quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Patriarca Kirill Condena o Comunismo e a Ideologia da Justiça Social Agressiva


A realidade do "paraíso comunista na terra" é a perseguição brutal e os guetos sociais, diz o líder da Igreja Ortodoxa Russa.

Sua Santidade o Patriarca Kirill abordou o assunto em sua nova entrevista com a Forbes France.

Questionado sobre o altruísmo como "uma terceira via entre o capitalismo hiper-materialista e o marxismo revolucionário", o Patriarca afirma firmemente: "O desejo de auto-enriquecimento como o objetivo mais elevado da vida, assim como o egoísmo social auto-satisfeito, são repugnantes à cosmovisão cristã".

Além disso, a quase-religiosidade associada tanto ao capitalismo quanto ao marxismo é igualmente inaceitável. Apesar de todo seu discurso sobre a criação de um paraíso na terra, o comunismo e a justiça social agressiva levaram a algo bem diferente, Sua Santidade continuou:

Nós, que vivemos na era do comunismo, sabemos bem que a ideia de justiça social, transformada em uma ideologia agressiva, destrói tudo ao seu redor. Centenas de milhares de pessoas executadas por sua fé, a criação de um gueto social para classes inimigas - esta é a realidade do "paraíso comunista na terra".

Entretanto, o "evangelho capitalista" da acumulação de riqueza e bens a qualquer custo "não é menos perigoso", diz o Patriarca.

Qualquer atividade, inclusive econômica, deve ser organizada sobre uma sólida base moral, que para os cristãos sempre foi a Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja, enfatizou, embora "isto seja combatido por forças poderosas que estão prontas a usar qualquer meio para impedir o domínio das idéias Divinas na mente de nossos contemporâneos".

E comentando sobre a tendência ao longo do último meio século de consumismo cada vez mais orientado para os desejos e necessidades individuais e não familiares, Sua Santidade observou que na Rússia e em vários países ocidentais, o povo está recuperando a compreensão de que "o futuro da humanidade é impossível sem uma família tradicional".

Traduzido do inglês https://orthochristian.com/142592.html

sábado, 2 de outubro de 2021

Ancião Ieronymos de Egina sobre os pré-requisitos de uma pregação efetiva

Ancião Ieronymos de Egina


Então o Ancião [Ieronymos] se voltou para seu outro visitante:

"Como você está? Como está indo a vida espiritual"?

"Graças a Deus, Ancião, estou tentando. Fui nomeado recentemente para pregar e não sei o que fazer. O que você me aconselha?" 

"Deixe-me dizer-lhe. Se sua vida é tal que está de acordo com o que você ensina e você é um exemplo, então assuma o compromisso. Os santos experimentaram o que eles escreveram e ensinaram. E aqueles que escrevem ou falam pelos Santos Padres, devem ter uma vida semelhante. A pregação é boa. A lebre não tem tanto medo do trovão do céu quanto o diabo tem medo da pregação dos apóstolos. No entanto, você só deve ensinar o que você mesmo faz. 

Se você não provar açúcar, você pode dizer como ele é doce? Certamente que não. Certifique-se de estudar muito. E qualquer que seja o livro espiritual que você leia, pense: 'Estou fazendo isto?' Se você não o fizer, o conhecimento não lhe servirá de nada. A teologia não é estudada, ela é experimentada. Você é um teólogo? Então você conhece os textos. Você não tem o temor de Deus? Você apenas aprendeu uma arte. Há teólogos que têm palavras, mas não têm Deus. Não deixe de ler diariamente, mesmo que seja uma página, os comentários de Abba Isaque, o Sírio. Depois do Evangelho, ele será seu guia. E quando tiver terminado o livro inteiro, comece tudo de novo". 

"Que outro livro espiritual eu deveria ler, Ancião?" 

"Abba Isaque". 

"Certo, você me falou sobre Abba Isaque. Você tem outro livro para me recomendar?" 

"Abba Isaque. Eu nunca estive saciado com o bem-aventurado. Se eu pudesse aplicar mesmo 10% do que ele escreve, eu ficaria satisfeito. Outro dia um pregador veio de Atenas e quando ele viu o livro que eu tenho [o Ancião tinha as obras de Abba Isaque em uma tradução grega moderna, feitas pelo monge Kallinikos Pantokratorinos] ele me disse: 'Isto não é bom, é uma tradução, não nos oferece como o original'. E eu respondi: 'Deixe-me entender bem e deixe-me aplicar o que é oferecido por este e me será suficiente'". 



Traduzido do site https://www.johnsanidopoulos.com/2021/09/elder-ieronymos-of-aegina-on-empirical.html

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Quem iniciou o Grande Cisma? Uma resposta concisa (Craig Truglia)




Como sabemos quem iniciou o "Grande Cisma"? Primeiro, devemos entender o que é a Igreja, o que é cisma na Igreja, e depois como o cisma se formou.

A Igreja una, santa, católica e apostólica, às vezes simplesmente conhecida como a "Igreja Ortodoxa" foi iniciada por Jesus Cristo através da ordenação dos Apóstolos ao título de Bispado (cf At 1,20) por meio de São Pedro. Ele desempenhou o papel de ordenar os outros Apóstolos a seus Bispados (cf Mat 16,18; Optato contra o Livro dos Donatistas 1 Cap 10; Eusébio, História Eclesiástica Livro 2, Cap 1, Par 2-3; João de Thessalonica, Homilia da Dormição Cap 13). Desta forma, todo Bispado é petrino e, em última instância, é originário do próprio Jesus Cristo.

Todos os Bispos sucessores dos Apóstolos fazem parte desta Igreja, desde que não a abandonem. As Escrituras e os Padres são unânimes em explicar que o cisma é o ato de se cortar da comunhão e estabelecer uma jurisdição/igreja paralela onde a Igreja já está.

Muitas pessoas confundem as rupturas locais na comunhão como um cisma categórico. As controvérsias da Igreja Primitiva, como o Cisma Meleciano e as disputas sobre o Concílio de Éfeso, demonstram que é possível haver rupturas na comunhão entre as igrejas locais individuais sem que haja duas facções claramente delineadas, como em um cisma.

Historicamente, cismáticos como Novaciano (um contra-bispo de Roma) e os Donatistas (que ordenaram seu próprio bispo de Roma) não só entraram em cisma localmente, mas espalharam o cisma deles ao ordenar bispos em partes da Igreja que não saíram do rebanho.

Um cismático não só rompe a comunhão, mas também cria uma igreja paralela, ordenando um novo bispo onde já existe um bispo. Para citar Santo Inácio de Antioquia, "Onde quer que o bispo se apresente, que esteja também a multidão; assim como, onde quer que Jesus Cristo esteja, ali está a Igreja Católica". (Esmirnaeans, cap. 8) Portanto, instalar um bispo cismático onde um bispo já tenha "apresentado" é algo definitivamente não-Católico.

E assim, quando se determina quem entrou em cisma e como o fizeram, há um pressuposto interpretativo primordial: que sigamos os ensinamentos de São Vicente de Lerins e mantenhamos a "fé que tem sido crida em toda parte, sempre, por todos. Pois isso é verdadeiramente - e no sentido mais estrito - Católico, que, como o próprio nome e a razão da coisa declaram, abrange tudo universalmente". (Commonitorium Par 6)

Em outras palavras, a definição de cisma deve ser como os Pais o definiram, caso contrário isso é não-Católico. Considerações filosóficas e interpretações inteligentes, mas inovadoras, são irrelevantes. O que faz mais sentido para você não é tão importante quanto o que fazia mais sentido para os Pais. A questão do cisma, como todas as questões doutrinárias, deve ser entendida na linha de como a Igreja sempre creu e praticou (São Vicente chama isto de "consenso") em todos os lugares e em todas as épocas.

O Cisma Meleciano em Antioquia nos fornece um estudo de caso do mundo real. Sem entrar em muitos detalhes, São Melécio foi o bispo de Antioquia, mas foi enviado ao exílio durante a controvérsia ariana. Lúcifer Cagliari da Sardenha de forma não-canônica e unilateral (cf. História Eclesiástica de Sócrates, Livro 3, Cap. 6) ordenou Paulino II como Bispo de Antioquia. Alexandria e Roma reconheceram Paulino no lugar de Melécio e portanto Melécio não os comemorou. Após a morte de Melécio, São Flávio foi ordenado para substituí-lo e foi reconhecido pelo Concílio de Constantinopla I. O Papa São Damasco I (e depois São Papa Siricius) e outros Bispos ocidentais sob sua jurisdição não reconheceram Flávio, embora São Timóteo de Alexandria, que participou do Concílio de Constantinopla I, o reconheceu. A história justifica Melécio e Flaviano, que são santos - e não Paulino, Evagrius e outros sucessores de Paulino. No final dos anos 390, Roma finalmente voltou a entrar em comunhão com a Igreja canônica de Antioquia.

O episódio anterior ilustra como começou um cisma (Roma e Alexandria não reconheceram Melécio) e como o cisma acabou sendo consumado em última instância (Roma e Alexandria entraram em comunhão com o Bispado paralelo em Antioquia). O cisma só foi curado ao voltar a entrar em comunhão com a Igreja canônica de Antioquia e ao cessar o reconhecimento da jurisdição paralela. Este é nosso principal exemplo histórico como a autoridade de um Concílio Ecumênico e a veneração universal dos santos delineia claramente as partes corretas e incorretas nesta questão.

Os cismas das igrejas Orientais [não-calcedonianas] no Egito, Armênia e Síria não são o tópico deste artigo, embora seja suficiente dizer que estas igrejas tanto saíram da comunhão como substituíram Bispos válidos contra os procedimentos canônicos que elas mesmas reconheciam como legítimos. Por exemplo, a deposição de um Patriarca seguindo a lei canônica, como a [deposição] de Constantinopla no Concílio de Éfeso, é reconhecida por eles; mas a deposição canônica de Dióscoro de Alexandria em Calcedônia, por nenhuma razão consistente, não é.

A história do cisma da Igreja Católica Romana não é extremamente complicada. Embora houvesse disputas temporais sobre jurisdição ao longo dos séculos (relativas aos avanços bizantinos na Grécia, nos Bálcãs e no sul da Itália, todos originalmente sob a jurisdição patriarcal Romana), os bispos de Roma nunca responderam deixando de reconhecer a ordenação dos bispos assumidos por Constantinopla, algo que o cânon 17 de Calcedônia (que Roma aceitou) dava apenas 30 anos para contestar. Além disso, a mudança na jurisdição foi feita legalmente, uma vez que o cânon 38 de Trullo permitiu que as jurisdições da Igreja mudassem seu alinhamento com a das linhas provinciais do Império Bizantino. Quando o Papa Adriano I aceitou, em suas palavras, "todos os seus cânones", ele (implicitamente) aceitou estas mudanças jurisdicionais.

Por que os Papas concederiam isto? O Papa João VIII, por exemplo, negociou jurisdição no sul da Itália e nos Bálcãs em troca de uma aliança militar.

Portanto, nunca houve cisma, pois as mudanças jurisdicionais foram afirmadas no direito canônico e consentidas - embora possam ser "injustas". O consentimento é algo importante para se entender. A Igreja consentiu em mudar suas jurisdições para se adequar às linhas romanas provinciais no século IV. Mesmo antes disso, os alinhamentos mudaram. Afinal, tendo em vista que São Paulo morreu em Roma, tecnicamente toda igreja que ele fundou estava originalmente sob a jurisdição local romana. No entanto, isso mudou logo depois. Sabemos que isto é verdade, porque Roma nunca pressionou as reivindicações locais em áreas como Creta e Ásia Menor* que eram originalmente bispados paulinos, mas não o eram por volta do terceiro século (cf. Carta 74 de Cipriano).

*É possível que a "controvérsia pascal" seja uma exceção a isto, com o Papa São Vítor I afirmando sua prerrogativa de excomungar igrejas que ele acreditava estar sob sua jurisdição local.

Em meio a estas considerações territoriais, as mudanças doutrinárias estavam em andamento e as igrejas ocidentais começaram a adotar o Filioque em seu credo. Isto foi algo que inicialmente não criou uma ruptura, pois foi entendido, segundo São Máximo, que o Filioque não contradizia a crença de que o Pai era a única causa eterna do Espírito. Como o passar do tempo, tornou-se claro que os bispos ocidentais não acreditavam mais nisso [nesse entendimento], como evidenciado pelos conflitos entre o Papa Adriano I e os teólogos carolíngios exatamente sobre este ponto, na virada do século VIII.

No século seguinte, isto criou uma ruptura na comunhão entre o Oriente e o Ocidente em meio a brigas políticas. Isto só foi curado quando o Papa João VIII, como verificado em múltiplas cartas suas em latim e grego (fato que significa que estas cartas não são falsificações), reconheceu apenas o Credo sem o Filioque e afirmou o Concílio de reunião de Constantinopla IV (879-880). Os antigos canonistas latinos, como Ivo de Chartes (século XI) e Graciano (século XII) também "consideraram o Sínodo Fociano de 879-880 como tendo sido devidamente aprovado pelo Papa João VIII", citando cartas em latim para este fim. Somente mais tarde os historiadores ocidentais (em oposição a todas as fontes primárias existentes) mudaram suas avaliações sobre João VIII.

Embora o concílio de 879-880 d.C. parecesse proibir os cristãos latinos de usar o Filioque, ele não foi obviamente interpretado desta forma pelas igrejas filioquistas. Citando o Papa Leão III na virada do século VIII, "[o Filioque] pode ser cantado ao ensinar, e ser ensinado ao ser cantado: mas nem por escrito nem por canto pode ser inserido ilegalmente naquilo, que nos é proibido tocar". Assim, a teologia latina aceitou a existência do Filioque e permitiu que ele fosse "ensinado ao ser cantado", mas oficialmente não o colocaram no próprio Credo Constantinopolitano.

Assim, as igrejas latina e oriental fizeram uma trégua que tinha mantido um status quo antes do concílio. Os bispos orientais provavelmente acreditaram que eles haviam impedido que o Filioque fosse divulgado (pois este era o entendimento mais simples da intenção do concílio em suas próprias palavras). O Ocidente, em um movimento para 'manter as aparências', admitiu que em nível oficial o Oriente estava correto, mas o concílio não condenou especificamente a doutrina peculiar deles.

Independentemente dos méritos de ambos os lados, ao discernir a questão do cisma, a questão óbvia é quem quebrou a trégua. A resposta a esta pergunta, que nenhum apologista Católico Romano contesta, é clara: o Ocidente.

No início do século XI, a Igreja romana mudou unilateralmente o Credo - algo que era proibido pela trégua. Então, excomungaram Constantinopla por supostamente "remover [o] filioque do Credo original", entre outras coisas. Isto é historicamente impreciso e demonstra quem iniciou o conflito errado em violação a uma trégua anterior.

Nesta época, para acrescentar insulto às feridas, os normandos conquistaram a Itália bizantina e, com a aprovação de Roma, substituíram os bispos sem o consentimento dos cristãos locais. Eles também impuseram a latinização, incluindo a imposição do Filioque. Isto não foi apenas herético, mas também cismático - introduziu um bispado latino paralelo aos bispos pré-existentes, como o Basílio de Reggio.

Nesta altura, a questão é local e um pouco "bagunçada" - especialmente considerando que os bizantinos tinham séculos antes "invadido" o que antes estava indiscutivelmente sob a jurisdição romana. Isto foi uma "punição merecida". No entanto, a trégua foi obviamente violada e o pecado inconfundível do cisma veio a se espalhar de uma disputa política localizada em uma cisão irrevogável durante as Cruzadas.

Repetidamente, o lado ocidental foi decisivo na exacerbação da situação. Admitido pelos apologistas Católicos Romanos, os cristãos ocidentais instalaram repetidas vezes bispos paralelos e impuseram mudanças litúrgicas, incluindo no Credo - com efeito, criando outra Igreja do que outrora foi uma Igreja una, santa, católica (como São Vicente definia) e apostólica.  Isto inclui o estabelecimento de igrejas paralelas em:
  • Jerusalém e Antioquia (século XII).
  • Egeus e Constantinopla (século XIII).
  • Alexandria, apesar de os cristãos ocidentais nunca terem ocupado o Egito e Alexandria ter mantido até aquela época a comunhão e até mesmo participado do Quarto Concílio de Latrão (século XIII)
  • Terras bálticas, russas, ucranianas e gregas (séculos XIII a XVII).
Este estado de coisas não cessou efetivamente por cerca de seis séculos. O padrão de ações cismáticas é tão claramente incontestável, que o popular apologista Católico Romano Erick Ybarra admitiu repetidamente que essas ações foram "erradas" e "criminosas".

Em resposta, a Igreja Ortodoxa nunca estabeleceu uma igreja paralela por qualquer definição em uma terra Católica Romana antes do século XIX - um ponto tão distante após o cisma que isso é irrelevante. Até hoje, os Ortodoxos nunca constituíram um bispo titular de Roma e há apenas um exemplo de uso da força militar para instalar um bispado Ortodoxo no lugar de um bispado ocidental, que é a conversão forçada dos uniatas por Stalin.*

*A "controvérsia" da eparquia de Chelm não foi uma conversão forçada (admitido por Uniatas)

Em conclusão, se alguém aceita o cânon de São Vicente, deve-se discernir que a Igreja romana está lamentavelmente em cisma. Eles mudaram sua doutrina do Filioque, violaram uma trégua para não adicioná-lo ao Credo, excomungaram os cristãos Ortodoxos, e por fim substituíram seus bispos - formando uma segunda igreja. Com este conhecimento, é possível começar a desfazer os danos - um passo de cada vez.


Original: https://orthodoxchristiantheology.com/2021/02/13/who-started-the-great-schism-a-concise-answer/


quinta-feira, 17 de junho de 2021

A Imaculada Conceição a partir de uma perspectiva Ortodoxa (Pe. John [Patrick] Ramsey)



Há muitas obras sobre este tema e muitas coleções de ditos patrísticos em torno do tema. Este artigo não será uma tentativa de considerar todos estes escritos em si, mas sim de apresentar uma posição teológica sobre o tópico que assume um testemunho geral de que a Mãe de Deus foi purificada no momento da Encarnação e que o processo de purificação começou desde o nascimento e até mesmo desde a concepção.

A doutrina da Imaculada Conceição, como definida pelo Papado da Velha Roma, é:

Latim:

Declaramus, pronuntiamus et definimus doctrinam quae tenet beatissimam Virginem Mariam in primo instanti suae conceptionis fuisse singulari Omnipotentis Dei gratia et privilegio, intuitu meritorum Christi Jesu Salvatoris humani generis, ab omni originalis culpae labe praeservatam immunem, esse a Deo revelatam, atque idcirco ab omnibus fidelibus firmiter constanterque credendam.

Tradução:

Declaramos, pronunciamos e definimos a doutrina que afirma que a mais bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua concepção, foi, por uma graça e privilégio singular de Deus Todo-Poderoso, em vista dos méritos de Cristo Jesus, Salvador da raça humana, preservada imune de toda mancha de culpa original (pecado), [essa doutrina] foi revelada por Deus, e assim, por essa razão, deve-se crer firme e constantemente por todos os fiéis.

Mais uma vez, há muito escrito sobre esta definição do ponto de vista Católico Romano e muito também de outros pontos de vista. Este artigo focará esta definição de um ponto de vista Ortodoxo e talvez estabeleça algumas questões ao invés de pronunciar julgamentos definitivos sobre ela.

Os pontos particulares da formulação que são pertinentes a uma crítica Ortodoxa são: "no primeiro instante", e: "de toda mancha de culpa original (pecado)". Há outras frases que estão em questão, embora não tão pertinentes à possibilidade de a doutrina ser algo a que os Ortodoxos possam concordar, dada sua formulação. Há toda variedade de outras questões sobre todo o processo de definição de tal doutrina e de sua fonte que podem, de certa forma, invalidar a doutrina para os Ortodoxos por motivos processuais, deixando de lado a questão da doutrina em si mesma. Estas questões não serão abordadas profundamente aqui, exceto por uma breve menção. O foco será o significado teológico ou antropológico das frases mencionadas.

A primeira frase que será abordada aqui é: "de toda mancha de culpa original (pecado)". A primeira pergunta aqui é o que se entende por "toda mancha". Em particular, é se isto inclui a morte como uma mancha do pecado original. A posição recebida pelos Ortodoxos é que a Mãe de Deus morreu. Esta morte foi uma morte natural, o que significa que a razão de sua morte foi a herança da morte proveniente de Adão e esta herança é unicamente atribuível ao pecado original de Adão, através do qual a morte entrou na humanidade. Por este motivo, a Mãe de Deus deve ter herdado o pecado ancestral (original) de Adão. Assim, se "toda mancha" inclui a morte, a doutrina da Imaculada Conceição é inconsistente com a Tradição Ortodoxa sobre o tópico. Considerando a variação geral do pensamento Católico Romano sobre o assunto, parece que a morte não é definitivamente considerada como uma "mancha" do pecado original.  A doutrina, porém, não declara explicitamente que o pecado original em si não é herdado, mas "toda mancha de". No entanto, pode significar que o pecado original não é herdado de forma alguma. Este entendimento da doutrina é inaceitável para os Ortodoxos, mesmo que de outra forma possa estar afirmando algo que pode ser aceitável, porque a Mãe de Deus herdou claramente a morte de Adão. Isto levanta outro ponto de questão é o que exatamente é herdado. Para muitos teólogos Ortodoxos, o que é herdado é simplesmente a morte como consequência do pecado de Adão e pela herança da morte o homem encontra-se como pecador porque ao estar sujeito à morte em si separa-se da Vida, na qual não pode haver contradição, e essa separação nega a participação no poder da Vida a fim de evitar o pecado. Teria então que se ler "preservada imaculada de toda mancha do pecado original" como afirmando a herança da morte, mas que a Mãe de Deus é preservada da consequência de se tornar uma pecadora que é preservada de pecar de fato. Este pensamento levanta outra questão sobre qual "mancha" pode ser dita como derivada do pecado original, além da morte. É difícil ver que "mancha" pode ser. Outra questão é o que se entende por "culpa original (pecado)". O latim parece aqui se concentrar na culpabilidade do pecado original do que no pecado em si. Para a pergunta anterior, assumi que significasse o mesmo que "pecado original", mas isto provavelmente não é estritamente correto e algo mais específico pode ser pretendido pela formulação. Herdar a morte não requer nenhum sentimento de culpa associado com esta herança, portanto a ideia de "culpa ou culpabilidade original" é estranha aos Ortodoxos e não algo que seria aceito na definição de uma doutrina. Se "culpa original" é uma referência à culpa de Adão que não é transmitida, então o que é herdado só pode ser dito ser a morte, deixando a mesma questão de antes, que a Mãe de Deus morreu por causa da morte herdada de Adão. Esta frase levanta demasiadas questões para os Ortodoxos para que seja aceitável como uma definição de doutrina. Ela reflete algum tipo de compreensão do pecado original que é estranho ou mesmo desconhecido para a compreensão Ortodoxa do Evangelho e da Tradição Apostólica.

Isto nos leva à frase: "no primeiro instante". Esta afirmação se refere a algo que está sendo feito e completado em um instante, especialmente com a preposição "em" junto com "o primeira instante". O latim "in" é melhor traduzido como "naquele momento" e, por isso, não em nenhum outro momento, portanto, não é o início de um processo, mas um evento concluído (embora com conseqüência permanente). Isso levanta a questão sobre o que pode ser tão concluído? Do ponto de vista Ortodoxo, é a herança da morte que impulsiona o pecado e não uma herança de pecado que impulsiona a morte. É praticamente uma ideia sem sentido falar da herança de pecado porque o pecado pertence à operação e não à essência do homem; somos julgados pelas ações, operações, feitas no corpo e não simplesmente por sermos humanos. (Podemos ser julgados no sentido de que nossas obras em si mesmas, devido aos limites de nossa natureza, são incapazes da perfeição das obras de Deus e, portanto, ficam aquém da retidão e, assim, são contadas como pecado, mesmo que não tenhamos feito intencionalmente atos pecaminosos. No entanto, o julgamento do pecado é relativo aos atos ou à falta deles e não à nossa natureza ou essência em si). Portanto, dado que o pecado é uma questão de ações ou limites das mesmas, a única coisa da qual a Mãe de Deus pode ser preservada no instante de sua concepção é a herança da morte, que nós declaramos ser algo que ela herda. Pode-se afirmar que as operações da Mãe de Deus são auxiliadas pela graça de Deus de tal forma a evitar pecados de intenção ou de omissão ou falta, mas isto só se aplicaria uma vez que ela começasse a agir, o que não seria no primeiro instante de sua concepção, mas desde o primeiro instante de sua concepção. Assim, pode-se dizer que um processo pode ser iniciado desde o primeiro instante de sua concepção para manter suas operações como livres do pecado, mas que tal processo não pode ser dito como algo feito e concluído no primeiro instante de sua concepção. Assim, a frase "no primeiro instante" da doutrina é inconsistente com o pensamento Ortodoxo e não é algo que possa ser aceito como foi declarado.

Assim, para resumir esta breve consideração de uma perspectiva Ortodoxa, a doutrina da Imaculada Conceição, como é definida, é inaceitável para os Ortodoxos como sendo enquadrada em uma estrutura estranha da Queda e da condição humana. Ela falha não pelo desejo de honrar a Mãe de Deus e reconhecer sua pureza, mas mais pelo fato de ser realmente enquadrada de uma maneira que não faz sentido para os Ortodoxos e simplesmente não é algo que possa ser aceito como doutrina como declaração de definição.

A ideia que muitos estão tentando defender sobre a Mãe de Deus, que esta doutrina pode estar tentando captar, é que a Mãe de Deus era totalmente pura e sem pecado na Encarnação de Cristo. Embora haja alguma variação de opinião, os Ortodoxos também afirmam que um processo de purificação e também o estado de pureza começou desde a concepção da Mãe de Deus. Para os Ortodoxos, porém, a Mãe de Deus herdou de Adão a condição humana comum de morte, como testemunhado por sua morte natural e nesse estado ela era "uma pecadora" em potencial e precisava ser salva por Cristo assumindo a morte e derrotando a morte, como qualquer outro ser humano. A Mãe de Deus é conhecida por sofrer outros limites da condição humana, tais como os limites do conhecimento. Os Ortodoxos podem, de certa forma, ter opiniões aparentemente diferentes sobre se a Mãe de Deus era pecadora e estas podem ser consistentes dependendo do contexto e da perspectiva tomada. Os Ortodoxos podem, e muitos Padres o fizeram, afirmar que a Mãe de Deus foi mantida livre do pecado desde a concepção, de uma maneira muito semelhante ao que muitos veem a doutrina da Imaculada Conceição como afirmando. Assim, pode-se ver alguns Ortodoxos concordando com a doutrina a esse nível. Entretanto, devido à doutrina ser expressa de uma maneira estranha aos Ortodoxos e com significado confuso, também é algo que pode ser condenado e rejeitado como uma doutrina. É preciso ter cuidado para não julgar uma opinião Ortodoxa que rejeita a doutrina como significando que se afirma que a Mãe de Deus pecou em ato ou deve pecar em ato, nem que um Ortodoxo que aceita a Imaculada Conceição está negando assim que a Mãe de Deus morreu ou negando que herdamos a morte de Adão e assim somos feitos pecadores. Muitos que falam em nome da opinião Ortodoxa também podem estar fazendo isso de forma limitada e imperfeita, e por isso não se deve julgar todos os Ortodoxos como tendo exatamente essa opinião.

Para os Ortodoxos, o que importa em relação à Mãe de Deus é como uma questão de fé afirmar que ela é verdadeira e corretamente chamada: "Mãe de Deus", e que ela foi realmente uma virgem na concepção de Cristo. Junto com isto, como uma questão de manter uma só mente com os Padres que: a Mãe de Deus é sempre virgem; ela é devidamente honrada como "toda santa" e é "maior que os Querubins"; ela morreu; e seu corpo não viu corrupção porque ela era a Mãe da Vida. Estas não estão abertas a opiniões contrárias, mesmo que não expressas formalmente como doutrinas nos Concílios Ecumênicos. A Mãe de Deus também deve ser considerada como a Mãe de todos os fiéis, a nova Eva. Todas as coisas ditas sobre ela nos serviços comuns das igrejas devem ser afirmadas como verdadeiras e adequadas. Sobre outros tópicos, uma variedade de opiniões não é proibida nem uma opinião específica exigida para ser Ortodoxo. A questão do que aconteceu precisamente na sua concepção não é algo considerado como tendo sido transmitido pelos Apóstolos e, portanto, não faz parte da Tradição em si.

Texto original: https://reasonandtheology.com/2021/06/10/the-immaculate-conception-from-an-eastern-orthodox-perspective-rev-dr-john-patrick-ramsey

sábado, 12 de junho de 2021

Diferenças entre a mentalidade Ortodoxa e a mentalidade Católica Romana e Protestante (Eugenia S. Constantinou)

Phronema na Tradição Cristã Ocidental 

Todos têm um phronema [mentalidade], uma atitude ou abordagem particular, não apenas em relação à teologia, mas à vida em geral. As raízes linguísticas gregas de phronema, que ligam pensamento e conduta, revelam que um verdadeiro phronema Ortodoxo leva a um comportamento Ortodoxo correto. Isto não é diferente da palavra "ortodoxa" em si, que significa tanto "crença ou opinião correta" quanto "glória ou adoração correta". Se tivermos a atitude correta, isto será refletido na maneira como vivemos. Voltando ao exemplo do jejum, se insistirmos na rigidez e numa abordagem farisaica em nossas práticas de jejum, não estaremos exibindo um phronema Ortodoxo. Por outro lado, ignorar, minimizar ou marginalizar o jejum igualmente indica uma falta de phronema Ortodoxo.

Este tipo de equilíbrio na teologia e na prática, não se desviando nem para a direita nem para a esquerda, também é visto nos ensinamentos e conselhos espirituais dos Padres da Igreja.[1] Um phronema Ortodoxo correto é particularmente essencial para o teólogo Ortodoxo, pois determina não apenas o comportamento pessoal, mas o que um teólogo dirá, fará, e escreverá em sua qualidade de teólogo. Antes de discutirmos o phronema  Ortodoxo em maior profundidade, analisemos de maneira ampla os fundamentos básicos do phronema cristão ocidental.

O Phronema Protestante: Sola Scriptura 

Como vimos, São Paulo enfatizou uma unidade de pensamento e vontade, unicidade de espírito dentro da Igreja, formada por uma orientação comum em relação ao evangelho e à vida em Cristo. Todos os cristãos leem e reconhecem o Novo Testamento como autoritativo. Os cristãos também desejam sinceramente estar unidos a Cristo e uns aos outros. Por que, então, todos os cristãos não compartilham o mesmo phronema? As palavras de São Paulo nos instruindo a nos conformarmos a um phronema cristão não criaram a unidade cristã, mesmo para aqueles que tentam seguir suas diretrizes bíblicas. A unidade de fé e mente não se encontra entre diferentes tipos de cristãos, mesmo que todos nós compartilhemos as mesmas Escrituras e as consideremos como autoritativas. Isto porque o que molda a perspectiva teológica não são as Escrituras em si, mas a mentalidade através da qual se lê e aplica essas Escrituras. Isto é especialmente verdade na tradição Protestante.

A adesão Protestante ao dictum sola scriptura de Martinho Lutero ("somente as Escrituras") torna impossível um phronema unificado. Lutero era menos extremo do que seus seguidores e mantinha muitas concepções Católicas tradicionais. Mas o sola scriptura tornou-se o mantra Protestante dominante e a característica mais proeminente do phronema Protestante. Mas não se trata de "somente as Escrituras", mas das "Escrituras `a parte" - à parte da Igreja, de qualquer autoridade da Igreja ou da autoridade da interpretação tradicional. Sola scriptura é o princípio mais fundamental e fundacional da mentalidade Protestante: a pessoa pode determinar por si mesma o que as Escrituras significam. A reivindicação, portanto, não é apenas "as Escrituras somente", mas "eu mesmo somente".

Este não é o significado de sola scriptura, mas este é seu efeito, uma vez que os Protestantes não reconhecem nenhuma outra autoridade que possa criar diretrizes para o entendimento da Escritura. As Escrituras em si são consideradas a única autoridade, mas a Escritura não é auto-interpretativa. Ela obviamente não pode ser, pois mesmo os Protestantes não concordam sobre seu significado. Se as Escrituras fossem auto-interpretativas, todos chegariam às mesmas conclusões e interpretações. Portanto, a consequência inequívoca da sola scriptura é a crença de que todos interpretam as Escrituras por si mesmos e presumem que sua interpretação é válida. O resultado é uma surpreendente variedade de denominações Protestantes e congregações independentes.

A Reforma Protestante girou em torno da rejeição das tradições Católicas que foram denunciadas pelos Reformadores como erros e desvios das crenças e práticas da Igreja primitiva. Os Reformadores defenderam "somente as Escrituras", e a Igreja Católica respondeu com "Escritura e Tradição". Como os Católicos insistiam na autoridade da Tradição, o conceito de Tradição como base para qualquer coisa na Igreja veio a ser rejeitado no mundo Protestante. Agora "o próprio antitradicionalismo da Reforma se tornou uma tradição" [2].

Legalismo Protestante 

Um espírito sutil de legalismo prevalece em muitos círculos Protestantes em termos de comportamentos e crenças esperadas. Os próprios Protestantes têm ações específicas que consideram necessárias para que alguém seja salvo, tais como lamentar seus próprios pecados, aceitar Jesus Cristo como seu Salvador pessoal, convidá-Lo ao seu coração, dizer a oração do pecador, e assim por diante. Para alguns, é preciso dizer com sua boca que Jesus é o Senhor e crer em seu coração que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos (Rm 10,9). Estes passos específicos ou outros, tais como imposição de mãos ou batismo, devem ser seguidos para que uma pessoa seja reconhecida como "salva" ou "nascida de novo". Uma certa rigidez se aplica mesmo que os requisitos para cada grupo sejam diferentes.

A ênfase Protestante a respeito da palavra justificação também tem tons legalistas. A palavra grega que é tipicamente traduzida para o inglês como "justification" [justificação] é dikaiosyne, "righteousness" [retidão], que na verdade sugere virtude e conduta correta, incluindo práticas de piedade. A tradução da palavra como "justificação" promove e fortalece uma concepção legalista de nosso relacionamento com Deus e um conceito transacional de salvação.

O sacrifício de Cristo na cruz como expiação pelos pecados é a única explicação da salvação para muitos Protestantes. Cristo pagou o preço por nossos pecados, e nós somos justificados pelo sangue de Jesus; não há nada para nós contribuirmos. Esta explicação é atraente em sua simplicidade e possivelmente porque não exige nada do fiel a não ser o assentimento. Para além da estrutura artificial e legalista que esta compreensão do pecado cria para explicar nossa relação com Deus e a salvação, ela minimiza ou ignora os efeitos ou consequências continuadas do pecado.

Muitos Protestantes ainda se encontram lutando contra seus pecados pessoais. A única coisa que eles podem fazer é tentar ignorar o problema, dizer que isso não importa, já que Jesus os justificou, ou permanecer perplexos quanto ao motivo de estarem presos, repetindo os mesmos padrões e incapazes de superar suas fraquezas pessoais. Não existe nenhuma construção teológica para que eles reconheçam a diferença entre a morte redentora de Cristo por todos nós para todo o sempre e a necessidade de cada um de nós responder a esse dom com nossos próprios esforços e moldar-nos para "revestir-nos de Cristo" (Gal. 3:27). Sem a plenitude da graça de Deus através dos sacramentos para ajudá-los e confortá-los, como eles atualizam - tornam real - a vitória redentora de Cristo numa base pessoal e individual? O que eles realmente aspiram é uma profunda transformação espiritual, mas o que está disponível para eles é muitas vezes reduzido a uma mera resposta emocional a Cristo, que pode ser um tanto superficial e não completa, ou a um evangelho de pensamento positivo e prosperidade, que não reflete a realidade da vida diária ou a verdade de nossa condição humana.

Na realidade, não há um único phronema Protestante, já que uma infinidade de interpretações das escrituras resultou a partir da sola scriptura, levando a doutrinas, espiritualidades e opiniões morais divergentes, e infinitas variedades de phronema. Quando alguém discorda da opinião do pastor, é fácil mudar para outra denominação ou criar a sua própria congregação. O phronema Protestante das "Escrituras somente" e cada indivíduo como árbitro das Escrituras inevitavelmente leva à desunião e fragmentação. [3] 

O Phronema Católico Romano 

O phronema da Igreja Católica Romana é bastante interessante. Existe uma grande variedade de opiniões entre os teólogos Católicos em tópicos de teologia, moralidade, espiritualidade e metodologia. [4] Uma vez que as concepções Católicas Romanas estão sempre evoluindo e porque elas variam de extremamente liberais a muito conservadoras, é difícil compreender e articular o pensamento Católico de forma conclusiva. Por esta razão, estou confiando aqui principalmente em declarações encontradas em documentos oficiais do Vaticano, cânones Católicos, e no Catecismo Católico oficial. Vou me concentrar apenas em quatro aspectos do phronema Católico: Centralidade Romana, fé e razão, o desenvolvimento da doutrina e do legalismo.

O primeiro aspecto: Centralidade Romana

Para os Católicos, a unidade de fé é demonstrada por e através da união com Roma. O papa é o símbolo visível da união, "o vigário de Cristo" na terra.[5] A conformidade aos ensinamentos Católicos oficiais e aos decretos e decisões papais é frequentemente considerada a marca de um Católico devoto e é literalmente exigida em alguns documentos do Vaticano. A Igreja Católica também mantém um processo pelo qual os livros Católicos são aprovados para publicação através do Imprimatur, uma licença oficial para publicar livros Católicos. Até recentemente, todas as editoras Católicas eram obrigadas a receber o Imprimatur. No verso da página de título de um livro eram encontradas as palavras nihil obstat ("nada obsta"), indicando que o livro não continha nada contrário ao ensino ou à moral Católica.

Na prática e na opinião privada, muitos Católicos se desviam do ensino e da doutrina Católica oficial, mas eles geralmente reconhecem a autoridade suprema do pontífice Romano e do magistério.[7] A supremacia do papa e o mandamento que os fiéis Católicos submetem a sua autoridade absoluta são explícitos, fortes e inequívocos, embora muitos Católicos pareçam desconfortáveis com isso e tendam a minimizá-lo. Lumen Gentium, um documento do Concílio Vaticano II (o mais recente concílio que os Católicos reconhecem como um concílio ecumênico), afirma:

e os fiéis, por sua vez, devem submeter-se à decisão de seus bispos, feita em nome de Cristo, em questões de fé e moral, e a aderir a ela com assentimento religioso de seu espírito. Este assentimento religioso da vontade e do intelecto deve ser dado de maneira especial à autoridade do magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando ele não fala ex cathedra. Isto implica que seu magistério supremo seja aceito com reverência, e seja dado assentimento sincero às decisões tomadas por ele, de acordo com seu sentir e intenção manifestas.[8]

Muitos fiéis que discordam fortemente dos ensinamentos tradicionais, no entanto, se auto-identificam como Católicos. Isto é verdade também para os teólogos dissidentes, a maioria dos quais permanece dedicados a sua Igreja com esperança e expectativa de que podem influenciá-la, mudá-la e reformá-la. A Igreja Católica tem regras e definições de dissidência, inclusive quando alguém está "em dissidência", do que alguém pode discordar, sob que circunstâncias alguém pode discordar, e o estado de espírito específico exigido para que alguém seja permitido estar "em dissidência" [9]. 

A centralidade Romana e a adoção do pensamento e da prática Romana tem sido fortemente promovida pelo menos desde a época de Gregório o Grande (d. 604). Os teólogos Católicos se concentram em Roma e em suas declarações quando procuram definir, afirmar ou, inversamente, reformar ou disputar o ensino Católico. A Igreja Católica produz um catecismo oficial.10 Crenças e práticas doutrinárias específicas também são articuladas, expostas e expandidas através de inúmeros documentos emitidos por vários departamentos do Vaticano.

Documentos do Vaticano são citados e discutidos frequentemente por estudiosos e fiéis Católicos de forma semelhante à que os cristãos Ortodoxos citam os Padres da Igreja. Isto foi demonstrado em minha experiência pessoal em inúmeras ocasiões ao longo de décadas de interação com Católicos Romanos. Normalmente, quando os estudantes Católicos desejam pesquisar e relatar o ensino Católico sobre uma questão específica, eles se dirigem para "os documentos". Também entre os docentes nas discussões sobre o ensino Católico, ouço comentários que começam com: "Há um documento..."

Os cristãos Católicos também acreditam que as Escrituras e os Padres são autoridades importantes. No entanto, estas fontes são citadas em breves declarações ou trechos para apoiar o que está escrito nos documentos do Vaticano, nos cânones da igreja ou no catecismo oficial. Isto não quer dizer que os Católicos não leiam as Escrituras ou os Padres, mas a autoridade das fontes antigas é apresentada através de documentos do Vaticano, que sintetizam e interpretam as Escrituras e os Padres. Os documentos Romanos tornam-se então a lente através da qual as fontes antigas são compreendidas e aplicadas, ou, inversamente, o meio pelo qual uma posição é rejeitada se o teólogo Católico estiver contrariando o ensinamento Católico.

Embora os Católicos considerem a Igreja Romana como fundada sobre São Pedro, "a Rocha", um bastião inabalável, constante e confiável da verdade, na realidade, a Igreja Católica passou por mudanças significativas ao longo dos séculos, que continuam até os dias de hoje. Por que a Igreja Católica Romana experimenta mudanças dramáticas, uma tremenda desunião, e uma infinidade de opiniões teológicas? Por causa do segundo aspecto do phronema Católico: fé e razão.

O segundo aspecto: Fé e Razão

Se sola scriptura é a rocha de fundação do Cristianismo Protestante, "fé e razão" é o mantra e o princípio norteador da teologia Católica. A base para isto foi estabelecida por Santo Agostinho (+. 430), cujos escritos dominaram de tal forma a Igreja Latina que mudaram fundamentalmente o pensamento ocidental. Agostinho foi treinado e educado como filósofo e retórico. Mais tarde, como bispo da Igreja, ele tentou resolver questões teológicas através da aplicação da razão e da dedução lógica. Na falta de uma educação teológica formal, Agostinho baseou-se em seu treinamento filosófico. Ele acreditava que a verdade não poderia entrar em conflito com a razão porque Deus é a fonte de ambas. Portanto, ele concluiu que o raciocínio dedutivo pode ser utilizado a serviço da teologia.

Seus escritos muitas vezes demonstraram esta abordagem, pois ele colocava uma questão a qual ele então analisava e respondia cuidadosamente, ponto por ponto e possibilidade por possibilidade. Depois de chegar a uma conclusão racional, ele prosseguia para a pergunta seguinte, e assim por diante. Agostinho empregou as Escrituras e a Tradição da Igreja para suas respostas; entretanto, ele também se baseou na dedução lógica para muitas conclusões. Um estilo teológico baseado quase exclusivamente no raciocínio dedutivo não havia sido utilizado no Oriente.

Agostinho iniciou a trajetória que acabou resultando no cisma entre o Oriente e o Ocidente. Ele semeou as sementes de um phronema diferente, que ao longo dos séculos seguintes cresceu gradualmente no Ocidente, devido a sua imensa influência. Baseando-se em sua formação em filosofia, ele chegou a conclusões divergentes para algumas questões teológicas, muitas das quais já haviam sido resolvidas por importantes concílios da igreja e notáveis Padres gregos.

Agostinho tentou seguir a Tradição apostólica e muitas vezes conseguiu, mas também aplicou a lógica humana às questões teológicas. Ele introduziu algumas inovações teológicas que se generalizaram no Ocidente e contribuem até hoje para a separação entre as Igrejas Católica e Ortodoxa. Ainda que seus desvios possam ter parecido filosoficamente lógicos, linguisticamente pequenos ou justificados em sua razão ou propósito, eles tiveram consequências sérias e duradouras.

Devido a sua enorme produção literária em latim, Agostinho tornou-se a autoridade teológica por excelência no Ocidente. Sua escrita prolífica e sua influência duradoura foram inigualáveis ali. Como resultado, o próprio Agostinho tornou-se o padrão de ortodoxia para os latinos, resultando em uma nova Tradição Latina. Os cristãos latinos posteriores basearam-se fortemente em Agostinho, especialmente após o declínio do Império Romano Ocidental. Os numerosos Padres gregos não se desviaram da Tradição apostólica, mas foram lidos com muito menos frequência, se é que foram lidos no Ocidente. Com a mudança de orientação da Tradição apostólica como fonte da teologia para uma forte dependência da aplicação da razão, o phronema do Ocidente começou a divergir daquele do Oriente.

Durante a Idade Média, outro importante teólogo latino, Anselmo de Cantuária (+. 1109), descreveu a tarefa da teologia como "fé em busca de entendimento". Os escritos e a metodologia de Anselmo reforçaram a ênfase latina no uso da lógica e do raciocínio dedutivo na teologia.

O uso da razão pela Igreja Católica não deve ser mal entendido. A Igreja não acredita apenas no uso da razão. Extremos como racionalismo, biblicismo, fideísmo e tradicionalismo radical são expressamente rejeitados.[11] No entanto, os Católicos acham impossível teologizar sem raciocínio dedutivo - uma característica compartilhada por praticamente todos os cristãos ocidentais. Os Protestantes herdaram e subconscientemente aceitam a dependência do raciocínio dedutivo na teologia, uma vez que esse phronema havia se desenvolvido e permeado o cristianismo ocidental muito antes da Reforma.

A Igreja Católica continua a enfatizar e valorizar o raciocínio dedutivo na descoberta da verdade teológica, e afirma que se pode conhecer a Deus através da aplicação da mente. Os Católicos não acreditam que todos os mistérios possam ser compreendidos através da razão, e acreditam que tudo começa com a revelação de Deus à humanidade. No entanto, a ênfase generalizada é sobre a capacidade da razão humana de chegar ao conhecimento de Deus. O Catecismo da Igreja Católica afirma:

A Santa Igreja, nossa Mãe, atesta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas. [12] 

Os cristãos Ortodoxos concordariam que a criação revela a existência de Deus. Este é um conceito bíblico e pode ser visto em inúmeros versículos, tais como "Os céus declaram a glória de Deus" (Sl. 19:1 [NKJV]). São Paulo declarou que através da observação humana do mundo criado pode-se perceber que Deus existe (Rm 1,20). A revelação da existência de Deus começou com Sua ação e iniciativa e é inata em todos os seres humanos. Mas o phronema Católico vai muito além: afirma com confiança que verdades sobre Deus ou o conhecimento real de Deus podem ser alcançadas através da aplicação do raciocínio dedutivo humano. Portanto, como a razão é o meio pelo qual alguém pode conhecer Deus, se a pessoa não crê em Deus ou se ela tem uma crença incorreta, o que precisa de correção não é a alma, mas a faculdade da razão desse alguém. Se aplicarmos o raciocínio correto, chegaremos às crenças teológicas corretas. Por exemplo, o Código Católico de Direito Canônico afirma:
A lei de Deus confiada à Igreja é ensinada aos fiéis como o caminho da vida e da verdade. Os fiéis têm, portanto, o direito de serem instruídos sobre os preceitos salvíficos divinos que purificam o julgamento e, com graça, curam a razão humana ferida.[13]

A metodologia teológica iniciada por Agostinho e reforçada por Anselmo foi confirmada e cimentada permanentemente no cristianismo ocidental por Tomás de Aquino (+. 1274). Aquino valorizava as Escrituras e a Tradição apostólica e frequentemente se referia a elas. Mas, em sua época, o uso do raciocínio dedutivo na teologia estava firmemente estabelecido na Igreja Latina. Aquino se baseou na filosofia aristotélica e no raciocínio dedutivo, e ele se esforçou especialmente para provar que a razão não contradizia sua teologia.

Em forte contraste, São Gregório Palamas, Arcebispo de Tessalônica (1347- 1359), que prosperou pouco tempo depois de Aquino, considerou a filosofia pagã "excessivamente centrada na atividade do aspecto racional da mente (baseada principalmente no pensamento discursivo, silogismo, etc.)." [14] O uso fundacional da filosofia exige que as afirmações teológicas tenham uma justificação não-teológica. "Esta visão torna a teologia dependente da filosofia e considera a razão humana como o árbitro universal último".15 A teologia no Oriente é baseada não no pensamento discursivo, mas no "conhecimento que provém da visão de Deus".16 A abordagem ocidental é fundamentalmente intelectual; a oriental é fundamentalmente espiritual.  

Por volta da Idade Média, era evidente uma clara divisão no phronema. Conjugando razão à teologia, o desenvolvimento de silogismos lógicos e a abordagem de questões teológicas através de uma série progressiva de perguntas e respostas [17] caracterizou a teologia Católica da Idade Média.

O resultado foi uma marca massiva e permanente no phronema e no método teológico Católico. Hoje, os seminaristas Católicos recebem anos de treinamento em filosofia. A importância da filosofia como uma base indispensável para o estudo teológico foi enfatizada pelo Papa João Paulo II em sua encíclica Fé e Razão.18 A confiança na harmonia entre fé e razão levou ao terceiro aspecto do phronema Católico: o desenvolvimento da doutrina.


O terceiro aspecto:  Desenvolvimento da Doutrina

A estima de Roma pelo uso da razão contribui para o impulso Católico de delinear, definir e explicar quase tudo o que é teológico. De fato, isto é encorajado porque, embora a verdade divina "tenha sido declarada de uma vez por todas no mistério de Jesus", ela estava "imersa, portanto, no tempo e na história".[19] A Igreja Católica ensina que, com o passar do tempo, a verdade teológica pode ser melhor compreendida e expressa. A doutrina Católica se desenvolveu continuamente ao longo de diferentes períodos da história porque "à medida que os séculos se sucedem, a Igreja progride constantemente em direção à plenitude da verdade divina." [20]

Isto é bem diferente da concepção Ortodoxa, que é que a plenitude da revelação divina foi dada à Igreja uma vez, no Pentecostes.[21] A Igreja Ortodoxa aceita que podemos crescer em compreensão ou que a Igreja encontrou maneiras de articular a verdade com uma linguagem específica ao longo do tempo. Entretanto, a Ortodoxia sustenta que a Igreja possui a plenitude da verdade, não que ela esteja crescendo progressivamente em direção a uma maior compreensão da verdade. Por esta razão, a Ortodoxia rejeita o desenvolvimento de novas doutrinas ou a ideia de que a Igreja pode receber novas ou maiores revelações.

Desde a Idade Média até meados do século XX, manuais teológicos e livros didáticos Católicos apresentavam argumentos de forma sistemática e metódica. Provas eram apresentadas a partir da Bíblia, dos Padres, dos documentos da igreja e da dedução lógica. O raciocínio dedutivo como prova de que uma doutrina era verdadeira tornou-se popular na Idade Média. O raciocínio básico era o seguinte: "Deus (ou Cristo) poderia fazer algo; era adequado que ele o fizesse; portanto, ele o fez. Potuit, decuit, fecit." [22]

Os exemplos mais óbvios de uma inovação doutrinária na Igreja Católica que resultou diretamente desta lógica (Ele poderia, portanto deveria, portanto o fez) são certas doutrinas sobre Maria.[23] Como o Catolicismo se apropriou da concepção de Agostinho a respeito do pecado original como uma culpa herdada e uma mancha na alma, seus teólogos raciocinaram que Maria não deveria ter nascido com o pecado original porque ela seria a mãe de Cristo, o Filho de Deus encarnado. Deus poderia protegê-la do pecado original. Ele deveria fazer isso. Portanto, eles concluíram, Ele o fez. Esta ideia foi promovida e aceita ao longo do tempo até que, eventualmente, a Imaculada Conceição - o ensinamento de que Maria foi concebida sem pecado original e preservada sem pecado - foi declarado um dogma.[24] Os hierarcas e teólogos Católicos buscaram declarações patrísticas (que interpretaram mal ou tiraram do contexto) para justificar este novo dogma.

O dogma da Imaculada Conceição desenvolveu-se gradualmente, e evoluiu inteiramente por causa da dedução racional, não porque os Padres o imaginaram, ensinaram ou acreditaram nele. A doutrina foi promovida muito antes de ser oficialmente declarada como dogma.[25] A declaração dogmática da Imaculada Conceição é seguida pela próxima afirmação lógica: Se ela não teve nenhum pecado, mesmo o pecado original, Maria não deve ter morrido, já que a morte é a consequência do pecado. Muitos Católicos, incluindo importantes teólogos, insistem que Maria nunca morreu. [26]

No século XX, o Papa Pio XII declarou a Assunção Corporal de Maria como dogma, embora ele tenha evitado declarar explicitamente se ela tinha ou não morrido de fato. O papa observou especificamente, porém, que o impulso para declarar oficialmente a Assunção da Virgem Maria como dogma era uma progressão teológica resultante diretamente da proclamação da Imaculada Conceição. [27]

O desenvolvimento da doutrina foi defendido notoriamente pelo Cardeal John Newman no século XIX.[28] Ele afirmou que os apóstolos deixaram sementes de doutrina que naturalmente cresceriam e se desenvolveriam com o tempo. Newman descreve o trabalho dos Padres da Igreja quase que inteiramente como um processo de pensamento: "fixar suas mentes" em uma questão, "apreender" os conceitos, "ver" vários lados, "pesar" possibilidades. Os Padres podem até ser "deixados na ignorância" para serem seguidos por outra geração de "doutores" para completar o trabalho deles enquanto "o ansioso processo de pensamento continuava".[29] A ênfase de Newman era na operação da mente para chegar às verdades teológicas. Raramente ele mencionou a necessidade da oração ou de um relacionamento profundo com Deus como contribuindo para o discernimento teológico.

Um desenvolvimento significativo da doutrina tem ocorrido na Igreja Católica desde o tempo dos apóstolos, principalmente devido a um impulso para aplicar a razão humana à teologia na maior extensão possível. Esta metodologia foi expressa pelo Papa João Paulo II, que escreveu:

A Revelação, portanto, introduz em nossa história uma verdade universal e última que estimula a mente humana a um esforço incessante; de fato, ela impele a razão a ampliar continuamente o alcance de seu conhecimento até sentir que fez tudo ao seu alcance, não deixando nenhuma pedra por virar.[30]

O quarto aspecto: Legalismo 

A Igreja Católica opera de forma fortemente estruturada e se expressa com a linguagem jurídica. Os santos são canonizados após um longo e técnico processo jurídico. Os pronunciamentos Católicos enfatizam rotineiramente a regulamentação, a conformidade com a lei e a submissão a posições oficiais de uma forma que é bastante surpreendente para um cristão Ortodoxo. 

Uma mentalidade jurídica é estranha ao phronema Ortodoxo. Os Ortodoxos se referem a seus cânones como os "Cânones Sagrados", ao invés de "O Código de Direito Canônico", e os cânones Ortodoxos não são codificados, sistematizados, organizados, ou mesmo atualizados. Os cânones também não funcionam como lei na forma como os Católicos aplicam e interpretam sua lei canônica.

Pecado como dívida 

O legalismo na teologia Católica se reflete na concepção Católica Romana do pecado e de sua remoção. Isto também tem suas raízes no pensamento de Santo Agostinho, que concluiu que todos os seres humanos "não só herdam a mortalidade e a inclinação para o pecado" de Adão, "mas são culpados e legalmente responsáveis perante Deus pelo pecado de Adão. Esta doutrina afeta profundamente a perspectiva de como alguém é salvo e do que ele é salvo".[31]

Agostinho fez uma distinção entre a inclinação ao pecado após a queda (a concepção oriental) e uma responsabilidade jurídica herdada de "culpa" perante Deus pelo pecado de Adão.[32] Como o Protestantismo surgiu a partir da Igreja Católica, os Protestantes compartilham a concepção Católica do pecado. Como o cristianismo ocidental enfatiza que Cristo pagou a "dívida" devida ao Pai, não surpreende que muitos Protestantes rejeitem qualquer necessidade da Igreja ou de uma vida sacramental. "A teologia da expiação efetivamente faz da Igreja Católica Romana o meio de justificação jurídico que declara 'inocente' através dos sacramentos, ao invés de um processo que restaura a bondade inata do homem" [33].

Da Reforma em diante, Protestantes e Católicos compartilharam não apenas um phronema comum, mas um conjunto comum de perguntas. Ambos o "Romano e o Reformado se contentaram em discutir sobre os mesmos problemas - nenhum dos lados questionou a agenda. Ambos compartilhavam os pressupostos da teologia ocidental" [34]. O Oriente, por outro lado, nunca experimentou "a pergunta e resposta" da Reforma e Contra-Reforma, a "tensão das autoridades rivais" e "teologias conflitantes da graça e dos sacramentos" [35]. O problema da culpa era central e um ponto de partida enraizado no Ocidente, enquanto que para o Oriente, o ponto focal não era o pecado humano, mas o destino humano: tornar-se semelhante a Deus. [36]

A diferença também pode ser o resultado de abordar a questão da salvação de uma perspectiva negativa ou positiva. Quando abordada negativamente, a salvação tem sido chamada de "redenção e justificação", mas a "dimensão positiva é a da santificação ou deificação." [37] Os Ortodoxos pensam no pecado não como uma ofensa contra Deus que exige punição ou restituição, mas principalmente como uma doença que precisa ser curada. A teologia Católica recente tentou recuperar esta visão, e hoje os Católicos às vezes descrevem o pecado como "doença", mas a teologia Católica e a piedade preservam fortemente e perpetuam uma compreensão mais legalista do pecado.

A doutrina do purgatório é uma combinação do legalismo Católico Romano e do desenvolvimento da doutrina. O Vaticano continua periodicamente a oferecer indulgências, [38] uma prática que é possibilitada pelos conceitos Católicos Romanos do pecado e do purgatório. De acordo com os ensinamentos Católicos, a culpa do pecado pode ser perdoada, mas não a punição [pena] que o pecado exige. Esta visão é claramente afirmada em um documento do Vaticano, a "Constituição Apostólica" Indulgentiarum Doctrina

É uma verdade revelada divinamente que os pecados provocam punições infligidas pela santidade e justiça de Deus. Estes devem ser expiados ou nesta terra através das dores, misérias e calamidades desta vida e acima de tudo através da morte, ou então na vida além, através do fogo e tormentos ou punições "purificadoras". . . . Estas punições [penas] são impostas pelo justo e misericordioso julgamento de Deus para a purificação das almas, a defesa da santidade da ordem moral e a restauração da glória de Deus a sua plena majestade. . . . Que a punição ou os vestígios do pecado podem permanecer para serem expiados ou purificados e que, de fato, frequentemente permanecem mesmo após a remissão da culpa é claramente demonstrado pela doutrina do purgatório. . . . Pois todos os homens que caminham diariamente nesta terra cometem pelo menos pecados veniais; assim todos precisam da misericórdia de Deus para serem libertados das consequências penais do pecado.[39]

O ensino Católico é claro: o pecado perturba "a santidade da ordem moral" e exige "a restauração da glória de Deus a sua plena majestade". Portanto, é preciso que se pague a pena consequente para que a ordem e majestade de Deus possa ser restaurada. A culpa do pecado pode ser perdoada; entretanto, a pena (a "consequência penal") permanece. Uma purificação posterior também é necessária após a morte por meio do purgatório.

Isto é um tremendo afastamento em relação à compreensão do pecado na Igreja primitiva, e até hoje no cristianismo Ortodoxo, que mantém que o pecado distorce a relação entre a pessoa humana e Deus e entre os seres humanos. É impossível para nós imaginarmos que qualquer ação humana, por mais hedionda que seja, possa depreciar ou diminuir a glória ou majestade de Deus. Além disso, o perdão sacramental na Igreja Ortodoxa é sempre completo e imediato. O relacionamento com Deus é completamente restabelecido, não restando nenhuma penalidade a ser paga.

Assim, é evidente que o abismo entre os Ortodoxos e o Cristianismo Ocidental na questão crucial do pecado e do perdão é enorme. 

Mérito 

Outro corolário do legalismo refletido na espiritualidade Católica é o conceito de mérito e de receber o benefício dos méritos - as boas obras, se preferir - dos santos, de Maria, ou de Cristo. Os méritos de Cristo e dos santos contribuem para satisfazer a dívida (pena) exigida ao pecador.[40] Basicamente, Cristo e os santos têm uma recompensa devida a eles por Deus, e nós podemos aproveitar das realizações deles para receber um benefício. 

Esta mentalidade é totalmente ausente entre os Ortodoxos, que consideram os santos apenas exemplares e intercessores. O termo mérito nunca é usado, e a Ortodoxia não tem o conceito de um tesouro de benefícios acumulados por uma pessoa que pode ser compartilhado com outra. Cada pessoa será julgada, e cada um ficará de pé ou cairá, apenas com base em sua vida. Nós recebemos graça de Deus, mas graça não é mérito, um termo que implica uma visão fortemente legalista e transacional do relacionamento entre Deus e os humanos, entre o pecado e a salvação.

Eu tinha quinze anos de idade quando minha família se mudou para San Diego nos anos 70. Meus pais me matricularam em um colégio Católico. Eu nunca havia convivido com Católicos, e toda essa experiência trouxe algo novo e intrigante quase todos os dias. Em muitos aspectos era uma escola secundária típica, mas em outros aspectos, era um mundo diferente. Eu nunca tinha conhecido uma freira, nunca tinha ido à Missa, e muitas vezes me surpreendia com declarações e comportamentos comuns, dentro e fora da sala de aula.

Uma vez peguei uma revista emprestada da biblioteca da escola. A capa da revista estava mal fixada, sendo segurada por apenas um grampo no centro da lombada. Enquanto estava em minha posse, ela se soltou ainda mais, e a capa ficou completamente separada da revista em si. A bibliotecária da escola era uma freira idosa que ainda usava o hábito negro completo. Quando devolvi a revista, mostrei a ela que a capa ainda estava com a revista, mas que não estava mais presa a ela. "Sinto muito, Irmã", eu disse. "A capa caiu".

A freira bibliotecária respondeu: "Reze dez Ave Marias e um Pai Nosso". Afastei-me perplexa. Eu não tinha ideia do que ela estava falando. Eu sabia o que eram a "Ave Maria" e o "Pai Nosso", mas o que isso tinha a ver com a revista? A ideia por trás da reação dela era tão estranha para mim que vários dias se passaram antes que eu percebesse que ela estava me dando uma "penitência".

Muitos conceitos que são básicos, fundamentais e fundacionais na mentalidade Católica estão totalmente ausentes na Ortodoxia. Os termos satisfação, mérito e expiação se encaixam em uma concepção da salvação que é fortemente jurídica. Na Igreja Católica de hoje, estas ideias parecem muitas vezes demasiado legalistas até mesmo para os Católicos. Mas este conceito de pecado tem uma história de mil anos no cristianismo ocidental. Está profundamente enraizado também no cristianismo Protestante, como visto na ênfase em Cristo "pagando o preço" pelo pecado, os fiéis sendo "lavados pelo sangue" de Cristo, a ideia de que o pecado cria uma penalidade que deve ser paga, e assim por diante.

Evidentemente, os cristãos Ortodoxos creem que Jesus Cristo morreu por nossos pecados, que Sua morte foi redentora. Mas esta não é a única maneira que as Escrituras explicam a morte de Cristo, e não é o que a Igreja primitiva enfatizava sobre isto. Cristo veio pela vida do mundo (João 3:16), não para pagar um preço exigido pelo Pai, não porque de alguma forma a majestade de Deus foi violada, e certamente não porque ocorreu um desequilíbrio no universo que só poderia ser corrigido pelo pagamento em sangue através da morte do Filho. Essas são distorções e exageros enraizados no pensamento medieval. Cristo Se sacrificou por amor, não por necessidade. Se algo é compreendido na Ortodoxia pelo "sangue", é a união do fiel com Cristo, compartilhando Sua vida através do Corpo e do Sangue.

A Igreja primitiva enfatizou repetidamente a Encarnação do Filho como muito mais consequencial do que a Crucificação. A Encarnação foi a união do humano e do divino em Cristo. Através desta união dentro de Sua Pessoa, Jesus Cristo santificou a natureza humana e tornou possível para nós, mais uma vez, estarmos unidos a Deus. Após a cruz veio a Ressurreição, e as portas do paraíso foram abertas novamente para nós. A cruz nunca está separada da Ressurreição.

A concepção cristã ocidental do pecado como uma ofensa contra Deus que O diminui de alguma forma, ou como uma violação que deve ser paga pelo sangue de Cristo, pelos méritos de Cristo e dos santos, ou pelo sofrimento durante esta vida ou após a morte no purgatório é totalmente estranha à Igreja Ortodoxa e ao seu phronema.



O Phronema Ortodoxo

O cristianismo existe em milhares de variedades no mundo, mas são os Ortodoxos que preservaram a antiga fé, práticas, ensinamentos e tradições da Igreja primitiva deliberada e continuamente desde o tempo dos apóstolos. Outros cristãos têm elementos da Igreja primitiva. Muitos têm tentado incorporar o que eles percebem como fé e prática cristã primitiva. Mas a Igreja Ortodoxa é historicamente e comprovadamente a mais próxima da Igreja primitiva em fé e prática, devido à nossa continuidade histórica direta com a Igreja antiga e nossa adesão inflexível a suas crenças e modo de vida. Este empenhamento intencional em preservar a Tradição, não acrescentando nem retirando dela, é o que cria a unidade de fé presente no cristianismo Ortodoxo.

A qualidade atemporal do cristianismo Ortodoxo 

Explicando como os cristãos Ortodoxos pensam sobre o passado, um estudioso observou que

o passado flui constantemente para o futuro e, ao fazer isso, vive no presente. O passado não está ordenadamente compartimentado e desprendido, como um objeto de estudo desinteressado. Isto não é negar a possibilidade dos cristãos Ortodoxos se engajarem profissionalmente e seriamente no estudo histórico, mesmo no estudo histórico da Ortodoxia. Ao contrário, é fazer uma reivindicação sobre o processo de apropriação contínua do passado que anima a teologia Ortodoxa.

Duas características tornam possível a unidade de fé Ortodoxa, ambas relacionadas à nossa dedicação à Tradição: (1) possuímos o phronema unicamente Ortodoxo, e (2) reconhecemos a presença - ou ausência - desse phronema em outros. Aqueles que têm um phronema Ortodoxo rejeitam o comportamento, escritos, declarações e ideias de leigos, clero e teólogos que manifestamente não têm uma mentalidade ou espírito Ortodoxo - mesmo que tais pessoas tenham o nome "Ortodoxo". Sem um phronema Ortodoxo, ninguém pode verdadeiramente expressar o cristianismo Ortodoxo. Uma mente teológica Ortodoxa forte e unificada, praticando ativamente a fé, protege, promove e apoia a unidade da fé. Não é automático. Não acontece por si só, nem porque alguém é membro da Igreja Ortodoxa, nem porque alguém concorda intelectualmente com os princípios do cristianismo Ortodoxo.

Olhando para a forma exterior da Igreja Ortodoxa, o Ocidente pode se surpreender com a afirmação da unidade. O Ocidente frequentemente se refere às Igrejas Ortodoxas, e não à Igreja Ortodoxa, mas nós somos uma só Igreja. Em termos de governança, a Ortodoxia inclui muitas jurisdições. A Igreja consiste em um número de igrejas que se autogovernam (autocéfalas) em todo o mundo, e às vezes estas disputam entre si. Mas em termos de fé, existe apenas uma Igreja, e a unidade da fé entre os Ortodoxos é bastante forte. Os cristãos Protestantes não têm unidade; os Católicos têm unidade organizacional através da fidelidade a Roma. Mas os Ortodoxos estão unidos por uma fé, uma prática e um phronema comuns e não por uma autoridade centralizada.

Adquirir um phronema Ortodoxo é um tremendo desafio para os convertidos. Aqueles que nascem na fé e estão impregnados de Ortodoxia desde o início de suas vidas normalmente não enfrentam o desafio de desaprender paradigmas teológicos ocidentais, explicações, padrões de pensamento e pressupostos. Entretanto, as atitudes entre os cristãos Ortodoxos que vivem no Ocidente são cada vez mais influenciadas e moldadas por nossa cultura e educação secular, a tal ponto que muitos clérigos, fiéis e teólogos Ortodoxos de berço são hoje influenciados pelo phronema ocidental, muitas vezes sem perceberem. Seus comentários, preocupações e conclusões revelam facilmente a ausência de um phronema Ortodoxo.

Não é surpreendente que os cristãos Ortodoxos venham a assumir aspectos do phronema da cultura ocidental, e isto não é necessariamente negativo. Podemos ter o phronema de um australiano inquisitivo, de um americano patriótico ou de um canadense aventureiro. Mas devemos sempre analisar e avaliar cuidadosamente se adotamos valores que conflitam com nossa fé Ortodoxa.

Ausência de centralidade, definições e documentos 

Explicar a Ortodoxia é um desafio devido à sua organização descentralizada e à ausência de documentos oficiais e declarações teológicas. A mentalidade cristã ocidental é frequentemente desconfortável com o phronema Ortodoxo, uma vez que anseia por clareza, certeza, racionalidade e definições. A abordagem Ortodoxa parece imprecisa e impossível de ser compreendida.

Os teólogos Ortodoxos não têm um corpo de declarações oficiais - semelhantes a documentos do Vaticano ou declarações confessionais Protestantes - que definam a Fé Ortodoxa. Não temos um catecismo oficial (ou mesmo não-oficial). Não existe outra fonte teológica ou filtro para interpretar os Padres ou as Escrituras para além do phronema de cada um. Não existe papado ou magistério para fazer pronunciamentos de autoridade. Nenhuma estrutura eclesiástica ou restrição externa direciona o teólogo Ortodoxo para conclusões teológicas Ortodoxas aceitáveis. Nada como um imprimatur existe para aprovar seus escritos ou reconhecer oficialmente que um livro apresenta ensinamentos Ortodoxos aceitáveis. A Igreja Ortodoxa não emite documentos ou cânones que exijam que alguém se submeta em vontade e intelecto aos ensinamentos da Igreja ou aos bispos.

A Unidade Ortodoxa da Fé

Pareceria que sem tais processos em vigor, os Ortodoxos não estariam teologicamente unificados. Mas na realidade, os cristãos Ortodoxos têm uma unidade teológica muito mais forte do que os Católicos. Para os cristãos Católicos, a unidade Ortodoxa é incompreensível e parece impossível.[2] Eles assumem que a Ortodoxia é caótica. Como os Ortodoxos podem manter uma visível desunião jurisdicional e ainda assim insistir que eles são uma só Fé e uma só Igreja? Sem a autoridade direta de uma fonte e um chefe tomando decisões finais, como os Ortodoxos sabem no que crer? Quem está no comando? Como são tomadas as decisões? Como é mantida a disciplina? Mas tudo isso é alcançado e compreendido de forma inata pelos cristãos Ortodoxos através de nosso phronema, que é algo que os Católicos não compreendem porque nunca o experimentaram.

Evitando definições 

O esforço no Ocidente para entender a Ortodoxia, e a compulsão para criar categorias ocidentais para explicar a Ortodoxia, é visto na tendência recorrente entre alguns cristãos ocidentais de apontar os chamados "livros simbólicos" da Igreja Oriental, em particular a Confissão Ortodoxa do Metropolita de Kiev Pedro Mogila, bem como as declarações do Patriarca Dositeu e os Decretos do Concílio de Jerusalém em 1672. Estas declarações atraem os cristãos ocidentais porque eles empregam categorias ocidentais e são fortemente influenciadas pelo pensamento cristão ocidental.

Enquanto procuram algo reconhecível para explicar a Ortodoxia, é difícil para os não-Ortodoxos crer que estas "confissões" não têm praticamente nenhuma autoridade no cristianismo Ortodoxo. A maioria dos cristãos Ortodoxos nunca ouviu falar delas; os teólogos Ortodoxos as ignoram e nunca as citam como autoridade.[3] Estas afirmações são quase anormalidades e aberrações na história Ortodoxa. Elas não são autoritativas na Ortodoxia, e sua apresentação da fé Ortodoxa é não natural, não apenas em termos de como elas expressam conceitos, mas em termos do que elas deixam de afirmar. O cristianismo Ortodoxo nunca pode se comunicar com o Ocidente usando conceitos, categorias e pressuposições ocidentais. E no entanto, o Ocidente não pode compreender a Ortodoxia sem colocar as crenças Ortodoxas dentro desses parâmetros.

Um cristão ocidental pode acreditar que compreende o conteúdo da doutrina Ortodoxa, mas sem nosso phronema não se pode verdadeiramente compreender a Ortodoxia. Como mostrado no capítulo anterior, mesmo conceitos básicos como pecado e salvação são entendidos de forma diferente na Ortodoxia do que no Ocidente. Comparar afirmações de crença ou mesmo ler livros teológicos Ortodoxos resulta em uma percepção pouco profunda do cristianismo Ortodoxo.

Ocasionalmente me é feita uma pergunta que começa com "Qual é o ensinamento oficial da Igreja Ortodoxa sobre . . . ?” A menos que a resposta possa ser apresentada a partir dos Concílios Ecumênicos ou do Credo Niceno, uma resposta é quase impossível, porque a própria pergunta pressupõe uma estrutura eclesiástica e um modo de pensar ocidentais. Uma pergunta sobre a Ortodoxia "oficial" não reflete nosso phronema- nem a maneira como pensamos, teologizamos, nem operamos como Igreja.

O Credo Niceno é definitivamente uma declaração de fé oficial. Mas a Igreja Ortodoxa não tem quase nenhuma declaração teológica oficial que não seja o Credo Niceno,[4] os cânones (que são antigos e às vezes contraditórios), e as decisões dos sete concílios ecumênicos. Mesmo quando os concílios contemporâneos de bispos emitem declarações ou tomam decisões, estas não funcionam como declarações oficiais como o termo é entendido ou aplicado no Ocidente, uma vez que não são um mandato e não se aplicam a toda a Igreja Ortodoxa. Por outro lado, e para complicar ainda mais a questão, o fato de um ensino ou prática não ser formalmente expresso em cânones ou decisões conciliares não significa que não seja universalmente reconhecido e aceito entre os cristãos Ortodoxos.[5]

Uso Consistente de Fontes Antigas 

Para analisar ou discutir uma questão teológica, um teólogo Ortodoxo se dirigirá primeiro à autoridade de fontes antigas: escriturísticas, patrísticas e canônicas. Os estudiosos cristãos Ortodoxos citam consistentemente escritos antigos.6 A diferença no phronema entre Ortodoxia e o cristianismo ocidental é bem óbvia nesta área. Os Católicos são orientados aos documentos do Vaticano, mas os Ortodoxos não têm documentos ou declarações contemporâneas que funcionem da mesma forma que os documentos do Vaticano funcionam para os Católicos. Nem os Ortodoxos se limitam, como fazem os Protestantes, somente à Bíblia e como ela tem sido interpretada através das lentes da Reforma ou de acordo com opinião privada.

A Igreja Ortodoxa não oferece definições e explicações exatas para os mistérios teológicos. A Igreja Ortodoxa sempre preferiu a teologia apofática, isto é, expressar o que Deus não é, uma vez que Deus está além de qualquer descrição.[7] Os teólogos Ortodoxos sabem sobre o que podem falar ou escrever e o que não devem. Eles citam constantemente as Sagradas Escrituras, os escritos dos Padres da Igreja, os cânones sagrados,[8] e as decisões dos Concílios Ecumênicos. Todos estes são aspectos importantes da Tradição e, como tal, carregam autoridade. Isto, por si só, cria nosso phronema. Como a Ortodoxia não gera rotineiramente definições e afirmações oficiais e contemporâneas de autoridade, os teólogos Ortodoxos recorrem repetidamente às fontes antigas.

Jaroslav Pelikan observou o surpreendente contraste entre a atitude dos gregos em relação às suas atividades comuns, mesmo arriscadas, e sua abordagem teológica. "Ousadia ao ponto de precipitação" foi a atitude que "os bizantinos manifestaram como marinheiros e guerreiros quando se aventuraram no desconhecido". E ainda assim, eles mostraram um tremendo comedimento em assuntos de teologia, revelando uma "atitude de cautela até o ponto de timidez em relação a cruzar os limites da antiga tradição religiosa, seja ela litúrgica ou dogmática" [9].

A atemporalidade da Tradição contribui para a unidade teológica Ortodoxa porque as fontes são as mesmas para todos os teólogos Ortodoxos em todo o mundo, de todas as gerações, repetidas vezes, agora e no passado. Independentemente de nossa era ou cultura, o que lemos, discutimos, citamos e ponderamos é o mesmo que as gerações anteriores de Ortodoxos leram, discutiram, citaram e ponderaram.

Mesmo quando luminares mais recentes são reconhecidos como Padres da Igreja, como São João de Kronstadt (+. 1909), eles são lidos, citados e reconhecidos como Padres porque refletiram fielmente o pensamento dos Padres anteriores e não se desviaram da Tradição. Quando os escritos dos teólogos Ortodoxos modernos são lidos e citados, não é porque eles estão oferecendo algo inteiramente novo, inovador, ou novidade. Ao contrário, é porque seus comentários expressam com precisão a Tradição Ortodoxa de uma forma que fala à geração atual. Portanto, o phronema Ortodoxo é continuamente fortalecido e restabelecido, e esse phronema é antigo, oriental e apostólico.

A Igreja Católica cria novos documentos e atualiza periodicamente seu Catecismo Oficial e seu Código de Direito Canônico. Novas teologias e denominações Protestantes estão constantemente surgindo. Mas a prática Ortodoxa de recorrer principalmente às Escrituras e aos Padres dá automaticamente ao teólogo Ortodoxo uma orientação consistente em direção à Igreja primitiva. Esta perspectiva não é mediada por uma lente que muda com o tempo ou a cultura, pela aplicação de alguém de sua lógica pessoal, pelas tentativas de se conformar à modernidade, pela devoção a um lugar específico (por exemplo, Roma), ou pela fidelidade a uma pessoa ou personalidade específica (por exemplo, o Papa, João Calvino, Martinho Lutero, Inácio de Loyola, João Wesley, Francisco de Assis, et al.). Ler constantemente as mesmas Escrituras e os mesmos Padres, orar da mesma maneira e participar da mesma Liturgia, sacramentos e festas, ao longo de centenas e centenas de anos, dá forma ao phronema Ortodoxo e cria uma mentalidade, orientação e abordagem consistentes.

Santidade da mente em vez de raciocínio dedutivo

O cristianismo Ortodoxo não usa o raciocínio dedutivo para defender ou explicar a fé, nem tenta resolver conflitos entre fé e razão. Não modifica a fé para se conformar ao pensamento ou opiniões humanas. Isto não deve ser entendido erroneamente: A Ortodoxia não rejeita a contribuição do intelecto humano, nem rejeita a ciência ou a educação. Os Padres da Igreja também foram racionais em seus argumentos contra a heresia, mas não se basearam em raciocínios dedutivos para resolver questões teológicas. Eles falaram da importância do intelecto humano para a compreensão de Deus. Na realidade, é o intelecto, ou nous,[10] que é iluminado e pode articular verdades teológicas, mas não através do raciocínio dedutivo e do estudo acadêmico. Ao contrário, é através da oração e do relacionamento com Deus que o intelecto alcança a verdadeira iluminação.

A santidade da mente não é contrária à aplicação da razão, que em si mesma foi dada por Deus. A razão é parte da imagem de Deus dentro de nós; é aquilo que distingue a pessoa humana dos animais. De fato, a Igreja Ortodoxa muitas vezes se refere à pessoa humana como "dotada da razão" porque Deus nos deu a capacidade de raciocinar. A razão pode "ajudar a colocar em palavras a experiência espiritual de proximidade com o divino. Nesse sentido, a 'razão' e a 'santidade' da mente não são realidades opostas quando a razão é a capacidade de colocar em palavras a experiência espiritual" [11].

A capacidade humana de raciocínio deve ser distinguida da aplicação do raciocínio dedutivo como um método teológico. O raciocínio humano é parte da ordem criada, que nunca pode apreender a natureza incriada de Deus, pois Ele é radicalmente dissimilar e não faz parte da ordem criada.

Uma vez que o pensamento dialético requer premissas iniciais seguidas pela aplicação do raciocínio humano dedutivo, os resultados alcançados e as conclusões teológicas alcançadas variarão, dependendo da premissa inicial. A consequência direta deste método no Ocidente é uma variedade muito maior de opiniões teológicas, ao passo que ao evitar o raciocínio dedutivo, contribuiu para a unidade teológica Ortodoxa. Embora não seja mais aplicado de maneira extremamente formal, o raciocínio dedutivo permanece operativo na teologia cristã ocidental, e os argumentos baseados nesta metodologia são bastante marcantes e estranhos a uma mente cristã oriental.

A filosofia é fundacional e insubstituível na teologia Católica, mas não se espera que os seminaristas Ortodoxos conheçam a filosofia como um requisito para os estudos teológicos. Embora os Padres gregos fossem educados em filosofia e usassem terminologia filosófica para articular a doutrina da igreja, ao contrário de Agostinho, eles nunca se sentiram obrigados a usar lógica ou raciocínio dedutivo para defender ou provar verdades teológicas. Eles alcançaram um bom equilíbrio adaptando a filosofia para seu uso, sem rejeitar totalmente a filosofia ou valorizá-la em demasia.[12]

Com o tempo, a pregação dos apóstolos foi articulada e definida como dogma pelos Padres da Igreja, mas quando eles expressaram a mensagem apostólica, os próprios Padres "teologizaram à maneira dos pescadores, não de Aristóteles", escreveu Gregório o Teólogo.[13] Eles não fizeram perguntas sistematicamente e depois as responderam metodicamente com dedução racional para chegar a uma opinião ou conclusão teológica. São Paulo observou que o evangelho não se conforma com o raciocínio humano quando ele lembrou aos Coríntios que ele pregava um Messias crucificado (1 Cor. 1:23-24). Seu extenso discurso sobre a fraqueza da sabedoria humana e o conflito inerente entre o raciocínio humano e o evangelho continua a ser aceito pelo phronema Ortodoxo.

Ascensão da mente

A teologia Ortodoxa é intelectualmente desafiadora e satisfatória, não em complexidades de pensamento e categorias nem em sofisticação de expressão, mas por causa da profundidade do mistério a ser sondado. O estudo da teologia Ortodoxa é uma experiência profundamente espiritual, tanto quanto intelectual. A teologia Ortodoxa é patrística e, apesar de sua instrução avançada, os Padres da Igreja rejeitaram qualquer indício de "elitismo epistemológico" [14].

As palavras usadas pelos Padres para um maior conhecimento de Deus são sempre palavras de ascensão, anabasis, um movimento ascendente de compreensão gradual baseado na maturidade espiritual. O discernimento teológico resulta primariamente do relacionamento que se tem com Deus, o qual, ao contrário do aprendizado através de livros, é aberto a todos - clero e leigos, monásticos e aqueles que vivem no mundo, homens e mulheres, os mais instruídos e os não instruídos. Isto não significa, entretanto, que a teologia Ortodoxa seja anti-intelectual, apenas que as metodologias típicas utilizadas pelas ciências ou ciências sociais, que foram adotadas por muitos teólogos cristãos modernos, não podem fornecer discernimento ou verdade objetiva sobre Deus. Deus pode ser conhecido através de Sua criação, mas Ele não pode ser compreendido ou analisado como se Ele fosse parte da ordem criada, porque Ele é incriado e está além da compreensão humana.

Christos Yannaras observa que a metodologia analítica do Ocidente se baseia na "reivindicação do homem através do esforço intelectual para assegurar o domínio sobre todo o reino da verdade acessível, e na sua tendência de definir e distinguir as fronteiras entre as capacidades do homem e a realidade transcendente de Deus "[15]. Portanto, a metodologia teológica cristã ocidental é fundamentalmente antropocêntrica, "a disposição do homem para dominar qual verdade é acessível a ele e para dominá-la enquanto indivíduo". É estabelecida uma fronteira entre a natureza divina e a humana. A consequência disto é negligenciar "a possibilidade de participação pessoal - e não apenas o 'esclarecimento' lógico - na verdade divina a respeito de Deus". A diferença é enorme.

Yannaras prossegue dizendo que na tradição escolástica ocidental a pessoa humana "não participa pessoalmente na verdade do cosmos" ou busca "trazer à tona o sentido, o logos das coisas, a desvelação da atividade pessoal de Deus".[16] Deus permanece à distância, mas como São Máximos o Confessor observou em uma profunda afirmação sobre a divergência entre o pensamento humano e a natureza de Deus, Deus não é nem um "sujeito" nem um "objeto" a ser "estudado".

Todo conceito envolve aqueles que pensam e o que é pensado, sujeito e objeto. Mas Deus não é nem daqueles que pensam nem do que é pensado, pois Ele está além deles. Caso contrário, ele estaria limitado se, como um pensador, precisasse da relação com o que é pensado ou, como um objeto de pensamento, ele naturalmente cairia no nível do sujeito que pensa através de um relacionamento. Assim, resta apenas a resposta de que Deus não pode nem conceber nem ser concebido, mas está além da concepção e ser concebido. Conceber e ser concebido pertencem por natureza àquelas coisas que são secundárias a Ele.[17]

O metropolita Hierotheos Vlachos também assinalou a diferença no processo e perspectiva entre o escolasticismo latino e a abordagem patrística. Ele concluiu que a ênfase no raciocínio humano levou ao colapso da teologia cristã ocidental. 

Os escolásticos primeiro reconheciam Deus e depois, por argumentos racionais e categorias lógicas, tentavam provar a existência de Deus. Na Igreja Ortodoxa, como foi expresso pelos Santos Padres, dizemos que a fé é a revelação de Deus ao homem. Aceitamos a fé dos santos como a ouvimos, não para entendê-la depois, mas para que nossos corações sejam purificados e possamos chegar à fé que vem da theoria e experimentar a revelação. A teologia escolástica, entretanto, aceitou algo primeiro, depois se esforçou para entendê-lo através de argumentos lógicos. . . . O escolasticismo vinculou a teologia com a filosofia e especialmente com a metafísica. Isto resultou, por um lado, em uma distorção da fé, e por outro lado no escolasticismo caindo em completo descrédito, quando a imagem de mundo da metafísica que prevalecia no Ocidente entrou em colapso.[18]

Raciocínio Humano e Diálogo Teológico com o Ocidente

Os cristãos ocidentais nunca entenderam o phronema Ortodoxo, especialmente a insistência Ortodoxa em preservar a Tradição em vez de depender do raciocínio humano dedutivo. Isto resultou em significativa frustração para os cristãos ocidentais nas discussões teológicas com o Oriente. Um teólogo Católico do século XIII, Humberto de Romanos, disse sobre os gregos: 

Eles não entendem o que lhes é dito com razões, mas sempre aderem a alguns concílios ou outros, e ao que lhes foi transmitido por seus antecessores, como alguns hereges individuais, para os quais a razão não tem qualquer utilidade.[19] 

Dois séculos depois, as diferenças fundamentais no phronema seriam novamente um obstáculo à união entre o Ocidente e o Oriente no Concílio de Florença, em 1439. Os Católicos apresentaram argumentos racionais para suas posições, e os Ortodoxos responderam citando a Tradição apostólica.

Era "a convicção constante dos latinos que eles sempre venceram a disputa, e dos gregos que nenhum argumento latino jamais tocou o coração do problema".[20] Ainda hoje, quando os cristãos Ortodoxos rejeitam as crenças cristãs ocidentais, é porque elas violam a Tradição apostólica, e não porque esses ensinamentos são irracionais por algum padrão Ortodoxo de razão. Mas como o cristianismo ocidental considera sua própria teologia inquestionavelmente racional, e presume que a fé deve se conformar à razão humana, muitas vezes a única explicação que eles podem imaginar para a rejeição Ortodoxa das doutrinas cristãs ocidentais é que os Ortodoxos são simplesmente teimosos e obstinados.

Preservação da Fé e não o Desenvolvimento da Doutrina

A ideia de que um teólogo pode chegar a verdades mais profundas ou a novas verdades é rejeitada na Ortodoxia. A partir de uma perspectiva Ortodoxa, o desenvolvimento da doutrina é um abandono completo da Tradição apostólica, porque sugere que o que se crê, ensina e transmite hoje difere do que foi ensinado e crido anteriormente. A Ortodoxia mantém que a plenitude da Fé foi revelada à Igreja no Pentecostes, de uma vez por todas. Os Padres gregos utilizaram sua educação a serviço da Igreja para explicar a doutrina, não para encontrar novas verdades, pois a plenitude da verdade foi recebida no Pentecostes.

Os apóstolos tinham pleno conhecimento de todas as verdades e doutrinas. Estas doutrinas eram conhecidas pela Igreja desde o início. Um certo período de tempo foi necessário para encontrar a terminologia correta e para articular especificamente conceitos difíceis, tais como a Trindade. Explicações, definições e articulações doutrinárias não seriam consideradas um desenvolvimento. As definições teológicas foram declaradas apenas com relutância pela Igreja, apenas se absolutamente necessárias, e apenas na medida do necessário para se opor a heresias específicas. Os Ortodoxos se opõem à promulgação de doutrinas inteiramente novas sobre as quais os Padres não se pronunciaram, como o purgatório, a Imaculada Conceição e a infalibilidade papal do lado Católico, e a sola scriptura, o arrebatamento, e "uma vez salvo, sempre salvo" do lado Protestante.

A própria essência da Tradição é preservar o que os apóstolos ensinaram. Os dogmas da Igreja não devem ser expandidos, independentemente de quão racional ou óbvio um conceito possa parecer de acordo com o raciocínio de um indivíduo. O raciocínio humano não pode ser empregado para chegar à verdade teológica, pois ele é inconsistente, não confiável, e difere de pessoa para pessoa. Além disso, a mente é limitada e falível. Os escritos dos Padres da Igreja não são simplesmente guias reverenciados ou pontos de referência; eles moldam intimamente nosso pensamento, estabelecem nossa metodologia, confirmam nossas limitações pessoais e nossa pecaminosidade, e nos lembram até que ponto podemos realmente falar de Deus.

Os teólogos ocidentais que discordam de aspectos do ensino ou da prática da igreja deles, em sua maioria, permanecem dedicados a sua igreja particular com a esperança e a expectativa de que eles possam influenciá-la, mudá-la ou reformá-la. Em contraste, o verdadeiro teólogo Ortodoxo não tenta mudar, desenvolver ou melhorar a Igreja Ortodoxa, mas procura conformar sua própria mente à mente de Cristo e à Igreja, para alcançar uma compreensão mais profunda do que já foi recebido.

A Ortodoxia manifesta uma expressão cultural única em diferentes países, mas a fé é a mesma. O teólogo Ortodoxo reflete sobre a Tradição, apresenta-a de uma maneira que fala à cultura e adota elementos apropriados da cultura, mas guarda, protege e preserva a Tradição apostólica. 

Autoridade e Tradição na Ortodoxia

A autoridade no cristianismo Ortodoxo é muitas vezes dita residir na Escritura e na Tradição. A Escritura é na realidade o depósito escrito e a expressão da Tradição. Os Protestantes rejeitam a Tradição porque a associam ao Catolicismo. Eles raramente reconhecem que eles criaram, consagraram e virtualmente dogmatizaram suas próprias tradições, crenças e phronema, que não são necessariamente antigas ou apostólicas. Os Católicos têm confiança que possuem a Tradição apostólica porque Roma a possui. Mas a Tradição não é possuída por uma única sé nem garantida por uma só sé ou pessoa.

Um seminarista Católico me disse recentemente: "Os Ortodoxos seguem a Tradição pela Tradição". Outro comentou: "Os Ortodoxos são devotados à beleza, mas Roma é dedicada à verdade". Tais comentários refletem uma concepção errônea ocidental de que amamos o ritual pelo ritual ou a Tradição pela Tradição, que preservar a Tradição é o objetivo em si ao invés de ser o meio pelo qual preservamos a verdade que nos guia para a salvação.

Estas percepções errôneas não são totalmente surpreendentes, já que os cristãos ocidentais não entendem como a Tradição funciona para os Ortodoxos. Para os Católicos, a verdade é garantida pela união com Roma. Para os Protestantes, a verdade é garantida por nada mais do que sua própria interpretação da Bíblia. Mas, a partir de uma perspectiva Ortodoxa, a própria Tradição funciona como a autoridade. É o locus, depositório, padrão e garantidor da verdade porque é a preservação do ensino apostólico inalterado. Ela não depende de nenhuma época em particular, concílio, ou sé episcopal, ou do discernimento ou interpretação da Bíblia de qualquer pessoa. A tradição inclui muitos elementos - Escritura, cânones, Padres, Concílios e todo um modo de vida. Confiamos na Tradição por causa de nossa inabalável devoção à preservação do ensinamento apostólico inalterado.

Pecado, Salvação e Legalismo

Um espírito de legalismo é estranho ao phronema Ortodoxo, especialmente no que diz respeito ao pecado e ao nosso relacionamento com Deus. Para os Ortodoxos, o pecado indica doença espiritual. As imagens usadas a respeito da salvação são médicas. Um título comum para Cristo nas orações Ortodoxas é "Aquele que ama a humanidade" (Philanthropos). Ele também é frequentemente descrito como o "Médico de nossas almas e corpos". Sua Encarnação restaurou nosso relacionamento com Deus ao restaurar a humanidade caída à saúde física, mental e espiritual e à plenitude.

Nada poderia estar mais longe da explicação de Anselmo de Cantuária sobre o porquê de Deus ter se tornado homem. A obra histórica de Anselmo, Cur Deus Homo (Por que Deus Se Fez Homem?, c. 1094), tornou-se o modelo primário para entender o pecado e a salvação no cristianismo ocidental, e permanece assim até hoje depois de quase mil anos.

Anselmo começou com o pressuposto de que Deus é justo e o pecado é uma ofensa contra Deus que exige punição. Os seres humanos cometem os pecados, portanto, um humano deve pagar a penalidade. No entanto, nenhum humano é capaz de pagar uma penalidade tão grande. Somente Deus poderia pagar um preço tão alto. Portanto, Deus teria que se tornar homem. Deus encarnou na pessoa de Jesus Cristo a fim de morrer na cruz e satisfazer a justiça divina. Esta concepção, comumente conhecida como "expiação substitutiva", tem raízes profundas e é aceita de alguma forma pela maioria dos cristãos ocidentais.

A ampla aceitação da lógica de Anselmo demonstra o legalismo extremo e o afastamento radical da Tradição apostólica que se havia desenvolvido no Ocidente medieval. É irônico que a conclusão de Anselmo tenha sido tão prontamente aceita no Ocidente. A Igreja Católica afirma o desenvolvimento da doutrina e mantém que os teólogos medievais e escolásticos compreenderam a fé e expressaram seus conceitos de uma maneira superior à dos Padres. No entanto, a teologia de Anselmo é grosseira, deficiente, rasa, simplista e manifestamente inferior à compreensão da salvação entre os Padres da Igreja. Dificilmente ela pode ser considerada superior ou uma melhoria da obra deles.

São Gregório (Nazianzeno) o Teólogo abordou esse raciocínio empobrecido séculos antes do tempo de Anselmo e o destruiu facilmente com sua análise:

Para quem o sangue foi derramado por nós, e por que foi derramado, esse grande e renomado sangue de Deus, Aquele que é ao mesmo tempo sumo sacerdote e vítima? Pois fomos mantidos em cativeiro pelo Maligno, vendidos sob o pecado, e recebemos prazer em troca do mal. Mas se o resgate não é dado a ninguém a não ser aquele que nos mantém em cativeiro, eu pergunto a quem este resgate foi pago e por que razão? Se para o Maligno, que absurdo! Pois o ladrão receberia não apenas um resgate da parte de Deus, mas o próprio Deus como um resgate... Mas se foi dado ao Pai, em primeiro lugar, como? Pois nós não estávamos conquistados por ele. E, em segundo lugar, em que princípio o sangue do Unigênito agradaria ao Pai, que não recebeu Isaac, quando este foi oferecido por seu pai, mas trocou o sacrifício, colocando um carneiro no lugar da vítima humana? É claro que o Pai o aceita, embora não tenha pedido isso nem precisado, por causa do plano divino e porque o ser humano deve ser santificado pela humanidade de Deus, para que o próprio Deus nos liberte e conquiste o tirano pela força. [21]

O metropolita Vlachos analisa com precisão o erro teológico fundamental da teoria de Anselmo quando ele aponta que esta concepção na realidade torna Deus "sujeito às leis da necessidade". Portanto, Deus "requer satisfação e propiciação . . . portanto, o propósito da encarnação do Verbo e de Seu sacrifício na Cruz foi a propiciação da justiça divina, que foi ofendida pelo pecado do homem". [22] Ele continua a observar que isto não só é inválido desde uma perspectiva Ortodoxa, mas pode até ser considerado herético, um ponto de vista que certamente surpreenderia os cristãos ocidentais, uma vez que esta teoria é tão amplamente aceita. [23]  

Esta concepção do pecado e da salvação é rejeitada pelo cristianismo Ortodoxo porque, entre outras coisas, sugere que Deus é o problema, não a humanidade. Deus, por natureza, é livre de qualquer necessidade ou interesse próprio. Sem dúvida, a morte de Cristo na cruz foi um sacrifício e uma redenção para a raça humana. Mas este é apenas um modelo pelo qual entendemos toda a Economia Divina (o plano de salvação). A imagem tem limitações e não deve ser superestimada ou distorcida a ponto de perverter nossa compreensão de Deus, do propósito da Encarnação e do significado da cruz. A morte de Cristo na cruz não foi transacional, nem exigida pelo Pai, nem necessária para satisfazer a justiça divina.

Além disso, tal linguagem é indigna de Deus e até mesmo blasfema porque rebaixa Deus ao nível da humanidade pecadora. A linguagem bíblica ainda é linguagem humana, que é sempre inadequada para descrever Deus. Termos como redenção e propiciação devem ser entendidos de acordo com a Tradição apostólica e o phronema da Igreja primitiva, não a partir da perspectiva do legalismo medieval. O metropolita Vlachos explica porque essa representação de Deus é tão perturbadora desde uma perspectiva Ortodoxa:

É pecaminoso atribuir a Deus as características do homem caído, alegando, por exemplo, que Deus está irado e vingativo, e por isso Ele deve ser propiciado e apaziguado. Tal atitude quer fazer parecer que é Deus que precisa de cura, e não o homem. Mas isto é um sacrilégio. O homem pecador, que se caracteriza pelo egoísmo e pela arrogância, é ofendido. Não se pode dizer que Deus é ofendido... Consequentemente, o pecado não é um insulto a Deus, que deve ser curado, mas a nossa própria doença e, portanto, nós precisamos ser curados.[24]

Os humanos não podem afetar a Deus 

De acordo com a doutrina Católica, o pecado ofende a Deus, perturba a ordem moral e priva Deus de Sua glória e majestade. A punição pelo pecado restaura a ordem e a glória de Deus.25 Muitos Protestantes têm uma concepção semelhante do pecado como sendo primariamente uma ofensa contra Deus que requer algum pagamento ou punição.

Mas Vlachos observa que, segundo os Santos Padres, ninguém pode prejudicar a Deus, nem fazê-Lo resplandecer mais brilhantemente, nem afetar Sua "majestade", utilizando a terminologia Católica. Ele não requer nada por causa de nosso pecado. A Encarnação, a Crucificação e a Ressurreição reconciliam o homem com Deus, não Deus com o homem.

A diferença de perspectiva é imensa. Deus nunca se afasta de nós. Somos nós que nos afastamos Dele. Somos nós que nos tornamos espiritualmente doentes através do pecado. Somos nós que precisamos ser curados e restaurados. A concepção Ortodoxa é que "por seu sacrifício na cruz Cristo não propiciou a Seu Pai, mas curou a natureza enferma do homem" [26].

A concepção da Anselmo distorce toda a Trindade e o plano de salvação. A inadequação desta teologia foi brilhantemente desconstruída por Vladimir Lossky, cuja análise revela porque esta opinião resulta em outros problemas que se manifestam na teologia cristã ocidental:

Os horizontes cristãos são limitados pelo drama entre Deus, que é infinitamente ofendido pelo pecado, e o homem, que é incapaz de satisfazer as exigências impossíveis da justiça vindicativa. O drama encontra sua resolução na morte de Cristo, o Filho de Deus que se fez homem para substituir a Si mesmo por nós e pagar nossa dívida à justiça divina. O que acontece com a dispensação do Espírito Santo aqui? Sua parte é reduzida à de um auxiliar, um assistente na redenção, fazendo-nos receber o mérito expiado de Cristo... O preço de nossa redenção tendo sido pago na morte de Cristo, a ressurreição e a ascensão são apenas um glorioso final feliz de sua obra, uma espécie de apoteose sem relação direta com nosso destino humano. Esta teologia redentorista, colocando toda a ênfase na paixão, parece não ter interesse no triunfo de Cristo sobre a morte. A própria obra do Cristo Redentor, à qual esta teologia está confinada, parece estar truncada, empobrecida, reduzida a uma mudança da atitude divina para com os homens caídos, sem relação com a natureza da humanidade. [27]

A concepção Ortodoxa do pecado e da salvação, fundamentalmente diferente da do cristianismo ocidental, é o resultado de um phronema totalmente diferente. Ocasionalmente, os cristãos ocidentais que visitam uma Igreja Ortodoxa ficam consternados pela repetição constante da frase "Senhor, tem piedade". Ela os lembra da noção cristã ocidental de um Deus temível e julgador que exige satisfação pela ofensa do pecado, ao qual nossa resposta é encolher-se em medo e suplicar por piedade. Mas na Ortodoxia, o pedido por piedade é medicinal; segue o exemplo bíblico das pessoas que encontraram Cristo durante Seu ministério terrestre e pediram por cura.[28] O pecado é consistentemente entendido como doença da alma. Isto se reflete na doxologia que é cantada antes de toda Liturgia Divina: "Eu disse, Senhor, tem piedade de mim. Curai minha alma, pois pequei contra Ti". 

O Ocidente mudou gradualmente seu phronema adotando uma estrutura legalista para a salvação. A fidelidade do cristianismo Ortodoxo à Tradição manteve a compreensão bíblica e patrística original tanto do pecado como da salvação, na qual a ênfase não está em uma transação - Cristo pagando por nossos pecados por Seu sangue ou nós restaurando a majestade apropriada a Deus - mas nos efeitos curativos e santificadores de Sua Encarnação, Crucificação e Ressurreição.

Capítulo 3 e 4 do livro "Thinking Orthodox: Understanding and Acquiring the Orthodox Christian Mind" de Eugenia S. Constantinou. 

* * * 


Notas (Phronema na Tradição Cristã Ocidental)

1 Especialmente São Gregório, o Teólogo. A ênfase no equilíbrio nos Padres era baseada em injunções bíblicas tais como "Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda" (Prov. 4:27) e "Esforçai-vos, pois, muito para guardardes e para fazerdes tudo quanto está escrito no livro da lei de Moisés; para que dele não vos aparteis, nem para a direita nem para a esquerda" (Josh. 23:6).

2 Jaroslav Pelikan, The Vindication of Tradition (New Haven, CT: Yale University Press, 1984), 11.

3 Uma pesquisa Gallup realizada em 2016 informou que a porcentagem de adultos americanos que se identificavam com qualquer denominação Protestante em particular caiu para 30%, um declínio dramático de 50% em 2000. As pessoas que se identificam como qualquer tipo específico de Protestante diminuíram em geral de 57% para 47% durante esse período de tempo, com muitas mudando para se identificarem simplesmente como "cristãos". As centenas de denominações Protestantes nos EUA atualmente permitem aos Protestantes "mudar facilmente entre denominações, com o resultado de que muitos Protestantes não são tão fixos em sua identidade religiosa como seria o caso para Católicos, Judeus ou aqueles de outras tradições religiosas". Frank Newport, “More US Protestants Have No Specific Denominational Identity,” Gallup, Julho 18, 2017 https://news.gallup.com/poll/214208/protestants-no-specific-denominational-identity.aspx?g_source=link.

4 Uma breve mas muito interessante perspectiva deste desenvolvimento durante o final do século XX é descrita por Thomas Rauch em Reconciling Faith and Reason: Apologists, Evangelists, and Theologians in a Divided Church (Collegeville, MN: Liturgical Press, 2000).

5 “Código de Direito Canônico,” 331. http://www.vatican.va/archive/ENG1104/__PC.HTM.

6 De acordo com o Código de Direito Canônico da Igreja Católica, certos livros ainda requerem a aprovação da Igreja, incluindo traduções da Bíblia, livros de oração, livros litúrgicos, catecismos, publicações catequéticas, todos os livros de textos teológicos, e qualquer livro vendido, exposto ou distribuído nas igrejas. Recomenda-se que outros livros sobre fé e moral sejam submetidos e aprovados, mas não é mais requerido que todos os livros lidos pelos fiéis Católicos recebam o Imprimatur.  “Código de Direito Canônico,” Cânones 824–830, http://www.vatican.va/archive/ENG1104/__P2Q.HTM.

7 O corpo reconhecido como tendo autoridade magisterial na Igreja Católica, especificamente o papa e o colégio de bispos.

8 Lumen Gentium, 25. Ênfase acrescentada. Este concílio, conhecido como "Vaticano II", foi realizado de 1962 a 1965. Concílio Vaticano II, Austin Flannery, ed. (Collegeville, MN: Liturgical Press, 1975), 379. A forte linguagem de "submissão" é suavizada no site do Vaticano, onde a mais recente tradução em inglês diz: "the faithful are to accept their teaching and adhere to it with a religious assent. This religious submission of mind and will must be shown in a special way to the authentic magisterium of the Roman Pontiff." [ os fiéis devem aceitar seus ensinamentos e aderir a eles com um assentimento religioso. Esta submissão religiosa deve ser mostrada de maneira especial ao autêntico magistério do Pontífice Romano".] http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_en.html.

9 Veja Donum Veritatis, Instrução sobre a Vocação Eclesial do Teólogo (24 de maio de 1990), documento da Congregação para a Doutrina da Fé, http:// www.vatican.va/ roman_curia/congregations/ cfaith/documents/rc_con_cfaith _doc_19900524_theologian-vocation_en.html. Veja especialmente os parágrafos 32-39, que tratam da questão da dissidência. A Congregação para a Doutrina da Fé é um dos departamentos mais importantes e poderosos do Vaticano e é responsável pela promoção e defesa da fé Católica. O Cardeal Joseph Ratzinger chefiou este departamento por muitos anos até ser eleito para o papado e se tornar o Papa Bento XVI.

10 Isto está disponível em versão impressa e on-line em http://www.vatican.va/archive/ENG0015/_ INDEX.HTM. A Igreja Ortodoxa não tem um catecismo "oficial".

11 Fides et Ratio 52, Carta Encíclica Fides et Ratio do Sumo Pontífice João Paulo II aos Bispos da Igreja Católica sobre a Relação entre Fé e Razão (Washington, DC: Unites States Catholic Conference, 1998), Publicação 5-302, 79. O Concílio Vaticano I (1869-70), um concílio ecumênico para a Igreja Católica, pronunciou dogmaticamente a relação entre fé e razão em seu documento Dei Filius.

12 Catecismo da Igreja Católica I.1.III.36, citando Concílio Vaticano I, Dei Filius 2: DS 3004 cf. 3026; Concílio Vaticano II, Dei Verbum 6. http://www.vatican.va/archive /ENG0015/_INDEX.HTM.

13 Ênfase acrescentada. Citando o Codex Iuris Canonici, cânone 213. "CIC" é o Código de Direito Canônico do rito latino. A Igreja Católica tem um Código de Direito Canônico separado para Católicos de Rito Oriental, conhecido como Corpus Canonum Ecclesiarum Orientalium.

14 St. Gregory: The Homilies, 622–23, nota 860. Comentários por Christopher Veniamin.

15 Christoph Schneider, “Introduction: The Quest for a Christian Philosophy,” Theology and Philosophy in Eastern Orthodoxy, Christoph Schneider, ed. (Eugene, OR: Pickwick Publications, 2019), 8.

16 St. Gregory: The Homilies, 622–23, note 860.

17 Este é um dispositivo retórico conhecido como hypophora. De uma perspectiva cristã oriental, este método na realidade "nada prova", já que a verdade da conclusão é fortemente dependente da validade das premissas subjacentes.

18 Em Fides et Ratio (Fé e Razão) João Paulo II escreveu: “Desejo repetir claramente que o estudo da filosofia é fundamental e indispensável para a estrutura dos estudos teológicos e para a formação dos candidatos ao sacerdócio. . . . [Isto] está enraizado na experiência que amadureceu ao longo da Idade Média, quando emergiu a importância de uma harmonia construtiva de aprendizado filosófico e teológico.” Fides et Ratio 62, U.S.C.C. 5-302, 93.

19 Fides et Ratio 11, U.S.C.C. 5-302, 17.

20 Fides et Ratio 11, U.S.C.C. 5-302, 18–19, citando o documento do Vaticano II Dei Verbum.

21 Esta é a antiga crença da Igreja e a concepção patrística. Ela se baseia na compreensão patrística de João 16:13, quando Cristo declara aos discípulos que lhes enviará o Espírito, que os "conduzirá" à verdade. O tempo futuro grego do verbo "conduzirá" é conhecido como o "futuro de um só momento"; portanto, o Espírito revelou completamente toda a verdade no Pentecostes. Para implicar uma revelação contínua, o verbo teria sido expresso pela forma futura contínua do verbo: o Espírito Santo "estará conduzindo-vos " à verdade.

22 Richard P. McBrien, Catholicism, 2 vols. (Minneapolis: Winston Press, 1980), 2:874.

23 A infalibilidade papal é outro exemplo óbvio e historicamente detectável da progressão sorrateira e expansão de uma ideia teológica até seu pronunciamento como um dogma irreconhecível em relação a tudo o que foi ensinado ou crido na Igreja primitiva.


24 "A Santíssima Virgem Maria foi, desde o primeiro momento de sua concepção, por uma graça e privilégio singular de Deus Todo-Poderoso e em virtude dos méritos de Jesus Cristo, Salvador da raça humana, preservada imune a toda mancha de pecado original". Papa Pio IX, Ineffabilis Deus, 1854, DS 2803. Esta foi a proclamação formal do dogma, mas foi o resultado de desenvolvimentos na doutrina sobre Maria desde a Idade Média, baseada em grande parte no potuit, decuit, fecit.

25 A ideia foi promovida durante centenas de anos, e foi exatamente isso que permitiu que ela acabasse sendo proclamada como um dogma. Partiu-se do princípio de que este ensino tinha sido parte da Tradição apostólica porque tinha sido discutido pelos Católicos desde a Idade Média, e ele pareceu adequadamente "racional".

26 Eles também assumem esta posição porque a morte de Maria é descrita como seu "adormecer" ou Dormição. Mas este é o termo usado para a morte pelo próprio Cristo e pelos apóstolos. (Veja João 11,11; 1 Ts 4,13; 1 Cor 15,6).

27 Papa Pio XII, Apostolic Constitution Munificentissimus Deus (“Most Bountiful God”), 1950. Pio XII proclamou o dogma da Assunção porque foi encorajado pelo clero e fiéis a continuar a desenvolver a doutrina sobre Maria.

28 Cardinal John Henry Newman, The Development of Christian Doctrine (Westminster, MD: Christian Classics, 1968, repr.).

29 Newman, 367.

30 João Paulo II, Fides et Ratio 14, U.S.C.C. 5-302, 23.

31 Sergius Bowyer, Acquiring the Mind of Christ (Waymart, PA: St. Tikhon’s Monastery Press, 2015), 27. Emphasis in the original.

32 Bowyer, 27–28.

33 Bowyer, 27–28.

34 Joseph C. McLelland, “Sailing to Byzantium,” The New Man: An Orthodox and Reformed Dialogue, John Meyendorff and Joseph McLelland, eds. (New Brunswick, NJ: Agora Books, 1973), 14.

35 McLelland, 14.

36 McLelland, 15.

37 Maximos Aghiorgoussis, In the Image of God (Brookline, MA: Holy Cross Orthodox Press, 1999), 115.

38 Por exemplo, várias indulgências foram proclamadas em setembro de 2015 para o Jubileu Extraordinário da Misericórdia (http://w2.vatican.va/content/francesco/en/letters/2015 /documents/papa-francesco_20150901_lettera-indulgenza-giubileo-misericordia . html), e uma indulgência plenária foi proclamada em julho de 2013 pelo Papa Francisco para a 28a Jornada Mundial da Juventude (http://www.vatican.va/roman_curia/tribunals/apost_penit /documents/rc_trib_appen_doc_20130709_decreto-indulgenze-gmg_en.html). Ações específicas devem ser tomadas a fim de receber os benefícios das indulgências. O Catolicismo ensina que as indulgências diminuem o "tempo" despendido no purgatório em sofrimento pelos pecados menores ou "veniais".

39 Papa Paulo VI, Indulgentiarum Doctrina I.2-3, https://w2.vatican.va/content/paul-vi/en /apost_constitutions/documents/hf_p-vi_apc_01011967_indulgentiarum-doctrina .html.

40 O Cânone Católico 992 afirma: "Uma indulgência é a remissão perante Deus da pena temporal por pecados cuja culpa já está perdoada, que um fiel cristão devidamente disposto ganha sob certas e definidas condições pela assistência da Igreja que como ministro da redenção dispensa e aplica com autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos". O Cânon 993 explica: "Uma indulgência é parcial ou plenária na medida em que liberta parcialmente ou totalmente da pena temporal devida a pecados". O Cânon 994 prevê que se pode "ganhar indulgências parciais ou plenárias para si mesmo ou aplicá-las aos mortos por meio do sufrágio". http:// www.vatican.va/archive/ENG1104/_P3I.HTM. A indulgência de 2015 proclamada pelo Papa Francisco declarou especificamente que "a Indulgência do Jubileu também pode ser obtida para os falecidos". http://www.vatican.va/content/francesco/en/letters/2015/documents /papa-francesco_20150901_lettera-indulgenza-giubileo-misericordia.html.

Notas (O Phronema Ortodoxo)

1 Augustine Casiday, “Church Fathers and the Shaping of Orthodox Theology,” The Cambridge Companion to Orthodox Christian Theology, Mary B. Cunningham e Elizabeth Theokritoff, eds. (Cambridge: Cambridge University Press, 2008), 167.

2 Isto é particularmente verdadeiro quando surgem disputas entre vários bispos Ortodoxos a respeito de questões disciplinares ou jurisdicionais. É neste momento que os Católicos estão mais confiantes em seu sistema e estrutura.

3 Veja a discussão de Paul Ladouceur sobre várias declarações teológicas Ortodoxas e "confissões" feitas durante encontros com o Ocidente em Modern Orthodox Theology (London: T & T Clark, 2019), 7–30.

4 O Credo não é na realidade uma "definição". Em grego, ele é chamado de "símbolo" da fé. Ele aponta para o que Deus é, mas não define Deus. Além disso, pronunciamentos doutrinários formais, como o Credo e as declarações conciliares, preocupavam-se apenas com o essencial. Meyendorff, 90. Meyendorff explica que "as definições doutrinárias têm um papel primariamente negativo - o de impedir a propagação do erro - e que, em qualquer caso, seu objetivo não é esgotar a verdade ou congelar os ensinamentos da igreja em fórmulas ou sistemas verbais, mas apenas indicar as ''fronteiras'' da verdade". Meyendorff, "Doing Theology", 89.

5 Um exemplo disso é a assunção corporal da Virgem Maria. Esta é uma tradição extremamente antiga, bem estabelecida e universalmente aceita entre os cristãos Ortodoxos. Entretanto, não é um dogma, e os Ortodoxos não o "definiriam" como um ensinamento "oficial", se é que existe tal coisa na Ortodoxia.

6 Eles também podem citar respeitados teólogos Ortodoxos contemporâneos, se e porque esses teólogos são fiéis à Tradição e refletem um phronema Ortodoxo em sua vida e obra.

7 Por exemplo, Deus não pode ser visto. Ele é invisível. Ele não pode ser compreendido, então Ele é incompreensível. Deus não está apenas além das palavras humanas, Ele está além de toda a compreensão humana. E no entanto, como uma concessão à nossa humanidade, Deus condescende à nossa fraqueza, permitindo que Ele mesmo seja discutido e "descrito" usando linguagem humana. Como Deus está além de toda compreensão humana, nós preferimos a linguagem da negação.

8 Os cânones sagrados, às vezes chamados de "lei canônica", não são na verdade "lei" para os Ortodoxos e não funcionam da mesma forma que funcionam para a Igreja Católica. Eles não são codificados, organizados, ou sistematizados. Os cânones que foram suplantados por um concílio posterior permanecem na coleção canônica. Os cânones dogmáticos estão ao lado dos disciplinares. Uma compreensão da função e aplicação dos cânones sagrados é difícil e requer uma educação, um phronema e um discernimento espiritual Ortodoxos. O Dr. Lewis Patsavos, professor e especialista em cânones sagrados, observa que esta também é uma questão que inibe a compreensão Católica da tradição canônica Ortodoxa. “É precisamente isto que o Ocidente tem dificuldade de lidar em nossa tradição canônica, porque eles não podem colocar o dedo deles nisso.” “Salvation and the Free Life of the Spirit in the Orthodox Canonical Tradition,” Road to Emmaus 14, no. 4 (2013): 3–35, 20.

9 Jaroslav Pelikan, Credo (New Haven: Yale University Press, 2003), 398.

10 O nous é o aspecto da mente humana que tem a capacidade de contemplar a Deus. Isto será discutido mais adiante no capítulo 5.

11 A partir de correspondência pessoal. Sou grata ao Pe. Neophytos Enkleistriotis por esta bela expressão da interseção da razão humana e da santidade da mente.

12 Veja Rico Vitz, “Orthodoxy, Philosophy and Ethics,” Theology and Philosophy in Eastern Orthodoxy, Christoph Schneider, ed. (Eugene, OR: Pickwick Publications, 2019), 146.

13 Or. 23.12. St. Gregory Nazianzus: Festal Orations, Nonna Verna Harrison, trad., Popular Patristics Series, vol. 36 (Crestwood, NY: St. Vladimir’s Seminary Press, 2008), 182.

14 K. M. George Kondothra, “Orthodox Theological Education: Some Historical Perspectives” (academic paper), Aug. 14–20, 1994, Fifth International Consultation of Orthodox Theological Schools, Halki, Turkey, 1–7, 5.

15 Christos Yannaras, “Orthodoxy and the West,” Orthodoxy: Life and Freedom, A. J. Philippou, ed. (Oxford: Studion, 1973), 131.

16 Yannaras, 131.

17 Chapters on Knowledge 2.2. Maximos the Confessor: Selected Writings, George C. Berthold, trad., Classics in Western Spirituality series (New York: Paulist, 1985), 148.

18 Hierotheos Vlachos, The Mind of the Orthodox Church (Ekklesia kai Ekklesiastiko Phronema), Esther Williams, trad. (Levadia, Greece: Birth of the Theotokos Monastery, 1998  [2ª rev. trad., 3ª ed. do original grego, 2017]), 207. Theoria é uma visão espiritual concedida por Deus através da oração e da contemplação.

19 George Every, Misunderstandings between East and West (Richmond, VA: John Knox Press, 1966), 42, nota 2, citando a segunda parte de Opus Tripartitum por  Humberto de Romanos, em Peter Crabbe, Concilia, ii, Segunda ed. (Cologne, 1551), 993.

20 Every, Misunderstandings, 42–43.

21 Or. 45.22. St. Gregory Nazianzus: Festal Orations, 182

22 Vlachos, Mind of the Orthodox Church, 173–74. Ênfase acrescentada.

23 Vlachos, 174. 

24 Vlachos, 174. Ênfase acrescentada.

25 Papa Paulo VI, Indulgentiarum Doctrina 1.2.5. “Estas punições são impostas pelo julgamento justo e misericordioso de Deus para a purificação das almas, a defesa da santidade da ordem moral e a restauração da glória de Deus a sua plena majestade.”

26 Vlachos, Mind of the Orthodox Church, 176.

27 Vladimir Lossky, In the Image and Likeness of God, John Erickson e Thomas Bird, eds. (Crestwood, NY: St. Vladimir’s Seminary Press, 1974), 99.

28 "Tem piedade de nós, Filho de Davi!" foi o clamor de dois homens cegos (Mt 9,27). A mulher cananeia clamou em nome de sua filha: "Tem piedade de mim, Senhor" (Mt 15,22), e um pai disse: "Senhor, tem piedade de meu filho" (Mt 17,15). Veja também Mat. 20:30-31, Marcos 10:47-48, Lucas 17:13; 18:38-39. Há outros exemplos também.