sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O Significado do Ícone da Natividade de Cristo (Leonid Ouspensky)


A iconografia clássica da Natividade de Cristo, que vemos no ícone aqui reproduzido, tem seu protótipo nas ampullae dos séculos V e VI, em que os peregrinos costumavam trazer para casa o óleo da Terra Santa proveniente das lâmpadas queimadas nos lugares sagrados. [1] 

A parte descritiva do ícone corresponde ao Kontákio da festa: "Hoje a Virgem dá à luz ao Transcendente, e a terra oferece uma caverna ao Inacessível. Os anjos dão glória com os pastores, e os magos com a estrela avançam; pois Tu nasceste para nós, ó Menino, Deus pré-eterno." Duas outras cenas, baseadas na Tradição, aparecem nos cantos inferiores.

Em seu conteúdo, o ícone da Natividade de Cristo tem dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar, revela a própria essência do evento, o fato imutável da Encarnação de Deus; nos coloca diante de um testemunho visível do dogma fundamental da fé cristã, salientando por seus detalhes tanto a Divindade quanto a natureza humana do Verbo que se fez carne. Em segundo lugar, o ícone da Natividade nos mostra o efeito deste evento sobre a vida natural do mundo, dando-nos como que uma perspectiva de todas as suas conseqüências. Pois, segundo as palavras do Teólogo São Gregório, a Natividade de Cristo "não é uma festa de criação, mas uma festa de re-criação" [2], de uma renovação, que santifica o mundo inteiro. (Veniens mundum consecrare, diz o "Martyrologium Romanum"-"Ele veio para consagrar o Universo"). Através da Encarnação de Deus, toda a criação adquire um novo significado, que reside no propósito final de seu ser - sua transfiguração última. Assim, toda a criação participa do evento e ao redor da Criança Divina, recém-nascida, vemos representantes de todo o mundo criado, cada um prestando seu serviço adequado, ou como diz a Igreja - cada um dando graças à sua própria maneira. "O que traremos a Ti, ó Cristo, quando Tu nasceres na terra como Homem por nós; pois cada uma das criaturas, que têm o seu ser a partir de Ti, traz graças a Ti: os anjos seus cânticos, os céus uma estrela, os magos presentes, os pastores sua maravilha, a terra uma caverna, o deserto uma manjedoura. Quanto a nós, nós Te oferecemos uma Virgem Mãe" (Estiquério nas Vésperas da Natividade). A isso o ícone acrescenta presentes dos mundos animal e vegetal.

Do ponto de vista do significado e composição, o centro do ícone, ao qual todos os detalhes se relacionam de uma forma ou de outra, é o Bebê envolto em faixas, deitado na manjedoura, com a caverna escura onde ele nasceu como cenário de fundo [3]. Numa homilia atribuída a São Gregório de Nissa encontramos uma comparação feita entre o nascimento de Cristo em uma caverna e a luz espiritual resplandecendo na sombra da morte que envolve a humanidade. A abertura negra da caverna no ícone é, em seu significado simbólico, precisamente este mundo, atingido pelo pecado devido à falta do homem, no qual "o Sol da verdade" resplandeceu.

O Evangelho de Lucas (ii, 7) fala da manjedoura e das faixas, "e envolveu-o em faixas, e deitou-o numa manjedoura", e ainda as menciona como o sinal distintivo dado pelo anjo, pelo qual os pastores deveriam reconhecer no Bebê seu Salvador: "Isto vos servirá de sinal: achareis o bebê envolto em faixas e posto numa manjedoura." (Lucas ii, 12). O estiquério nos diz que a manjedoura era a oferta do deserto à Criança Divina.  O significado desta oferta é revelado nas palavras de São Gregório, o Teólogo, que escreve: "Curva-te diante das manjedouras através das quais tu, que eras mudo, és formado pela Palavra" (isto é, você cresce, alimentado pelo pão da Eucaristia). [4] O deserto (neste caso um lugar vazio e desabitado), que ofereceu refúgio ao Salvador, que desde Seu nascimento o mundo não aceitou, foi o cumprimento da prefiguração do Antigo Testamento - o deserto onde o símbolo da Eucaristia foi dado - maná.  Aquele que tinha feito chover maná do céu - sobre o povo judeu, Ele mesmo tornou-se o pão da Eucaristia - o Cordeiro, colocado sobre o altar, cujo símbolo é a manjedoura trazida pelo deserto do Novo Testamento como uma oferta ao Bebê.

Caverna, manjedoura, vestes de faixas - são indicações da kenosis da Divindade, de Seu abaixamento, da total humildade d'Aquele que, invisível em Sua natureza, torna-se visível na carne pelo bem do homem, nasce em uma caverna, é envolto em vestes de faixas, assim prefigurando Sua morte e sepultamento, o sepulcro e as vestes funerárias.

Na caverna, perto da manjedoura, encontra-se um boi e um asno. Os Evangelhos não falam deles. No entanto, em todas as imagens da Natividade de Cristo, eles estão próximos à Criança Divina. O lugar deles no centro do ícone aponta para a importância dada pela Igreja a este detalhe. É nada menos que o cumprimento da profecia de Isaías (i, 3), que tem um significado instrutivo muito profundo: "O boi conhece o seu dono, e o jumento a manjedoura do seu senhor, porém Israel não Me conhece, e o povo não Me levam em consideração.Pela presença dos animais, o ícone nos lembra a profecia de Isaías e nos chama ao conhecimento e à compreensão do mistério da Dispensação Divina.

Olhando para o ícone da Natividade de Cristo, a primeira coisa que chama nossa atenção é a posição da Mãe de Deus e o lugar que Ela ocupa. Nesta "festa de re-criação", Ela é "a renovação de todos os nascidos na terra", a nova Eva. Assim como a primeira Eva se tornou a mãe de todos os seres vivos, também a nova Eva se tornou a Mãe de toda a humanidade renovada, deificada através da Encarnação do Filho de Deus. Ela é a mais elevada ação de graças a Deus, que o homem, dentre todos os seres criados, traz para o Criador. Com esta oferta na pessoa da Mãe de Deus, a humanidade caída dá o consentimento para sua salvação através da Encarnação de Deus. O ícone da Natividade enfatiza graficamente este papel da Mãe de Deus, destacando-a entre as outras figuras por Sua posição central e, às vezes, por Seu tamanho. Ela está deitada próxima ao Bebê, mas comumente já fora da caverna, em uma cama, do tipo daquelas que os judeus levavam consigo em suas viagens.

A postura da Mãe de Deus é sempre cheia de profundo significado e está imediatamente conectada com questões dogmáticas, que surgiram em diferentes épocas ou lugares. As alterações desta postura enfatizam, de acordo com a necessidade, ou a natureza divina ou a natureza humana do Salvador. Assim, em algumas imagens, Ela está meio sentada, o que aponta para a ausência no caso dEla dos sofrimentos habituais e, portanto, para a natureza virgem da Natividade e a origem Divina do Babe (contra o erro nestoriano). Mas na grande maioria das imagens da Natividade de Cristo a Mãe de Deus está deitada, mostrando em Sua postura uma grande lassidão, que deve lembrar aos que oram acerca da natureza indubitavelmente humana do Bebê, "a fim de que não se suspeite que a encarnação seja uma ilusão", como diz Nicolau Mezarites. [5]

Ao redor do grupo central - a Criança Divina e Sua Mãe - estão reunidos todos os detalhes que, como já dissemos, testemunham a própria Encarnação e seus efeitos sobre todo o mundo criado. 

Os anjos realizam um serviço duplo: eles glorificam e trazem as boas novas. Em um ícone, isto é normalmente expresso pelo fato de alguns deles voltarem-se para cima e cantarem glória a Deus, outros se inclinarem para baixo, para os homens, a quem trazem as boas novas. 

Estes homens são os pastores. Eles são mostrados ouvindo a mensagem dos anjos; e muitas vezes um deles está tocando flauta, adicionando assim arte humana - música - ao coro dos anjos.

Do outro lado da caverna estão os magos, guiados pela estrela. Eles são representados como cavalgando ou, como em nosso ícone, caminhando com presentes. Um longo raio da estrela aponta diretamente para a caverna. Este raio conecta a estrela com uma parte da esfera que vai além dos limites do ícone - uma representação simbólica do mundo celestial. Desta forma, o ícone mostra que a estrela não é apenas um fenômeno cósmico, mas também um mensageiro do mundo do alto, trazendo as novas notícias sobre o nascimento dAquele que é "celestial sobre a terra". É aquela luz que, de acordo com as palavras de São Leão o Grande, estava escondida aos judeus, mas que resplandeceu para os pagãos. Nos pastores, os primeiros filhos de Israel a adorar o Bebê, a Igreja vê o início da Igreja judaica, e nos magos - "o início das nações" - a Igreja dos pagãos.De um lado estão os pastores - homens simples e pouco sofisticados, com os quais o mundo do alto entra em comunicação diretamente, em meio à vida cotidiana deles de trabalho, do outro estão os magos - homens do saber, que têm que realizar uma longa jornada a partir do conhecimento do que é relativo ao conhecimento do que é absoluto, através do objeto que eles estudam. Na adoração por estes magos, a Igreja testemunha que aceita e santifica toda a ciência humana que conduz a ela, desde que a luz relativa da revelação não-cristã traga aqueles que a servem para a adoração da luz absoluta. Deve-se notar que os magos são representados como sendo de idades diferentes, o que enfatiza o fato de que a revelação é dada aos homens independentemente dos seus anos e experiência mundana. 

Em um canto inferior do ícone, duas mulheres estão lavando a Criança. Esta cena é baseada em uma tradição, que também nos é transmitida pelos Evangelhos apócrifos de pseudo-Mateus e pseudo-Tiago. As duas mulheres são as duas parteiras que José trouxe para a Mãe de Deus. Esta cena da vida cotidiana mostra claramente que a Criança é como qualquer outro bebê recém-nascido e está sujeita às exigências naturais da natureza humana.

Outro detalhe enfatiza que na Natividade de Cristo "a ordem da natureza é superada" - e este é José. Ele não faz parte do grupo central do Filho e Sua Mãe; ele não é o pai e está enfaticamente separado deste grupo. Diante dele, sob o disfarce de um pastor velho e curvado, encontra-se o diabo tentando-o. Em alguns ícones, ele é representado com pequenos chifres ou uma cauda curta. A presença do diabo e seu papel de tentador adquire um significado particularmente profundo em relação a esta "festa de re-criação". Aqui, com base na tradição, o ícone transmite o significado de certos textos litúrgicos, que falam das dúvidas de José e do estado inquieto de sua alma. Este estado é expresso no ícone por sua atitude desanimada e é enfatizado pela abertura negra da caverna, que às vezes serve de pano de fundo para sua figura. A tradição, transmitida também pelos apócrifos, relata como o diabo tentou José dizendo-lhe que um nascimento de uma virgem não é possível, sendo contrário às leis da natureza. Este argumento, assumindo formas diferentes, continua reaparecendo ao longo de toda a história da Igreja. É a base de muitas heresias. Na pessoa de José o ícone revela não apenas seu drama pessoal, mas o drama de toda a humanidade - a dificuldade de aceitar aquilo que está "além das palavras ou da razão" - a Encarnação de Deus.

Em alguns ícones a Mãe de Deus é representada olhando para o Bebê, "guardando em seu coração" as palavras sobre Ele, ou olhando diretamente diante dEla para o mundo externo, em nosso ícone, como em muitos outros, Ela olha para José como se expressasse por este olhar compaixão pelo estado dele. Nisso o ícone ensina uma atitude tolerante e compassiva para com a descrença e a dúvida humana.

Fonte: retirado do livro The Meaning of Icons por Leonid Ouspensky e Vladimir Lossky

Notas

1. Estes recipientes trazem imagens dos eventos evangélicos, que aconteceram na localidade particular onde os recipientes foram feitos. Eusébio de Cesaréia relata, em sua História da Igreja, que no lugar da Natividade de Cristo São Constantino construiu uma igreja, cuja cripta era a própria caverna de Belém. É lá, segundo a opinião dos arqueólogos, que a cena da Natividade de Cristo reproduzida nas ampullae foi representada com toda a exatidão histórica possível. Esta cena formou a base de nossa iconografia desta Festa.

2. São Gregório o Teólogo, Discurso 38; P.G. 36, col. 316B. 

3. Os Evangelhos não dizem nada sobre a caverna: sabemos sobre ela pela Tradição. As evidências escritas mais antigas datam do século ll: São Justino o Filósofo em seu diálogo com Trifão (por volta do ano de 155-160), citando o Evangelho de São Mateus acrescenta, "como José não encontrou lugar para ficar naquela vila, ele se estabeleceu em uma caverna não muito longe de Belém". 

4. São Gregório o Teólogo, Discurso 38; P.G. 36, col. 332A. 

5. A. Heisenberg, Graheskirche und Apostclkirche, Leipzig, 1908. Parte II, p. 47.


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