreja não terão uma influência maior sobre a fé e a visão de mundo da criança, do que quarenta ou cinquenta horas por semana na escola pública.” Então, se os batistas perceberam isso, nós devemos também." 

O PRECEDENTE NA ORTODOXIA 

Como mencionei na semana passada, citando Arquimandrita Vasileios, a idéia de criar escolas Ortodoxas para preservar a fé em uma cultura hostil não é absolutamente nada de novo, e absolutamente não é opcional. Foi precisamente isso que permitiu que a Ortodoxia sobrevivesse ao jugo turco, como Pe. Peter explica: 

"Estamos indo em direção para as escolas secretas mais uma vez. Você sabe o que são as escolas secretas na Grécia? Elas existiram no período turco. Os cristãos tinham escolas secretas. Eles foram proibidos de ter escolas pelos turcos. Então eles foram para o subsolo; eles tinham escolas nas igrejas ou nas casas. O padre, ou quem quer que fosse educado na comunidade, nas aldeias, ensinaria as crianças usando os livros litúrgicos da Igreja.   
E o grande educador e apóstolo da Grécia, São Kosmas Aitolos, disse celebremente quando ele pregou e percorreu a Grécia no final deste período, em 1700:  “você deve educar seus filhos, abrir escolas se possível , mas eduque seus filhos ”. Para o propósito de quê? ... Com o propósito de aprender a fé e ler as Escrituras. Ele não percorreu a Grécia, abrindo escolas, para que as crianças pudessem se tornar educadas, per se, mas para que elas pudessem se tornar educadas para aprender a fé. É para onde estamos indo. E é por isso que temos que entender que nosso papel não é ter grandes ideias para o futuro educacional de nossos filhos, mas estarmos focados na preservação da fé, assim como São Kosmas foi com os gregos. É por isso que estamos educando nossos filhos. Esse é o papel da educação em nossa vida." 
Se a sobrevivência da Ortodoxia dependia de escolas ilegais durante o período da ocupação otomana, quanto mais a sobrevivência da Ortodoxia depende do estabelecimento de escolas Ortodoxas no mundo moderno de hoje? Os turcos não inundavam constantemente as crianças Ortodoxas com propaganda subversiva por meio da onipresença de televisões, laptops, smartphones e mídias sociais. A cultura e a influência turcas poderiam ser mantidas fora do lar cristão. 

E, embora talvez ainda seja teoricamente possível preservar nossos lares desses veículos de corrupção moral e espiritual, vamos ser honestos conosco mesmos: quantos de nós realmente o fazemos? A imersão cultural completa é agora um fenômeno de 24 horas, 7 dias por semana, em praticamente todos os lares americanos, sejam eles ortodoxos ou não. 

UM CAMINHO A SEGUIR 

"O ensino em casa é uma parte importante de nossa luta para salvar nossos filhos do ambiente hostil da educação contemporânea, e é um lugar onde criamos um oásis de formação cristã. Mais uma vez, como eu disse, não é apenas uma decisão pessoal. É uma necessidade eclesiástica. Não é sobre uma educação melhor. É sobre a salvação. É sobre a sobrevivência à medida que avançamos como cristãos. E é uma resposta necessária para qualquer um que esteja buscando a salvação e buscando ser um verdadeiro cristão, e buscando criar verdadeiros cristãos. Então, é imperativo para a nossa vida - se não para a nossa sobrevivência como cristãos ortodoxos – e é imperativo para a nossa vida espiritual. Apesar de lutarmos agora, dia a dia, e vamos lutar para nos tornarmos melhores naquilo que fazemos para nossos filhos, tenha sempre em mente que estamos nos encaminhando para dias muito difíceis, provavelmente de perseguição. Se vamos permanecer fiéis, então precisamos nos voltar para nossos filhos e ir mais fundo ... Este é o futuro da Ortodoxia." 
Pe. Peter está falando especificamente sobre homeschooling, e este é provavelmente o lugar de onde precisamos começar. Há um número crescente de organizações Ortodoxas de homeschooling: alguns exemplos são a comunidade de Homeschool de São Kosmas que hospedou o padre nesta palestra, assim como a Saint Raphael School, que oferece cursos online. 

A internet é, no entanto, como sempre uma faca de dois gumes: pode fornecer acesso a recursos inestimáveis para pais e alunos, mas ao mesmo tempo devemos ter muito cuidado ao confiar nas telas para ensinar nossos filhos. Pe. Peter diz o seguinte sobre o assunto:

"Quando as crianças são expostas em tenra idade a uma tela de computador, o vício que se segue é realmente destrutivo para sua vida espiritual. Em todo o mundo ... em idades cada vez menores, as crianças estão sendo expostas, e espera-se que elas venham à escola com seu laptop ou tablet, e isso se torna um estilo de vida desde a mais tenra idade. Mas tem sido demonstrado por vários estudos que isso é muito destrutivo, não apenas para sua atenção, mas pelo desenvolvimento de suas mentes. Então, outra coisa que precisamos evitar, que podemos evitar, e que devemos evitar na educação doméstica, é a exposição e o vício do computador, da tela da TV ou de qualquer coisa que eles possam estar assistindo." 

Na minha opinião, a solução ideal a curto prazo é formar cooperativas de ensino em casa, baseadas nas nossas paróquias locais. Isso permitiria que os pais reunissem seus recursos, tanto em termos de tempo, quanto de áreas de conhecimento. Os encargos financeiros e administrativos imediatos - tanto para os pais quanto para a paróquia - seriam enormemente reduzidos no caso de uma cooperativa de educação escolar em casa, em oposição a uma escola paroquial de pleno direito. No entanto, as bases para uma futura escola paroquial também seriam estabelecidas ao mesmo tempo. 

Ainda mais importante, essas cooperativas de educação em casa construiriam comunidades, não apenas para as crianças, mas também para os pais e toda a paróquia. Isso poderia envolver absolutamente paroquianos sem filhos em idade escolar; os paroquianos aposentados, especialmente, poderiam oferecer seu conhecimento, sua experiência e seu tempo. Isso serviria para fortalecer a realidade da paróquia como o verdadeiro centro de nossa vida, e não simplesmente como o lugar onde a liturgia acontece no domingo. Seria um tremendo passo para a formação da rica vida paroquial que a Ortodoxia neste país tão desesperadamente precisa. 

Além disso, esta é também uma chance de transcender as diferenças jurisdicionais que afligem a Igreja na América desde que a tragédia da Revolução Bolchevique forçou a Ortodoxia neste país a se organizar principalmente por linhas étnicas. Cidades com múltiplas paróquias de diferentes jurisdições podem se unir em uma única cooperativa, fortalecendo assim a comunidade Ortodoxa em toda a área, bem como em cada paróquia individual. Nossa unidade espiritual e eclesial será assim manifestada mais claramente para nós, para nossos filhos e para a comunidade mais ampla. Ficará mais claro que a Ortodoxia é para todos os americanos, enquanto ao mesmo tempo deixa intacta cada uma das nossas identidades étnicas. 

Há mais um aspecto disso tudo que é desagradável, mas, no entanto, precisa ser dito: o estado de catequese nas paróquias Ortodoxas na América é muitas vezes, digamos assim, inexistente. Eu não quero lançar nenhuma culpa aqui; a triste realidade de sacerdotes sobrecarregados e mal pagos é também um dos desafios mais substanciais para a Ortodoxia na América nos dias de hoje. Mas uma cooperativa de homeschool, baseada na paróquia, daria ao clero local (ou mesmo aos paroquianos adequados) uma oportunidade de catequizar tanto as crianças, quanto seus pais, numa base muito mais regular, e em muito maior profundidade, do que é possível em um domingo de manhã na igreja. (embora, na verdade, mesmo isso não é capaz de ser feito em todos os lugares como as coisas estão). 

Resumindo: estamos enfrentando uma crise urgente, mas também estamos tendo uma oportunidade inspiradora na Igreja da América. Esse objetivo de proporcionar aos nossos filhos uma educação Ortodoxa está ao nosso alcance e, além disso, é parte essencial de nosso dever como pastores, pais e fiéis ortodoxos. O mundo cristão pode estar desmoronando ao nosso redor, mas isso significa apenas que o Reino dos Céus do outro mundo tem a oportunidade de brilhar ainda mais em meio às trevas que o cercam. 

Recentemente experimentamos o Pentecostes, a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. Recebemos a Grande Comissão e recebemos a graça do Espírito Santo com o qual podemos realizá-la. Ontem foi o domingo de Todos os Santos, e agora embarcamos no jejum pelo qual lutamos para imitar seus santos exemplos e fazer com que a mesma santidade se manifeste em nossas próprias vidas. Mas devemos sempre lembrar que não somos apenas chamados a ser santos individualmente, mas também fazer com que todos ao nosso redor também sejam santos. 

Onde é melhor começar do que com nossos próprios filhos, em nossas próprias paróquias e em nossas próprias casas? 





[1]https://saintkosmashomeschoolcommunity.com/heers-2018-have-faith-examining-homeschooling-and-compulsory-state-education/ 

Nota do tradutor: em muitos momentos do texto o hieromonge se refere à realidade norte-americana, cujos exemplos não seriam tão diferentes se comparados aos nossos. A bem da verdade, em muitos exemplos onde fala-se da realidade da Igreja, nossa situação é ainda mais urgente e preocupante.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Queda do Homem e a Ressurreição (Metropolita Hierotheos de Nafpaktos)




Geralmente pensamos na Queda em termos jurídicos, em significados retirados dos tribunais. Consideramos que o pecado de Adão foi simplesmente uma transgressão de uma lei, uma transgressão externa, e que essa transgressão criou culpa no homem, com o resultado de que essa culpa foi herdada pelos descendentes de Adão.



Mas essa visão do pecado não é ortodoxa. Na Ortodoxia, consideramos o pecado como uma doença do homem. O homem ficou doente e esta doença teve um efeito em toda a raça humana. São Cirilo de Alexandria usa a imagem da planta. Quando a raiz da planta fica doente, os galhos também ficam doentes. Podemos interpretar o pecado de Adão assim também.


São Máximo, quando fala da queda do homem e sua restauração, os coloca numa base teológica. Ele diz que na criação do mundo e do homem havia cinco divisões. A divisão entre incriado e criado, noético e tangível, Céu e terra, Paraíso e mundo, masculino e feminino. Adão, pela graça de Deus, mas também por sua luta pessoal, uma expressão de sua liberdade, teria que superar essas divisões e alcançar comunhão e unidade com o incriado. Certamente, esta última divisão, aquela entre o criado e o incriado, não poderia ser abolida, mas o criado alcançaria a unidade com o incriado. Além disso, na Igreja, não dizemos que há divisão entre as coisas físicas e metafísicas, como afirma a filosofia, mas entre o criado e o incriado. E além disso, nós aceitamos que o incriado entra no criado, e assim o próprio homem, como diz São Maximo, o Confessor, também se torna incriado pela graça.

Adão não conseguiu transcender essas divisões. E não só ele não conseguiu transcender a divisão que mencionamos, mas também perdeu a pureza que existia entre os dois sexos, com o resultado de que a decadência e a mortalidade entraram na natureza, vestiu camadas de pele e decaiu em mortalidade. Portanto, agora o modo de concepção, gestação, nascimento, etc. do homem é um resultado da queda, é o que os santos Padres chamavam de casacos de pele, que ele usou após a queda.



A transcendência das cinco divisões ocorreu em Cristo. Pela Sua Encarnação, pelo Seu nascimento de uma Virgem, pela união da natureza divina e humana, Ele uniu o incriado com o criado, o celestial com a terra, o noético com o sensível, o Paraíso com o mundo, e Ele até transcendeu a divisão entre masculino e feminino. Assim, a restauração do homem foi bem-sucedida e a cada pessoa foi dada a possibilidade de que em Cristo ele também pudesse transcender todas as divisões e alcançar sua salvação.




Se desejamos olhar mais concretamente a questão da queda, diremos que, como ensina São João Damasceno, a queda na realidade é a escuridão da imagem, a perda da vida divina e a colocação das camadas de pele. A escuridão da imagem nada mais é que o escurecimento do nous. O nous foi escurecido e não poderia entrar em comunhão e unidade com Deus . É claro que deve ser dito que, de acordo com a antropologia dos santos Padres, a alma do homem é racional e noética. Isso significa que o homem tem dois centros de funcionamento. Uma é a mente racional, que está conectada com seu sistema nervoso, e o outro, seu nous, que está conectado com o coração. A queda de Adão, então, é o escurecimento do nous, a perda de sua função noética, a confusão do nous com as funções da razão e sua escravização às paixões e ao meio ambiente. Em vez de se mover de acordo com a natureza e acima da natureza, em vez de se mover em direção a Deus e ser consciente de Deus, a mente do homem está voltada para as coisas criadas e as paixões. É por isso que na Igreja falamos de arrependimento, que não é simplesmente uma mudança que ocorre "na cabeça", como alguns teólogos dizem, mas é uma mudança do nous. O nous deve romper com o criado e as paixões, e se voltar para Deus .




Um resultado do escurecimento de sua energia noética é que o relacionamento do homem com Deus e seu próximo está desarranjado. Por causa do seu obscurecido nous, o homem não encontra sentido na vida , ele volta sua atenção para as coisas externas, com o resultado de que ele chega aos golpes com os homens, e ele não tem paz interior. Isso é analisado de maneira maravilhosa por São Gregório Palamas. O homem caído usa Deus para salvaguardar sua segurança individual e considera seu próximo como um objeto para a exploração predatória. Ele não pode ter amor desinteressado, porque todas as suas expressões e todo o seu amor contêm o elemento de auto-busca, o que significa dizer que o homem é caracterizado pelo amor que busca por si mesmo. Assim, o escurecimento do nous tem consequências sociais drásticas. A sociologia não pode ser considerada independente da teologia.




Neste sentido (e somente neste sentido) podemos falar da herança do pecado e do pecado ancestral (original), que o homem herda no nascimento. Neste sentido também podemos falar da catolicidade da queda do homem.




O que Adão falhou em fazer, Cristo, que é chamado o novo Adão, conseguiu fazer. Por sua encarnação, Cristo deificou a natureza humana e tornou-se o remédio mais forte para os homens, no sentido de que deu a cada homem a possibilidade de alcançar sua theosis (deificação). Sob esta luz, podemos interpretar a frase do troparion que Cristo elevou "Adão com toda a raça humana".




Neste ponto, gostaria de olhar para duas passagens em São João Damasceno que nos ajudarão a entender, de algum modo, o mistério da Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. É claro que deve ser enfatizado que isso também é um assunto não de compreensão racional, mas de experiência espiritual , mas podemos dizer algo sobre a doutrina da Encarnação do Filho e do Logos (Palavra) de Deus.




São João Damasceno, repetindo uma passagem de São Gregório, o Teólogo, a quem ele chama de seu pai espiritual, diz que Cristo assumiu toda a natureza humana, porque "o que não é assumido não é curado". São João Damasceno prossegue, dizendo que o centro dominante da alma e da carne é o nous, que é a parte mais pura da alma, mas também que o centro governante do nous é o próprio Deus. Quando Deus age, então o nous manifesta sua própria autoridade, e então "está sob o controle do mais forte e o segue, fazendo coisas que a vontade divina deseja". O Filho e o Logos (Palavra) de Deus uniu-se à carne "por meio do nous", que está a meio caminho entre a pureza de Deus e a grosseria da carne. Assim, o nous tornou-se o lugar de sua união pessoal com a divindade. O santo escreve caracteristicamente: "O nous se torna a sede da Divindade que foi hipostaticamente unida a ele". Isto tem grande importância, porque mostra que a salvação do homem começa e trabalha no nous e depois se estende a todo o corpo. Assim, entendemos a grande importância da tradição néptica da Igreja.




O outro ponto do ensinamento de São João Damasceno que nos é útil aqui é que, por Sua encarnação, o Logos (Verbo) de Deus não assumiu a natureza humana "que é entendida em pura teoria", como hoje em dia; Ele não assumiu uma natureza simples, aquilo que é visto externamente, porque então não teria sido encarnação, mas uma ilusão e ficção de encarnação. Ele também não assumiu essa natureza "considerada como uma espécie", mas aquilo que é visto no indivíduo, que ao mesmo tempo pertence também à espécie, porque Cristo assumiu toda a mistura do que era nosso desde o começo. Isto é importante porque, como São João Damasceno diz novamente, a natureza humana ressuscitou dos mortos e sentou-se à direita do Pai "não implicando que todas as pessoas se levantaram e se sentaram à direita do Pai, mas que toda a nossa natureza o fez na Pessoa de Cristo". Digamos que a natureza humana foi deificada na Pessoa do Logos, de modo que a natureza humana foi deificada na hipóstase do Logos, mas nossa própria hipóstase humana (pessoa) também deve ser deificada.




Portanto, a catolicidade da queda de Adão tem o significado da doença da natureza humana e a catolicidade da ressurreição através do Novo Adão, Cristo, novamente tem o significado da cura. Cristo curou a natureza humana, Ele mesmo se tornou o remédio mais forte para a cura, e Ele dá a todo homem a possibilidade de ser curado. Assim, podemos afirmar que "Cristo é tanto o médico quanto o remédio; Ele é a cura e a saúde do homem" .

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Por que a Ortodoxia não tem seu próprio Papa? (São Nicolau Velimirovich)


Bem, sim! A Ortodoxia tem seu próprio papa, maior que todos os papas e patriarcas do mundo. Ela tem desde o princípio e terá até o fim dos tempos. É o mesmo papa invocado por todos os Apóstolos de Cristo, o Espírito Santo, o Espírito de sabedoria e razão, o Espírito de consolação e poder de Deus. Ele é o verdadeiro papa da Igreja de Cristo para todo o sempre, sem permutação nem mudança, sem disputa ou eleição, sem precursor ou sucessor. 

Além disso, felizmente, existe um documento, escrito por suas próprias mãos, onde observamos que os Apóstolos reconheceram / confessaram o Espírito Santo como seu chefe e papa escolhido. No primeiro Concílio em Jerusalém, os Apóstolos escreveram estas famosas palavras:
Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós. - Atos 15, 28
É evidente que os apóstolos colocam o Espírito Santo diante e sobre eles. Antes dessa e de cada uma de suas reuniões, eles costumavam orar e invocá-Lo. Os líderes da Igreja ainda não fazem a mesma coisa até nossos dias? Toda vez que eles se encontram, em primeiro lugar, eles se lembram de seu papa infalível - o Espírito Santo. Eles O invocam com temor antes de todo seus trabalhos e obedecem a Ele sem qualquer condição. Não apenas os líderes da Igreja, mas também os líderes dos Estados ortodoxos, os ministérios e os membros do Parlamento primeiramente invocavam o Espírito Santo e começavam o seu trabalho como autoridades civis. Da mesma forma, também faziam e fazem os dirigentes escolares.

Você sabe que, no início de seus trabalhos escolares, eles vão à igreja com seus alunos para invocar o Espírito Santo ... O Todo-Bondoso, Todo-Poderoso e Todo-Sábio Espírito santo maneja, revigora e inspira todos eles: a Igreja, o Estado e aqueles que trabalham para o sistema educacional. E Ele governa todas as pessoas em todos os atos, não brutalmente como os ditadores terrestres, mas como um pai, com sabedoria e amor. Ele é nosso pai através do Batismo que recebemos.

E você sabe que a palavra grega "papa" significa pai. Isto é, no sentido verdadeiro, histórico e ético, o Espírito Santo é nosso pai, nosso papa. E por que, então, a Igreja Ortodoxa precisaria de outro pai ou papa? Não foi o próprio Senhor Jesus Cristo que nos advertiu para evitar os pais terrenos, os padrastos? Ele, dezenove séculos atrás, nos ordenou:
E a ninguém na terra chameis vosso pai (entenda-se papa), porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. - Mateus 23:9
Desejo-lhe saúde e paz de Deus.

Extraído do livro "МИСИОНАРСКА ПИСМА"