terça-feira, 25 de abril de 2017

Islã: Através do coração e mente de um convertido ao Cristianismo Ortodoxo [Parte I]


Parte 1 - Parte 2


Kevin: Bem-vindo e obrigado por estar comigo nesta edição do Ancient Faith Today. Você sabe que há muita coisa vindo da mídia recentemente sobre o Islã. Nesta série de duas partes - esta é a primeira parte - discutirei sobre o Islã e as experiências pessoais de um recém convertido a Igreja Ortodoxa. Meu convidado se converteu ao Islã aos 14 anos e mais ou menos 20 anos depois deixou o Islã para se tornar cristão ortodoxo, e eu tenho me comunicado com seu padre por sinal, que confirmou sua história . Meu convidado (que por razões de segurança chamaremos "George" e não revelaremos sua localização ou paróquia) é um americano caucasiano que estudou teologia, história e jurisprudência islâmica em um seminário para se tornar um Imam. Aprendeu a língua árabe e memorizou boa parte do Alcorão em árabe. Assim, nesta primeira parte da entrevista discutiremos a conversão do meu convidado ao Islã, alguns fatos teológicos e históricos sobre o Islã através da mente e do coração de um convertido do Islã para o Cristianismo Ortodoxo. George é muito bom dar-lhe boas-vindas ao Ancient Faith Today.

George: Muito obrigado Kevin. É uma grande bênção estar aqui.
 
Kevin Allen, podcast da rádio-online Ancient Faith
Kevin: Então, como discutimos antes da entrevista, você disse que começou a estudar várias religiões e filosofias já em seus primeiros anos da adolescência. 

George: Sim, eu estudei. Eu pesquisei algumas das tradições espirituais orientais, como o budismo e o hinduísmo. Eu também li um pouco da filosofia grega, em particular a escola do estoicismo. Eu rapidamente perdi o interesse tanto no hinduísmo e budismo. Mesmo para um garoto de 12 ou 13 anos, que era bastante mente aberta, esses dois sistemas de crenças eram distantes demais para mim. As crenças politeístas do hinduísmo e as crenças não-teístas do budismo simplesmente não batiam bem para mim. Eu ainda acreditava e sentia que havia apenas um Deus. 

Kevin: Então por que o Cristianismo não foi nem mesmo uma opção ou interesse para você? 

George: Eu não vi nenhum valor nos tipos de cristianismo que estavam disponíveis para mim. Ou se tratava das imagens dos evangelistas de TV pulando e gritando, dizendo às pessoas que podiam comprar seu caminho para o Reino ou então a constante hipocrisia e auto-retidão das pessoas que eu encontrava todos os dias. Eu não vi no Cristianismo algo para mim ou em qualquer outra pessoa. Depois, havia os problemas que eu tinha com a teologia cristã, como entendia nesse tempo. A Santíssima Trindade era muito confusa, a crucificação e a compreensão ocidental da expiação, parecia nada mais do que um bode expiatório para fazer as pessoas se sentirem melhor sobre suas próprias deficiências e apenas deixá-las de lado, evitando que fizessem qualquer esforço para mudar suas vidas de forma profunda.

Kevin: O que atraiu você ao Islã?

George: Bem, pareceu oferecer alguns absolutos que eu estava procurando, a disciplina. A teologia que eu podia mais facilmente preencher minha mente. Historicamente, não parecia ter a bagagem que o cristianismo carrega como a escravidão, o racismo, o fanatismo, as cruzadas, a inquisição e a intolerância geral que os cristãos têm sido acusados ter através dos séculos. Espiritualmente, parece oferecer uma verdadeira adoração usando a voz, mente e corpo, não apenas agitando seus braços no ar, gritando e cantando. Também há a prática no Islã conhecida como "Dhikr", que literalmente significa lembrar, trazer à mente. Nesta prática, se tenta limpar a mente de tudo, exceto Deus. Através desta prática, recita-se orações repetidamente para auxiliar trazer mais a presença de Deus. Mas é claro que o centro do culto no Islã são as cinco orações diárias que são obrigatórias. 

Kevin: Então, George, você entrou numa mesquita aos 14 anos. Muito incomum, muito cedo. Qual era a composição demográfica da mesquita à qual você se juntou? 

George: Era principalmente de afro-americanos, algumas pessoas do Oriente Médio e alguns descendentes de asiáticos. 

Kevin: Sabe, eu acabei de ler uma pesquisa Pew de alguns anos atrás que dizia que 59% de todos os convertidos ao islamismo nos EUA são afro-americanos. Então gostaria de lhe perguntar sobre isso. Por que você acha que tantos afro-americanos nos EUA se convertem ao islã?

George: Algumas das razões dos conversos afro-americanos são as mesmas razões que me fizeram converter, que eu mencionei anteriormente, e também dos muitos outros que não são afro-americanos. No entanto, acredito que existem razões únicas para as comunidades afro-americanas. Pela experiência que tive, com as pessoas que encontrei e com as quais falei, e apenas das leituras que eu fiz, acho que o Islã tem sido visto como um meio para muitos afro-americanos para re-conectarem com um pedaço de sua cultura de seus antepassados que sentem ter perdido quando foram capturados, escravizados e trazidos para o hemisfério ocidental, sendo sistematicamente despojados de suas tradições e identidade. Tem sido uma forma de se despojar do eurocentrismo que lhes fora imposto. O cristianismo tornou-se sinônimo de opressão e perseguição que os americanos de descendência africana enfrentaram no Ocidente. 

Kevin: Mas não foram os mercadores de escravos muçulmanos que foram para África e depois escravizaram os africanos para vender aos europeus e assim por diante?  

George: Sim, o que é conhecido como o comércio escravo árabe começou no século VII, com a ascensão do império Islamico e durou até o século XX em alguns lugares tais como Arábia Saudita, Somália e o Sudão, onde há ainda relatos de tráfico de escravos até hoje. O comércio de escravos mulçumano-árabe abrangeu uma vasta área, incluindo o África subsaariana e ocidental, que era o principal fornecedor e então  havia a Ásia Central, a região do Mediterrâneo, a Europa Oriental, incluindo as terras dos eslavos. Há relatos de tráfico de escravos que se estendem até ao norte das Ilhas Britânicas e da Islândia. O EUA em seu início foi vítima dos comerciantes muçulmanos - dos conhecidos "Estados Barbary" - estados islâmicos independentes ao longo da costa do norte da África. Algo que gostaria de observar é que na lei islâmica não é permitido escravizar os muçulmanos livres. Portanto, somente os nascidos na escravidão e prisioneiros não-muçulmanos podem serem tomados como escravos. Isso pode explicar o fato de que a grande maioria das pessoas escravizadas eram aquelas que habitavam as regiões que faziam fronteira com o território dos impérios islâmicos e, em particular, os cristãos.  

Kevin: Mas vemos grupos islâmicos radicais como ISIS regularmente sequestrando, escravizando e vendendo mulheres e outras coisas. Esta prática de escravização é aprovada no Alcorão e nos Hadith? 

George: Sim, é. Não é uma noção muito popular, mas é definitivamente sancionada pelo Alcorão e os Hadiths. Grupos como o ISIS enxergam as atrocidades que estão cometendo como uma Guerra Santa e, como tal, todas as mulheres não-muçulmanas capturadas tornam-se sua propriedade, mesmo que essas mulheres sejam casadas. No Alcorão, tais cativos são freqüentemente referidos como "ma malakat aymanukum" ou "o que sua mão direita possui". Uma dessas referências pode ser encontrada no Alcorão na surata ou capítulo 4 versículo 24, que diz: "E também são proibidas todas as mulheres casadas, exceto aquelas que sua mão direita possui. Esta é a ordenança da lei para você."
 
O que eu acabei de citar é parte de uma seção mais longa que fala sobre as mulheres que são legais para o homem ter relações sexuais. Em relação com estes versículos o Hadith, a tradição da vida de Maomé, que dá a razão ou as circunstâncias em que este versículo foi revelado, diz,

"O apóstolo de Allah enviou uma expedição militar para Awtas devido a batalha de Hunain. Eles encontraram seu inimigo e lutaram com eles. Eles os derrotaram e os levaram cativos. Alguns dos Companheiros do apóstolo de Allah estavam relutantes em ter relações sexuais com as mulheres cativas na presença de seus maridos que eram descrentes. Então Deus, o Exaltado, enviou o verso Alcorânico: "E também são proibidas todas as mulheres casadas, exceto aquelas que sua mão direita possui. Esta é a ordenança da lei para você."

E também há outro exemplo que pode ser encontrado no Alcorão, surata 33 versículo 50, onde se está falando através do próprio Maomé pessoalmente. Diz,"Ó Profeta, em verdade, tornamos lícitas, para ti as esposas que tenhas dotado, assim como as que a tua mão direita possui, que Deus tenha feito cair em tuas mãos..."

Eu posso dar muitos mais exemplos, mas acho que você pode ter uma idéia de como o Hadith sancionam as ações dos vícios. É claro que um muçulmano pode argumentar que esses versos e hadith que citei foram eventos históricos específicos para o tempo de Maomé, mas o problema com esse raciocínio é que o Islã compreende o Alcorão como sendo a palavra interna imutável de Deus. Portanto, se todo o Alcorão é o mundo absoluto, perfeito e infalível de Allah, diretamente ditado a Maomé, como ele pode ser específico a um evento ou tempo particular?

Kevin: É interessante o fato de que os afro-americanos compreendam uma porcentagem muito grande daqueles que se convertem ao Islã neste país. Há também uma história afro-cêntrica muito profunda da cristandade bem antes do
Islã , não?
 
George: Sim, existe. Cristianismo teve uma presença muito forte na África desde os primórdios da Igreja. Até mesmo encontra-se no Evangelho de Mateus que o próprio Senhor com a sua Mãe Santíssima e São José fugiram para o Egito. Também tem o etíope que São Filipe encontra no livro de Atos. Alexandria é um dos antigos Patriarcados. Também tem grandes santos como Santo Atanásio, Santo Antônio do Egito, São Moisés Negro, Santa Maria do Egito e Santo Agostinho de Hipona, só para citar alguns.

Eu sinto como se fosse um crime o fato de que tanto dessa rica história do cristianismo na África tenha sido esquecida e até ousaria dizer que intencionalmente descartada pelos cristãos, particularmente nas igrejas ocidentais.  

Kevin: Quais são as diferenças significativas, por exemplo, entre a "Nação do Islã" e os ensinamentos de pessoas como Louis Farrakhan daquilo que se consideraria o islamismo "ortodoxo"?

George: Bem, há muitas coisas para discutir no tempo que temos, mas a diferença mais notável que diria é a crença da Nação do Islã de que o homem negro é Deus, enquanto o homem branco foi geneticamente criado por um cientista louco chamado Yakub, que é o nome árabe de Jacó que é dito ter nascido em Meca e criado uma raça de demônios pálidos "através de experimentos científicos na ilha grega de Patmos", daquilo que sabemos do Novo Testamento. Diz-se que Yakub fez isso depois que ele teve uma briga com Deus. Somente essa crença, sinto que é suficiente para qualquer um entender que a Nação do Islã não é bem-vinda no islamismo ortodoxo.

Kevin: Então os seguidores da Nação do Islã não são realmente considerados muçulmanos ortodoxos?

George: Não, eles não são.

Kevin: Ok. Então, George, voltando à sua história. O que foi necessário para você se tornar oficialmente muçulmano aos 14 anos?

George: Oh, foi muito simples. A recitação do que é conhecido como Shahada ou a declaração de que não há Deus senão Alá e Maomé é o seu mensageiro.

Kevin: E isso é tudo o que é repetido na presença dos Imãs e outras testemunhas?

George: Bem, o mínimo seria duas testemunhas (homens adultos) e, claro, teriam que ser muçulmanos.

Kevin: Havia lá outros caucasianos não-afro-americanos convertidos na Mesquita você frequentava?


George: Havia alguns, um dos quais era um dos co-fundadores de uma organização islâmica nacional que ganhou grande cobertura na imprensa nos últimos anos. No entanto, eu era apenas um novato na época, especialmente devido à minha idade e da forma como entrei no Islã, sem qualquer forma de evangelização por parte de um muçulmano.

Parecia haver mais mulheres caucasianas se convertendo ao Islã. Pelo o que observava isso se devia, em grande parte, ao casamento com homens muçulmanos que imigraram pra cá vindo de outros países.

Kevin: E você se esforçou para viver uma vida piedosa muçulmana, começando aos 14 anos. Quão rigoroso você era e quais práticas você seguia?

George: Sim, eu tinha 14 anos. Eu nunca me vi como sendo alguém piedoso. Como você disse, me esforcei para ser piedoso. Eu queria estar mais perto de Deus. Eu diria que eu era muito mais rigoroso do que o muçulmano-de-berço médio. Isto não é incomum, muitos daqueles que se convertem a uma fé que não foram criados desde cedo, são geralmente mais zelosos, pelo menos por algum tempo.

Eu queria mergulhar no Islã. Aprender tudo que podia. É por isso que eu deixei a minha cidade natal aos 18 anos e me mudei para outro estado, para estudar numa Madra Islâmica, ou seja, num seminário islâmico.

Eu fiquei lá por cerca de três anos. Estudei a gramática árabe, o Alcorão, os Hadith, a jurisprudência islâmica e a história. Além disso, claro, eu orava cinco vezes por dia. Eu também fazia orações extras que eram incentivadas, mas não obrigatórias. Eu jejuava durante o mês de Ramadã e também jejuava em alguns períodos fora do Ramadã. Eu segui todas as leis dietéticas, as leis da purificação, abstendo-me de relações sexuais fora do casamento, até ao ponto de onde eu nem sequer apertar a mão de uma mulher ou olhar diretamente para ela, caso ela não não estivesse em relação comigo.

Grande parte da vida de um muçulmano se dá seguindo o que é conhecido como a Sunnah. A Sunnah são as práticas de Maomé que abrangem todos e cada aspecto da vida da pessoa. Como comer, como dormir, beber, vestir, falar, usar o banheiro, até mesmo como um homem casado deve punir sua esposa. Praticava de todo o coração o quanto pude.

Kevin: George, o Alcorão e o Islã em geral têm muitas - eu diria e a maioria dos cristãos concordaria - interpretações erradas sobre o Cristianismo Ortodoxo. Que tipo de cristianismo herético ou cristianismo heterodoxo Maomé esteve exposto, de onde ele tirou essas idéias?

George: Bem, no Islã, muitos, se não a maioria dos muçulmanos, tende a agrupar todos os que eles percebem como cristãos, mesmo aqueles grupos como os Mórmons e as Testemunhas de Jeová, num só grupo homogêneo.

A Arábia pré-islâmica, particularmente a área que Maomé nasceu, conhecida como Hijash, era predominantemente pagã. Havia, no entanto, algumas minorias cristãs nesta região. Há alguns relatos registrados na vida de Maomé em que ele encontrou cristãos. É difícil saber quão ortodoxa eram as crenças deles, mas através de um exame do Alcorão, dos Hadith e os equívocos sobre o cristianismo contidos nestas fontes, podemos deduzir que pelo menos algumas dessas pessoas eram heréticas em suas doutrinas.
Quando Maomé, por exemplo, era um jovem, ele acompanhava seu tio, de nome Abu Talib, até Bosra, que fica na Síria. Lá Maomé encontrou um monge cristão chamado Bahira. Este Bahira notou que onde quer que Maomé se movia uma nuvem o cobriria. Então, ele chamou Maomé e lhe deu a notícia de que ele tinha sido escolhido por Deus para ser o último e derradeiro profeta.

As fontes islâmicas afirmam que Bahira possuía cópias dos "Evangelhos originais", livres de quaisquer erros ou adulterações, e nesses Evangelhos haviam profecias prevendo a vinda de Maomé. Este nome Bahira esteve ligado em alguns escritos a um monge chamado Sergius que alguns dizem que era um Nestoriano, outros dizem que era um Ariano. Pelo que sei do Nestorianismo e Arianismo, eu me inclino mais a pensar que Maomé foi influenciado por alguma forma de arianismo devido à visão do arianismo sobre Cristo e suas semelhanças de como os muçulmanos o percebem - como não sendo divino.

Encontramos em outros relatos do tempo de Maomé que quando recebeu sua primeira revelação em uma caverna dada a ele pelo arcanjo Gabriel, ele ficou confuso e assustado, então sua esposa Khadija o levou para seu primo. O nome de seu primo era Waraka que era um cristão, que alguns dizem que era realmente um padre Nestoriano. A alegação é que quando ele disse para Waraka sobre sua experiência, foi dito a Maomé que ele era o profeta final predito nas escrituras. Há outros relatos de encontros entre Maomé com cristãos, mas todos parecem ter o mesmo tema, isto é, os cristãos confirmam que ele era o último e maior profeta, que foi supostamente predito, mas devido ao fato de que os cristãos e judeus mudaram suas escrituras, essas profecias falando sobre Maomé foram removidas ou alteradas.

Kevin: De acordo com os muçulmanos, obviamente...

George: Sim, de acordo com os muçulmanos, é claro. Um outro relato longo tem até mesmo o imperador bizantino Heraclius afirmando que Maomé era verdadeiramente o profeta tão esperado e que todos os cristãos deveriam aceitar o Islam. Eu acho que seria interessante mencionar que existem versos no Alcorão que se percebe que foram tirados diretamente dos Apócrifos. Um exemplo muito óbvio seria uma passagem do que é conhecido como o "Evangelho da Infância" de São Tomás, onde diz que quando Cristo era um menino, ele juntou um pouco de barro, modelou alguns pássaros, soprou vida neles e começaram a fazer barulho e voar. Se você compara isto com uma parte do capítulo 5 versículo 110 do Alcorão, lá diz: "Lembre-se Ó Jesus, quando você criou a partir do barro, a forma de um pássaro e com a minha permissão, você soprou e tornou-se um pássaro com minha permissão. "

Kevin: O que é muito semelhante à citação do cânon apócrifo ou não-deuterocanônico de São Tomás. Bem lembrado.

Eu li, ao fazer algumas pesquisas para esta entrevista, que entre os hereges do século IV, havia uma particular seita árabe conhecida como Collyridianos, conhecidos por sua adoração de Maria como uma deusa e alguns muçulmanos acham que esta é, de fato, a seita que o Alcorão aborda pois o Alcorão fala da Santíssima Trindade como sendo Pai, Filho e Maria.

George: Sim, há uma tradição interessante que poderia muito bem ter uma conexão com os Collyridianos. Nos últimos anos da vida de Maomé, quando ele retornou triunfalmente a Meca, no que é conhecido como a "Conquista de Meca", um dos primeiros atos que realizou foi limpar a Kaaba de suas centenas de ídolos que se encontravam dentro e fora dela. É relatado que quando Maomé entrou na Kaaba ele imediatamente jogou fora todos os ídolos e todas as imagens foram apagadas. Todas, exceto uma imagem de Cristo com a Theotokos cercada por anjos. Diz-se que ele chegou até mesmo a estender os braços sobre a imagem, de modo a enfatizar sua ordem de não apagá-la. É relatado ainda que ele finalmente removeu esta imagem com alguma relutância, de modo que a presença de um ícone de Cristo e a Theotokos em um templo de pagão pode definitivamente sugerir a presença de um grupo como os Collyridianos.

Kevin: É verdade que Maomé erroneamente pensava que os cristãos adoravam três deuses - conhecido como Triteísmo - o Pai, a mãe Maria e o filho Jesus - em vez de um Deus e três pessoas? Triteísmo, algo que naturalmente o Cristianismo Ortodoxo rejeita.

George: Sim, eu diria que é verdade. Em uma das biografias de Maomé, menciona-se a chegada de uma delegação de cristãos árabes que vieram falar com Maomé. O relato fala sobre como os cristãos estavam debatendo sobre a natureza de Cristo e, em seguida, se diz: "eles argumentam que Ele é o terceiro dos Três, naquele Deus que diz: 'Nós fizemos, ordenamos, criamos e decretamos,' e eles dizem,"se Ele fosse um, ele teria dito: Eu fiz, criei e assim por diante," mas Ele é Ele, que é Deus e Jesus e Maria".

Em relação a todas essas afirmações, o verso do Alcorão que está conectado a essa tradição pode ser encontrado na surata 5 versículo 73. "Certamente não acreditam aqueles que dizem: 'Alá é o terceiro de três'".

Kevin: Da mesma forma (corrija-me se estiver errado) o Alcorão rejeita a paternidade de Deus e a filiação de Deus Filho que, na compreensão islâmica - eles acreditam que os cristãos assim compreendem - Deus tinha relações físicas com Maria para dar à luz a Jesus (naturalmente não é de forma alguma a doutrina cristã.)

George: Sim, diz no Alcorão, em referência a isso, "O mais gracioso teve um filho!" Isso está na surata 19 versículo 88.

Este equívoco pode ter vindo do fato de que os politeístas na Arábia realmente acreditavam que os anjos e até mesmo alguns de seus falsos ídolos eram filhos de Deus por meio de alguma relação física, e assim Maomé - eu penso - só pôde entender o termo "Filho de Deus" através do conceito humano de reprodução sexual, o que também levou muitos muçulmanos a pensar que os cristãos acreditavam que Deus gerou um filho da mesma maneira como um pai humano gera um filho.

Isto, é claro, é completamente ridículo e blasfemo, não só da perspectiva islâmica, mas também cristã.

Kevin: Certo. Os muçulmanos também negam que Jesus morreu na cruz. Eu vi isso na surata, ou capítulo, 4 verso 157, em linha com a ausência do conceito de sacrifício. Assim, o Alcorão nunca fala da expiação ou da obra salvífica de Jesus. Isso é verdade?

George: Sim, isso é bem verdade. Na surata 4 versículo 157 que você mencionou fala da crença islâmica de que Cristo nunca foi crucificado e que só aparentemente ele esteve na cruz. Gostaria de observar que alguns comentaristas muçulmanos afirmam que Deus realmente mudou a aparência de Judas Iscariotes para se assemelhar a Cristo e que Judas era o único que esteve na cruz.

O Alcorão nunca fala da expiação ou salvação de Cristo porque eles negam que Cristo é o Filho de Deus. Eles negam sua divindade e, uma vez que o Islã rejeita a divindade de Cristo, também nega todo o propósito de sua encarnação e, por sua vez, nossa salvação através dela. A fórmula islâmica para a salvação consiste em proclamar o Sahadda e fazer as obras e só.

Kevin: Como você sabe George, o amor está no coração do cristianismo, e você me mencionou que não há um verdadeiro ensinamento no Islã sobre o amor divino e da misericórdia de Deus para com a humanidade, ou um verdadeiro ensinamento da verdadeira comunhão ou união com Deus no Islã, e que é sobretudo, como você diz, "uma relação de mestre e escravo", citando a si mesmo. Por favor, explique o que você quer dizer.

George: Bem, para ter alguma compreensão de como um muçulmano provavelmente verá o seu próprio relacionamento com Deus, primeiro acho que é importante ter uma idéia do motivo pelo qual o homem foi criado de acordo com o Islã.

Na surata 51 do Alcorão, verso 56, diz: "Eu não criei os gênios" - que são espíritos, espíritos invisíveis, "e os humanos, exceto para me adorar." Novamente na surata 11 versículo 7 diz: "Ele foi Quem criou o céus e a terra em seis dias - quando, antes, abaixo de seu Trono só havia água - para provar quem de vós melhor se comporta."

Eu acho que esses dois versículos demonstram a razão geral pela qual o homem foi criado. Primeiro para satisfazer alguma necessidade que Deus tinha, para ser adorado de acordo com o Islã e, segundo, para participar de uma espécie de disputa, a fim de ver quem executa as mais boas ações. Estes dois conceitos são temas muito comuns em todo o Alcorão e Hadith. Assim, em suma, esse é o propósito da criação do homem, de acordo com o Islã. Primeiro, para cumprir a necessidade de Deus de adoração e para satisfaze-lo; segundo, para o homem para provar que ele é digno da misericórdia de Deus e se ele faz isso ele será recompensado. Tudo isso contrasta profundamente com a visão do cristão ortodoxo sobre o propósito da criação do homem e sobre o propósito da vida do homem, isto é, a comunhão com Deus e compartilhar seu amor e tornar-se por graça o que Deus é por natureza.

Kevin: E George, você também disse que descreveria o Deus ou Alá do Islã como um tirano.

George: Sim, é difícil explicar completamente em pouco tempo, mas vou fazer o meu melhor para ilustrar o que quero dizer.

De acordo com o Alcorão, Allah guia quem ele quer e ele desnorteia quem ele quer, que é uma citação do Alcorão. Esta frase é repetida inúmeras vezes. Em seguida, gostaria de citar um ditado bem conhecido de Maomé que diz o seguinte: "Foi dito ao mensageiro de Alá, 'há uma distinção entre o povo do paraíso e os habitantes do inferno?' Ele disse sim, foi dito novamente: 'Se é assim, então pra quê fazer boas ações?' Então Maomé disse, "Todo mundo é facilitado naquilo que foi criado para ele".
Um outro longo relato fala sobre quando uma criança é formada no ventre de sua mãe e um anjo é enviado para gravar em um pergaminho cada aspecto da vida desta pessoa, incluindo se ela será boa ou má, feliz ou infeliz, e se estará entre os habitantes do paraíso ou inferno. O dito termina com as palavras: "... então seu documento do destino é enrolado e não há adição ou subtração nele". E esse é o fim do relato de Maomé.

Acho que estas duas últimas citações falam sobre os aspectos fatalistas do Islã. Então nós podemos ir a surata 7 versículo 179, que diz, "Temos criado para o inferno numerosos gênios e humanos" Assim, a partir deste versículo podemos ver que existem aqueles entre a humanidade que são, especificamente, criados para inferno. É por isso que é mencionado no Alcorão em múltiplos lugares, que o combustível do inferno é "homens em pedras". De tudo o que eu citei, cheguei à conclusão de que no Islã não estamos lidando com um Deus justo. Em vez disso, se ensina que o criador formou tudo quase como uma máquina, fixada em certas formas chegando ao ponto em que o próprio Deus não poderia divergir das formas do sistema que estabeleceu.
Tudo está travado em uma espécie de destino, até mesmo ao ponto de que ações que percebemos como sendo o produto de nossa própria vontade, em realidade, já haviam sido escritas para nós. Assim, de acordo com o Islã, basicamente é dado a humanidade a ilusão de possuir livre arbítrio, quando na realidade não há qualquer liberdade.  Assim, quaisquer noções de amor e misericórdia de tal Deus podem ser percebidas como superficiais na melhor das hipóteses e podem ser rapidamente anuladas e abolidas.

Kevin: Sem entrar em uma longa discussão sobre aspectos da teologia cristã, mas alguns aspectos que você acabou de dizer soam um pouco como o ensino de João Calvino, sobre a dupla predestinação e assim por diante.

E George, você também me disse que havia idéias muito diferentes de amor e misericórdia no Islã comparado aquelas que você aprendeu no Cristianismo Ortodoxo. Talvez você possa explicar um pouco sobre isso.

George: Sim, uma dessas diferenças pode ser expressa perguntando a você ou qualquer outro cristão, pelo menos alguém que conhece as escrituras, se Deus ama os pecadores ou não-cristãos. A resposta provavelmente seria sim, é claro. Então, o cristão poderia citar inúmeros versículos, como Romanos 5: 8, onde é dito: "Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores." E então o Evangelho de João capítulo 13 versículo 34-35 que diz: "Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis."

Eu sei que o conceito de amor cristão nem sempre foi posto em prática através das eras, incluindo o nosso tempo, e isso é algo que teremos que explicar, no entanto estou falando sobre as diferenças bíblicas entre o cristianismo e o Islã.

Então, deixe-me citar a surata 2 versículo 276 do Alcorão onde diz: "e Allah não ama nenhum pecador incrédulo". E então você tem a surata 3 versículo 32 onde diz: "obedecei a Allah e ao seu mensageiro Maomé mas se eles se afastarem, então, de fato, Allah não ama os incrédulos ", então tem a surata 3 versículo 31, onde diz:" Oh, Maomé, se você ama a Allah, então siga-me. Assim Allah amará você e perdoará seus pecados". Então podemos ver que o amor no cristianismo, de acordo com as escrituras, é um amor verdadeiro, um amor incondicional, um amor verdadeiramente divino, que qualquer muçulmano médio zombaria, assim como eu fiz o mesmo tempo. O Islam só vê o amor como sendo condicional. No Islã, Allah tem 99 nomes ou atributos, um dos quais é "aquele que está amando", mas na Bíblia, através do Espírito Santo, somos informados de que Deus é amor e é de seu amor infinito [que] Ele nos criou e ele nos redimiu através de seu Filho e nos deu a habilidade, através de Sua Graça, de ser seus filhos através pela adoção e chamá-lo de Pai.

Kevin: Sim, então há, claramente, uma espiritualidade e um ethos muito diferente no Islã e no Cristianismo e isso terminará a nossa primeira parte. Obrigado George por esta fascinante primeira parte de sua jornada do Islã ao Cristianismo Ortodoxo e por favor junte-se a nós para a parte dois da história de George que será postada também no Ancient Faith Today. Obrigado George.

George: Obrigado, Kevin.

Parte 1 - Parte 2

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A Filosofia não salva (São Gregório Palamas)

Eu tenho ouvido de certas pessoas que também devemos buscar a sabedoria secular, e que, se nós não possuíssemos essa sabedoria, torna-se impossível evitar a ignorância e as falsas opiniões, mesmo que tenhamos atingido o mais alto nível de impassibilidade; e que não se pode adquirir a perfeição e a santidade sem buscar o conhecimento de todos os lugares, sobretudo da cultura grega, que também é um dom de Deus - assim como foram os insights concedidos aos profetas e apóstolos através da revelação. Essa educação confere na alma o conhecimento dos seres criados e enriquece a faculdade do conhecimento, que é o maior de todos os poderes da alma, pois a educação não só elimina todos os outros males da alma. Pois a educação não só afasta todos os outros os males da alma - uma vez que toda paixão tem sua raiz e fundamento na ignorância - mas também conduz os homens ao conhecimento de Deus, pois Deus só é cognoscível através da mediação de Suas criaturas.

De forma alguma essas opiniões me convenceram quando me foram apresentadas, pois minha pequena experiência de vida monástica mostrou-me que exatamente o contrário era verdadeiro; mas eu era incapaz de fazer uma defesa contra eles. "Não nos ocupamos apenas com os mistérios da natureza", disseram orgulhosamente, "medindo o ciclo celeste e estudando os movimentos opostos das estrelas, suas conjunções, fases e ascensões, considerando as consequências dessas coisas (assuntos que temos muito orgulho); mas, além disso, como os princípios interiores desses fenômenos se encontram na divina e primordial criativa Mente, e as imagens desses princípios existem em nossa alma, temos o zelo de compreendê-los e desprezamos todo o tipo de ignorância a seu respeito pelos métodos de distinção, raciocínio e análise silogística; e assim, tanto nesta vida quanto depois, desejamos ser conformados à semelhança do Criador".

Senti-me incapaz de responder a esses argumentos, e assim mantive silêncio em relação a esses homens; mas agora vos peço, Pai, que me instrua no que deve ser dito em defesa da verdade, para que, seguindo a ordem do apóstolo, eu esteja "preparado para dar conta da fé que há em nós" (1 Pedro 3: 15).

Examinando a natureza das coisas sensíveis, essas pessoas chegaram a um certo conceito de Deus, mas não a uma concepção verdadeiramente digna Dele e apropriada à Sua natureza abençoada. Pois seu "coração desordenado foi obscurecido" pelas maquinações dos demônios perversos que os estavam instruindo. Pois se uma conceituação digna de Deus pudesse ser alcançada através do uso da intelecção, como então essas pessoas poderiam ter considerado esses demônios como deuses, e como poderiam ter acreditado nos demônios quando ensinavam o politeísmo ao homem? Desta forma, envolvidos nesta sabedoria insensata, tola e educação débil, caluniaram Deus e a natureza. Eles privaram Deus de Sua soberania (pelo menos no que lhes diz respeito); eles atribuíram o Nome Divino aos demônios; e estavam tão longe de encontrar o conhecimento dos seres - o objeto de seu desejo e zelo - que alegavam que as coisas inanimadas tem alma e participam de uma alma superior à nossa. Alegavam também que as coisas sem razão são racionais, já que são capazes de receber uma alma humana; que os demônios são superiores a nós e são até nossos criadores (tal é sua impiedade), classificaram entre coisas incriadas, não-geradas e coeternas com Deus, não só a matéria, e o que eles chamam de Alma do Mundo, mas também aqueles seres inteligíveis não revestidos na opacidade do corpo, e até mesmo em nossas almas.

Podemos então dizer que aqueles que possuem tal filosofia possuem a sabedoria de Deus, ou mesmo uma sabedoria humana em geral? Espero que nenhum de nós seja tão louco em afirmar isso, pois, como o Senhor declarou: "A árvore boa não produz frutos ruins" (Mateus 7:18). Na minha opinião, esta "sabedoria" não é nem mesmo digna da denominação "humana", pois é tão inconsistente a ponto de afirmar que as mesmas coisas são ao mesmo tempo animadas e inanimadas, dotadas e privadas de razão, e sustentam que coisas por natureza sem sensibilidade, e sem órgãos capazes de sensação, podem conter nossas almas! É verdade que, às vezes, Paulo fala disso como "sabedoria humana", como quando diz: "Minha proclamação não repousa sobre as palavras persuasivas da sabedoria humana" (1 Coríntios 2:13). Mas, ao mesmo tempo, ele acha correto chamar esses que adquiriram tal conhecimento "sábios segundo a carne" (1 Coríntios 1:26), ou "dizendo-se sábios, tornaram-se loucos." (Romanos 1:22), "questionadores desta era" (I Coríntios 1:20), e a sabedoria deles é qualificada em termos semelhantes: "sabedoria que tornou-se loucura" (1 Coríntios 1:20), "sabedoria que se acabou" (1 Coríntios 1:28), "vãs sutilezas" (Colossenses 2:8),  "sabedoria desta era", e que pertence aos "príncipes" desta era - que estão "chegando ao fim" (1 Coríntios 2:6) .

De minha parte, eu ouço o pai que diz: "Ai do corpo quando não consome o alimento que é de fora, e ai da alma quando não recebe a graça que vem do alto". Ele fala com justiça - pois o corpo perecerá uma vez que tenha passado para o mundo das coisas inanimadas, e a alma se enredará na vida demoníaca e nos pensamentos dos demônios se se desviar daquilo que lhe é própria.

Mas se alguém diz que a filosofia, na medida em que é natural, é um dom de Deus, então se diz a verdade, sem contradição, e sem incorrer a acusação que cai sobre aqueles que abusam da filosofia e a pervertem a um fim antinatural. Na verdade, eles tornam sua condenação mais pesada usando o dom de Deus de uma maneira desagradável a Ele.

Além disso, a mente dos demônios, criada por Deus, possui por natureza a faculdade da razão. Mas não acreditamos que sua atividade vem de Deus, mesmo que a sua possibilidade de agir venha Dele; pode-se com propriedade chamar essa razão de uma desrazão. O intelecto dos filósofos pagãos é também um dom divino, na medida em que possui naturalmente uma sabedoria dotada de razão. Mas tem sido pervertida pelas artimanhas do diabo, que a transformou em uma sabedoria tola, perversa e sem sentido, uma vez que apresenta tais doutrinas.

Mas se alguém nos diz que os próprios demônios têm um desejo e um conhecimento não inteiramente mau, uma vez que desejam existir, viver e pensar, aqui está a resposta correta que eu devo dar: não é correto questionar-nos porque dizemos que a sabedoria grega é "demoníaca" (Tiago 3:15), alegando que suscita discussões e contém quase todo tipo de falsos ensinamentos, e é alienada de seu próprio fim, ou seja, o conhecimento de Deus; mas ao mesmo tempo reconhecemos que pode ter alguma participação no bem de forma remota e incipiente. Deve-se lembrar que nenhuma coisa má é má na medida em que ela existe, mas na medida em que é desviada da atividade apropriada da mesma e, portanto, do fim atribuído a essa atividade.

Qual deve ser, então, o trabalho e o objetivo daqueles que buscam a sabedoria de Deus nas criaturas? Não é a aquisição da verdade e a glorificação do Criador? Isso é claro para todos. Mas o conhecimento dos filósofos pagãos distanciou-se de ambos os objetivos.

Há então alguma coisa proveitosa nesta filosofia? Certamente; pois, assim como há muito valor terapêutico mesmo em substâncias obtidas a partir da carne de serpentes - e os médicos consideram que não há remédio melhor e mais útil do que aquele derivado dessa fonte - então há algo proveitoso a ser obtido mesmo do filósofos profanos - mas de tal maneira similar a uma mistura de mel e cicuta. Por isso, é de maior importância que aqueles que desejam separar o mel da mistura devam ter cuidado que não tomem os resíduos mortais por engano. E se você fosse examinar o problema, veria que todas ou a maioria das heresias prejudiciais derivam sua origem dessa fonte.

É assim com os "iconognosts"*, que pretendem que o homem recebe a imagem de Deus pelo conhecimento, e que este conhecimento conforma a alma a Deus. Porque, como foi dito a Cain, "se você fizer sua oferenda corretamente, sem a partilhar corretamente..." (Gênesis 4: 7). Mas dividir bem é propriedade de poucos homens. Apenas esses que "dividem bem" possuem os sentidos inteiros da alma preparados para distinguir o bem e o mal.

Que necessidade há em correr esses perigos sem necessidade, quando se é possível contemplar a sabedoria de Deus em Suas criaturas não só livre de riscos, mas de forma proveitosa? Uma vida em que a esperança em Deus libertou de todo cuidado, naturalmente, impulsiona a alma para a contemplação das criaturas de Deus. Assim é atingida com admiração, aprofunda seu entendimento, persiste na glorificação do Criador, e através deste sentimento de admiração é levada adiante para o que é maior. De acordo com São Isaac, "Vem como tesouros que não podem ser expressos em palavras"; e usando a oração como uma chave, penetra nos mistérios que "o olho não viu, o ouvido não ouviu, e não entrou no coração do homem" (1 Coríntios 2: 9), mistérios manifestados pelo apenas Espírito àqueles que são dignos, como ensina São Paulo.

Você vê o caminho mais rápido, cheio de proveitos e sem perigo, que leva a esses tesouros sobrenaturais e celestiais?

No caso da sabedoria secular, você deve primeiro matar a serpente, em outras palavras, superar o orgulho que surge dessa filosofia. Como isso é difícil! "A arrogância da filosofia não tem nada em comum com a humildade", como diz o ditado. Depois de vencê-lo, então, você deve separar e lançar fora a cabeça e cauda, ​​pois estas coisas são más no mais alto grau. Pela cabeça, quero dizer opiniões obviamente incorretas sobre coisas inteligíveis, divinas e primordiais; e pela cauda, ​​as histórias fabulosas sobre coisas criadas. Quanto ao que está entre a cabeça e a cauda, ​​isto é, os discursos sobre a natureza, você deve separar ideias inúteis por meio das faculdades de exame e inspeção possuídas pela alma, assim como os farmacêuticos purificam a carne de serpentes com fogo e água. Mesmo se você fizer tudo isso, e fazer bom uso do que foi devidamente reservado, quanta dificuldade e circunspecção será necessária para a tarefa!

No entanto, se você fizer bom uso dessa parte da sabedoria profana que foi bem separada, nenhum mal pode resultar, pois naturalmente se tornará um instrumento para o bem. Mas mesmo assim, não se pode, num estrito sentido, ser chamada de dom de Deus e de natureza espiritual, pois pertence à ordem da natureza e não é enviada do alto. É por isso que Paulo, que é tão sábio em assuntos divinos, chama-a de "carnal" (2 Coríntios 1:12); pois, diz ele: "Considerai que dentre nós que fomos escolhidos, não há muitos sábios segundo a carne" (1 Coríntios 1:26). Pois quem poderia fazer melhor uso dessa sabedoria do que aqueles a quem Paulo diz "os que estão de fora" (1 Timóteo 3: 7)? Mas tendo esta sabedoria em mente, ele os chama corretamente de "sábios segundo a carne".

Assim como no casamento legal, o prazer derivado da procriação não pode ser exatamente chamado de dom de Deus, porque é carnal e constitui um dom da natureza e não da graça (embora essa natureza tenha sido criada por Deus); assim o conhecimento que vem da educação profana, mesmo quando bem utilizado, é um dom da natureza, e não da graça - um dom que Deus concede a todos sem exceção através da natureza, e que pode ser desenvolvido pelo exercício. Este último ponto - que ninguém o adquire sem esforço e exercício - é uma prova evidente de que se trata de um dom natural e não espiritual.

É a nossa sabedoria sagrada que deve legitimamente ser chamada de dom de Deus e não de dom natural, uma vez que até mesmo os simples pescadores que a receberam do alto tornam-se, como diz o Gregório o Teólogo, filhos do Trovão, cuja palavras abrangeram os limites de o universo. Por esta graça, até os publicanos são feitos mercadores de almas; e até mesmo o zelo ardente dos perseguidores é transformado, tornando-os Paulos em vez de Saulos, afastando-se da terra para alcançar o "terceiro céu" e "ouvir coisas inefáveis". Por esta verdadeira sabedoria também nós podemos nos conformar à imagem de Deus e continuar a ser assim até mesmo após a morte.

Quanto à sabedoria natural, diz-se que até Adão a possuiu em abundância, mais do que todos os seus descendentes, embora tenha sido o primeiro que não conseguiu garantir a conformidade com a imagem. A filosofia profana existiu como auxílio a esta sabedoria natural antes do advento Daquele que veio para recordar a alma à sua antiga beleza; por que então não fomos renovados por esta filosofia antes da vinda de Cristo? Por que precisamos, não alguém para nos ensinar filosofia - uma arte que passa com esta era, de modo que é chamada "desta era" (1 Coríntios 2: 6) - mas alguém "que tira o pecado de mundo", e que nos concede uma sabedoria verdadeira e eterna - ainda que esta apareça como "loucura" (1 Coríntios 1:18) aos homens sábios passageiros e corrompidos deste mundo, enquanto que na realidade a sua ausência torna verdadeiramente tolos aqueles que não são espiritualmente ligado a ela? Você não vê claramente que não é o estudo das ciências profanas que traz a salvação, que purifica a faculdade cognitiva da alma, e a conforma ao Arquétipo divino?

Esta é, portanto, a minha conclusão: se o homem que procura ser purificado no cumprimento das prescrições da Lei não obtém nenhum benefício de Cristo - mesmo que a Lei tenha sido manifestamente promulgada por Deus -, então a aquisição das ciências profanas também não trará proveitos. Pois, quanto mais Cristo não será de proveito para quem se volta para a duvidosa filosofia alheia para obter purificação para sua alma? É Paulo, o porta-voz de Cristo, que nos diz isso e nos dá seu testemunho.


*Palamas cria uma nova palavra: iconognost, "aquele que tem um ícone do conhecimento"


Por São Gregório Palamas (1296 - 1359) em "As Tríadas" 

sábado, 8 de abril de 2017

Um Cristo e Três Religiões (Vladimir De Beer)

O evento mais decisivo na história da humanidade foi o aparecimento do Deus-homem Jesus Cristo na terra. Isso ocorreu no início do primeiro século na contagem ocidental, no que era então a província Síria do Império Romano - para ser mais preciso, na Galiléia e na Judéia. A fé na vida, o ensinamento, a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus Cristo com o passar do tempo deu origem a três formas diferentes de religião cristã: Ortodoxa, Católica e Protestante. As três têm historicamente reivindicado basear-se no Evangelho de Cristo, e muitos conflitos ocorreram entre seus seguidores ao longo dos séculos.

A Ortodoxia, o Catolicismo e o Protestantismo são muitas vezes vistos como variações de um único tema, em outras palavras, como os três principais ramos do Cristianismo. Neste ponto de vista, a Ortodoxia e o Catolicismo representam as vertentes oriental e ocidental do Cristianismo até sua separação entre o séculos IX e XIII, com o Protestantismo rompendo com seu pais Católicos do século XVI em diante. No entanto, neste ensaio, sugeriremos que é mais correto ver estas três formas religiosas como religiões distintas. Isto não implica a igualdade entre a Ortodoxia, o Catolicismo e o Protestantismo; não pode haver dúvida de que a Ortodoxia representa a plenitude integrante da fé cristã, com o Catolicismo e o Protestantismo desviando em maior ou menor grau.

A base conceitual para a nossa tese é a visão orgânica da história, primeiramente defendida pelo filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936) em sua obra monumental, A Decadência do Ocidente. Neste tomo abrangente Spengler interpreta a história humana como uma sucessão de Altas Culturas, começando com a egípcia e suméria cerca de 3000 aC. Uma Alta Cultura pode ser compreendida como um organismo, uma vez que mostra as marcas essenciais de organismos vivos: nascimento, crescimento, maturidade, velhice e morte. Curiosamente, o pensador russo, Konstantin Leontiev, já tinha em 1875 sugerido que as civilizações espelhavam os padrões de vida de organismos vivos: o crescimento, a floração, o declínio e a morte. Este ponto de vista orgânico não nos surpreende: as culturas humanas consistem de seres vivos, e, portanto, estas culturas deveriam experimentar coletivamente o que os humanos experimentam individualmente.

A principal diferença entre uma Alta Cultura e outros organismos vivos, Spengler argumenta, é a duração. No caso do primeiro, o tempo de vida se estende por dez a doze séculos, enquanto a sua influência sobre uma cultura jovem no seu território pode permanecer por séculos a mais. Este fenômeno é denominado pseudomorfose e Spengler descreve-o particularmente por meio do Clássico tardio dominando o Árabe inicial. Nesse caso, a batalha de Actium (31 aC) foi determinante: a vitória de Otávio sobre Marco Antonio assegurou a dominação continuada Romana (e, portanto, Clássica) sobre o território da Cultura Árabe porvir: o Oriente Médio, Ásia Menor e África do Norte. 

Spengler argumentou ainda que algumas Altas Culturas também experimentaram uma fase tardia imperialista, situada entre a velhice e a morte. Nesta fase todas as energias remanescentes dessa cultura são gastas em uma expansão final. Mais uma vez a Cultura Clássica nos fornece um exemplo instrutivo: a ascensão do Império Romano sob Augusto e seus sucessores. Este império militarista explodiu num momento em que a Cultura Clássica parecia estar em seus espasmos de morte, e por volta do final do primeiro século cristão havia espalhado seu domínio mais amplamente do que qualquer Cultura anterior. De acordo com o modelo de Spengler, este imperialismo final cultural implica não só Cesarismo no nível político, mas também uma segunda religiosidade. Este renascimento da religião supera o racionalismo que caracteriza os últimos estágios de qualquer cultura, e implica um retorno parcial à religião da Cultura inicial.

As Culturas Egípcias e Sumérias foram seguidas pelo nascimento das Culturas Indiana, Chinesa e Clássica por volta de 1500, 1300 e 1100 a.C., respectivamente. Dessas Altas Culturas a Clássica estava em sua fase final quando a Cultura Árabe surgiu durante o século seguinte a vinda de Cristo à Terra. A Cultura Clássica iria exercer uma enorme influência sobre a jovem Cultura Árabe, moldando seu pensamento religioso e filosófico durante vários séculos por vir (pseudomorfose de Spenlger). Nos primeiros séculos do primeiro milênio a Cultura Mexicana apareceu na América Central, a única Alta Cultura que veio a nascer no hemisfério ocidental. Esta cultura também teve o trágico destino de ser a única cuja vida seria violentamente terminada por representantes de outra Alta Cultura - os conquistadores espanhóis.

Por volta do ano 1000 em nossa contagem, uma nova Cultura surgiu ao noroeste da Cultura Árabe. Esta era uma cultura ocidental, com uma relativa autonomia observada pela primeira vez por Spengler. Alemanha, França, Inglaterra e Itália eventualmente tornariam-se os centros nacionais da Cultura Ocidental. Antes deste modelo orgânico da história, o Ocidente geralmente era visto como uma continuação do mundo clássico através da Idade Média. Assim, a maioria dos historiadores ocidentais promoviam o esquema antigo-medieval-moderno das coisas, com o Ocidente moderno (ou seja, a Europa Ocidental e a América do Norte) representando o ápice do desenvolvimento cultural humano. Esta concepção chauvinista da história foi enfraquecida pela tese de Spengler dos ciclos de ascensão e queda das Altas Culturas.

Em termos da concepção orgânica da história, o Ocidente está em suas convulsões finais. Embora os países da Europa Ocidental (talvez toda Europa até oeste da Rússia) e da América do Norte ainda estejam funcionando como entidades políticas e econômicas, culturalmente falando, eles estão debilitados. As atividades culturais superiores de música, literatura, filosofia e assim por diante (isto é, nas suas formas mais ou menos tradicionais) ainda estão sendo praticadas por uma pequena minoria, mas a maioria dos ocidentais se contentam em viver em um estado não-reflexivo como consumidores enquanto adoram o grande deus do entretenimento. Pão e circo não se limitaram aos antigos romanos, para dizer o mínimo. A mesma crítica se aplica à maioria dos seres humanos em outras partes do mundo, uma vez que não há outras Altas Culturas vivas neste momento da história -, mas existe uma possibilidade de uma cultura existente florescer em uma nova Alta Cultura (veja mais adiante).

A pergunta pode ser feita quanto à validade desta abordagem para interpretar a religião em termos culturais. A fé autêntica religiosa não é, afinal, superior a todas as outras atividades humanas? Sim, de fato, mas devemos estar sob nenhuma ilusão de que a religião poderia ser a-cultural, por assim dizer. Todo ser humano é culturalmente condicionado desde o nascimento até a morte, em virtude de possuir uma alma espiritual e não apenas um corpo material. Antes de tudo, entre essas influências culturais onipresentes, está a forma da linguagem, através da qual muitas atividades humana são expressas. Nós até mesmo pensamos em termos de linguagem, o que levou o filósofo ateu Friedrich Nietzsche a lamentar que a fé em Deus não pode ser eliminada, pois as pessoas ainda acreditam na gramática. As atividades religiosas são, portanto, expressas em termos linguísticos, e isso deve ser aceito como providencial.

Seguindo os passos de Spengler, o historiador inglês Arnold Toynbee (1889-1975) escreveu um estudo abrangente da história do mundo. Embora tenha aceitado aspectos da concepção orgânica de Spengler da cultura, Toynbee declarou que a ascensão e queda das culturas não eram inevitáveis. Em vez disso, a maneira pela qual as civilizações respondiam a desafios físicos ou sociais determinava suas chances de sobrevivência.

Ele corretamente fez uma distinção entre as civilizações do mundo Greco-Romano (Cultura Clássica para Spengler), do mundo Ocidental pós-Romano (Cultura Ocidental para Spengler) e do mundo Ortodoxo da Rússia e dos Bálcãs. Contra a acusação de seu predecessor do século XVIII, Gibbon, de que o Cristianismo foi responsável pelo colapso do Império Romano, Toynbee argumentou que o Cristianismo, na verdade, contém a força interior para sobreviver o colapso de civilizações. Em vista do ensinamento de Cristo que o Reino de Deus não é deste mundo, Toynbee, sem dúvida, esteve mais perto da verdade da questão do que Gibbon.

* * *

A mais antiga das religiões cristãs é a Ortodoxia, a Igreja fundada pelos Apóstolos de Cristo. Por quase três séculos, a Igreja Ortodoxa, tendo o grego como principal língua bíblica e litúrgica, sofreu perseguições por diversos imperadores romanos pagãos. Esta hostilidade oficial terminou abruptamente quando o Imperador Constantino concedeu a liberdade religiosa aos cristãos em 313. Mais tarde moveu a capital imperial de Roma para Constantinopla, a Nova Roma, onde convocou o primeiro concílio ecumênico da Igreja em 325. Em seu leito de morte Constantino foi batizado como cristão, recebendo o nome de Basílio. A mãe de Constantino contribuiu para a descoberta dos restos da cruz de Cristo em Jerusalém. Por suas contribuições no estabelecimento da fé cristã Ortodoxa em todo o império, Constantino e Helena foram canonizados como santos pela Igreja. No final do século IV, a Ortodoxia se tornara a religião de estado do Império Romano Cristão.

Durante uma série de concílios ecumênicos que se ocorreram ao longo de um milênio (de 325 a 1349), as doutrinas e práticas da fé Ortodoxa foram formuladas. As decisões destes concílios eram afirmadas como leis imperiais pelo Imperador e assim tornaram-se obrigatórias para todos os cidadãos romanos. Infelizmente, o Império Romano Cristão logo se tornou tão intolerante à dissidência religiosa como o seu antecessor pagão havia sido, de modo que perseguição violenta de hereges (reais e supostos) ocorreram ao longo de sua história. Mesmo grandes teólogos, como Máximo o Confessor, foram perseguidos pela hierarquia da Igreja e / ou pelos governantes imperiais. No entanto, cada desvio em erro era eventualmente corrigido por um concílio ecumênico, devido à presença ubíqua do Espírito de Deus na Igreja, coletivamente falando.

A propagação da Ortodoxia coincidiu com a ascensão da Cultura Árabe, cuja existência foi notada pela primeira vez por Spengler. Em sua obra mencionada argumentou que a Cultura Árabe possuía uma alma mágica que veio a se expressar em suas religiões: persianismo (isto é, zoroastrismo), judaísmo, cristianismo, neoplatonismo e, finalmente, no islã. Em vez da compreensão usual do neoplatonismo como o florescimento final da Cultura Clássica, este é compreendido a partir desta perspectiva como Escolasticismo da Cultura Árabe, embora fortemente influenciado (como foi o caso do Judaísmo e do Cristianismo) pela filosofia clássica. Por sua vez, o neoplatonismo influenciou a Ortodoxia até certo ponto, no mínimo com sua terminologia.

No modelo cultural de Spengler cada Alta Cultura possui uma Alma-da-cultura distintiva que se imprime em todas as atividades humanas nessa Cultura. Assim, a alma mágica da cultura árabe é contrastada com a alma apolínea da persistente cultura clássica e a alma faustiana da cultura ocidental ainda por vir. Segundo Spengler, a alma mágica vê o mundo como uma vasta caverna, expressa no nível físico pelas basílicas abobadadas dos cristãos  e as mesquitas dos muçulmanos.

Dentro da teologia Ortodoxa, a cosmovisão mágica encontrou expressão em uma cosmologia que retratava o mundo em uma estrutura semelhante a uma caixa. Esta foi fundada em uma leitura literal do Gênesis, exposta notavelmente pela escola de Antioquia na Síria. Assim, a terra representava o fundo da caixa e o céu o teto. Acima desta caixa estava o reino do Céu, habitado por Deus e os seres celestiais. Entre os primeiros escritores da Igreja, Orígenes foi um dos poucos que se desviaram dessa cosmologia literalista com sua interpretação alegórica do Gênesis. Com o surgimento da astronomia moderna, tornou-se naturalmente impossível manter essa cosmovisão pré-científica, tendo em mente que os primeiros escritores da Igreja eram informados pela ciência de seu tempo.
Na época em que a Ortodoxia foi declarada a religião oficial do Império Romano (século IV), desenvolveu-se numa intrincada síntese da teologia bíblica / judaica, da filosofia helênica e do pensamento jurídico romano. Os dois últimos componentes foram obtidos através da prevalência da Cultura Clássica tardia, já em sua fase final imperial, em grande parte do Império Romano na época de Cristo. Esta confluência histórico-cultural tem de ser vista como providencial, já que contribuiu para que a Ortodoxia se tornasse mais universal e menos específica à Cultura do que qualquer outra religião anterior. Portanto, é completamente desnecessário que os cristãos Ortodoxos considerem a crítica de alguns de seus oponentes modernos de que sua fé não é suficientemente "bíblica" - tal "crítica" é totalmente irrelevante no esquema maior das coisas.

No entanto, o fato da teologia Ortodoxa se basear não só no pensamento judaico, mas também no pensamento helênico, acabou por provocar uma necessidade popular de uma religião mais consoante com o desenvolvimento da cultura árabe. Por isso, no século VII, o Profeta Maomé apareceu no centro árabe de Meca e Medina para proclamar a supremacia do único Deus (Allah em árabe), e a exigência de que todos os seres humanos se submetam à Sua autoridade - voluntariamente ou através da força. Após a morte de Maomé esta nova religião espalhou-se como um incêndio através dos antigos territórios cristãos do Oriente Próximo e Norte da África. De acordo com a filosofia da história de Spengler, a rápida expansão do Islã inicial foi na verdade uma recuperação dos territórios da cultura árabe do domínio da cultura clássica tardia - daí seu sucesso inicial. Dentro de cem anos os exércitos islâmicos tinham invadido a Península Ibérica, mas eles foram interrompidos na Gália por representantes dos povos que estavam sendo preparados para o nascimento da Cultura Ocidental. Estes guerreiros foram habilmente comandados por Carlos Martel, o 'Martelo' do Deus cristão.

Como resultado desta dramática expansão muçulmana, o mundo cristão Ortodoxo encolheu-se abrangendo então não muito mais do que a Ásia Menor, Grécia, Sul da Itália, Sicília, o Adriático e alguns territórios do Mediterrâneo oriental. Nos séculos seguintes, esses territórios seriam sistematicamente conquistados por invasores muçulmanos ou por "bárbaros" germânicos do noroeste. Uma das piores tragédias da história europeia ocorreu em 1204, quando os cruzados Católicos da Europa Ocidental, supostamente em seu caminho para recapturar Jerusalém dos muçulmanos, saquearam e pilharam Constantinopla, capital cristã Ortodoxa, com ajuda financeira e naval veneziana. Esta traição dos cristãos Católicos levou a uma duradoura desconfiança do ocidente entre muitos cristãos Ortodoxos - compreensivelmente.

Durante o último século ou dois, a religião Ortodoxa tornou-se amplamente difundida fora do coração Ortodoxo da Europa Oriental e dos Balcãs. Devido ao aumento da emigração de países como Grécia, Rússia, Sérvia e Romênia, juntamente com a atividade missionária esporádica, existem hoje numerosas igrejas Ortodoxas em toda a Europa Ocidental, América do Norte e do Sul, Austrália e partes da Ásia e África. Há também uma crescente presença monástica Ortodoxa em várias partes do mundo. Esta impressionante expansão é o resultado do declínio (em números e influência) do Catolicismo e do Protestantismo dominante em muitos desses países.

A presença da Ortodoxia no Ocidente pós-cristão humanista-secular de hoje representa um enorme desafio para aqueles que desejam viver uma vida cristã dentro dela. É de se esperar que os cristãos Ortodoxos no mundo ocidental serão cada vez mais retratados como anacrônicos, reacionários e atrasados. Esse ataque vem principalmente dos meios de comunicação de massa, sendo o instrumento mais eficaz dos poderes espirituais escusos que governam o mundo. Como resultado, muitos Ortodoxos, até clérigos, estão sucumbindo a esta ofensiva anticristã, adaptando-se aos costumes ocidentais humanistas. O mais notável entre estes compromissos é a rejeição do calendário da Igreja por partes do mundo Ortodoxo, e sua substituição pelo calendário Católico Romano e Protestante. Providencialmente, a maior parte da Igreja Ortodoxa permaneceu fiel aos concílios ecumênicos a este respeito.

* * *

A alma da Cultura Ocidental é caracterizada sobretudo pelo anelo ao infinito, como Spengler demonstrou por meio de exemplos numerosos retirados da matemática, da arquitetura, da pintura, e da música. Já em seu primeiro século, este esforço faustiano do Ocidente se expressou na esfera política e militar por meio das Cruzadas, apesar da piedosa reivindicação dos cruzados de estar lutando para reconquistar a "Terra Santa" por Cristo. Dentro de um século ou dois este mesmo anelo manifestou-se no nível artístico nas grandes catedrais góticas do Norte da Europa. Estes imponentes edifícios forneceriam o cenário espacial para o desenvolvimento do canto gregoriano, a música litúrgica do novo cristianismo gótico. Para Spengler, esta foi a segunda obra do cristianismo, mil anos após a religião cristã original ter aparecido no Oriente Próximo.
Quando a Cultura Ocidental começou a se expressar como um organismo jovem, naturalmente precisou de uma religião que fosse consoante com sua alma faustiana. Ou, como disse o filósofo grego Christos Yannaras, o "Sacro Império Romano" de língua latina, precisava de uma base cultural para diferenciá-lo do Império Romano Oriental de língua grega. Desde uma perspectiva metafísica, é concebível que a Ortodoxia, com suas fundações helênicas e do oriente médio, não poderia satisfazer inteiramente a busca religiosa ocidental. Portanto, os teólogos ocidentais desenvolveram uma versão da fé cristã que se baseava parcialmente na tradição teológica agostiniana e parcialmente na metafísica aristotélica redescoberta. A esta metafísica aristotélica foi dada uma interpretação cristã por Tomás de Aquino, e desta forma a religião Católica nasceu.
Um dos principais aspectos teológicos em que a religião Católica, ou o cristianismo gótico na terminologia de Spengler, desviou-se de seu parente Ortodoxo é o papel de Cristo. Enquanto Cristo no Oriente cristão sempre foi visto principalmente como o Cristo Cósmico, ou seja, o Logos Divino que é o criador do universo, a teologia Católica O viu principalmente em termos jurídicos. Assim, Jesus veio ao mundo para pagar a penalidade exigida por Deus pela a transgressão humana da Lei Divina. Como Anselmo afirmou, uma transgressão infinita exigiria um sacrifício infinito, de modo que nada menos que a morte de Cristo poderia apaziguar a majestade ofendida de Deus. Não pode haver dúvida de que essa interpretação jurídica da obra de salvação de Cristo é uma distorção da mensagem do Novo Testamento, mas que, no entanto, reflete a base latino-legalista da nova Cultura Ocidental.
Foi este mal-entendido legalista da teologia cristã que facilitou as tentativas incessantes - pelos papas Católicos e cardeais - de sujeitar reis e imperadores à sua autoridade. A Igreja era vista principalmente em termos jurídicos, e não em termos ontológicos, como na Ortodoxia. Essa eclesiologia desviada levaria, antes de tudo, aos métodos diabólicos da Inquisição, como os horrores da tortura e da estaca. A este respeito, devemos também mencionar o genocídio Católico dos albigenses e cártaros neo-gnósticos no norte da Itália e no sul da França, sancionado pela autoridade papal.
Durante a Idade Média houve um desenvolvimento litúrgico na Igreja Católica que contribuiria significativamente para a eventual ruptura no cristianismo gótico. Na Ortodoxia, o culto sempre foi visto como comunal, isto é, o clero e os leigos que estão juntos diante de Deus na adoração. Esta convicção é simbolizada pelo sacerdote de frente para o altar juntamente com a paróquia. No entanto, no ocidente franco-latino surgiu uma visão divergente - uma que via o sacerdote como mediador entre Deus e o homem e, portanto, como dispensador dos sacramentos. Esta divergência conduziu necessariamente ao empoderamento sacerdotal em detrimento dos leigos. A maior parte dos cristãos Católicos foi deixado à mercê do clero no que diz respeito à salvação. A excomunhão tornou-se a principal arma da Igreja, e permaneceu assim depois que o poder mundano passou às mãos de imperadores e príncipes, ao invés das mãos de papas e cardeais. Não é difícil compreender como esse estado de coisas inevitavelmente levou a uma revolta generalizada com o passar do tempo.
* * *
No século XVI, grande parte do mundo ocidental foi profundamente abalado pela revolução Protestante. O que começou como propostas de reforma para Igreja Católica - feitas por um monge alemão mergulhado na tradição agostiniana - logo se transformou em uma ruptura política contra os governantes Católicos nos grandes territórios no norte da Europa. No final daquele século, a Escócia, a Prússia, a Holanda, a Inglaterra e a Suíça se tornaram Protestantes. A colonização da América do Norte e da África do Sul por colonos dessas nações no século XVII garantiu que esses territórios também fossem Protestantes na fé, pelo menos nos estágios iniciais.

Dentro da cultura ocidental, o Protestantismo desempenhou um papel análogo ao do islamismo dentro da cultura árabe. Ambos surgiram como grandes tentativas de purificação, alegando ser um retorno à revelação divina original. Ambos reivindicam a autoridade da Sagrada Escritura para seus ensinamentos, seja o Alcorão ou a Bíblia. Ambos são iconoclastas, rejeitando as representações visuais de verdades sagradas como "idolatria". Ambos se espalharam com uma rapidez surpreendente e se tornaram a fé dominante em vastos territórios: o Oriente Próximo e Norte da África para um e o Norte da Europa para o outro. Destas regiões, ambas as religiões se estenderam ainda mais para outros continentes, uma mais para o Oriente e outra para o Ocidente.

No entanto, uma diferença fundamental entre o Islã e o Protestantismo se encontra nas concepções sobre a pessoa e a comunidade. Na concepção islâmica, a pessoa individual está sempre relacionada com a comunidade de fiéis. São comunidades inteiras que têm de se submeter a Deus, e não apenas pessoas individuais. Em contraste, o Protestantismo enfatizou desde o início o indivíduo perante Deus. Essa abordagem necessariamente (dada a natureza humana pecaminosa) levou ao individualismo excessivo ser uma marca do mundo Protestante ao longo de sua história. Até mesmo a doutrina Protestante da sola scriptura não pôde se proteger das interpretações individualistas da Bíblia, e esse fenômeno inevitavelmente levou à fragmentação do Protestantismo em milhares de denominações concorrentes, cada uma delas afirmando basear sua fé apenas na Escritura.

A religião Protestante tem Martinho Lutero como seu pai fundador. Seus escritos lançaram as bases para grande parte da teologia Protestante, sem mencionar sua tradução alemã da Bíblia. Além disso, a música litúrgica escrita por Lutero e seus seguidores tornou-se um pilar do canto coral Protestante em muitas partes do mundo. Esta tradição musical foi continuada por compositores como Praetorius, Scheidt, Schein, Buxtehude e outros, culminando em Johann Sebastian Bach, que em suas inúmeras obras sacras criou uma beleza espiritual transcendente - a mais alta expressão musical da alma faustiana.

Pouco depois que Lutero e seus companheiros evangélicos (como eles se chamavam) começaram sua reforma, surgiu outra corrente Protestante - que acabaria se tornando mais difundida do que a luterana. Esta é o Protestantismo reformado, também conhecido como calvinismo. A figura principal na teologia reformada é João Calvino, um francês que se instalou em Genebra. Sua magnum opus, Institutos da Religião Cristã, obteria um status de segundo lugar, ficando atrás somente da Bíblia entre muitos Protestantes. Calvino levou certos ensinamentos sobre a graça divina e a predestinação do grande pensador latino da Igreja primitiva, Agostinho, a conclusões extremas. Como resultado, o calvinismo tornou-se associado à doutrina da dupla predestinação: Deus predestina algumas pessoas para a salvação e outras para a condenação. É fácil observar como essa distorção inevitavelmente leva ao fatalismo - se a salvação é somente pela eleição de Deus, então por que se preocupar com qualquer tipo de esforço espiritual?

No século seguinte a Lutero, Calvino e seus companheiros, o Protestantismo tornou-se ainda mais extremo em sua rejeição do cristianismo gótico medieval. Este novo fundamentalismo tornou-se conhecido no século XVI como puritanismo. O tirano inglês e regicida Cromwell desempenhou um papel de liderança no estabelecimento da religião puritana na Grã-Bretanha, de onde foi levado para as novas colônias americanas. De acordo com a filosofia orgânica da história de Spengler, o papel de Cromwell na Cultura Ocidental é equivalente ao de Maomé na Cultura Árabe e Pitágoras na Cultura Clássica. Todos os três foram fundamentais para estabelecer uma religião puritana em suas culturas, cada uma vendo-o como um instrumento da vontade divina.

Desde então, a religião Protestante caiu gradualmente sob o domínio do racionalismo. Isso pode ser visto como um resultado inevitável da rejeição Protestante do misticismo, que foi ignorantemente ou arrogantemente confundido com superstição. De mãos dadas com a ascensão do racionalismo veio a explosão das ciências naturais a partir do século XVII em diante. Infelizmente, esse desenvolvimento inevitável trouxe não apenas o iluminismo, mas também a pseudo-religião do cientificismo. No século XIX, essa fé irracional na capacidade da ciência de explicar não apenas os fenômenos naturais, mas também o mundo espiritual-intelectual, tornara-se quase dominante entre as classes educadas da Europa Ocidental e da América do Norte.

No entanto, durante o século XVIII uma reação ao racionalismo surgiu nas mesmas partes do mundo onde o racionalismo e o cientificismo se estabeleceram. Essa reação ficou conhecida como Pietismo na Alemanha e como Metodismo na Grã-Bretanha. A devoção pessoal a Deus novamente veio à tona para muitos cristãos ocidentais, independentemente do escárnio proveniente dos sábios e poderosos. Essa reação pietista ao racionalismo é, na visão de Spengler, o equivalente ocidental do estoicismo na cultura clássica e o sufismo na cultura árabe. O pietismo Protestante eventualmente se espalhou por todo o mundo de língua inglesa, bem como pelos países mais germânicos da Europa.

Desde o início do século XX, o mundo Protestante foi perturbado com o chamado movimento pentecostal. Ele surgiu como a maioria dos cultos e seitas dos tempos modernos no bastião da liberdade, os Estados Unidos da América. O pentecostalismo vê-se como uma "nova efusão do Espírito Santo", sendo sua marca característica  o "falar em línguas". Este fenômeno auto-induzido é geralmente praticado em conjunto com emocionalismo, sendo este último incitado pelos ministros pentecostais. A partir da década de 1960, a aberração pentecostal começou a infiltrar-se nas grandes denominações Protestantes e, depois do Concílio Vaticano II, também na Igreja Católica. Nessa nova forma, tornou-se conhecido como o chamado movimento "carismático", seus proponentes afirmando arrogantemente de estarem "reintroduzindo louvor e adoração" na Igreja cristã (isto é, Protestante e Católico-modernista). O bem-aventurado escritor espiritual Ortodoxo Pe. Serafim Rose (1934-1982) escreveu uma exposição esclarecedora do movimento 'pentecostal / carismático', mostrando que não era outra coisa senão uma enganação satânica. Providencialmente, a Igreja Ortodoxa como um todo tem sido poupada deste fenomeno anti-cristão mascarado como "obra do Espírito Santo", embora uma parte modernista tenha tentado introduzir certos aspectos na Ortodoxia.

Dentro do Protestantismo, apenas o movimento anglo-católico na Comunhão Anglicana pode hoje ser entendido como representante de uma fé cristã mais ou menos tradicional, ainda que em sua forma ocidental. Este movimento começou em meados do século XIX, espalhando-se de Oxford para várias partes do mundo de língua inglesa. Desde então, os anglo-católicos vêm combatendo em conjunto com uma ação de retaguarda teológica, numa tentativa sincera de preservar o que resta da fé cristã em meio a um ambiente cada vez mais secularizado e humanista da igreja. Eles merecem o respeito de todos os cristãos.

* * *

Até então consideramos brevemente a Ortodoxia (Grega), o Catolicismo e Protestantismo em termos do modelo orgânico de Spengler. Para concluir este ensaio, analisemos a fé cristã Ortodoxa dominante nos tempos modernos: a Ortodoxia Russa. Desde a sua criação por missionários Ortodoxos gregos no século X, a Igreja Ortodoxa Russa cresceu tornando-se o maior membro da família Ortodoxa. Ao longo dos últimos séculos, realizou um vasto trabalho missionário na Ásia Central, na China, no Japão, no Alasca e em outros lugares. Agora, no século XXI, a Ortodoxia russa está preparada para proclamar a mensagem cristã mais uma vez no mundo ocidental pós-cristão.

É de particular importância para nós o fato de que Spengler estava convencido do potencial da Rússia para se tornar a próxima Alta Cultura, em meio à morte cultural inescapável do Ocidente. O filósofo alemão observou que a Rússia repetidamente nos tempos modernos foi submetida a influências alienígenas por seus governantes, tornando-se um outro caso de pseudomorfose. A primeira foi a tentativa de Pedro, o Grande, de modernizar a Rússia segundo os moldes ocidentais, implicando entre outras ofensas a abolição do Patriarcado de Moscou. Após um hiato de 200 anos, o Patriarcado foi restabelecido na véspera da revolução bolchevique em 1918, embora sua liberdade tenha tido curta duração. Tendo consolidado seu poder sobre o antigo Império Russo, os comunistas bolchevistas estabeleceram um Estado totalitário baseado no pensamento marxista-leninista. Esse grandioso projeto de engenharia social representava uma ulterior ocidentalização da Rússia, uma vez que Marx e Lenin eram ambos produtos do pensamento revolucionário da Europa Ocidental. Ironicamente, foi o mais feroz inimigo da Ortodoxia russa, o tirano Stalin, que também se esforçou para desfazer alguma das ocidentalizações de seus predecessores.

Entre os famosos escritores russos, Tolstói representava o passado ocidentalizado, argumentou Spengler, enquanto Dostoiévski apontava para o futuro. Curiosamente, no mundo Ortodoxo, Dostoiévski, com seu profundo insight psicológico e visão mística, tornou-se um dos pensadores mais influentes desde o final do século XIX. Numerosos escritores Ortodoxos, incluindo teólogos e filósofos bem conhecidos, reconheceram sua dívida espiritual-intelectual a este profeta da Ortodoxia Russa dos últimos dias. É compreensível por que Spengler acreditava que uma "terceira grande obra do cristianismo" (ou seja, após a Ortodoxia grega e o Catolicismo) viria da Rússia.

A este respeito, é significativo que, em 1988, a Igreja Ortodoxa Russa celebrou o milênio desde o estabelecimento da Ortodoxia nas terras russas. Logo depois, a Rússia começou a se livrar da herança de 70 anos da revolução bolchevique, embora os novos governantes pós-soviéticos tenham errado em permitir que as influências americanas-globalistas causassem estragos socioeconômicos no país. Desde o início do terceiro milênio, o governo russo, liderado pela poderosa parceria de Vladimir Putin e Dmitry Medvedev, trabalhou arduamente para trazer uma identidade russa renovada ao seu povo muito sofrido. A hierarquia Ortodoxa russa cooperou ativamente a esse respeito, além de evangelizar uma população afastada de sua Igreja por décadas de propaganda comunista. Assim, surgiu o renascimento mais espetacular da história cristã, com milhares de paróquias, centenas de mosteiros e dezenas de seminários reconstruídos e reabertos na Rússia desde o início dos anos 90.

No entanto, para que uma auto-satisfação sobre este reavivamento da Igreja não se instale, deve ser reconhecido que ainda há muito a ser feito por parte da Igreja e do Estado na Rússia. Altos níveis de imoralidade representam um desafio contínuo, para não mencionar o assassinato periódico de clérigos por inimigos de Cristo. A condição socioeconômica da maioria da população é terrível, sendo a luta diária pela sobrevivência a norma, especialmente para os idosos e os enfermos. Inescusavelmente, as enormes receitas dos recursos naturais do país são restritas aos ricos e seus parceiros. E a corrupção desenfreada ocorre em todos os níveis de administração e serviço público, apesar das tentativas de Putin e Medvedev de estabelecer um sentido de responsabilidade entre os funcionários. Estes problemas e desafios terão de ser abordados com vigor e determinação para que a Rússia possa cumprir o seu potencial de ser uma força para o bem neste mundo.

Vladimir De Beer
14 de Março, 2010 

quarta-feira, 29 de março de 2017

A Terrível Guerra travada em nossas Mentes e Corações

Mesmo antes de encontrar o ancião, instintivamente sabia que uma tremenda e terrível guerra estava sendo travada na Terra, em todos os cantos do planeta. O campo de batalha onde esta guerra ocorre é a mente humana e o coração humano. Nossas escolhas e a maneira como lidamos com os eventos de nossas vidas nos apontam para a vida, o conhecimento e a alegria, caso contrário seguimos em erro para a morte, a ignorância, a dor e a tristeza.

O ódio de nossos inimigos por nós é ardente. Seu desejo é destruir-nos completamente, e assim, friamente, eles traçam pérfidas conspirações para nos conduzir à ruína, à miséria e, finalmente, à morte. Eles tentam capturar a mente humana, bloqueando qualquer janela capaz de admitir a luz do conhecimento real - o que permitiria a pessoa apreciar sua própria grandeza e valor. Eles persuadem a mente a para entregar-se por um baixo preço, por exemplo, por uma ninharia brilhosa, por assim dizer. Esses inimigos não são entidades impessoais. Eles têm rostos e nomes, pertencendo ao mesmo gênero e espécie. Eles são astutos, inescrupulosos, e trabalham incessantemente para alcançar seu objetivo. Eles lutam com a raça humana como um todo e com cada pessoa individualmente. Estamos quase sendo conquistados por eles: a humanidade está sob seu jugo, se não completamente, ao menos em grande parte.

Ao longo dos séculos, um número considerável de pessoas passaram para o lado desses nossos inimigos, voluntariamente ou porque foram enganados por eles. Alguma dessas agora encontram-se sob o poder direto desses inimigos, servindo-os, fazendo seu trabalho, e apressando seus esquemas. Em troca eles são muitas vezes ajudados materialmente nesta vida. Por exemplo, eles podem encontrar empregos facilmente, ou adquirir poder sobre os outros ou riqueza. Mas, embora tenham coisas materiais, eles não possuem a paz, de modo que não podem realmente se alegrar com o que têm e encontrar satisfação. Na verdade, eles vivem em perigo, num estado profundo e permanente de medo. Pois seus mestres têm um ódio por eles enquanto seres humanos, e para esses mestres eles existem para serem usados - e descartados, como costumam ser, depois de terem cumprido seu propósito.




Por Dionysios Farasiotis, no livro "The Gurus, the Young Man, and Elder Paisios"

quinta-feira, 23 de março de 2017

Uma nova Virgem Maria para uma "Nova Era"?

Uma edição recente da revista "Life" (Dezembro de 1996) publicou um artigo de capa intitulado "O mistério de Maria". Um leitor ortodoxo não pode deixar de se perguntar que tipo de "Maria". O artigo é muito revelador pela maneira particular em que a Theotokos é exposta, e também pela intenção da autora em influenciar a compreensão do público americano sobre a pessoa e o papel da Theotokos.

Antes de iniciar o texto, a autora nos apresenta uma montagem de imagens (ícones, estátuas e "arte sacra") que representa a Virgem Maria em várias maneiras: desde a Theotokos de Vladimir às Madonnas italianas, passando por pinturas japonesas e estatuetas africanas do tipo animista. A mensagem é clara, mas para esclarecer a autora cita a historiadora Karen Armstrong (ex-freira católica): "Maria é continuamente reinventada... Em todas as épocas, as pessoas modificaram sua definição para se adaptar as suas circunstâncias"

Em outras palavras, dizem que "Maria" nada mais é do que um produto de cada cultura e época. Qualquer sociedade tem o direito, na opinião dele, de criá-la "à sua imagem". Na cultura ocidental pluralista, não é permitido proclamar uma opinião como verdade absoluta. Portanto, qualquer opinião é considerada válida, desde que não seja afirmado nada além do que uma mera opinião. Qualquer ponto de vista é tolerado, exceto aquele que diz: "Esse é a Verdade".

No último século, testemunhamos como se manifestou esse tipo de "tolerância" em relação à pessoa de Cristo. Autores modernos escreveram suas próprias "biografias" de Jesus, como Renan e Schweitzer ou Tolstoi, tão popular no século XIX. Na verdade, cada um deles remodelou Cristo para atender seus próprios propósitos, para criar um deus a seu gosto e, muitas vezes, acabam por criar um reflexo de si mesmos. Assim, os eruditos liberais vêem Jesus como um rabino, os socialistas o retratam como revolucionário e os místicos da Nova Era veem nele um tipo de guru treinado no Tibete.

Outra forma em que Cristo foi reinterpretado tem sido os resultados de estudos realizados por antropólogos das religiões do Oriente Médio onde eles traçaram paralelos entre o Deus cristão e os falsos deuses da antiguidade, como o Mitra persa, o Osiris egípcio e o Tamuz babilônico (veja Ezequiel 8:14, onde as mulheres de Jerusalém são representadas de luto pela morte de anual de Tamuz antecipando sua ressurreição). Notando que as mitologias, muitas vezes, apresentam elementos como um herói que ressuscitou ou como um bebê ou escapou de ser morto por um tirano, esses estudiosos concluem que Jesus Cristo é nada mais do que um outro herói. No entanto, Jesus Cristo não é uma figura mitológica, mas uma pessoa real que andou nesta terra em um determinado momento na história cuja existência foi testemunhada até mesmo por autores não-cristãos, como o historiador judeu Flavio Josefo. Cristo não pode ser reduzido a um mero "arquétipo junguiano" (segundo os parâmetros do psiquiatra, psicólogo e ensaísta Carl Gustav Jung, nota do tradutor). Pelo contrário, a presença de um herói ressuscitado em muitas culturas pré-cristã pode ser entendida como uma expressão do clamor universal da alma humana pela antecipação da chegada de seu Redentor. A imagem distorcida de um herói sendo concebido como inferior ao Deus cristão é, naturalmente, uma consequência natural do homem que perdeu a imagem do Criador, tentando imaginar a vinda do Messias: a natureza decaída produz uma imagem distorcida.

Assim, o homem moderno acredita que não há apenas um Cristo, mas que cada um de nós estamos livres para criar o seu próprio. Mas Paulo disse aos Gálatas: "Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema." (Gálatas 1: 8) O mesmo pode ser aplicado sobre "outra Maria", porque os mesmos métodos usados ​​para reinventar Cristo estão agora sendo usados com Sua mãe. Isso não deveria nos surpreender. São João de Xangai e São Francisco (São João Maximovitch) em seu tratado "A veneração Ortodoxa da Theotokos," sabiamente disse que "todos os que odiavam a Jesus Cristo, e não acreditavam nele, que não entenderam Seu ensinamento, ou, para ser mais exato, aqueles que não quiseram entender como a Igreja entendeu, que queriam substituir a pregação de Cristo com o seu próprio raciocínio humano, todos esses transferiram seu ódio a Cristo, ao Evangelho e a Igreja para a Puríssima Theotokos. Desejavam menosprezar a Mãe, para também destruir a fé em Seu Filho, para criar uma falsa representação dela entre os homens, a fim de ter a oportunidade de reconstruir toda a doutrina cristã sobre um fundamento diferente. No ventre de Maria, Deus e homem se uniram. Ela foi a Única que serviu como uma escada para o Filho de Deus, que desceu do céu. Atacar sua veneração significa atacar o cristianismo em sua raiz, destruindo-o em sua verdadeira fundação" (pp. 25-26).

Portanto, da mesma maneira que sempre existiu falsos cristos, também sempre existiu falsas Marias. O demônio sabe que para promover uma deve vender a outra. Assim, no antigo paganismo, Tammuz era acompanhado por sua mãe Semiramis, Isis e Osiris. O protestantismo está sempre pronto para identificar a veneração a Maria com a adoração de deusas pagãs, mesmo se, por uma questão de coerência, a adoração de Cristo deva ser associada com a de suas falsificações pagãs. Se os cristãos podem discernir entre o verdadeiro Cristo e os falsos, então também devem ser capazes de distinguir entre a Theotokos e as antigas deusas pagãs que reivindicaram o título de "Rainha do Céu" (cf. Jeremias 44).

"As deusas mãe" do tipo conhecido no mundo antigo não se limitam ao Oriente Médio e Mediterrâneo, mas são universais. Os índios Kogi, que viviam em Columbia, adoravam um espírito chamado Nabubi, a "Velha Mãe". Quando os missionários católicos romanos tentaram evangelizar os Cogi no século passado, eles usaram uma estratégia incomum para conduzir os pagãos ao redil de Roma: em vez de explicar as diferenças entre a mitologia pagã e a verdade cristã, encontram uma "equivalência". Cristo, sob sua visão sincrética, correspondia a Sejukukui (um deus trapaceiro que engana a sua própria morte, escondendo-se em uma caverna), ao passo que a Virgem Maria correspondia Nabubi. Esta confusão levou aos Kogi chamar seus templos pagãos de "cansamaria", uma corruptela de "Casa de Maria".

Tendo em conta estes "métodos evangelísticos" católicos romanos há mais de um século, é de admirar que as "aparições" contemporâneas de Maria sejam invariavelmente acompanhadas de mensagens ecumênicas que promovam a ideia de que todas as religiões são igualmente válidas e que o cristianismo ortodoxo é apenas um "caminho " entre muitos? Uma edição recente da Tradição Ortodoxa (1996) contém o relato da viagem de Matushka Katherine Swanson a Medjugorje, Croácia, para investigar o mais famoso dos recentes casos de aparições de Maria no mundo católico romano. Ela conta um episódio contundente:

Nosso guia levou o nosso grupo para uma audiência com os "videntes". Durante esta audiência, um peregrino perguntou a uma das crianças a seguinte questão: "A Virgem diz que a Igreja Católica é a verdadeira igreja?" A resposta dada pela criança fornece evidências claras do conteúdo ecumênico e do relativismo religioso que, curiosamente, cada vez mais marcam as "revelações" em Medjugorje: "Nossa Mãe Santíssima diz que todas as religiões são igualmente agradáveis ​​a Deus".
O artigo da revista "Life", então, é mais uma contribuição para essa linha de pensamento. Dada a ideia de que todos os caminhos são igualmente válidos, então todas as "Marias" são igualmente válidas, também. A autora descreve várias das Marias dos nossos tempos: a Maria Milagrosa (como em Medjugorje), a Maria Mediadora (que, como cita o Padre Andrew Greeley, deixa as pessoas no Céu através da "porta dos fundos"), a Maria Moderna das feministas e Mãe Maria. Esta última, Mãe Maria, é o papel que a autora considera mais atraente para os não-católicos: "A necessidade emocional por ela é tão irresistível para um mundo problemático que pessoas sem um vínculo óbvio com a Virgem estão sendo atraídas por ela. Sabe-se que os muçulmanos reverenciam Maria como santa e pura... Grupos de oração interdenominacionais marianos estão surgindo em todo o mundo. Muitos protestantes, mesmo alguns que ainda rejeitam noções de uma Virgem sobrenatural, sentem falta de Maria."

Para qual Maria os muçulmanos e protestantes estão sendo atraídos? A Reforma Protestante rejeitou a visão distorcida de Maria, que se desenvolveu no Ocidente desde o Cisma de 1054, e que acabaria por resultar na proclamação do dogma da Imaculada Conceição pela Igreja Romana. Mas o protestantismo não rejeitou apenas a visão ocidental de Maria; ignorou Ela completamente, negando de fato Seu papel na Encarnação e, consequentemente, a parte que Ela desempenha em nossa salvação. Como Roma começou a vê-la cada vez mais como uma "deusa", uma quarta Hipóstase da Trindade, por assim dizer, os protestantes reagiram por minimizar Sua posição e recusando-se a honrá-la, isto apesar das palavras do Evangelho: "Todas as gerações me chamarão bem-aventurada ".

Hoje, à medida que os cristãos heterodoxos se tornam cada vez mais ecumenistas e trabalham para a criação de uma "Igreja Mundial Única", iniciou-se a busca de uma Maria de reconhecimento universal, que apelará não apenas aos que carregam o nome de cristão, mas aparentemente aos muçulmanos e outros também, assim como também estão sendo feitas tentativas de identificar o "novo Cristo" com o conceito muçulmano do vindouro Mahdi e com o Messias ainda aguardado pelos judeus. Isto, naturalmente, não será Cristo, mas o anticristo. Aparentemente, o caminho também está sendo pavimentado para uma "anti-Maria". O artigo da revista "Life" termina com o caso de um ministro unitário que "tem um sonho - de uma Maria meio-termo, uma Sempre-Maria que pode transcender ideologias e dar a este mundo tumultuado a mãe que precisa. 'Eu gosto de pensar que ela poderia ser uma ponte entre as religiões', diz ele."

Que tais palavras sejam uma advertência para todos os cristãos ortodoxos, que podem estar intrigados por aparições como as de Fátima, Lourdes ou Medjugorje. Estas ocorreram fora da Igreja e como tal são suspeitas.

Outro aspecto perturbador do artigo é o uso degradante de frases jornalísticas cativantes comuns em referência à Mãe de Deus, por exemplo: "... a noção de que Maria permaneceu virgem durante toda a sua vida não estava no ar". "Isto impulsionou Maria para ser ... uma celebridade principal," e "como a mulher a mais famosa da Bíblia, Maria transformou-se uma peça simbólica na luta para a ordenação das mulheres..." Nossa posição é que a Theotokos não é uma "Sempre-Maria" abstrata que somos livres para reinventar e moldar a nosso gosto. Ela é uma pessoa real que andou nesta terra, e para entender quem Ela é, nós não precisamos buscar mais longe do que as Escrituras e a Sagrada Tradição de nossa Igreja, que permaneceu inalterada desde os tempos apostólicos. Ela não é nem a criatura super-humana inventada pelos católicos romanos, nascida sem uma natureza humana decaída, nem é meramente humana como os protestantes pensam. O ocidente, ao perder seus laços com a Ortodoxia, esqueceu o ensinamento patrístico da theosis ou "divinização". Ninguém nasce perfeito, mas tampouco somos humanos condenados a ser meras criaturas decaídas. Estas parecem ser as únicas alternativas que o cristianismo heterodoxo pode compreender. Mas nossos Pais da Igreja sempre ensinaram que "Deus se fez homem para que o homem possa tornar-se divino", isto é, que pudéssemos partilhar de Sua natureza (II Pedro 1: 4) e ser conformado à imagem divina na qual o homem foi originalmente criado. A salvação é um processo que começa com nossa natureza decaída e pecaminosa e conduz à participação na própria Vida da Trindade.


A Theotokos, a Igreja nos ensina, é a primeira e maior exemplo desse processo. Ela submeteu Sua vontade a Deus, concordando em ter Seu Filho. Sem Ela não teria havido nenhuma Encarnação e consequentemente nenhuma Redenção. Através da oração e do jejum, cresceu em santidade para se tornar um vaso puro para conter o Ilimitado. Depois do nascimento de Cristo, ela permaneceu sempre virgem e continuou Seu podvig [esforço espiritual, ascese, nota do tradutor] para tornar-se "mais  venerável que os Querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os Serafins". Essa visão, Ortodoxa, evita os extremos ocidentais que consideram a Theotokos como quem nasceu perfeita ou como quem nunca tornou-se perfeita.

Os cristãos ortodoxos devem seguir o exemplo da verdadeira Mãe de Deus, "a própria Theotokos", e chamando-a à lembrança "comprometei-nos, uns aos outros e toda a nossa vida, a Cristo, nosso Deus".


A "New Mary" for a New Age? por Peter Jackson, revista Orthodox Life, No. 1, 1997, pp. 18-22.

quarta-feira, 8 de março de 2017

A Oração Cristã e as Meditações Orientais (Arquimandrita Sofrônio de Essex)

O caminho de nossos Pais requer uma forte fé e longanimidade, ao passo que nossos contemporâneos tentam adquirir dons espirituais, incluindo até a contemplação direta do Deus Absoluto, através da força em um breve espaço de tempo.

Muitas vezes, pode-se notar neles uma disposição em traçar um paralelo entre a oração do Nome de Jesus e yoga ou "meditação transcendental" e semelhantes.

Penso que é necessário apontar os perigos desta ilusão, o perigo de encarar a oração como um meio "técnico" muito simples e fácil de conduzir à união direta com Deus.

Considero essencial enfatizar a diferença radical entre a Oração de Jesus e todas as outras teorias ascéticas.

São iludidos aqueles que se esforçam mentalmente para se despojar de tudo que é transitório, relativo, a fim de que assim possam atravessar algum limiar invisível, para realizar seu ser "sem começo", sua "identidade" com a Fonte de tudo que é; a fim de retornar a Ele, se imergir Nele, no Absoluto transpessoal sem nome; a fim de - na vasta extensão daquilo que está além do pensamento - unificar a própria individualidade com a forma individualizada da existência natural. Esforços deste tipo permitiram alguns daqueles que se esforçam a elevarem-se, até certo ponto, à contemplação metalógica do ser; a experimentar um certo temor; a conhecer o estado quando a mente é silenciada, quando se vai além dos limites do tempo e espaço. Em semelhantes estados, o homem pode sentir a paz ao livrar-se das manifestações em constante mutação do mundo visível: podem descobrir neles mesmos a liberdade de espírito e contemplar a beleza mental.

O desenvolvimento último desse ascetismo impessoal levou muitos ascetas a perceber a origem divina na própria natureza do homem; a uma tendência à auto-divinização que está na raiz da grande Queda; ao ver no homem uma certa "absolutidade" que, em essência, nada mais é do que o reflexo da Divina Absolutidade na criatura criada à Sua semelhança; a sentir-se atraído para retornar ao estado de paz que o homem conhecia antes de sua aparição neste mundo.

Em alguns casos depois de tais experiências algumas formas de anomalias mentais podem surgir na mente. Não estou me impondo a tarefa de listar todos os tipos de intuição mental, mas direi, por experiência própria, que o Verdadeiro Deus Vivo, o EU SOU, não se encontra aqui. Aqui está o gênio natural do espírito humano em seus impulsos sublimados em direção ao Absoluto.

Toda contemplação alcançada por tal meio é uma contemplação de si mesmo, não uma contemplação de Deus. Nessas circunstâncias, abrimos para nós mesmos a beleza criada, não o Ser Primeiro. E em tudo isso não há salvação para o homem.

A fonte da libertação verdadeira reside na inquestionável aceitação - de todo o coração - da Revelação, "Eu sou o que sou ... Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último." Deus é o Pessoal Absoluto, Trindade Una e Indivisível.

Toda a nossa vida cristã é baseada nesta Revelação. Este Deus nos chamou do não-ser para a vida. O conhecimento deste Deus Vivo e o discernimento da maneira de Sua criação nos liberta da obscuridade de nossas próprias ideias, vindas de baixo, sobre o Absoluto; resgata-nos da nossa atração inconsciente de tudo o que prejudicial para nós mesmos.

Somos criados a fim de ser comunicantes no Ser Divino daquele que realmente é. Cristo indicou este caminho prodigioso: "Porque estreita é a porta e difícil o caminho que conduz à vida."

Apreendendo as profundezas da sabedoria do Criador, embarcamos no sofrimento pelo qual a eternidade Divina é alcançada. E quando Sua Luz brilha para nós, unimos em nós a contemplação dos dois extremos do abismo: de um lado, a escuridão do inferno e, do outro, o triunfo da vitória. Estamos existencialmente introduzidos na província da Vida Divina Incriada.

E o inferno perde poder sobre nós. É-nos dada a graça de viver o estado do Logos encarnado Cristo, que desceu ao inferno como Conquistador. Assim, pelo poder de Seu amor, abraçaremos toda a criação na oração: "Ó Jesus, Gracioso Todo-Poderoso, tem piedade de nós e do Teu mundo".

A Revelação deste Deus Pessoal transmite um caráter maravilhoso a todas as coisas. O Ser não é um processo cósmico determinado, mas a Luz do amor indescritível entre as pessoas Divinas e as criadas. É o movimento livre de espíritos plenos de sabedoria de tudo o que existe, e a consciência de si mesmo.

Sem isso não há sentido em qualquer coisa, mas só morte. Mas nossa oração se torna um contato vivo de nossa pessoa criada e da Pessoa Divina, isto é, algo absoluto.

E isso é expresso quando nos dirigimos ao Verbo do Pai: "Ó Senhor Jesus Cristo, Verbo de Deus Pai, tem piedade de nós. Salva a nós e Teu mundo."

Do livro "On Prayer" pelo Arquimandrita Sofrônio (Sakharov) p.168-170

sexta-feira, 3 de março de 2017

O Pecado não é um problema moral (Pe. Stephen Freeman)

Muitos leitores nunca antes ouviram dizer que não existe tal coisa como progresso moral - portanto não estou surpreso por terem pedido que eu escrevesse com mais profundidade sobre o tema. Começarei por focar na questão do pecado em si. Se entendermos corretamente a natureza do pecado e seu verdadeiro caráter, a noção de progresso moral será vista com mais clareza. Começarei por esclarecer a diferença entre a noção de moralidade e a compreensão teológica do pecado. São dois mundos muito diferentes.

Moralidade (na forma que utilizo a palavra) é um termo amplo que geralmente descreve a adesão (ou falta de adesão) a um conjunto de padrões ou normas de comportamento. Nesse entendimento, todo mundo pratica alguma forma de moralidade. Um ateu pode não acreditar em Deus, mas ainda terá um sentido interiorizado de certo ou errado, bem como um conjunto de expectativas para si mesmo e para os outros. Nunca houve um conjunto de padrões morais aceitos universalmente. Pessoas diferentes, culturas diferentes, têm uma variedade de entendimentos morais e formas de discutir o que significa ser "moral".

Tenho observado e escrito que a maioria das pessoas não irão progredir moralmente. Isto quer dizer que geralmente não conseguimos melhorar observando quaisquer normas e práticas que consideramos moralmente corretas. Em geral, estamos tão moralmente corretos como sempre seremos.


Isto difere fundamentalmente do que se chama "pecado" em termos teológicos. A falha em aderir a certos padrões morais pode ter certos aspectos de "pecado" por trás dela, mas as falhas morais não são a mesma coisa que o pecado. Da mesma forma, a correção moral não é de modo algum a mesma coisa que a "retidão". Uma pessoa poderia ter sido moralmente correta durante toda sua vida (teoricamente) e ainda estar enterrada no pecado. Entender o pecado tornará isso claro.

"Pecado" é uma palavra que é usada frequentemente de forma incorreta. Popularmente é utilizada para denotar infrações morais (violação das regras), ou, religiosamente, violação das regras de Deus. Assim, quando alguém pergunta: "É pecado fazer x, y, z?", o que eles querem dizer é: "É contra as regras de Deus fazer x, y, z?", mas isso é incorreto. Propriamente, o pecado é algo completamente distinto da violação das regras - São Paulo fala disso de maneira bem diferente:
Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. (Romanos 7:18-20)
"Pecado que habita em mim?" Obviamente "violar as regras" não é um significado que se encaixa neste uso em qualquer maneira possível. O pecado tem um significado completamente diferente. Podemos retomar seu sentido por São Paulo:
Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça. E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? Porque o fim delas é a morte.Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna.Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor. (Romanos 6:20-23)
Aqui o pecado é algo em que podemos ser escravos, e cujo fim é a morte. Então o que é pecado?

O pecado é uma palavra que descreve um estado de ser - ou, mais propriamente, um estado ou processo de não-ser. É um movimento para longe da nossa própria existência - do dom de Deus para Sua criação. Somente Deus tem o Verdeiro Ser - Só Ele é auto-existente. Todo o resto que existe é contingente - totalmente dependente em cada momento de Deus, que é a existência. Quando Deus nos criou, segundo os Padres, Ele nos deu existência. À medida que aumentamos nossa comunhão com Ele, avançamos para o ser. Seu dom final para nós, e é para essa união que devemos nos mover adequadamente, é o ser eterno.

Mas há um oposto a esta vida de graça. Trata-se de um movimento em direção à não-existência, um movimento para longe de Deus e uma rejeição do ser. É este movimento que é chamado de "pecado". Podemos ser escravos dele, como uma folha presa em um redemoinho na água. O pecado não é algo em si (pois o não-ser não tem existência). Mas é descrito nas Escrituras por palavras como "morte" e "corrupção". Corrupção ou "putrefação" (φθορά) é uma excelente palavra para descrever o pecado. Pois é a dissolução gradual (um movimento ou processo dinâmico) de uma coisa anteriormente viva - sua decadência gradual ao pó.

Isso difere notoriamente da idéia de pecado como a violação das regras morais. A ruptura de uma regra implica apenas um erro externo, uma infração meramente legal ou forense. Nada de substância é alterado. Mas as Escrituras tratam o pecado muito mais profundamente - é em si uma mudança na substância, uma decadência de nosso próprio ser.

E aqui é onde um re-pensar criativo torna-se necessário. O hábito de nossa cultura é pensar no pecado em termos morais. É simples, requer muito pouco esforço, e coincide com o que todos ao seu redor pensam. Mas é teologicamente incorreto. Isso não quer dizer que você não pode encontrar tais tratamentos moralistas dentro dos escritos da Igreja - particularmente dos escritos ao longo dos últimos séculos. Mas a captura da teologia da Igreja pelo moralismo é um verdadeiro cativeiro e não uma expressão da mente ortodoxa.

Então, como pensamos o certo e errado, o crescimento espiritual, a própria salvação, se o pecado não é um problema moral? Não ignoramos nossas falsas escolhas e paixões desordenadas (hábitos de comportamento). Mas nós os vemos como sintomas, como manifestações de um processo mais profundo em funcionamento. O cheiro de um cadáver não é o verdadeiro problema e tratar o cheiro não é de modo algum a mesma coisa que a ressurreição.

A obra de Cristo é obra da ressurreição. Nossa vida em Cristo não é uma questão de aperfeiçoamento moral. Estamos enterrados em Sua morte - e é uma morte real - completa com tudo o que a morte significa. Mas a Sua morte não foi para corrupção. Ele destruiu a corrupção. Nosso Batismo na morte de Cristo é um Batismo na incorrupção, a cura do rompimento fundamental em nossa comunhão com Deus.

Então, como é essa cura? É errado esperar algum tipo de progresso ocorrer?

Minha experiência de vida (34 anos como sacerdote) e a leitura dos Padres e da Tradição sugerem que tais expectativas são, de fato, enganosas. Eu me perguntei sobre isso por muitos anos. Passei a pensar em nossa salvação como sendo semelhante à realidade dos sacramentos. O que você vê na Eucaristia? O Pão e o Vinho sofrem uma mudança progressiva? Vemos uma transformação diante dos nossos olhos?

O que parece ser verdade é que nossa salvação está em grande parte escondida - às vezes até mesmo de nós. A fé cristã é "apocalíptica" em sua própria natureza - é uma "revelação do que está escondido." As parábolas estão repletas de imagens de surpresa: tesouro descoberto, etc A salvação tem um modo do simplesmente aparecer. Muitas vezes penso no drama litúrgico numa liturgia ortodoxa como se isso acontecesse - por isso as portas e a cortina e o "agora você vê - agora você não vê - agora você realmente vê" fluem do serviço.

Encontrar nossa salvação significa afastar-se da aparência das coisas. Requer uma profunda e fundamental reorientação interior de nossas vidas. Requer a obra interior do arrependimento. A vida moral é vivida na superfície - até mesmo os ateus se comportam de maneira moral. Quando nos voltamos para Cristo em nós, nos movemos abaixo da superfície. Começamos a ver como são efêmeras e confusas nossas ações.

Essas ações são em maior parte a obra de um eu falso, um ego que é débil e vergonhoso, que luta freneticamente "para ser melhor". Mas o coração da vida espiritual cristã não é por este caminho do ego aperfeiçoado, mas através do caminho da "morte a si mesmo", em que perdemos uma existência que não é nosso verdadeiro eu, e aprendemos uma existência que é nossa em Cristo. Mas o que vemos é muitas vezes outra coisa. Pois, enquanto estamos encontrando a verdade, o outro ainda se apega à sua falsa existência - e isto é primariamente o que vemos e o que os outros veem. A obra escondida da salvação permanece invisível.

Não é de todo incomum na vida dos santos que a santidade de um indivíduo permaneça escondida até a sua morte. Este foi o caso de São Nectarios de Egina. Ele foi desprezado por muitos, embora visto verdadeiramente por poucos. Mas na sua morte, milagres começaram a fluir dele e, de repente, as histórias começaram a surgir.

E misteriosamente, parece que esta vida escondida é muitas vezes escondida até mesmo do próprio santo (assim como nossa verdadeira vida está escondida de nós). Eu penso que Deus nos preserva do peso deste conhecimento por causa da nossa salvação.

Pensai nas coisas do alto, não nas que são da terra. Pois vocês estão mortos, e sua vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é nossa vida, aparecer, então também vocês aparecerão com Ele em glória. (Col 3: 2-4)

Isto, novamente, é o caráter apocalíptico da vida cristã. Estamos mortos e nossas vidas verdadeiras estão escondidas com Cristo em Deus - e elas aparecerão quando Ele aparecer.

Então, o que vemos nesta vida? A resposta simples é clara: Cristo. Não é a nosso próprio aperfeiçoamento que buscamos, mas Cristo. Nosso próprio aperfeiçoamento passa gradativamente a ser algo desimportante quando encontramos Cristo. E quanto mais O encontramos, mais claramente a falsa natureza do ego parece clara para nós, e podemos dizer: "Eu sou o pior de todos os pecadores".