sábado, 17 de agosto de 2019

O dogma católico romano da Imaculada Conceição

Nenhum dos antigos Santos Padres diz que Deus, de maneira miraculosa, purificou a Virgem Maria enquanto ainda estava no ventre; e muitos indicam diretamente que a Virgem Maria, assim como todos os homens, suportara uma batalha contra o pecado, mas foi vitoriosa sobre as tentações e foi salva por Seu Divino Filho.
São João Maximovitch (A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus)

A Igreja Ortodoxa, que exalta imensamente a Mãe de Deus em seus hinos de louvor, não se atreve a atribuir-lhe aquilo que não foi comunicado sobre Ela pela Sagrada Escritura ou Tradição.

O ensino de que a Mãe de Deus foi purificada antes de Seu nascimento, para que dela possa nascer o Puro Cristo, não tem sentido; porque se o Puro Cristo pudesse nascer somente se a Virgem tivesse nascido pura, seria necessário que Seus pais também fossem puros do pecado original, e eles novamente teriam que nascer de pais purificados, e indo mais longe nesta lógica, alguém chegaria à conclusão de que Cristo não poderia ter se encarnado, a menos que todos os Seus antepassados na carne, até Adão inclusive, tivessem sido purificados de antemão do pecado original. Mas então não teria havido necessidade da própria encarnação de Cristo, visto que Cristo desceu à terra para aniquilar o pecado.
São João Maximovitch (A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus)

A doutrina sobre a ausência de pecado concedida por graça à Virgem Maria nega Sua vitória sobre as tentações, uma vitória que é digna de ser coroada com coroas de glória, e isto faz d'Ela um instrumento cego da Providência Divina.
São João Maximovitch (A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus)


Este dom que foi concedido a Ela pelo Papa Pio IX, e por todos que pensam na possibilidade de glorificar a Mãe de Deus ao buscar novas verdades, não promove uma exaltação ou uma glória maior, mas um rebaixamento d'Ela. A Santíssima Virgem Maria foi muito glorificada pelo próprio Deus, Sua vida na terra é tão exaltada quanto Sua glória no céu, de modo que nenhuma invenção humana poderia acrescentar mais glória e honra a Ela. Aquilo que as pessoas inventam apenas obscurece diante de seus olhos a face d'Ela. Vede que ninguém vos faça presa por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo, escreveu o apóstolo Paulo pelo Espírito Santo (Col 2,8).
São João Maximovitch (A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus)

“De todos os nascidos de mulheres, não há um único que seja perfeitamente santo, além do Senhor Jesus Cristo, que em um novo modo especial de nascimento imaculado, não experimentou mácula terrena”
Santo Ambrósio, Comentário sobre Lucas, cap. 2.

“Um só homem, o Intermediário entre Deus e o homem, está livre dos laços do nascimento pecaminoso, porque nasceu de uma virgem e porque ao nascer não experimentou o toque do pecado”
Santo Ambrósio, Contra Juliano, Livro 2.

“Agora estou temeroso, vendo que alguns de vocês desejaram mudar a condição de importantes matérias, introduzindo um festival novo e desconhecido na Igreja, não aprovado pela razão, injustificado pela antiga tradição. Somos nós realmente mais instruídos e pios que nossos padres? Vocês dirão, 'Deve-se glorificar a Mãe de Deus tanto quanto possível.' Isso é verdade; mas a glorificação oferecida à Rainha do Céu exige discernimento. Esta Virgem Real não precisa de falsas glorificações, possuindo como Ela possui verdadeiras coroas de glória e sinais de dignidade. Glorifiquem a pureza de Seu corpo e a santidade de Sua vida. Maravilhem-se com a abundância de dons desta Virgem, venerem Seu Divino Filho; exaltem Ela Que concebeu sem conhecer concupiscência e deu à luz sem conhecer a dor. Mas o que ainda é necessário adicionar a estas dignidades? O povo diz que deve-se reverenciar a concepção que precedeu ao nascimento glorioso; porque se a concepção não houvesse precedido-o, o nascimento também não seria glorioso. Mas o que aconteceria se alguém dissesse que, pelo mesmo motivo, deveria haver o mesmo tipo de veneração ao pai e à mãe da Santa Maria? Alguém poderia igualmente desejar o mesmo para Seus avós e bisavós, ao infinito. Além disso, como não haveria pecado num lugar em que houve concupiscência? Que alguém não diga que a Santa Virgem foi concebida pelo Espírito Santo e não por um homem. Eu digo decisivamente que o Espírito Santo desceu sobre Ela, mas não que Ele veio com Ela.”
Bernardo de Claraval (Santo Católico Romano pós-cisma) 

“Eu afirmo que a Virgem Maria não poderia ser santificada antes de Sua concepção, já que Ela não existia. Se, além disso, Ela não pudesse ser santificada no momento de Sua concepção devido ao pecado que é inseparável da concepção, então só resta acreditar que Ela foi santificada depois de ter sido concebida no ventre de Sua mãe. Esta santificação, se ela aniquila o pecado, torna santo Seu nascimento, mas não Sua concepção. A ninguém é dado o direito de ser concebido em santidade, pois apenas o Senhor Cristo foi concebido pelo Espírito Santo e somente Ele é santo desde Sua exata concepção. Exceto Ele, faz-se necessário reiterar a todos os descendentes de Adão o que um deles afirma sobre si mesmo, em reconhecimento da verdade e pleno de um espírito de humildade: Eis que em iniquidades fui concebido (Sal 50,7). Como alguém pode exigir que esta concepção seja santa, quando não foi obra do Espírito Santo, para não mencionar que ela vem da concupiscência? A Santa Virgem, claro, rejeita aquela glória que, evidentemente, glorifica o pecado. Ela não pode, de modo algum, justificar uma novidade inventada apesar da doutrina da igreja, uma novidade que é a mãe da imprudência, a irmã da descrença e a filha da irreflexão.” 
Bernardo de Claraval (Santo Católico Romano pós-cisma, Epístola 174) 

“Não há ninguém sem mácula perante Ti, nem que sua vida tenha durado apenas um dia, Tu sozinho salvas, Jesus Cristo nosso Deus, Que apareceste na terra sem pecado, e através de Quem nós todos confiamos obter a misericórdia e a remissão dos pecados”
(São Basílio, o Grande, Terceira Oração das Vésperas de Pentecostes).

"E no que se refere à excelente dignidade de Cristo, que Ele é o Redentor e Salvador de todos, e que Ele abre a porta para todos, e que somente Ele morreu por todos, a Virgem Maria não está excluída desta generalidade... E assim a mãe atesta, que deseja que o Filho seja mais exaltado e honrado do que ela mesma, o Criador que a criatura ".
Boaventura (Santo Católico Romano pós-cisma) 

Não é à toa que a Igreja Ortodoxa, em seus textos litúrgicos, chama David “o ancestral de Deus” e dá o mesmo nome de “ancestrais santos e justos de Deus” para Joaquim e Anna. O dogma católico romano da Imaculada Conceição parece romper esta sucessão ininterrupta de santidade do Antigo Testamento, que atinge seu cumprimento no momento da Anunciação, quando o Espírito Santo desceu sobre a Virgem para fazê-la apta a receber a Palavra do Pai em seu ventre. A Igreja Ortodoxa não admite a exclusão da Santíssima Virgem do resto da humanidade caída - a ideia de um "privilégio" que a torna um ser resgatado antes da obra redentora, em virtude dos futuros méritos de seu Filho.  
Vladimir Lossky (Panagia: a Toda-Santa

A doutrina da Imaculada Conceição, proclamada pelos católicos romanos em 1854, é rejeitada pela Igreja Ortodoxa, mas sem, de modo algum, diminuir a dignidade da Mãe de Deus. De fato, de acordo com os Padres, a herança de Adão não consiste em uma responsabilidade pessoal de todos os homens pelo pecado original, mas simplesmente na herança das conseqüências desse pecado: morte, corrupção e as paixões ... Portanto, os Ortodoxos não têm dificuldade em reconhecer que a Mãe de Deus era herdeira, como nós, das conseqüências do pecado de Adão - somente Cristo foi livre - mas ao mesmo tempo [reconhecer que ela era] pura e sem pecado pessoal, pois ela livremente manteve-se longe de toda atração pelo mundo e pelas paixões, e ela cooperou voluntariamente no desígnio de Deus, obedecendo a Sua vontade com docilidade: "Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra", ela respondeu ao anjo Gabriel (Lucas 1:38). 
(Synaxarion, Vol. II, p. 361)

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Entrevista com o Patriarca Ecumênico Bartolomeu 

Em dezembro de 2004, o jornal do Vaticano Thirty Days publicou uma matéria sobre o 150º aniversário da proclamação romana da Imaculada Conceição como dogma. Como parte disso, eles entrevistaram o Patriarca Ecumênico Bartolomeu sobre o Akathiste Ortodoxo para a Theotokos - uma oração / poema / canção verdadeiramente bela - e de passagem perguntaram a ele sobre o dogma católico romano da Imaculada Conceição. O patriarca disse-lhes educadamente que o dogma estava errado e identificou corretamente suas raízes como sendo da noção [ocidental] do pecado original. É uma breve apresentação da posição ortodoxa:

(Pergunta): A Igreja Católica celebra este ano os cento e cinquenta anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição. Como é que a Tradição Cristã Oriental e a Bizantina celebram a Concepção de Maria e a sua plena e imaculada santidade?

Bartolomeu I: A Igreja Católica achou que precisava instituir um novo dogma para a cristandade cerca de mil e oitocentos anos após o aparecimento do cristianismo, porque havia aceitado um entendimento do pecado original - um entendimento equivocado para nós, Ortodoxos - de acordo com o qual o pecado original transmite uma mácula moral ou uma responsabilidade legal aos descendentes de Adão, em vez [de transmitir aquilo] reconhecido como correto pela fé ortodoxa - segundo o qual o pecado transmitiu através da herança a corrupção, causada pela separação da humanidade da graça incriada de Deus, que o fez viver espiritualmente e na carne. A humanidade moldada à imagem de Deus, com a possibilidade e destino de ser semelhante a Deus, escolhendo livremente o amor para com Ele e obedecendo a seus mandamentos, pode até depois da queda de Adão e Eva tornar-se amigo de Deus segundo a intenção; então Deus os santifica, assim como santificou muitos dos progenitores antes de Cristo, mesmo que a plena realização do resgate da corrupção, isto é, salvação deles, tenha sido atingida depois da encarnação de Cristo e através dEle.

Consequentemente, de acordo com a fé ortodoxa, Maria, a Mãe Santíssima de Deus, não foi concebida como isenta da corrupção do pecado original, mas amava a Deus acima de todas as coisas e obedecia aos seus mandamentos e assim foi santificada por Deus através de Jesus Cristo que encarnou-se a partir dela. Ela obedeceu como dos fiéis e dirigiu-se a Ele com a confiança de uma mãe. Sua santidade e pureza não foram prejudicadas pela corrupção, transmitida a ela pelo pecado original como a todo homem, precisamente porque ela renasceu em Cristo como todos os santos, santificada acima de todos os santos.

Sua restituição à condição anterior à Queda não ocorreu necessariamente no momento de sua concepção. Acreditamos que isso aconteceu depois, como consequência do progresso da ação da graça divina incriada através da visita do Espírito Santo, que causou a concepção do Senhor nela, purificando-a de toda mácula.

Como já foi dito, o pecado original pesa sobre os descendentes de Adão e Eva como corrupção, e não como responsabilidade legal ou mácula moral. O pecado trouxe corrupção hereditária e não uma responsabilidade legal hereditária ou uma mácula moral hereditária. Em conseqüência, a Toda-Santa participou da corrupção hereditária, como toda a humanidade, mas com seu amor a Deus e sua pureza - compreendida como uma dedicação imperturbável e sem hesitação no amor por Deus - ela conseguiu, através da graça de Deus, santificar-se em Cristo e tornar-se digna de se tornar a casa de Deus, como Deus quer que todos nós, seres humanos, nos tornemos.

Portanto, nós, na Igreja Ortodoxa, honramos a Santíssima Mãe de Deus acima de todos os santos, embora não aceitemos o novo dogma de sua Imaculada Conceição. A não aceitação deste dogma não diminui de forma alguma o nosso amor e veneração da Mãe Santíssima de Deus.

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Notas do blog skemmata:

[1] Confira o excelente ensaio do Vladimir Lossky sobre a Imaculada Conceição aqui

[2] Essa exaltação exagerada da Mãe de Deus pelos Católicos Romanos pode levar a doutrinas problemáticas como por exemplo, o título atribuído a Mãe de Deus "Co-Redemptrix" que refere-se ao papel de Maria na redenção de todos os povos. Ou o título de "Mediatrix" (Medianeira de todas as graças), um entendimento de que ela medeia a toda Graça Divina. 

Mais absurdo ainda é o ensinamento do santo católico romano polonês, Maximiliano Kolbe, que fala que Maria é uma "quase-encarnação do Espírito Santo": 

Dwight Campbell explica:
Em outros escritos, o frade polonês tenta descrever a profunda e íntima união de Maria com a Terceira Pessoa da Trindade a partir de sua concepção, chamando Maria de "quase-encarnação" do Espírito Santo. Ele tem o cuidado de enfatizar que essa união "não é da mesma ordem que a união hipostática que une as naturezas humana e divina em Cristo"; pois ele repetia freqüentemente que o Espírito Santo não habita em Maria da mesma maneira em que a Palavra Eterna está presente na sagrada humanidade de Jesus. [...] Com o termo "quase-encarnação" Kolbe significa que Maria é tão semelhante (quase) ao Espírito Santo, que ela reflete a Terceira Pessoa da Trindade, especialmente em duas qualidades ou atributos: receptividade e fecundidade. O Espírito Santo é o fruto do Pai e do Filho. Ele foi "eternamente concebido", se você quiser, como o fruto do amor puríssimo que sempre fluiu entre o Pai e o Filho. Ele recebe o amor mútuo do Pai e do Filho e eternamente o frutifica dentro da vida interior da Trindade. A impecabilidade de Maria desde a concepção é o fruto do amor de Deus. Na concepção de Maria, o Espírito Santo a conformou ela a si mesmo. A Santíssima Virgem, por causa da singular graça da sua Imaculada Conceição, é totalmente receptiva ao amor de Deus. Na Anunciação, ela recebe o amor de Deus e, em cooperação com o Espírito Santo, torna esse amor frutífero - infinitamente - na concepção do Verbo Encarnado.

Note que o ensinamento de Kolbe está intimamente ligado à doutrina do Filioque, a dupla-processão do Espírito Santo:  "O Espírito Santo é o fruto do Pai e do Filho. Ele foi "eternamente concebido", se você quiser, como o fruto do amor puríssimo que sempre fluiu entre o Pai e o Filho."

Campbell cita Kolbe dizendo:
O Espírito Santo manifesta sua parte na palavra da Redenção através da Virgem Imaculada que, embora seja uma pessoa inteiramente distinta dele, está tão intimamente associada a Ele que nossa mente não pode compreender. Assim, enquanto sua união não é da mesma ordem que a união hipostática que une as naturezas humana e divina em Cristo, continua sendo verdade dizer que a ação de Maria é a própria ação do Espírito Santo.

Observe esta afirmação - a ação de Maria é a ação do Espírito Santo. Quão mais próximo de fazer Maria uma quarta pessoa da Trindade poderíamos chegar?

E de novo:
Quando refletimos sobre estas duas verdades: que todas as graças vêm do Pai pelo Filho e pelo Espírito Santo; e que a nossa Santa Madre Maria é, por assim dizer, uma com o Espírito Santo, somos levados à conclusão de que a Santíssima Mãe é de fato o intermediário por quem todas as graças vêm a nós.
Observe como neste esquema Jesus não é mais o mediador de todas as graças, Maria que é. Essa exaltação de Maria não vem somente às custas do Espírito, mas também do Filho.

Dr. Mark Miravalle (professor de teologia e mariologia) aponta que Kolbe chama o Espírito Santo de "Imaculada Conceição incriada". Segundo Miravalle, Kolbe argumenta que o Espírito Santo e Maria são cônjuges (!). Além disso, a alegação é que Maria e o Espírito Santo trabalham juntos para "produzir as graças que conduzem a redenção e o fruto da redenção".

Em uma seção seguinte, Miravalle explica que a melhor analogia é a união hipostática. Kolbe afirma que, como vimos acima, o Espírito Santo "em certo sentido encarnou-se em Maria". De acordo com Miravalle, Kolbe assume a posição de que "se o Espírito Santo se tornasse encarnado, ele seria Maria". Mas vai além disso. Miravalle atribui a Kolbe a ideia de que "o Espírito Santo age apenas através de Maria, sua esposa". Isso, naturalmente, leva à idéia de que Maria é a "mediadora de todas as graças".Todos os atos de Maria são atos do Espírito Santo, mas agora todos os atos do Espírito Santo são atos de Maria. Os dois se tornam funcionalmente indistinguíveis, e novamente Jesus como mediador é deixado de lado.


* O comentário sobre o ensinamento de Maximiliano Kolbe foi baseado neste post (https://turretinfan.blogspot.com/2013/04/mary-quasi-incarnation-of-holy-spirit.html)

[3] Alguma das citações no início do post foram retiradas do livro São João Maximovitch: A Veneração Ortodoxa à Mãe de Deus. O livro pode ser comprado pela editora Theotokos: http://editoratheotokos.com.br/livros.php



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