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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O Caminho Ortodoxo: Epílogo - Deus como Eternidade (Kallistos Ware) [Parte 8/8]


CONTEÚDO
1 Prólogo - Sinais no Caminho 
2 Deus como Mistério 
3 Deus como Trindade 
4 Deus como Criador 
5 Deus como Homem 
6 Deus como Espírito 
7 Deus como Oração 
8 Epílogo - Deus como Eternidade 


Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.
Lucas 23:42

Para todas as almas que amam Deus, para todos os cristãos verdadeiros, haverá um primeiro mês do ano, como o mês de abril, um dia de ressurreição.
As Homilias de São Macário

Quando Abba Zacharias estava a ponto de morrer, Abba Moisés perguntou: "O que você vê?" e Abba Zacharias respondeu: "Não é melhor não dizer nada, pai?" "Sim, meu filho", disse Abba Moisés, "é melhor não dizer nada".
Os Ditos dos Padres do Deserto

A fala é o órgão deste mundo presente. O silêncio é o mistério do mundo vindouro.
São Isaac, o Sírio


O fim se aproxima

"Estou esperando a ressurreição dos mortos e a vida da era por vir". Orientado para o futuro, o Credo termina com uma nota de expectativa. Mas, embora as últimas coisas formem nosso ponto de referência constante ao longo desta vida terrena, não nos é possível falar em detalhes sobre as realidades da era por vir. "Amados", escreve São João, "agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser" (1 João 3: 2). Através da nossa fé em Cristo, possuímos aqui e agora uma relação viva e pessoal com Deus; e nós sabemos, não como uma hipótese, mas como um fato presente da experiência, que essa relação já contém em si as sementes da eternidade. Mas o que é viver não dentro da seqüência do tempo, mas no eterno Agora, não nas condições da queda, mas em um universo onde Deus é "tudo em todos" - disso, temos apenas vislumbres parciais, mas nenhuma concepção clara; e então devemos falar sempre com cautela, respeitando a necessidade do silêncio.

Há, no entanto, pelo menos três coisas que temos o direito de afirmar sem ambiguidade: que Cristo virá novamente na glória; que, na sua vinda, seremos ressuscitados dentre os mortos e julgados; e que "seu reino não terá fim" (Lucas 1:33). 

Primeiro, então, a Escritura e a Sagrada Tradição nos fala repetidamente sobre a Segunda Vinda. Não nos dão motivos para supor que, através de um avanço constante na "civilização", o mundo gradualmente se tornará melhor e melhor até que a humanidade consiga estabelecer o reino de Deus sobre a terra.  A visão cristã da história do mundo é totalmente oposta a esse tipo de otimismo evolucionário. O que somos ensinados a esperar são desastres no mundo da natureza, a guerra cada vez mais destrutiva entre homens, confusão e apostasia entre aqueles que se dizem cristãos (ver especialmente Matt. 24: 3-27). Esse período de tribulação culminará com o aparecimento do "homem do pecado" (2 Tessalonicenses 2: 3-4) ou Anticristo, que, de acordo com a interpretação tradicional na Igreja Ortodoxa, não será o próprio Satanás, mas um ser humano, um homem genuíno, em quem todas as forças do mal se concentrarão e que irá por um tempo ter o mundo inteiro sob seu domínio. O breve reinado do Anticristo será terminado abruptamente pela Segunda Vinda do Senhor, desta vez não de forma oculta, como em seu nascimento em Belém, mas "assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu" (Mateus 26:64). Assim, o curso da história será levado a um final súbito e dramático, através de uma intervenção direta do reino divino.

O tempo exato da Segunda Vinda está escondido de nós: "Não lhes compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade" (Atos 1: 7). O Senhor virá "como um ladrão na noite" (1 Tessalonicenses 5: 2). Isso significa que, evitando especulações sobre a data exata, devemos estar sempre preparados e atentos. "E as coisas que vos digo, digo-as a todos: Vigiai."  (Marcos 13:37). Pois, caso o Fim venha mais cedo ou mais tarde em nossa escala de tempo humana, ele é sempre iminente, sempre espiritualmente próximo. Devemos ter em nossos corações um senso de urgência. Nas palavras do Grande Cânone de São André de Creta, recitado a cada Quaresma:

Minha alma, ó minha alma, levanta-te! Por que você está adormecida?

O fim se aproxima, e em breve estarás perturbada.

Vigiai, então, para que Cristo, o teu Deus, te poupe,

Pois ele está presente em todos os lugares e preenche todas as coisas.

A primavera futura

Em segundo lugar, como cristãos, acreditamos não apenas na imortalidade da alma, mas na ressurreição do corpo. De acordo com a ordenança de Deus em nossa primeira criação, a alma humana e o corpo humano são interdependentes, e nenhum deles pode existir corretamente sem o outro. Em consequência da queda, os dois se separam na morte corporal, mas essa separação não é definitiva e permanente. Na Segunda Vinda de Cristo, ressuscitaremos dentre os mortos em nossa alma e em nosso corpo; e assim, com a alma e o corpo reunidos, apareceremos diante de nosso Senhor para o Juízo Final.

O julgamento, como enfatiza o Evangelho de São João, está acontecendo o tempo todo em toda a nossa existência terrena. Sempre que, conscientemente ou inconscientemente, escolhemos o bem, entramos já pela antecipação à vida eterna; sempre que escolhemos o mal, recebemos uma antecipação do inferno. O Juízo Final é melhor entendido como o momento da verdade quando tudo é trazido à luz, quando todos os nossos atos de escolha nos são revelados em suas implicações completas, quando percebemos com absoluta clareza quem somos e qual foi o significado profundo e objetivo de nossa vida. E, seguindo este esclarecimento final, entraremos - com alma e corpo reunidos - no céu ou no inferno, na vida eterna ou na morte eterna.

Cristo é o juiz; e ainda, de outro ponto de vista, somos nós que nos pronunciamos sobre nós mesmos. Se alguém está no inferno, não é porque Deus o aprisionou lá, mas porque é aí que ele mesmo escolheu estar. Os perdidos no inferno condenam-se a si mesmos, escravizam-se a si mesmos; já foi dito, corretamente, que as portas do inferno encontram-se trancadas por dentro.

Como pode um Deus de amor aceitar até mesmo uma única de suas criaturas que ele fez deve permanecer para sempre no inferno? Há um mistério aqui que, do nosso ponto de vista nesta vida presente, não podemos esperar entender.  O melhor que podemos fazer é manter em equilíbrio duas verdades, contrastantes, mas não contraditórias. Primeiro, Deus deu livre arbítrio ao homem, e assim, para toda a eternidade, está no poder do homem rejeitar Deus. Em segundo lugar, o amor significa compaixão, envolvimento; e, se houver alguém que permanece eternamente no inferno, em certo sentido, Deus também está lá com ele. Está escrito nos Salmos: "Se eu for até o inferno, lá tu também estás" (139: 7); e São Isaque, o Sírio, diz: "É incorreto imaginar que os pecadores no inferno são privados do amor de Deus". O amor divino está em toda parte e não rejeita ninguém. Mas nós do nosso lado somos livres para rejeitar o amor divino: não podemos, no entanto, fazê-lo sem nos infligir dor, e quanto maior nossa rejeição, mais amargo é nosso sofrimento.

"Na ressurreição", declara as Homilias de São Macário, "todos os membros do corpo são ressuscitados: nenhum cabelo perece" (compare Lucas 21:18). Ao mesmo tempo, o corpo da ressurreição é dito ser um "corpo espiritual" (ver 1 Cor. 15: 35-46). Isso não significa que, na ressurreição, nossos corpos serão de alguma forma desmaterializados; mas devemos lembrar que a matéria, tal como a conhecemos neste mundo caído, com toda a sua inércia e opacidade, não corresponde à matéria como Deus pretendia que fosseLivres da grosseria da carne caída, a ressurreição do corpo irá compartilhar as qualidades do corpo de Cristo na Transfiguração e após a Ressurreição. Mas, apesar de transformado, nosso corpo de ressurreição ainda será de maneira reconhecível o mesmo corpo que o que temos agora: haverá continuidade entre os dois. Nas palavras de São Cirilo de Jerusalém:

É esse mesmo corpo que é ressuscitado, embora não em seu estado atual de fraqueza; pois ele "vestirá a incorrupção" (1 Cor. 15:53) e assim será transformado. Já não precisará dos alimentos que agora comemos para mantê-lo vivo, nem escadas para a sua ascensão; pois ele será feito espiritual e se tornará algo maravilhoso, de tal maneira que não podemos descrever adequadamente.

E Santo Ireneu testifica:

Nem a estrutura nem a substância da criação são destruídas. É apenas a "forma externa deste mundo" (1 Coríntios 7:31) que passa - ou seja, as condições produzidas pela queda. E quando essa "forma externa" passar, o homem será renovado e florescerá em um auge da vida que é incorruptível, de modo que já não é possível que ele envelheça mais. Haverá "um novo céu e uma nova terra" (Apocalipse 21: 1); e neste novo céu e terra nova viverá o homem, para sempre novo e para sempre conversando com Deus.

"Um novo céu e uma nova terra": o homem não é salvo do seu corpo, mas nele; não salvo do mundo material, mas com ele. Porque o homem é um microcosmo e um mediador da criação, a própria salvação dele envolve a reconciliação e a transfiguração de toda a criação animada e inanimada em torno dele - sua libertação "da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus" (Romanos 8:21). Na "nova terra" da era por vir certamente há lugar não só pro homem, mas também para os animais: no e através do homem, eles também irão compartilhar da imortalidade, assim como as rochas, as árvores, as plantas, o fogo e a água.

Uma viagem ao infinito

Este reino da ressurreição, no qual, pela misericórdia de Deus, habitaremos com a nossa alma e corpo reunidos, é, em terceiro lugar, um reino que não terá "fim". Sua eternidade e infinito estão além do alcance de nossa imaginação caída, mas duas coisas, pelo menos, podemos ter certeza. Primeiro, a perfeição não é uniforme, mas diversificada. Em segundo lugar, a perfeição não é estática, mas dinâmica.

Primeiro, a eternidade significa uma variedade inesgotável. Se é verdade sobre a nossa experiência nesta vida que a santidade não é monótona, mas sempre diferente, isso não é verdade também, e a um grau incomparavelmente superior, na vida futura? Deus promete a nós: 'Ao que vencer darei… lhe darei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe.' (Apocalipse 2:17). Mesmo na Era por vir, o significado interior da minha personalidade única continuará sendo eternamente um segredo entre Deus e eu. No reino de Deus, cada um é um com todos os outros, mas cada um é distintamente ele mesmo, tendo os mesmos delineamentos que ele teve nesta vida, mas com essas características curadas, renovadas e glorificadas. Nas palavras de Santo Isaias de Sketis:

O Senhor Jesus, em sua misericórdia, concede descanso a cada um de acordo com suas obras - ao grande de acordo com a sua grandeza e com o pequeno segundo a sua pequenez; pois ele disse: "Na casa do meu pai há muitas mansões" (João 14: 2). Embora o reino seja um, no entanto, no único reino, cada um encontra seu próprio lugar especial e seu próprio trabalho especial.

Em segundo lugar, a eternidade significa um progresso sem fim, um avanço incessante. Como J. R. R. Tolkien disse: "Os caminhos seguem sempre adiante". Isto é verdade para o Caminho espiritual, não apenas na vida presente, mas também na Era por vir. Movemo-nos constantemente em diante. E é adiante que nós vamos, não para trás. A Era por vir não é simplesmente um retorno ao início, uma restauração do estado original de perfeição no paraíso, mas é uma nova partida. Haverá um novo céu e uma terra nova; e as últimas coisas serão maiores que as primeiras.


‘Aqui embaixo’, diz Newman, ‘viver é mudar, e ser perfeito é ter mudado muitas vezes.’ Mas é assim somente aqui embaixo? São Gregório de Nissa acreditava que mesmo no paraíso a perfeição é o crescimento. Em um paradoxo, ele diz que a essência da perfeição consiste precisamente em nunca se tornar perfeita, mas em alcançar sempre uma perfeição superior que se encontra além. Porque Deus é infinito, esse constante "avançar" ou epektasis, como os pais gregos o chamaram, prova-se ilimitado. A alma possui Deus, e ainda assim o procura; sua alegria é completa, e ainda assim torna-se mais intensa. Deus se torna cada vez mais próximo de nós, mas ele ainda continua a ser o Outro; contemplamos-lo face a face, mas continuamos a avançar cada vez mais para o mistério divino. Embora não sejamos mais estranhos, não deixamos de ser peregrinos. Avançamos "de glória em glória" (2 Cor. 3:18), e depois para uma glória ainda maior. Nunca, em toda a eternidade, alcançaremos um ponto em que realizamos tudo o que há para fazer, ou descobrimos tudo o que há para saber. "Não só na idade presente, mas na Era por vir", diz São Ireneu, "Deus sempre terá algo mais para ensinar ao homem, e o homem sempre terá algo a aprender com Deus".


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O Caminho Ortodoxo: Deus como Oração (Kallistos Ware) [Parte 7/8]


CONTEÚDO
1 Prólogo - Sinais no Caminho 
2 Deus como Mistério 
3 Deus como Trindade 
4 Deus como Criador 
5 Deus como Homem 
6 Deus como Espírito 
7 Deus como Oração 
8 Epílogo - Deus como Eternidade

Não eu, mas Cristo em mim.
Gálatas 2:20

Não há vida sem oração. Sem oração, há apenas loucura e horror.
A alma da ortodoxia consiste no dom da oração.
Vasili Rozanov

Os irmãos perguntaram a Abba Agathon: "Entre todas as nossas várias atividades, pai, qual é a virtude que exige o maior esforço?" Ele respondeu: "Perdoe-me, mas acho que não existe trabalho maior do que orar a Deus. Pois toda vez que o homem deseja orar, seus inimigos, os demônios, tentam impedi-lo; pois eles sabem que nada os obstrui tanto quanto a oração a Deus. Em tudo o que homem se compromete, se ele perseverar, ele alcançará o repouso. Mas, para orar, o homem deve lutar até o último suspiro."
Os Ditos dos Padres do Deserto

Os Três Estágios no Caminho

Pouco depois de ser ordenado sacerdote, pedi a um bispo grego um conselho sobre a pregação dos sermões. Sua resposta foi específica e concisa. "Todo sermão", disse ele, "deve conter três pontos: nem menos nem mais".

É costume também dividir o caminho espiritual em três estágios. Para São Dionísio, o Areopagita, trata-se da purificação, iluminação e união - um esquema frequentemente adotado no Ocidente. São Gregório de Nisa, tomando como modelo a vida de Moisés, fala de luz, nuvem e escuridão. Mas, neste capítulo, seguiremos um esquema triplo, diferente, elaborado por Orígenes, tornado mais preciso por Evagrius, e plenamente desenvolvido por São Máximo, o Confessor. O primeiro estágio aqui é praktiki ou a prática das virtudes; o segundo estágio é physiki ou a contemplação da natureza; O terceiro e último estágio, o fim da nossa jornada, é a theologia ou "teologia" no sentido estrito da palavra, isto é, a contemplação do próprio Deus.

O primeiro estágio, a prática das virtudes, começa com o arrependimento. O cristão batizado, ao ouvir sua consciência e ao exercer o poder de sua livre vontade, luta com a ajuda de Deus para escapar da escravidão em relação aos impulsos apaixonados. Ao cumprir os mandamentos, ao crescer em sua percepção do certo e do errado e desenvolvendo seu senso de "dever", gradualmente ele atinge a pureza do coração; e é isso que constitui o objetivo final do primeiro estágio. No segundo estágio, a contemplação da natureza, o cristão aguda sua percepção do "ser" [1] das coisas criadas, e assim descobre o Criador presente em tudo. Isso o leva ao terceiro estágio, a visão direta de Deus, que não está somente em tudo, mas acima e além de tudo. Nesse terceiro estágio, o cristão não mais experimenta Deus apenas por intermédio de sua consciência ou das coisas criadas, mas ele encontra o Criador face a face numa união de amor sem mediação.  A visão plena da glória divina é reservada para a Era por vir, mas mesmo nesta vida presente, os santos desfrutam da promessa e as primícias da colheita vindoura.

Muitas vezes, o primeiro estágio é denominado "vida ativa", enquanto o segundo e o terceiro são agrupados e designados conjuntamente de "vida contemplativa". Quando essas frases são usadas pelos escritores ortodoxos, eles normalmente se referem a estados espirituais internos e não a condições externas. Não é apenas o trabalhador social ou o missionário que está seguindo a "vida ativa"; o eremita ou recluso também o faz, na medida em que ele ainda está lutando para superar as paixões e crescer em virtude. E da mesma forma, a "vida contemplativa" não se restringe ao deserto ou ao recinto monástico: um mineiro, datilógrafo ou dona de casa também pode possuir silêncio interior e a oração do coração e, portanto, pode ser no verdadeiro sentido um "contemplativo". Nos Ditos dos Padres do Deserto nós encontramos a seguinte história sobre Santo Antônio, o maior dos solitários: "Foi revelado a Abba Antônio no deserto: 'Na cidade há alguém que é seu igual, um médico de profissão. Tudo o que ele pode poupar, ele dá aos necessitados e, durante o dia inteiro, ele canta o Hino Três-vezes-Santo com os anjos'".

A imagem de três estágios em uma viagem, embora útil, não deve ser tomada literalmente. A oração é uma relação viva entre pessoas, e as relações pessoais não podem ser cuidadosamente classificadas. Em particular, deve-se enfatizar que os três estágios não são estritamente consecutivos, um deles chegando ao fim antes do próximo começar. Os vislumbres diretos da glória divina às vezes são conferidos por Deus em uma pessoa como um presente inesperado, mesmo antes que essa pessoa tenha começado a se arrepender e se comprometer com a luta da "vida ativa". Por outro lado, por mais profundamente possível que um homem seja iniciado por Deus nos mistérios da contemplação, enquanto ele viver na terra, ele deve continuar a lutar contra as tentações; até o fim de seu tempo na terra, ele ainda está aprendendo a se arrepender. "Um homem deve esperar a tentação até o último suspiro", insiste São Antônio do Egito. Em algum lugar nos Ditos dos Padres do Deserto, há uma descrição da morte de Abba Sisois, um dos mais santos e mais amados dos "anciãos". Os irmãos em pé ao redor de sua cama viram que seus lábios estavam se movendo. "Com quem você está falando, pai?", perguntaram. "Veja", ele respondeu: "os anjos vieram para me levar, e eu estou pedindo mais tempo - mais tempo para me arrepender." Seus discípulos disseram: "Você não precisa se arrepender". Mas o velho disse: "Na verdade, eu não tenho certeza se eu sequer comecei a me arrepender." Então sua vida chega ao fim. Nos olhos de seus filhos espirituais, ele já era perfeito; mas em seus próprios olhos ele ainda estava no início.

Ninguém, portanto, pode reivindicar nesta vida ter passado além do primeiro estágio. Os três estágios são tanto sucessivos como simultâneos.  Devemos pensar na vida espiritual em termos de três níveis de aprofundamento, interdependentes, coexistindo uns com os outros.

Três Pressuposições

Antes de falar mais sobre esses estágios ou níveis, será sábio considerar três elementos indispensáveis, pressupostos em todos os pontos do Caminho espiritual.

Primeiro, pressupõe-se que o viajante do Caminho é membro da Igreja. A viagem é realizada em comunhão com os outros, não isoladamente. A tradição ortodoxa é intensamente consciente do caráter eclesial de todo o cristianismo verdadeiro. Vamos tomar e completar uma citação anterior de Aleksei Khomiakov:

Ninguém é salvo sozinho. Aquele que é salvo é salvo na Igreja, como membro dela e em união com todos os outros membros. Se alguém crê, ele está na comunhão de fé; se ele ama, ele está na comunhão do amor; se ele ora, ele está na comunhão de oração.

Como o Pe. Alexander Elchaninov observa:

A ignorância e o pecado são característicos de indivíduos isolados. Somente na unidade da Igreja encontramos esses defeitos superados. O homem encontra seu eu verdadeiro apenas na Igreja: não no desamparo do isolamento espiritual, mas na força de sua comunhão com seus irmãos e seu Salvador.

É claro que há muitos que com seu cérebro consciente rejeitam Cristo e sua Igreja, ou que nunca ouviram falar dele; e, no entanto, desconhecidos para si mesmos, essas pessoas são verdadeiras servas do único Senhor em seu coração profundo e na direção implícita de toda a vida. Deus é capaz de salvar aqueles que nesta vida nunca pertenceram à sua Igreja. Mas, olhando para a questão do nosso lado, isso não permite que nenhum de nós diga: "A Igreja é desnecessária para mim". No cristianismo não existe uma elite espiritual isenta das obrigações da adesão normal à igreja. O solitário no deserto é membro da igreja tanto quanto o artesão da cidade. O caminho ascético e místico, enquanto, de um ponto de vista, é "o vôo do solitário para o Solitário", é, ao mesmo tempo, essencialmente social e comunal. O cristão é aquele que tem irmãos e irmãs. Ele pertence a uma família - a família da Igreja.

Em segundo lugar, o Caminho espiritual pressupõe não só a vida na Igreja, mas a vida nos sacramentos. Como Nicolas Cabasilas afirma com grande ênfase, são os sacramentos que constituem a nossa vida em Cristo. Mais uma vez, não há lugar para o elitismo. Não devemos imaginar que exista uma via para o cristão "comum" - a via do culto em conjunto, centrado em torno dos sacramentos - e outra via para alguns poucos que são chamados a oração interior. Pelo contrário, existe apenas um caminho; o caminho dos sacramentos e o caminho da oração interior não são alternativas, mas formam uma única unidade. Ninguém pode ser verdadeiramente cristão sem participação nos sacramentos, assim como ninguém pode ser verdadeiramente cristão se ele trata os sacramentos apenas como um ritual mecânico. O eremita no deserto pode receber comunhão menos freqüentemente do que o cristão na cidade; isso não significa, no entanto, que os sacramentos são menos importantes para o eremita, mas simplesmente que o ritmo de sua vida sacramental é diferente. Certamente Deus é capaz de salvar aqueles que nunca foram batizados. Mas, mesmo que Deus não esteja submetido aos sacramentos, nos estamos a eles.

Anteriormente, observamos, com São Marcos, o Monge, como toda a vida ascética e mística já está contida no sacramento do Batismo: por mais que uma pessoa avance no Caminho, tudo o que ele descobre não é senão a revelação ou a manifestação da graça batismal. O mesmo pode ser dito da Sagrada Comunhão: toda a vida ascética e mística é um aprofundamento e realização de nossa união eucarística com Cristo Salvador. Na Igreja Ortodoxa, a comunhão é dada aos infantes desde o momento do Baptismo em diante. Isso significa que as primeiras memórias da infância da Igreja que um cristão ortodoxo tem provavelmente estarão ligadas com a vinda do Corpo e Sangue de Cristo; e a última ação consciente de sua vida, assim ele espera, também será a recepção dos Dons Divinos. Assim, sua experiência da Sagrada Comunhão se estende por todo o alcance de sua vida consciente. É sobretudo através da Comunhão que o cristão é feito um com e em Cristo, "cristificado", "emdeusado" [2] ou "deificado"; é sobretudo através da Comunhão que ele recebe as primícias da eternidade. ‘Bem-aventurado aquele que tem comido o pão do amor que é Jesus’, escreve São Isaac, o Sírio. "Enquanto ainda neste mundo, ele respira o ar da ressurreição, em que os justos se deleitarão depois que ressuscitarem dos mortos". "Todos os esforços humanos atingem aqui seu objetivo final", diz Nicolas Cabasilas. "Pois, neste sacramento, alcançamos o próprio Deus, e o próprio Deus é feito um conosco na mais perfeita de todas as uniões possíveis. Este é o mistério final: além disso, não é possível ir, nem pode-se acrescentar nada."

O Caminho espiritual não é apenas eclesial e sacramental; também é evangélico. Este é o terceiro pressuposto indispensável para um cristão ortodoxo. Em cada passo da via, buscamos orientação na voz de Deus nos falando através da Bíblia. De acordo com os Ditos dos Padres do Deserto, "Os anciões costumavam dizer: Deus não exige nada dos cristãos, exceto que ouçam as Sagradas Escrituras e ponham em prática as coisas que são ditas nelas." (Mas em outro lugar Os Ditos também insistem na importância de ter a orientação de um pai espiritual, para nos ajudar a aplicar corretamente as Escrituras.) Quando perguntaram a Santo Antônio do Egito, "Que regras devo manter para agradar a Deus?", ele respondeu: "Onde quer que você vá, tenha sempre Deus diante de seus olhos; no que quer que você faça ou diga, tenha um exemplo das Sagradas Escrituras; e seja qual for o lugar em que você habite, não seja apressado para se mudar para outro lugar. Mantenha estas três coisas e você viverá." "A única fonte pura e suficiente das doutrinas da fé", escreve o Metropolita Filareto de Moscou, "é a Palavra de Deus revelada, contida nas Sagradas Escrituras".

Para alguém entrando no mosteiro como novato, o Bispo Ignatius Brianchaninov dá essas instruções, que certamente se aplicam com igual força aos leigos:

Desde a sua primeira entrada no mosteiro, o monge deve dedicar todo cuidado e atenção possível à leitura do Santo Evangelho. Ele deve estudar o Evangelho tão de perto que sempre estará presente em sua memória. A cada decisão moral que ele toma, para cada ato, para cada pensamento, ele deve sempre deveria ter em sua memória o ensinamento do Evangelho... Mantenha-se estudando o Evangelho até o fim de sua vida. Nunca pare. Não pense que você conheça o suficiente, mesmo que você conheça tudo de cor.

Qual é a atitude da Igreja Ortodoxa em relação ao estudo crítico da Bíblia, como tem sido realizado no Ocidente nos últimos dois séculos? Uma vez que nosso cérebro que raciocina é um presente de Deus, há, sem dúvida, um lugar legítimo para pesquisas acadêmicas sobre origens bíblicas. Mas, embora não devamos rejeitar essa pesquisa de como um todo, não podemos, como ortodoxos, aceitá-la na íntegra. Sempre precisamos ter em vista que a Bíblia não é apenas uma coleção de documentos históricos, mas é o livro da Igreja, contendo a Palavra de Deus. E, portanto, não lemos a Bíblia como indivíduos isolados, interpretando-a unicamente pela luz do nosso entendimento particular, ou em termos de teorias atuais sobre criticismo de origem, forma ou redação. Lemos ela como membros da Igreja, em comunhão com todos os outros membros ao longo dos tempos. O critério final para nossa interpretação da Escritura é a mente da Igreja. E isso significa manter constantemente em vista como o significado da Escritura é explicado e aplicado na Santa Tradição: isto é, como a Bíblia é entendida pelos Pais e pelos santos, e como ela é usada no culto litúrgico.

Ao lermos a Bíblia, estamos reunindo informações, lutando com o sentido de frases obscuras, comparando e analisando. Mas isso é secundário. O verdadeiro propósito do estudo da Bíblia é muito mais do que isso - alimentar nosso amor por Cristo, acender nossos corações na oração e nos fornecer orientação em nossa vida pessoal. O estudo das palavras deve dar lugar a um diálogo imediato com a própria Palavra viva. "Sempre que você lê o Evangelho", diz São Tikhon de Zadonsk, "o próprio Cristo está falando com você. E enquanto você lê, você está rezando e conversando com ele."

Deste modo, os ortodoxos são encorajados a praticar uma leitura lenta e atenta da Bíblia, onde nosso estudo nos leva diretamente à oração, assim como a lectio divina do monaquismo beneditino e cisterciense. Mas, geralmente, os ortodoxos não recebem regras ou métodos detalhados para essa leitura atenciosa. A tradição espiritual ortodoxa faz pouco uso de sistemas de "meditação discursiva", como foram elaborados no Ocidente da Contra-Reforma por Inácio de Loyola ou Francisco de Sales. Uma das razões pelas quais os ortodoxos geralmente não sentiram necessidade de tais métodos é que os serviços litúrgicos a que atendem, especialmente nas Grandes Festas e durante a Quaresma, são muito longos e contêm repetições freqüentes de textos e imagen centrais. Tudo isso é suficiente para alimentar a imaginação espiritual do fiel, de modo que ele não precisa, adicionalmente, repensar e desenvolver a mensagem dos serviços da igreja em um período diário de meditação formal.

Abordada de maneira orante, a Bíblia é sempre contemporânea - não apenas como escritos compostos no passado distante, mas como uma mensagem direta para mim aqui e agora. "Aquele que é humilde em seus pensamentos e se dedica ao trabalho espiritual", diz São Marcos, o Monge, "quando ele lê as Sagradas Escrituras aplicará tudo para si mesmo e não para outra pessoa". Como um livro inspirado exclusivamente por Deus e dirigido a cada um dos fiéis pessoalmente, a Bíblia possui poder sacramental, transmitindo graça ao leitor, levando-o a um ponto de reunião e a um encontro decisivo. A escolaridade crítica não é de modo algum excluída, mas o verdadeiro significado da Bíblia só será evidente para aqueles que a estudam com seu intelecto espiritual, bem como com seu cérebro que raciocina.

Igreja, sacramentos, Escrituras - tais são os pressupostos para nossa jornada. Consideremos agora os três estágios: a vida ou prática ativa das virtudes, a contemplação da natureza, a contemplação de Deus.

O Reino dos céus é tomado à força

Como o título indica, a vida ativa exige o esforço de nossa parte, luta, no empenho persistente do nosso livre arbítrio. "Estreito é o portão e estreito é o caminho que leva à vida ... Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai" (Mateus 7:14 , 21). Nossa salvação resulta da convergência de dois fatores, de valor desigual mas indispensáveis: iniciativa divina e resposta humana. O que Deus faz é incomparavelmente mais importante, mas também é necessário a participação do homem.

Em um mundo não caído, a resposta do homem ao amor divino seria totalmente espontânea e alegre. Mesmo em um mundo caído, o elemento de espontaneidade e alegria permanece, mas também há necessidade de lutar resolutamente contra os hábitos e inclinações profundamente enraizados que são o resultado do pecado, tanto original como pessoal. Uma das qualidades mais importantes necessárias para o viajante no Caminho é a perseverança fiel. A resistência exigida de alguém que escala uma montanha fisicamente é requerida da mesma forma daqueles que ascenderiam à montanha de Deus.

O homem deve fazer violência a si mesmo - isto é, ao seu eu caído - porque o Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de força se apoderam dele (Mateus 11:12). Isto é dito repetidamente por nossos guias no Caminho; e eles estão falando, deve ser lembrado, tanto para cristãos casados quanto para monges e freiras. "Deus exige tudo de um homem - sua mente, sua razão, todas as suas ações. Deseja ser salvo quando você morrer? Vá e se esgote; vá e trabalhe; vá, procure e você encontrará; vigie e bata, e será aberto para você" (Os Ditos dos Padres do Deserto). "A idade atual não é um tempo para descansar e dormir, mas luta, combate, mercado, escola, viagem. Portanto, você deve se esforçar e não ser desanimado e ocioso, mas se dedicar a ações santas" (Starets Nazari de Valamo). "Nada vem sem esforço. A ajuda de Deus está sempre pronta e sempre próxima, mas é dada apenas àqueles que procuram e trabalham, e apenas àqueles buscadores que, depois de colocar todos os seus poderes à prova, então clamam com todo o coração: Senhor, ajude-nos" (Bispo Teófano o Recluso).  "Onde não há tristeza, não há salvação" (São Serafim de Sarov). "Descansar é o mesmo que retroceder" (Tito Colliander). Ainda assim, para que não fiquemos muito abatidos por esta severidade, também nos dizem: "Toda a vida do homem é apenas um dia, para aqueles que trabalham com avidez" (Os Ditos dos Padres do Deserto).

E o que todas essas palavras sobre esforço e sofrimento significam na prática? Significam que cada dia devemos renovar nosso relacionamento com Deus através da oração viva; e orar, como Abba Agathon nos lembra, é a tarefa mais difícil de todas. Se não encontrarmos a oração difícil, talvez seja porque não começamos a orar. Significam também que cada dia devemos renovar nosso relacionamento com os outros através da simpatia imaginativa, por meio de atos de compaixão prática e através da poda de nossa própria vontade. Significam que devemos assumir a cruz de Cristo, não uma vez por todas, por um único gesto grandioso, mas novamente  a cada dia: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me" (Lucas 9:23). E, no entanto, esse carregar a cruz diariamente é ao mesmo tempo um compartilhamento diário na Transfiguração e Ressurreição do Senhor:  entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo... morrendo, e eis que vivemos" (2 Coríntios 6: 9, 10).

Uma mudança de Mente

Tal é o caráter geral da vida ativa. É marcado sobretudo por quatro qualidades: o arrependimento, a vigilância, a discriminação e a guarda do coração. Vejamos brevemente cada um desses.

"O começo da salvação é condenar a si mesmo" (Evágrio). O arrependimento marca o ponto de partida da nossa jornada. O termo grego metanoia, como observamos, significa primariamente uma "mudança de mente". Corretamente entendido, o arrependimento não é negativo, mas positivo. Significa, não a auto-piedade ou remorso, mas conversão, a re-centralização de toda a nossa vida sobre a Trindade. É olhar, não para trás com arrependimento, mas avançar com esperança - não para baixo em nossas próprias deficiências, mas para cima no amor de Deus. É ver, não o que não conseguimos, mas o que, pela graça divina, podemos nos tornar agora; e é agir sobre o que vemos. Arrepender-se é para abrir nossos olhos para a luz. Nesse sentido, o arrependimento não é apenas um ato único, um passo inicial, mas um estado contínuo, uma atitude de coração e vontade que precisa ser renovada incessantemente até o fim da vida. Nas palavras de São Isaias de Sketis, "Deus exige que continuemos nos arrependendo até nosso último suspiro". "Esta vida lhe foi dada para o arrependimento", diz São Isaac, o Sírio. "Não a desperdice em outras coisas".

Arrepender-se é acordar. Arrependimento, mudança de mente, leva à vigilância. O termo grego usado aqui, nepsis, significa literalmente sobriedade e vigília - o oposto de um estado de estupor do álcool ou de drogas; e, portanto, no contexto da vida espiritual, significa atenção, vigilância, lembrança. Quando o filho pródigo se arrependeu, diz-se que "tornou em si" (Lucas 15:17). O homem néptico é aquele que tornou a si mesmo, que não sonha acordado,  à deriva sob a influência de impulsos passageiros, mas que possui um senso de direção e propósito. Como o Evangelho da Verdade (segundo século) expressa: "Ele é como aquele que desperta da embriaguez, retornando a si mesmo ... Ele sabe de onde ele veio e para onde ele está indo".

A vigilância significa, entre outras coisas, estar presente onde estamos - neste ponto específico do espaço, neste momento particular. Muitas vezes, estamos dispersos e fragmentados; estamos a viver, não no estado de alerta no presente, mas na nostalgia do passado, ou no receio e ilusão do futuro. Embora nós, de fato, somos obrigados de forma responsável planejar o futuro - pois a vigilância é o oposto da displicência - nós devemos pensar no futuro apenas na medida em que depende do momento presente. Ansiedade sobre possibilidades remotas que estão completamente fora de nosso controle imediato é pura perda de nossas energias espirituais.

O homem "neptico", então, está reunido no aqui e agora. Ele é aquele que arrebata o kairos, o momento decisivo da oportunidade. Deus, observa C. S. Lewis em The Screwtape Letters, quer que os homens atendam principalmente a duas coisas: "a eternidade em si, e aquele ponto do tempo que eles chamam de Presente. Pois o Presente é o ponto em que o tempo toca a eternidade. Do momento presente, e só nele, os seres humanos tem uma experiência que (Deus) tem da realidade como um todo; nele apenas é oferecido a liberdade e a atualidade." Como ensina Meister Eckhart: "Aquele que permanece sempre no presente agora, nele Deus engendra seu Filho sem cessar."

O homem "neptico" é aquele que entende esse "sacramento do momento presente" e que tenta viver nele. Ele diz para si mesmo, nas palavras de Paul Evdokimov: "A hora pela qual você está atualmente passando, o homem que você conhece aqui e agora, a tarefa em que você está envolvido neste momento - estes são sempre os mais importantes em toda a sua vida." Ele toma pra si o lema escrito no brasão de Ruskin: Hoje, hoje, hoje. "Há uma voz que clama ao homem até o último suspiro, e diz: Converta-se hoje" (Os Ditos dos Padres do Deserto).

Crescendo em Vigilância e autoconhecimento, o viajante no Caminho começa a adquirir o poder de discriminação ou discernimento (em grego, diakrisis). Esse age como um senso espiritual de gosto. Assim como o sentido físico do gosto, se saudável, diz ao homem de uma vez se o alimento está mofado ou saudável, assim também o gosto espiritual, se desenvolvido através do esforço ascético e da oração, permite que o homem distinga entre os pensamentos e impulsos variados dentro dele. Ele aprende a diferença entre o mal e o bem, entre o supérfluo e o significativo, entre as fantasias inspiradas pelo diabo e as imagens marcadas em sua imaginação criativa por arquétipos celestiais.

Por meio da discriminação, então, o homem começa a tomar nota mais cuidadosa do que está acontecendo dentro dele, e então ele aprende a proteger o coração, fechando a porta contra as tentações ou provocações do inimigo. "Guarda o teu coração com toda diligência" (Prov. 4:23). Quando o coração é mencionado nos textos espirituais ortodoxos, deve ser entendido no sentido bíblico pleno. O coração significa não apenas o órgão físico no peito, nem simplesmente as emoções e as afeições, mas o centro espiritual do ser do homem, a pessoa humana feita à imagem de Deus - o eu mais profundo e verdadeiro, o santuário interno onde só se pode entrar por meio do  sacrifício e da morte. O coração está, portanto, intimamente relacionado ao intelecto espiritual, do qual já falamos; em alguns contextos, os dois termos são quase intercambiáveis. Mas o "coração" tem frequentemente um sentido mais inclusivo do que o "intelecto". A 'oração do coração', na tradição ortodoxa, significa oração oferecida por toda a pessoa, envolvendo intelecto, razão, vontade, afeições, e também o corpo físico.

Um aspecto essencial de proteger o coração é a guerra contra as paixões. Por "paixão", aqui não se trata apenas de luxúria sexual, mas qualquer apetite desordenado ou anseio que se apropria violentamente da alma: raiva, ciúme, gula, avareza, desejo de poder, orgulho e outros. Muitos dos Padres tratam as paixões como algo intrinsecamente mau, isto é, como doenças internas alheias à verdadeira natureza do homem. Alguns deles, no entanto, adotam um ponto de vista mais positivo, considerando as paixões como impulsos dinâmicos originalmente colocados no homem por Deus e, portanto, fundamentalmente bons, embora atualmente distorcidos pelo pecado. Nesta segunda e mais sutil perspectiva, nosso objetivo não é eliminar as paixões, mas redirecionar sua energia. A raiva descontrolada deve ser transformada em justa indignação, ciúmes rancorosos em zelo pela verdade, desejo sexual em um eros que é puro no seu fervor. As paixões, então, devem ser purificadas, não eliminadas; ser educadas, não erradicadas; ser usadas positivamente, não negativamente. Para nós e para os outros, dizemos, não 'Reprimir', mas 'Transfigurar'.

Este esforço para purificar as paixões deve ser realizado no nível da alma e do corpo. No nível da alma, são purificadas através da oração, através do uso regular dos sacramentos da Confissão e da Comunhão, através da leitura diária das Escrituras, alimentando nossa mente com o pensamento do bem, através de atos práticos de dedicação amorosa aos outros. No nível do corpo elas são purificadas acima de tudo através de jejum e abstinência, e através de prostrações freqüentes durante a oração. Sabendo que o homem não é um anjo, mas uma unidade de corpo e alma, a Igreja Ortodoxa insiste no valor espiritual do jejum corporal. Não jejuamos porque há algo em si impuro no ato de comer e beber. A comida e a bebida são, ao contrário, do presente de Deus, o qual devemos participar com alegria e gratidão. Nós somos jejuamos, não porque desprezamos o presente divino, mas para nos conscientizarmos de que é de fato um presente - para purificar o nosso comer e beber, e fazer deles, não mais uma concessão à ganância, mas um sacramento e meios de comunhão com o Doador. Entendido dessa maneira, o jejum ascético é dirigido, não contra o corpo, mas contra a carne. Seu objetivo não é de modo destrutivo enfraquecer o corpo, mas criativamente tornar o corpo mais espiritual.

A purificação das paixões conduz, eventualmente, pela graça de Deus, para o que Evagrius chama de apatheia ou "serenidade". Por esse termo ele não quer dizer uma condição negativa de indiferença ou insensibilidade em que já não sente a tentação, mas um estado positivo de reintegração e liberdade espiritual no qual já não caímos em tentação. Talvez a apatheia possa ser traduzida melhor como "pureza de coração". Significa avançar da instabilidade para a estabilidade, da duplicidade à simplicidade ou unidade do coração, da imaturidade do medo e da suspeita à maturidade da inocência e da confiança. Para Evágrio, a serenidade e o amor estão integralmente conectados, como os dois lados de uma moeda. Se você cobiçar, você não pode amar. Serenidade significa que não somos mais dominados pelo egoísmo e pelo desejo descontrolado, e assim nos tornamos capazes do amor verdadeiro.

A pessoa "serena", longe de ser apática, é aquela cujo coração queima com amor por Deus, por outros humanos, por toda criatura viva, por tudo o que Deus criou. Como São Isac, o Sírio escreve:

Quando um homem com um coração como este pensa nas criaturas e as olha, seus olhos estão cheios de lágrimas por causa da compaixão esmagadora que pressiona seu coração. O coração de tal homem se torna macio, e ele não pode suportar ouvir ou encarar qualquer ferimento, mesmo o menor sofrimento, infligido a qualquer coisa na criação. Portanto, ele nunca deixa de orar com lágrimas, mesmo para os animais mudos, para os inimigos da verdade e por todos aqueles que o ferem, pedindo que sejam guardados e recebam a misericórdia de Deus. E para os répteis também ele reza com grande compaixão, que surge sem fim em seu coração, segundo o exemplo de Deus.

Através da Criação ao Criador

O segundo estágio sobre o Caminho tríplice é a contemplação da natureza - mais exatamente, a contemplação da natureza em Deus, ou a contemplação de Deus na natureza e através dela. O segundo estágio é, portanto, um prelúdio e um meio de entrada para o terceiro: ao contemplar as coisas que Deus fez, o homem de oração é levado à contemplação do próprio Deus. Esta segunda etapa da physiki ou "contemplação natural", como afirmamos, não é necessariamente posterior a praktiki, mas pode ser simultânea com ela.

Nenhuma contemplação de qualquer tipo é possível sem nepsis ou vigilância. Não consigo contemplar a natureza nem Deus sem aprender a estar presente onde estou, reunidos neste momento presente, neste lugar presente. Pare, olhe e ouça. Tal é o primeiro começo da contemplação. A contemplação da natureza começa quando abro meus olhos, literalmente e espiritualmente, e começo a notar o mundo ao meu redor - notar o mundo real, isto é, o mundo de Deus. O contemplativo é aquele que, como Moisés diante da Sarça Ardente (Êxodo 3: 5), tira os sapatos - isto é, se despoja da apatia da familiaridade e do tédio - e então reconhece que o lugar onde ele está de pé é um terreno sagrado. Contemplar a natureza é tomar consciência das dimensões do espaço sagrado e do tempo sagrado. Este objeto material, essa pessoa a quem estou falando, esse momento de tempo - cada um é sagrado, cada um é à sua maneira irrepetível e, assim, de valor infinito, cada um pode servir de janela para a eternidade. E, tornando-me sensível ao mundo de Deus ao meu redor, também me torno mais consciente do mundo de Deus dentro de mim. Começando a ver a natureza em Deus, começo a ver meu próprio lugar como pessoa humana dentro da ordem natural; começo a entender o que é ser microcosmo e mediador.

Em capítulos anteriores, indicamos a base teológica dessa contemplação da natureza. Todas as coisas são permeadas e mantidas no ser pelas energias incriadas de Deus, e assim todas as coisas são uma teofania que medeia sua presença. No coração de cada coisa está o seu princípio interno ou logos, implantado dentro dele pelo Logos Criador; e assim, através do logoi, entramos em comunhão com o Logos. Deus está acima e além de todas as coisas, mas como Criador ele também está dentro de todas as coisas - "panenteísmo", não panteísmo. Contemplar a natureza, então, usando a frase de Blake, é limpar as "portas de nossa percepção", tanto no nível físico como no espiritual, e assim discernir as energias ou logoi de Deus em tudo o que ele fez. É descobrir, não tanto através da nossa razão discursiva, mas através do nosso intelecto espiritual, que todo o universo é umas Sarça Ardente cósmica, cheia do Fogo divino, ainda não consumida.

Tal é a base teológica; mas a contemplação da natureza também requer uma base moral. Não podemos avançar para o segundo estágio do Caminho, a menos que façamos progresso no primeiro estágio, praticando as virtudes e cumprindo os mandamentos. Nossa contemplação natural, se não tem um fundamento firme na "vida ativa", torna-se meramente estética ou romântica, e não consegue subir ao nível do verdadeiramente noético ou espiritual. Não pode haver percepção do mundo em Deus sem arrependimento radical, sem uma mudança de mente contínua.

A contemplação da natureza tem dois aspectos correlativos. Primeiro, significa apreciar a "quididade" de coisas particulares, pessoas e momentos. Devemos ver cada pedra, cada folha, cada grama, cada sapo, cada rosto humano, pelo que é verdadeiramente, em toda a distinção e intensidade de seu ser específico. Como o profeta Zacarias nos adverte, não devemos "desprezar o dia das pequenas coisas" (4:10). "O verdadeiro misticismo", diz Olivier Clement, "é descobrir o extraordinário no ordinário". Nenhuma coisa existente é insignificante ou desprezível, pois, como a obra de Deus, cada uma tem seu lugar único na ordem criada. Apenas o pecado é insignificante e trivial, assim como a maioria dos produtos de uma tecnologia caída e pecaminosa; mas o pecado, como já observamos, não é uma coisa real, e os produtos da pecaminosidade, apesar de sua aparente solidez e poder destrutivo, participam igualmente da mesma irrealidade.

Em segundo lugar, a contemplação da natureza significa que vemos todas as coisas, pessoas e momentos como sinais e sacramentos de Deus. Em nossa visão espiritual, não apenas vemos cada coisa em relevo, destacando-se em todo o brilho de seu ser específico, mas também devemos ver cada coisa como transparente e através de cada coisa criada discernirmos o Criador. Descobrindo a unicidade de cada coisa, descobrimos também como cada um de seus pontos aponta para além de si mesmo para quem o fez. Então, aprendemos, nas palavras de Henry Suso, a ver o interior no exterior: "Aquele que pode ver o interior no exterior, para ele, o interior é mais interior do que aquele que só pode ver o interior no interior".

Estes dois aspectos da contemplação natural estão exatamente indicados no poema de George Herbert The Elixir:

Ensine-me, meu Deus e Rei,

Em todas as coisas te ver,

E o que eu faço em qualquer coisa,

Para fazer como para ti.

Um homem que observa o vidro,

Nele pode deter os olhos;

Ou, se quiser, ultrapassá-lo,

E os céus espiar..


Olhar para o vidro é perceber a "verdade", a realidade intensa de cada coisa; olhar através do vidro e, assim, ‘espiar’ o céu é discernir a presença de Deus dentro da coisa e além.  Essas duas maneiras de olhar para o mundo confirmam e se complementam. A criação nos leva a Deus, e Deus nos envia de volta à criação, permitindo-nos olhar a natureza com os olhos de Adão no Paraíso. Pois, vendo todas as coisas em Deus, as vemos com uma vivacidade que nunca mais possuíam.

Não devemos restringir a presença de Deus no mundo a uma gama limitada de objetos e situações "piedosas", ao mesmo tempo que rotulamos todo resto como "seculares"; mas devemos ver todas as coisas como essencialmente sagradas, como um presente de Deus e um meio de comunhão com ele. No entanto, não segue que devemos aceitar o mundo caído em seus próprios termos. Este é o erro infeliz de grande parte do "cristianismo secular" no ocidente contemporâneo. Todas as coisas são de fato sagradas em seu verdadeiro ser, de acordo com sua essência mais íntima; mas nossa relação com a criação de Deus foi distorcida pelo pecado, original e pessoal, e não devemos redescobrir esta sagrada intrínseca, a menos que nosso coração seja purificado. Sem abnegação, sem disciplina ascética, não podemos afirmar a verdadeira beleza do mundo. É por isso que não pode haver contemplação genuína sem arrependimento.

A contemplação natural significa encontrar Deus não só em todas as coisas, mas igualmente em todas as pessoas. Ao reverenciar os santos ícones na igreja ou em casa, devemos refletir que cada homem e mulher é um ícone vivo de Deus. "O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram" (Mateus 25:40). Para encontrar Deus, não precisamos deixar o mundo, isolar-nos de nossos semelhantes e mergulhar em algum tipo de vazio místico. Pelo contrário, Cristo está nos olhando através dos olhos de todos aqueles a quem nos encontramos. Uma vez que reconhecemos sua presença universal, todos os nossos atos em que servimos aos demais tornam-se atos de oração.

É comum considerar a contemplação como um dom raro e exaltado, e, sem dúvidas, o é em sua plenitude. No entanto, todas as sementes de uma atitude contemplativa existem em todos nós. A partir desta hora e momento, posso começar a andar no mundo, consciente de que é o mundo de Deus, que ele está perto de mim em tudo o que vejo e toco, em todos os que encontro. Ainda que eu faça isso espasmodicamente e de forma incompleta, eu já coloquei meus pés no caminho contemplativo.

Muitas pessoas que acham a oração em silêncio, sem imagens, completamente além de sua capacidade presente, e para quem as frases familiares escritas na Escritura ou nos livros de oração se tornaram tediosas e secas, podem renovar sua vida interior através da prática da contemplação natural. Aprendendo a ler a palavra de Deus no livro da criação, descobrindo sua assinatura em todas as coisas, eu então - quando eu volto a ler suas palavras na Escritura e nos livros de oração - descubro que as frases bem conhecidas tem uma nova profundidade de significado. Então, a natureza e as Escrituras se complementam. Nas palavras de São Ephrem, o sírio:

Onde quer que você vire os olhos, há um símbolo de Deus;

Onde quer que você leia, você encontrará seus tipos ...

Olhe e veja como a Natureza e as Escrituras estão unidas ...

Louvor ao Senhor da Natureza,

Glória ao  Senhor das Escrituras.

Das Palavras ao Silêncio

Quanto mais o homem passa a contemplar Deus na natureza, mais ele percebe que Deus também está acima e além da natureza. Encontrando vestígios do divino em todas as coisas, ele diz: "Isto também é tu; nem isto é tu." Então, o segundo estágio do Caminho espiritual o leva, com a ajuda de Deus, ao terceiro estágio, quando Deus não é mais conhecido apenas pelo meio do que ele fez, mas em uma união direta e sem mediação.

A transição do segundo para o terceiro nível é efetuada - assim nós aprendemos com nossos mestres espirituais na tradição Ortodoxo - aplicando na vida de oração a via da negação ou abordagem apofática. Nas Escrituras, nos textos litúrgicos e na natureza, são apresentadas inúmeras palavras, imagens e símbolos de Deus; e somos ensinados a dar o valor total a essas palavras, imagens e símbolos, abordando-os em nossa oração. Mas, como essas coisas nunca podem expressar toda a verdade sobre o Deus vivo, somos encorajados também a equilibrar essa oração afirmativa ou catafática pela oração apofática. Como afirma Evágrio, "A oração é colocar de lado os pensamentos." Esta não deve ser considerada, é claro, uma definição completa de oração, mas indica o tipo de oração que leva o homem do segundo para o terceiro estágio do Caminho. Alcançando a Verdade eterna que está além de todas palavras e pensamentos humanos, o buscador começa a esperar em Deus em quietude e silêncio, não mais falando sobre Deus ou com Deus, mas simplesmente escutando. ‘Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus’ (Sal. 46:10).

Esta quietude ou silêncio interno é conhecido em grego como hesychia, e aquele que busca a oração de quietude é chamado de hesicasta. Hesychia significa concentração combinada com tranquilidade interna. Não deve ser apenas entendida em sentido negativo como a ausência de fala e de atividade externa, mas denota de maneira positiva a abertura do coração humano em relação ao amor de Deus. Escusado será dizer, para a maioria das pessoas, se não todas, a hesychia não é um estado permanente. O hesicasta, além de entrar na oração de quietude, também usa outras formas de oração, partilhando do culto litúrgico corporativo, lendo a Escritura, recebendo os sacramentos. A oração apofática coexiste com a catafática, e cada uma fortalece a outra. A via da negação e a via da afirmação não são alternativas; são complementares.

Mas como é que vamos parar de falar e começar a ouvir? De todas as lições sobre oração, essa é a mais difícil de aprender. Há pouco proveito dizer a nós mesmos: "Não pense", pois a suspensão do pensamento discursivo não é algo que possamos alcançar apenas através de um esforço de vontade. A mente sempre inquieta exige de nós alguma tarefa, de modo a satisfazer sua constante necessidade de ser ativa. Se a nossa estratégia espiritual é inteiramente negativa - se tentarmos eliminar todo o pensamento consciente sem oferecer a nossa mente qualquer atividade alternativa - é provável que terminemos com um vago sonhar acordado.. A mente precisa de alguma tarefa que a mantenha ocupada e, no entanto, habilite-a ir além de si mesma até a quietude. Na tradição ortodoxa hesicasta, a obra que normalmente é atribuída a ele é a freqüente repetição de uma breve "oração flecha", mais comumente a Oração de Jesus: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador.

Nos é ensinado que, ao recitarmos a Oração de Jesus, devemos evitar, na medida do possível, qualquer imagem ou figura específica.  Nas palavras de São Gregório de Nissa, "O Noivo está presente, mas ele não é visto". A Oração de Jesus não é uma forma de meditação imaginativa sobre diferentes incidentes na vida de Cristo. Mas, ao deixar de lado as imagens, devemos concentrar toda nossa atenção sobre, ou melhor, dentro das palavras. A Oração de Jesus não é apenas um encantamento hipnótico, mas uma frase significativa, uma invocação dirigida a outra Pessoa. Seu objeto não é o relaxamento, mas o estado de alerta, não sonolência, mas uma a oração viva. E assim a Oração de Jesus não deve ser dita mecanicamente, mas com um propósito interno; no entanto, ao mesmo tempo, as palavras devem ser pronunciadas sem tensão, violência ou ênfase indevida. O barbante ao redor de nosso pacote espiritual deve ser firme, e não frouxo; no entanto, ele não deve ser amarrado com tamanha força a ponto de cortar as bordas do pacote.

Normalmente se distinguem três níveis ou graus na Oração de Jesus. Ela começa como "oração dos lábios", oração oral. Então ela se interioriza mais interior, tornando-se "oração do intelecto", oração mental. Finalmente, o intelecto "desce" para o coração e se une a ele, então a oração torna-se "oração do coração"  ou, mais exatamente, "oração do intelecto no coração". Neste nível, torna-se oração de toda a pessoa - não mais algo que pensamos ou dizemos, mas algo que somos: pois o propósito final do Caminho espiritual não é apenas uma pessoa que diz orações de vez em quando, mas uma pessoa em que é oração o tempo todo. A oração de Jesus começa como uma série de atos específicos de oração, mas seu objetivo final é estabelecer naquele que ora um estado de oração incessante, que continua ininterrupto mesmo em meio a outras atividades.

Portanto a oração de Jesus começa como uma oração oral como qualquer outra. Mas a repetição rítmica da mesma frase curta permite que o hesicasta, em virtude da simplicidade das palavras que ele usa, avance para além de todo o idioma e imagens no mistério de Deus. Desta forma, a Oração de Jesus desenvolve, com a ajuda de Deus, o que os escritores ocidentais chamam de "oração de atenção amorosa" ou "oração de olhar simples", onde a alma descansa em Deus sem uma sucessão constantemente variável de imagens, idéias e sentimentos. Além disso, há uma fase posterior, quando a oração do hesicasta deixa de ser o resultado de seus próprios esforços, e torna-se - de tempos em tempos, ao menos, - o que os escritores ortodoxos chamam de “auto-atuante” e escritores ocidentais chamam de 'infundida '. Cessa, em outras palavras, de ser "minha" oração, e torna-se, em maior ou menor grau, a oração de Cristo em mim.

No entanto, não se deve imaginar que esta transição da oração oral para a oração de silêncio, ou da oração "ativa" para "auto-atuante ", seja rápida e fácil. O autor anônimo do livro Relatos de um Peregrino Russo recebeu a oração contínua "auto-atuante" depois de apenas algumas semanas praticando a Invocação do Nome de Jesus, mas seu caso é completamente excepcional e não deve ser considerado como a norma. Mais comumente, aqueles que recitam a Oração de Jesus são concedidos de tempos em tempos momentos de "arrebatamento", vindo inesperadamente como um presente, quando as palavras de oração recuam no fundo ou desaparecem completamente, e são substituídas por um senso imediato da presença e do amor de Deus. Mas, para a grande maioria, essa experiência é apenas um breve vislumbre, não um estado contínuo. De qualquer forma, seria imprudente tentar induzir, por meios artificiais, o que só pode resultar do fruto da ação direta de Deus. O melhor caminho, ao invocar o Santo Nome, é concentrar todos os nossos esforços na recitação das palavras; caso contrário, em nossas tentativas prematuras de alcançar a oração sem palavras do coração, acabamos nos dando conta de que não estamos rezando de maneira alguma, mas apenas sentados semi-adormecidos.  Deixe-nos seguir o conselho de São João Climacus: "Confine sua mente nas palavras da oração". Deus fará o resto, mas a seu modo e ao seu tempo.

União com Deus

O método apofático, seja em nosso discurso teológico ou em nossa vida de oração, é aparentemente negativo em caráter, mas, em seu objetivo final, é extremamente positivo. O abandono de pensamentos e imagens não leva a vacuidade, mas a uma plenitude superando tudo o que a mente humana pode conceber ou expressar. O caminho da negação se parece menos ao descascar de uma cebola e mais ao entalhar de uma estátua.. Quando descascamos uma cebola, removemos uma pele após a outra, até que finalmente não haja mais cebola: acabamos com nada. Mas o escultor, quando se desfaz em um bloco de mármore, nega por um efeito positivo. Ele não reduz o bloco a um monte de fragmentos aleatórios, mas, através da ação aparentemente destrutiva de quebrar a pedra em pedaços, ele acaba revelando uma forma inteligível.

Assim é em um nível mais alto com o uso do apofatismo. Negamos para afirmar. Dizemos que algo não é para dizer que algo é. O caminho da negação acaba sendo o caminho da super afirmação. Nossa separação de palavras e conceitos serve como trampolim, a partir da qual saltamos para o mistério divino. A teologia apofática, em seu verdadeiro e pleno significado, não leva a uma ausência, mas a uma presença, não ao agnosticismo, mas a uma união de amor. Assim, a teologia apofática é muito mais do que um exercício puramente verbal, pelo que equilibramos afirmações positivas com negativas. Seu objetivo é nos levar a um encontro direto com um Deus pessoal, que ultrapassa infinitamente tudo o que podemos dizer dele, seja negativo ou positivo.

Esta união de amor que constitui o verdadeiro objetivo da abordagem apofática é uma união com Deus em suas energias, não em sua essência. Tendo em mente o que foi dito anteriormente sobre a Trindade e a Encarnação, é possível distinguir três diferentes tipos de união:

Primeiro, há entre as três pessoas da Trindade uma união de acordo com a essência: Pai, Filho e Espírito Santo são "um em essência". Mas entre Deus e os santos não ocorre tal união. Embora "emdeusado" ou "deificados", os santos não se tornam membros adicionais da Trindade. Deus continua sendo Deus e o homem permanece homem. O homem se torna deus pela graça, mas não Deus em essência. A distinção entre Criador e criatura ainda continua: é superada pelo amor mútuo, mas não abolida. Deus, por mais perto que ele se aproxime do homem, ainda permanece o "inteiramente Outro".

Segundo, existe entre as naturezas divina e humana do Cristo encarnado uma união de acordo com a hipóstase, uma união "hipostática" ou pessoal: a divindade e a humanidade em Cristo são tão unidas que constituem ou pertencem a uma única pessoa. Mais uma vez, a união entre Deus e os santos não é desse tipo. Na união mística entre Deus e a alma, há duas pessoas, e não uma (ou, mais exatamente, quatro pessoas: uma pessoa humana e as três pessoas divinas da Trindade indivisa). É uma relação "Eu - Tu": o "Tu" permanece "Tu", por mais próximo o "Eu" possa chegar.  Os santos estão mergulhados no abismo do amor divino, mas não são engolidos. "Cristificação" não significa aniquilação. Na Era por vir, Deus é "tudo em todos" (1 Cor. 15:28); mas "Pedro é Pedro, Paulo é Paulo, Filipe é Filipe. Cada um retém sua própria natureza e identidade pessoal, mas todos estão cheios do Espírito"(As Homilias de São Macário).

Uma vez que, então, a união entre Deus e os seres humanos que ele criou é uma união não de acordo com a essência, nem segundo a hipóstase, resta em terceiro lugar que deve ser uma união de acordo com a energia. Os santos não se tornam Deus por essência e nem uma pessoa com Deus, mas participam nas energias de Deus, isto é, na sua vida, poder, graça e glória. As energias, como insistimos, não devem ser "objetivadas" ou consideradas intermediárias entre Deus e o homem, uma "coisa" ou presente que Deus confere à sua criação. As energias são verdadeiramente Deus mesmo - ainda assim não Deus como ele existe dentro de si mesmo, na sua vida interior, mas Deus, como ele se comunica em amor transbordante. Aquele que participa das energias de Deus está, portanto, conhecendo o próprio Deus face a face, através de uma união de amor direta e pessoal, na medida em que um ser criado é capaz disso. Dizer que o homem participa nas energias mas não na essência de Deus é dizer que entre o homem e Deus acontece uma união, mas não confusão. Significa que afirmamos a respeito de Deus, do modo mais literal e enfático: "Sua vida é minha", ao mesmo tempo que repudiamos o panteísmo. Afirmamos a proximidade de Deus, ao mesmo tempo em que proclamamos a sua alteridade.

Escuridão e Luz

Ao se referir a esta "união de acordo com a energia", que está muito além de tudo o que o homem pode imaginar ou descrever, os santos utilizaram, forçosamente, a linguagem do paradoxo e do simbolismo. Pois o discurso humano é adaptado para delinear aquilo que existe no espaço e no tempo, e mesmo aqui nunca pode fornecer uma descrição exaustiva. Quanto ao que é infinito e eterno, aqui a fala humana não pode fazer mais do que apontar ou indicar.

Os dois "sinais" ou símbolos principais empregados pelos pais são os da escuridão e da luz. Não, é claro, que Deus como tal seja luz ou escuridão: estamos falando em parábolas ou analogias. De acordo com sua preferência por um "sinal" ou o outro, os escritores místicos podem ser caracterizados como "noturnos" ou "solares". São Clemente de Alexandria (seguindo o autor judeu Filo), São Gregório de Nissa e São Dionísio, o Areopagita, dão preferência ao "sinal" da escuridão; Orígenes, São Gregório, Teólogo, Evágrio, As Homilias de São Macário, São Simeão, o Novo Teólogo e São Gregório Palamas usam principalmente o "sinal" da luz.

A linguagem da "escuridão", aplicada a Deus, toma sua origem principalmente da descrição bíblica de Moisés no monte Sinai, quando se diz que ela entra na "espessa escuridão" onde Deus estava (Êxodo 20:21). É significativo que nessa passagem não se afirma que Deus é a escuridão, mas que ele habita na escuridão: a escuridão denota, não a ausência ou a irrealidade de Deus, mas a incapacidade da nossa mente humana de compreender a natureza interior de Deus. A escuridão está em nós, e não nele.

A base primária para a linguagem da "luz" é a frase em São João: "Deus é luz, e nele não há escuridão" (1 João 1: 5). Deus é revelado como luz acima de tudo na Transfiguração de Cristo no Monte Tabor, quando "o rosto dele resplandeceu como o sol, e as suas vestes eram brancas como a luz" (Mateus 17: 2). Esta luz divina, vista pelos três discípulos na montanha - vista também por muitos dos santos durante a oração - não é senão as energias incriadas de Deus. A luz do Tabor não é nem uma luz física e criada, nem uma "luz do intelecto" puramente metafórica. Embora não material, ela é, no entanto, uma realidade objetivamente existente. Sendo divinas, as energias incriadas superam nossos poderes humanos de descrição; e assim, ao chamar essas energias de "luz", nós estamos inevitavelmente empregando a linguagem do "sinal" e do símbolo.  Não que as energias sejam meramente simbólicas. Elas realmente existem, mas não podem ser descritas em palavras; ao se referir a elas como "luz", usamos o termo menos enganoso, mas nossa linguagem não deve ser interpretada literalmente.

Embora não-física, a luz divina pode ser vista pelo homem através dos seus olhos físicos, desde que seus sentidos tenham sido transformados pela graça divina. Seus olhos não contemplam a luz pelos poderes naturais da percepção, mas através do poder do Espírito Santo que atua dentro dele.

"O corpo é deificado ao mesmo tempo que a alma" (São Máximo, o Confessor). Aquele que contempla a luz divina é permeado inteiramente por ela, de modo que seu corpo brilha com a glória que ele contempla. Ele mesmo se torna luz. Vladimir Lossky não falava apenas de metáforas quando escreveu: "O fogo da graça, acendido no coração dos cristãos pelo Espírito Santo, faz com que eles brilhem como se fossem velas diante do Filho de Deus". As Homilias de São Macário afirmam sobre essa transfiguração do corpo do homem:

Assim como o corpo do Senhor foi glorificado, quando ele subiu a montanha e se transfigurou na glória de Deus e na luz infinita, os corpos dos santos também são glorificados e brilham como relâmpagos ... "E eu dei-lhes a glória que a mim me deste"(João 17:22): assim como muitas lâmpadas são acesas a partir de uma chama, assim os corpos dos santos, sendo membros de Cristo, precisam ser o que Cristo é, e nada mais... Nossa natureza humana se transforma no poder de Deus, e é acesa em fogo e luz.

Na vida dos santos, ocidentais e orientais, existem numerosos exemplos de tal glorificação do corpo. Quando Moisés desceu da escuridão do Sinai, seu rosto brilhava com tanto brilho que ninguém podia contemplá-lo, e ele teve que colocar um véu sobre seu rosto quando conversava com os outros (Êxodo 34: 29-35). Nos Ditos dos Padres do Deserto nos contamos como um discípulo olhou através da janela da cela de Abba Arsenius e viu o ancião "como uma chama de fogo". De Abba Pambo é dito: "Deus glorificou tanto ele que ninguém podia olhar pra sua face, por causa da glória que sua face tinha." Mil e quatrocentos anos depois, Nicolas Motovilov usa essas palavras para descrever uma conversa com seu starets, São Serafim de Sarov: "Imagine no centro do sol, no brilho deslumbrante de seus raios do meio do dia, o rosto de um homem falando com você."

Em alguns escritores, as idéias de luz e escuridão são combinadas. Henry Vaughan fala de uma "escuridão deslumbrante" em Deus, enquanto São Dionísio usa a frase "resplendor da escuridão divina". Em outros lugares, São Dionísio diz: "É dito que a escuridão divina é a luz inacessível na qual Deus habita." Não há auto-contradição sobre tal linguagem, pois para Deus "a escuridão e a luz são iguais" (Salmo 139:12). Como Jacob Boehme diz: "A escuridão não é a ausência de luz, mas o terror que vem da luz cegante." Se é dito que Deus habita na escuridão, isso não significa que haja falta ou privação em Deus, mas que ele é uma plenitude de glória e amor além de nossa compreensão.


Notas:

[1] Preferi traduzir o termo "isness" como "ser". 
[2] Nota do Tradutor: "Emdeusado" e não endeusado, seguindo o jogo de palavras do original "ingodded".


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O Caminho Ortodoxo: Deus como Espírito (Kallistos Ware) [Parte 6/8]


CONTEÚDO
1 Prólogo - Sinais no Caminho 
2 Deus como Mistério 
3 Deus como Trindade 
4 Deus como Criador 
5 Deus como Homem 
6 Deus como Espírito 
7 Deus como Oração 
8 Epílogo - Deus como Eternidade

O Espírito de Deus que foi dado a esta nossa carne não pode suportar tristeza ou restrição.
 O Pastor de Hermas

Quando o Espírito de Deus desce sobre um homem e o ofusca com a plenitude do seu derramamento, sua alma transborda com alegria que não pode ser descrita, pois o Espírito Santo transforma em alegria tudo o que ele toca.
O reino dos céus é paz e alegria no Espírito Santo.
Adquira a paz interior, e milhares ao seu redor encontrarão salvação.
São Serafim de Sarov

Punhos fechados ou mãos abertas?

Nas paredes das catacumbas de Roma,  às vezes há pintada a figura de uma mulher que reza, os Orans. Ela está olhando para o céu, as mãos abertas levantadas com as palmas para cima. Este é um dos mais antigos ícones cristãos. A quem ela representa - a Santíssima Virgem Maria, a Igreja ou a alma em oração? Ou talvez os três de uma só vez? Como quer que seja interpretado, esse ícone retrata uma atitude básica cristã: a da invocação ou epiclesis, o chamar ou aguardar o Espírito Santo.

Existem três posições principais que podemos assumir com nossas mãos, e cada uma tem seu próprio significado simbólico. Nossas mãos podem estar fechadas, nossos punhos fechados, como um gesto de desafio ou esforço para agarrar e segurar, expressando agressão ou medo. No outro extremo, nossas mãos podem ficar penduradas com indiferença em nossos lados, nem desafiadoras nem receptivas. Ou então, como uma terceira possibilidade, nossas mãos podem ser levantadas como dos Orans, não mais fechadas, mas abertas, não mais indiferentes, mas prontas para receber os dons do Espírito. Uma lição importante sobre o Caminho é entender como descerrar nossos punhos e abrir as mãos. Cada hora e minuto devemos fazer nossa própria ação do Orans: invisivelmente devemos levantar as mãos abertas para os céus, dizendo ao Espírito, Venha.

Todo o objetivo da vida cristã é ser um portador do Espírito, viver no Espírito de Deus, respirar o Espírito de Deus.

O vento e o fogo

Há uma qualidade secreta e oculta do Espírito Santo, o que torna difícil falar ou escrever sobre ele. Como diz São Simeão, o Novo Teólogo:

Ele deriva seu nome daquilo sobre o qual ele descansa,

Pois ele não tem um nome distinto entre os homens.

Em outro lugar São Simeão escreve (não, de fato, como referência específica ao Espírito, mas suas palavras se se aplicam muito bem à terceira pessoa da Trindade):


É invisível, e nenhuma mão pode segurá-lo;

Intangível, e ainda assim pode ser sentido em todos os lugares ...

O que é? Ó maravilha! O que não é? Pois não tem nome.

Na minha tolice, tentei compreendê-lo,

E fechei a mão, pensando que eu o segurava:

Mas escapou, e eu não conseguia mantê-lo em meus dedos.

Cheio de tristeza, abri minhas mãos

E eu o vi novamente na palma da minha mão.

Ó maravilha indescritível! Ó estranho mistério!

Por que nos incomodamos em vão? Por que todos nos deviamos?

Essa elusividade é evidente nos símbolos usados ​​pelas Escrituras para apontar para o Espírito. Ele é como "um vento rápido e forte" (Atos 2: 2): o próprio título "Espírito" (em grego, pneuma) significa vento ou respiração. Como Jesus diz a Nicodemos: "O vento (ou espírito) assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai" (João 3: 8). Nós sabemos que o vento está ali, ouvimos ele nas árvores quando acordamos à noite, nós sentimos em nossas faces quando caminhamos nas colinas.   Mas se tentarmos agarrá-lo e segurá-lo em nossas mãos, nós o perdemos. Assim é com o Espírito de Deus. Não podemos pesar e medir o Espírito, ou mantê-lo em uma caixa sob chave e cadeado. Em um de seus poemas, Gerard Manley Hopkins compara a Santíssima Virgem Maria ao ar que respiramos: a mesma analogia pode ser aplicada igualmente ao Espírito. Como o ar, o Espírito é fonte de vida, "presente em todos os lugares e preenchendo todas as coisas", sempre ao nosso redor, sempre dentro de nós. Assim como o ar permanece invisível para nós, mas atua como o meio pelo qual vemos e ouvimos outras coisas, assim o Espírito não nos revela sua própria face, mas nos mostra sempre a face de Cristo.

Na Bíblia, o Espírito Santo também é comparado ao fogo. Quando o Paráclito desce sobre os primeiros cristãos no dia de Pentecostes, está em "línguas repartidas, como que de fogo" (Atos 2: 3). Como o vento, o fogo é evasivo: vivo, livre, sempre em movimento, não podendo ser medido, pesado ou constrangido dentro de limites estreitos. Sentimos o calor das chamas, mas não podemos agarrá-las e mantê-las em nossas mãos.

Tal é o nosso relacionamento com o Espírito. Estamos conscientes de sua presença, conhecemos seu poder, mas não podemos facilmente imaginar a pessoa dele. A segunda pessoa da Trindade tornou-se encarnada, vivendo na terra como homem; os Evangelhos nos contam suas palavras e ações, sua face nos olha nos ícones sagrados, e por isso não é difícil imaginá-lo em nossos corações. Mas o Espírito não se encarnou; Sua pessoa divina não nos é revelada de forma humana. No caso da segunda pessoa da Trindade, o termo "geração" ou "nascer", empregado para indicar sua origem eterna do Pai, transmite a nossa mente uma idéia distinta, um conceito específico, embora nós percebamos que esse conceito não deve ser interpretado literalmente. Mas o termo usado para denotar o relacionamento eterno do Espírito com o Pai, "procissão" ou "proceder", não traz uma idéia clara e distinta. É como um hieróglifo sagrado, apontando para um mistério ainda não revelado. O termo indica que a relação entre o Espírito e o Pai não é a mesma que entre o Filho e o Pai; mas qual é a natureza exata da diferença, não nos é dito. Isso é inevitável, pois a ação do Espírito Santo não pode ser definida verbalmente. Tem que ser vivida e experimentada diretamente.

No entanto, apesar desta qualidade arcana no Espírito Santo, a tradição ortodoxa ensina firmemente duas coisas sobre ele. Primeiro, o Espírito é uma pessoa. Ele não é apenas uma "assopro divino" (como uma vez ouvi alguém descrevê-lo), não apenas uma força insensível, mas uma das três pessoas eternas da Trindade; e assim, por toda a sua aparente dificuldade, podemos e entramos em um relacionamento pessoal 'Eu-Tu' com ele. Em segundo lugar, o Espírito, como terceiro membro da Tríade Sagrada, é co-igual e co-eterno com os outros dois; ele não é meramente uma função dependente deles ou um intermediário que eles empregam. Uma das principais razões pelas quais a Igreja Ortodoxa rejeita a adição latina do filioque ao Credo, como também o ensinamento ocidental sobre a "dupla procissão" do Espírito que está por trás dessa adição, é precisamente o nosso medo de que tal ensino possa levar os homens a despersonalizar e subordinar o Espírito Santo.

A coeternidade e a co-igualdade do Espírito é um tema recorrente nos hinos ortodoxos para a Festa de Pentecostes:

O Espírito Santo para sempre foi, é, e será;

Ele não tem começo nem fim,

Mas ele está sempre unido e contado com o Pai e o Filho:

Vida e Doador da Vida,

Luz e Doador da Luz,

O próprio amor e fonte de amor:

Através dele, o Pai é conhecido,

Através dele, o Filho é glorificado e revelado a todos.

Um é o poder, um é a estrutura,

Um é a adoração a Santíssima Trindade.


O Espírito e o Filho

Entre as "duas mãos" do Pai, seu Filho e seu Espírito, existe uma relação recíproca, um vínculo de serviço mútuo. Muitas vezes, existe uma tendência para expressar a inter-relação entre os dois de uma maneira unilateral que obscurece essa reciprocidade. Cristo, diz-se, vem primeiro; então, depois de sua Ascensão ao céu, ele envia o Espírito no Pentecostes. Mas, na realidade, as ligações mútuas são mais complexos e mais equilibrada. Cristo nos envia o Espírito, mas ao mesmo tempo é o Espírito que envia Cristo. Lembremo-nos e desenvolvamos alguns dos padrões trinitários descritos acima.

1. Encarnação. Na Anunciação, o Espírito Santo desce sobre a Virgem Maria, e ela concebe o Logos: de acordo com o Credo, Jesus Cristo foi "encarnado do Espírito Santo e da Virgem Maria". Aqui é o Espírito que está enviando Cristo para o mundo.

2. Batismo. A relação é a mesma. Quando Jesus levanta-se das águas do Jordão, o Espírito desce sobre ele na forma de uma pomba: assim é o Espírito que "comanda" Cristo e o envia para o seu ministério público. Isso é bastante claro nos incidentes que se seguem imediatamente após o batismo. O Espírito leva Cristo ao deserto (Marcos 1:12), para passar por um período de testes de quarenta dias antes de começar a pregar. Quando Cristo retorna no final desta luta, é "no poder do Espírito" (Lucas 4:14). As primeiras palavras de sua pregação se referem diretamente ao fato de que é o Espírito que o está enviando: ele lê Isaías 61: 1, aplicando o texto para si mesmo: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres." (Lucas 4:18). Seu título "Cristo" ou "Messias" significa precisamente que ele é o ungido pelo Espírito Santo.

3. Transfiguração. Mais uma vez, o Espírito desce sobre Cristo, desta vez não na forma de uma pomba, mas como uma nuvem de luz. Assim como o Espírito enviou anteriormente Jesus para o deserto e depois para a sua pregação pública, então agora o Espírito o envia para seu "êxodo" ou morte sacrificial em Jerusalém (Lucas 9:31).

4. Pentecostes. A relação mútua é aqui revertida. Até então, foi o Espírito que envia Cristo: agora é o Cristo ressuscitado que envia o Espírito. Pentecostes constitui o objetivo e a conclusão da Encarnação: nas palavras de São Atanásio, "O Logos tomou a carne, para que possamos receber o Espírito".

5. A vida cristã. Mas a reciprocidade das "duas mãos" não termina aqui. Assim como o Espírito envia o Filho à Anunciação, o Batismo. e a Transfiguração, e assim como o Filho, por sua vez, envia o Espírito no Pentecostes, assim, depois do Pentecostes, a tarefa do Espírito é testemunhar Cristo, tornando o Senhor ressuscitado sempre presente entre nós. Se o objetivo da Encarnação é o envio do Espírito no Pentecostes, o Pentecostes é a continuação da Encarnação de Cristo dentro da vida da Igreja. Isto é precisamente o que o Espírito faz na epiclesis na consagração Eucarística; e esta epiclesis consagrada serve como modelo e paradigma para o que está acontecendo ao longo de toda a nossa vida em Cristo.

"Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles"(Mateus 18:20). Como está Cristo presente em nosso meio? Através do Espírito Santo. "Eis que estou contigo sempre, até o fim do mundo" (Mateus 28:20). Como Cristo está sempre conosco? Através do Espírito Santo. Por causa da presença do Consolador em nosso coração, não conhecemos simplesmente Cristo na quarta ou quinta mão, como uma figura distante de há muito tempo, sobre quem nós possuímos informações factuais através de registros escritos; mas o conhecemos diretamente, aqui e agora, no presente, como nosso Salvador pessoal e nosso amigo. Com o apóstolo Tomé podemos afirmar: "Meu Senhor e meu Deus" (João 20:28). Nós não dizemos meramente: "Cristo nasceu" - uma vez, muito tempo atrás; nós dizemos "Cristo nasce" - agora, neste momento, no meu próprio coração. Nós não dizemos apenas "Cristo morreu", mas "Cristo morreu por mim". Nós não dizemos meramente: "Cristo ressuscitou", mas "Cristo verdadeiramente ressuscitou" [1] - ele vive agora, para mim e em mim. Este imediatismo e objetividade pessoal em nosso relacionamento com Jesus é precisamente a obra do Espírito.

O Espírito Santo, então, não nos fala sobre si mesmo, mas ele nos fala sobre Cristo. "Quando vier o Espírito da verdade", diz Jesus na Última Ceia, "ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo ... Ele tomará o que é meu e o mostrará "(João 16: 13-14). Aqui está o motivo do anonimato ou, mais exatamente, a transparência do Espírito Santo: ele aponta, não para si mesmo, mas para o Cristo ressuscitado.

O Dom do Pentecostal 

Sobre o dom do Paráclito no dia de Pentecostes, três coisas são particularmente impressionantes:

Primeiro, é um dom para todo o povo de Deus: "Todos foram preenchidos com o Espírito Santo" (Atos 2: 4). O dom ou carisma do Espírito não é conferido apenas aos bispos e clérigos, mas a cada um dos batizados. Todos são portadores do Espírito, todos são - no sentido próprio da palavra - "carismáticos".

Em segundo lugar, é um dom de unidade: "Todos estavam todos reunidos no mesmo lugar" (Atos 2: 1). O Espírito Santo faz com que os muitos sejam um Corpo em Cristo. A descida do Espírito no Pentecostes inverte o efeito da torre de Babel (Gênesis 11: 7). Como dizemos em um dos hinos para a festa de Pentecostes:

Quando o Altíssimo desceu e confundiu as línguas,

Ele dividiu as nações;

Mas quando distribuiu línguas de fogo,

Ele chamou todos à unidade.

Portanto, com uma só voz, glorificamos o Espírito Santo.

O Espírito traz unidade e compreensão mútua, permitindo-nos falar "com uma só voz". Ele transforma indivíduos em pessoas. Da primeira comunidade cristã em Jerusalém, no período imediatamente posterior ao Pentecostes, afirma-se que "tinham todas as coisas em comum" e estavam "unidos em coração e alma" (Atos 2:44; 4:32); e essa deve ser a marca da comunidade pentecostal da Igreja em todas as épocas.

Em terceiro lugar, o dom do Espírito é um dom da diversidade: as línguas de fogo estão "repartidas" ou "divididas" (Atos 2: 3), e elas são distribuídas diretamente a cada um. O Espírito Santo não só faz de nós um só, mas ele nos faz cada um diferente. No Pentecostes, a multiplicidade de línguas não foi abolida, mas deixou de ser uma causa de separação; cada um falou como antes, em sua própria língua, mas pelo poder do Espírito cada um podia entender os outros. Para que eu seja um portador do Espírito devo realizar todas as características distintivas da minha personalidade; é tornar-se verdadeiramente livre, verdadeiramente eu mesmo na minha singularidade. A vida no Espírito possui uma variedade inesgotável; é o agir errado, não a santidade, que é chato e repetitivo. Como um amigo meu, um sacerdote que passou muitas horas a cada dia ouvindo confissões, costumava observar com cansaço: "Que pena não haja novos pecados!" Mas sempre há novas formas de santidade.

Pais no Espírito e os Tolos 

Na tradição ortodoxa, a ação direta do Paráclito dentro da comunidade cristã é bastante evidente em duas figuras "portadoras de Espírito": o ancião ou pai espiritual, e o tolo em Cristo.

O ancião ou "velho", conhecido em grego como geron e em russo como starets, não necessariamente velho em anos, mas ele é sábio em sua experiência da verdade divina e abençoado com a graça da "paternidade no Espírito" , com o carisma de orientar os outros no Caminho.  O que ele oferece aos seus filhos espirituais não é primariamente instruções morais ou uma regra de vida, mas um relacionamento pessoal. "O starets", diz Dostoiévski, "é aquele que leva a sua alma, sua vontade, à alma e à vontade dele". Os discípulos do Pe. Zacarias diziam sobre ele: "Era como se ele estivesse com nossos corações em suas mãos."

O starets é um homem de paz interior, de cujo lado milhares podem encontrar a salvação. O Espírito Santo deu-lhe, como fruto de sua oração e abnegação, o dom do discernimento ou da discriminação, permitindo-lhe ler os segredos dos corações dos homens; e, assim, ele responde, não apenas as questões que os outros colocam, mas também as questões - muitas vezes muito mais fundamentais - que nem sequer pensaram em perguntar. Combinado com o dom do discernimento, ele possui o dom da cura espiritual - o poder de restaurar as almas dos homens, e às vezes também seus corpos. Esta cura espiritual que ele fornece, não só por meio de suas palavras de conselho, mas por seu silêncio e sua própria presença. Embora seja importante o seu conselho, muito mais importante é sua oração de intercessão. Ele torna seus filhos plenos orando constantemente por eles, identificando-se com eles, aceitando suas alegrias e dores como suas, levando em seus ombros o fardo de culpa ou ansiedade deles. Ninguém pode ser um starets se não orar insistentemente pelos outros.

Se o starets é um padre, geralmente seu ministério de direção espiritual está intimamente ligado ao sacramento da confissão. Mas um starets no sentido pleno, como descrito por Dostoiévski ou exemplificado pelo P. Zachariah, é mais do que apenas um padre-confessor. A starets no sentido pleno não pode ser nomeado por qualquer autoridade superior. O que acontece é simplesmente que o Espírito Santo, falando diretamente aos corações do povo cristão, deixa claro que essa ou aquela pessoa foi abençoada por Deus com a graça de guiar e curar os outros. O verdadeiro starets é, nesse sentido, uma figura profética, não uma autoridade institucional. Embora seja mais comum um padre-monge, ele também pode ser um pároco casado, ou então um monge leigo não ordenado como padre, ou mesmo - mas isso é menos frequente - uma freira ou um leigo mulher ou homem que vive no mundo. Se o starets não é ele próprio um padre, depois de ouvir os problemas das pessoas e oferecer conselhos, ele enviará freqüentemente a um padre para a confissão sacramental e a absolvição.

A relação entre o filho e o pai espiritual varia muito. Alguns visitam um starets talvez apenas uma ou duas vezes na vida, em um momento de crise especial, enquanto outros estão em contato regular com seus starets, vendo-o mensalmente ou mesmo diariamente. Nenhuma regra pode ser estabelecida antecipadamente; a associação cresce por si mesma sob a orientação imediata do Espírito.

Sempre o relacionamento é pessoal. Os starets não aplicam regras abstratas aprendidas de um livro - como na "casuística" do catolicismo da contra-reforma - mas ele vê em cada ocasião esse homem ou mulher particular que está diante dele; e, iluminado pelo Espírito, ele procura transmitir a vontade única de Deus especificamente para essa pessoa. Porque os verdadeiros starets entende e respeita o caráter distintivo de cada um, ele não suprime sua liberdade interior, mas a reforça. Ele não busca suscitar uma obediência mecânica, mas conduz seus filhos ao ponto de maturidade espiritual, onde eles podem decidir por si mesmos. Para cada um, ele mostra a face verdadeira deles, que antes estava em grande parte escondido dessa pessoa; e sua palavra é criativa e vivificante, permitindo que o outro realize tarefas que antes pareciam impossíveis. Mas tudo isso, o starets pode alcançar apenas porque ele ama cada um pessoalmente. Além disso, o relacionamento é mútuo: o starets não pode ajudar outro, a menos que o outro deseje seriamente mudar seu modo de vida e abrir seu coração em confiança amorosa para os starets. Aquele que vai ver um starets em um espírito de curiosidade crítica provavelmente retornará com as mãos vazias, sem ser impressionado.

Porque o relacionamento é sempre pessoal, um starets específico não pode ajudar todos de forma igual. Ele pode ajudar apenas aqueles que são especificamente enviado a ele pelo Espírito. Do mesmo modo, o discípulo não deve dizer: "O meu starets é melhor do que todos os outros". Ele deveria dizer apenas: "Meu starets é o melhor para mim".

Ao orientar os outros, o pai espiritual espera a vontade e a voz do Espírito Santo. "Dou apenas o que Deus me diz para dar", disse diz Serafim. "Eu acredito na primeira palavra que me vem inspirar pelo Espírito Santo". "Eu acredito que a primeira palavra que me vem seja inspirada pelo Espírito Santo." Obviamente, ninguém tem o direito de agir desta maneira, a menos que, através do esforço e da oração ascética, tenha alcançado uma consciência excepcionalmente intensa da presença de Deus. Para qualquer um que não tenha atingido este nível, tal comportamento seria presunçoso e irresponsável.

Pe. Zacarias fala nos mesmos termos que São Serafim:

Às vezes, o homem não conhece o que ele dirá. O próprio Senhor fala através dos seus lábios. É preciso orar assim: "Senhor, viva em mim, que você fale através de mim, que você possa agir através de mim". Quando o Senhor fala através dos lábios de um homem, todas as palavras desse homem são eficazes e tudo que é falado por ele é cumprido. O homem que fala fica ele próprio surpreso com isso... Só que não se deve contar com a sabedoria..

A relação entre pai e filho espiritual se estende além da morte até o Juízo Final. O Pe. Zacarias tranquilizou seus seguidores: "Depois da morte, eu estarei muito mais vivo do que estou agora, então não se aflija quando eu morrer... No dia do julgamento, o ancião dirá: 'Aqui estou eu e meus filhos'".  São Serafim pediu que essas palavras notáveis fossem inscritas em sua lápide:

Quando eu morrer, venha a mim no meu túmulo, e quanto mais frequentemente melhor. Seja o que estiver em sua alma, seja o que for que aconteceu com você, venha até mim como quando eu estava vivo e, ajoelhada no chão, expulse toda a sua amargura no meu túmulo. Diga-me tudo e eu vou ouvir você, e toda a amargura vai se afastar de você. Como você falou comigo quando eu estava vivo, faça o mesmo agora. Porque eu estou vivendo, e será para sempre.

Nem todos os ortodoxos possuem um pai espiritual próprio. O que devemos fazer se nós buscamos um guia e não conseguimos encontrar um?  É óbvio que é possível aprender com os livros: quer tenhamos ou não um starets, olhamos para a Bíblia como orientação constante. Mas a dificuldade com os livros é saber exatamente o que me é aplicável pessoalmente, neste ponto específico da minha jornada. Além dos livros, e também da paternidade espiritual, há também fraternidade ou irmandade espiritual - a ajuda que nos é dada, não pelos mestres em Deus, mas pelos nossos irmãos discípulos. Não devemos negligenciar as oportunidades oferecidas a nós nesta forma. Mas aqueles que se comprometem seriamente com o Caminho devem, além disso, fazer todos os esforços para encontrar um pai no Espírito Santo. Se eles procurarem humildemente, a eles sem dúvida será dado a orientação que exigem. Não é que eles frequentemente irão encontrar starets como São Serafim ou Pe. Zacarias. Devemos tomar cuidado pois, com nossa expectativa por algo exteriormente mais espetacular, ignoramos a ajuda que Deus realmente está nos oferecendo. Alguém que, nos olhos dos outros, não é interessante, talvez seja o único pai espiritual que pode falar comigo, pessoalmente, as palavras de fogo que, acima de tudo, preciso ouvir.

Um segundo profético portador do Espírito dentro da comunidade cristã é o tolo em Cristo, chamado pelos gregos salos e pelos russos iurodivyi. Normalmente, é difícil descobrir até que ponto sua "loucura" é conscientemente e deliberadamente assumida, e até que ponto é espontânea e involuntária. Inspirado pelo Espírito, o tolo carrega o ato de metanoia ou "mudança de mente" em sua extensão máxima. Mais radicalmente do que qualquer outra pessoa, ele ergue a pirâmide de ponta cabeça. Ele é um testemunho vivo da verdade de que o reino de Cristo não é deste mundo; ele atesta a realidade do "anti-mundo", para a possibilidade do impossível. Ele pratica uma pobreza voluntária absoluta, identificando-se com o Cristo humilhado. Como diz Iulia de Beausobre: ​​"Ele é filho de ninguém, irmão de ninguém, pai de ninguém, e não tem casa". Renunciando a vida familiar, é o viajante ou o peregrino que se sente igualmente em casa em todos os lugares, mas que não se estabelece em lugar algum. Vestido em andrajos, mesmo no frio do inverno, dormindo em um galpão ou na frente da igreja, ele renuncia não só a bens materiais, mas também o que os outros consideram como sua sanidade e equilíbrio mental. Contudo, ele se torna um canal para a sabedoria elevada do Espírito.

Ser tolo por Cristo, desnecessário dizer, é uma vocação extremamente rara; tampouco é fácil distinguir a imitação do genuíno, quem rompe as barreiras de quem cai sob seu peso.. Há, no final, apenas um teste: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7:20). O falso tolo é inútil e destrutivo, para si mesmo e para os outros. O verdadeiro tolo em Cristo, possuindo pureza de coração, tem sobre a comunidade ao seu redor um efeito que é potencializador da vida. Do ponto de vista prático, nenhum objetivo útil é servido por qualquer coisa que o tolo faz. E, no entanto, através de uma ação surpreendente ou uma palavra enigmática, muitas vezes deliberadamente provocativa e chocante, ele desperta os homens da complacência e do farisaísmo. Permanecendo separado, ele desencadeia reações nos outros, fazendo subir o subconsciente à superfície e permitindo que seja purgado e santificado. Ele combina audácia com humildade. Por ter renunciado tudo, ele é verdadeiramente livre. Como o tolo Nicolas de Pskov, que colocou nas mãos de Tsar Ivan o Terrível um pedaço de carne pingando sangue, ele pode repreender os poderosos deste mundo com uma ousadia que outros não têm. Ele é a consciência viva da sociedade.

Torne-se o que você é

Apenas alguns cristãos em cada geração se tornam anciãos, e ainda menos se tornam tolos em Cristo. Mas todos os batizados sem exceção são portadores do Espírito. "Você não percebe ou entende sua própria nobreza?", pergunta as Homilias de São Macário.

"... Cada um de vocês foi ungido com o crisma celestial, e tornou-se um Cristo pela graça; cada um é rei e profeta dos mistérios celestes ."

O que aconteceu com os primeiros cristãos no dia do Pentecostes acontece também a cada um de nós quando, imediatamente após o nosso Batismo, estamos na prática ortodoxa ungida com Crisma, ou Myron. (Este, o segundo sacramento da iniciação cristã, corresponde à Confirmação na tradição ocidental.) O recém-batizado, criança ou adulto, é marcado pelo sacerdote na testa, olhos, narinas, boca, orelhas, peito, mãos e pés, com as palavras: 'O selo do dom do Espírito Santo'. Isso é, para cada pessoa, um Pentecostes pessoal: o Espírito, que desce visivelmente sobre os Apóstolos em línguas de fogo, desce sobre cada um de nós de forma invisível, não com menos realidade e poder. Cada um se torna um "ungido", um "Cristo" segundo a semelhança de Jesus, o Messias. Cada um é selado com o charismata do Consolador. Desde o momento do nosso Batismo e Crismação, o Espírito Santo, juntamente com Cristo, vem morar no santuário mais íntimo do nosso coração. Embora digamos ao Espírito 'Venha', ele já está dentro de nós.

Por mais descuidados e indiferentes que os batizados possam ser em sua vida subsequente, esta presença permanente do Espírito nunca é totalmente retirada. Mas a menos que cooperemos com a graça de Deus - a menos que, através do exercício da nossa livre vontade, nos esforcemos para realizar os mandamentos - é provável que a presença do Espírito dentro de nós permaneça escondida e inconsciente. Como peregrinos no Caminho, então, é nosso propósito avançar do estágio onde a graça do Espírito está presente e ativa dentro de nós de forma oculta, até o ponto de percepção consciente, quando conhecemos o poder do Espírito abertamente, diretamente, com a plena percepção de nosso coração. "Eu vim lançar fogo à terra", disse Cristo, "e quem me dera que já estivesse a arder!" (Lucas 12:49). A centelha Pentecostal do Espírito, existente em cada um de nós do Batismo, deve ser acesa em uma chama viva. Devemos nos tornar o que somos.

"O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, gentileza ..." (Gálatas 5:22). A percepção consciente da ação do Espírito deve ser algo que permeia toda a nossa vida interior. Não é necessário que todos sejam submetidos a uma "experiência de conversão" impressionante. Ainda menos é necessário que todos "falem em línguas". A maioria das opiniões ortodoxas contemporâneas veem com grande reserva aquela parte do "Movimento Pentecostal" que trata as "línguas" como a prova decisiva e indispensável de que alguém é verdadeiramente um portador do Espírito. O dom das línguas era, é claro, freqüente na era apostólica; mas desde meados do segundo século tem sido muito menos comum, embora nunca tenha desaparecido inteiramente. Em qualquer caso, São Paulo insiste que este é um dos mais importantes dos dons espirituais (ver 1 Coríntios 14: 5).

Quando é genuinamente espiritual, 'falar em línguas' parece representar um ato de 'libertação' - o momento crucial na quebra da nossa auto-confiança pecaminosa, e sua substituição por uma vontade de permitir que Deus atue dentro de nós.

Na tradição ortodoxa, este ato de "deixar-ir" toma mais freqüentemente a forma do dom das lágrimas. "Lágrimas", diz São Isaac o Sírio, "marcam a fronteira entre o estado corporal e o espiritual, entre o esado de sujeição às paixões e o da pureza". E em uma passagem memorável, ele escreve: 

Os frutos do homem interior começam apenas com o derramar das lágrimas. Quando você chega no local das lágrimas, então saiba que seu espírito saiu da prisão deste mundo e pôs o pé no caminho que conduz à Nova Era. Seu espírito começa neste momento a respirar o ar maravilhoso que está lá, e começa a derramar lágrimas. O momento para o nascimento do filho espiritual está próximo e o trabalho de parto torna-se intenso. A graça, a mãe comum de todos nós, apressa-se a misticamente dar à luz a alma, a imagem de Deus, trazendo-a para a luz da Era por vir. E quando a hora para o nascimento chega, o intelecto começa a sentir algo das coisas daquele outro mundo - como um fraco perfume, ou como o sopro da vida que um recém-nascido recebe no seu corpo. Mas nós não estamos acostumados a essa experiência e, achando difícil de suportar, nosso corpo é subitamente tomado por um choro misturado com alegria. 

Há, no entanto, muitos tipos de lágrimas, e nem todas são um dom do Espírito. Além das lágrimas espirituais, há lágrimas de raiva e frustração, lágrimas derramadas por autocomiseração, lágrimas sentimentais e emocionais. O discernimento é necessário; daí a importância de buscar a ajuda de um guia espiritual experiente, um starets. O discernimento é ainda mais necessário no caso de 'línguas'. Muitas vezes, não é o Espírito de Deus que está falando através das línguas, mas o espírito demasiado humano de auto-sugestão e histeria em massa. Há até mesmo ocasiões em que "falar em línguas" é uma forma de possessão demoníaca. "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus" (1 João 4: 1).

A ortodoxia, portanto, enquanto insiste na necessidade de uma experiência direta do Espírito Santo, insiste também na necessidade de discriminação e sobriedade. Nosso choro, e também a nossa participação nos outros dons do Espírito, precisam ser purificados de toda a fantasia e excitação emocional. Os dons que são genuinamente espirituais não devem ser rejeitados, mas nunca devemos perseguir tais dons como um fim em si mesmos. Nosso objetivo na vida de oração não é obter sentimentos ou experiências "sensíveis" de qualquer tipo, mas simplesmente e unicamente conformar a nossa vontade à vontade de Deus. "Pois que não busco o que é vosso, mas sim a vós", diz São Paulo aos Coríntios (2 Coríntios 12:14); e dizemos o mesmo a Deus. Procuramos não os dons, mas o doador.



Notas:
[1] N.T.: No original há "We do not say merely, ‘Christ rose’, but ‘Christ is risen’ — he lives now, for me and in me." O autor enfatiza a diferença entre "rose" e "is risen", onde "rose" dá uma ideia de algo concluído no passado, enquanto "is risen" continua no presente.