quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O Julgamento Individual e a Possibilidade de um Inferno Eterno (Pe. Dumitru Staniloae)

Todas as três principais confissões cristãs ensinam em geral que cada alma, sobrevivendo após a morte, passa imediatamente depois por um julgamento separado, após o qual é enviada à felicidade ou a tormentos, de acordo com a forma como é encontrada nesse julgamento. No fim do mundo, haverá outro julgamento, o universal. 

Oposto a este ensinamento está a teoria de que as almas evoluem infinitamente após a morte. Ela tem duas formas: 

1. A primeira forma consiste na afirmação de que a vontade humana e o destino humano são indefinidamente variáveis. De acordo com esta teoria, o ser humano pode mudar de direção ao longo da vida futura. A vontade nunca é fortalecida definitivamente em uma ou outra direção, seja nesta vida ou na próxima, de modo que possa pronunciar julgamento sobre o ser humano imediatamente após a morte. A eternidade será uma sucessão infinita de existências felizes ou infelizes para os seres humanos, que são eternamente livres para levar uma vida boa ou uma vida má. Uma forma concreta desta doutrina é a teoria da reencarnação ou metempsicose, sustentada por antroposofistas e espíritas.

2. A segunda forma, denominada universalismo, sustenta que no fim todas as almas alcançarão o mesmo grau de felicidade, pois um ser livre pode se arrepender a qualquer momento, e no fim todos se arrependerão. O mal terminará em algum momento, pois todo mal é medicinal, e portanto temporal. [1]

Em geral, esta teoria se opõe em princípio a qualquer julgamento de Deus, seja individual ou universal, que dividiria eternamente as pessoas humanas com base na decisão delas durante sua breve vida na Terra. Entre os defensores desta teoria, mencionamos Gotthold Lessing, que, em nome da filosofia idealista panteísta, substituiu o fim duplo da humanidade por uma evolução sem fim. No âmbito teológico, Friedrich Schleiermacher, Otto Pfleiderer, Ernst Troeltsch, Reinhold Seeberg, Hermann Ludemann e Willy Hellpach apoiaram esta teoria evolucionista. [2]

Três argumentos são apresentados em apoio a estas teorias: (1) o caráter indecisivo da vida presente para determinar o destino eterno do ser humano, (2) a liberdade eterna da pessoa humana, e (3) a impossibilidade de conciliar o julgamento divino com a bondade divina. 

1. Em apoio ao caráter decisivo da vida presente, primeiramente, apresentamos as palavras das Sagradas Escrituras, a partir das quais uma série de conclusões pode ser extraída.

As Sagradas Escrituras mostram que a vida na Terra é a arena na qual a pessoa humana decide seu destino para a eternidade, pois após a morte ela não pode mudar seu destino. Isto é mencionado primeiramente de uma maneira geral, considerando a vida como "o tempo" que temos. "Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens" (Gálatas 6:10). "Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar." (João 9:4) [3] Mas então as Escrituras especificam que a vida na Terra tem este caráter decisivo porque é a vida no corpo: "Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo." (2 Coríntios 5:10) "Quem semeia na carne, da carne colherá a corrupção; quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna." (Gálatas 6:8; veja também Ef 6:8; Rm 2:5-6).

A partir destas palavras e de todo o espírito das Sagradas Escrituras, vê-se que, segundo a revelação, o homem é um ser ativo e, portanto, completo apenas no corpo. Ele trabalha para sua perfeição espiritualizando o corpo, ou seja, pelo fato de fazer do corpo um meio para os sentidos e para as boas obras. [4]

Deus criou todo este mundo visível para que, através do homem, Ele pudesse se tornar tudo em todos. Esta é a missão específica da pessoa humana: ser o elo entre Deus e o mundo, um elo entre todas as coisas, através de seu espírito unido a Deus.

Deus tem um plano cósmico de salvação; Ele não salva mônadas espirituais singulares. A pessoa humana não pode cumprir esta missão única, exceto em um corpo intimamente conectado a este mundo. É por isso que o próprio Filho de Deus se fez homem em corpo e alma, para que através de Sua humanidade Ele pudesse reunir toda a criação em Si mesmo. Como então o homem poderia tornar-se perfeito como um ser espiritual se não agisse sobre o mundo, se não fosse fortalecido como um espírito - com a ajuda de Deus - em relação ao mundo visível? Além disso, somente nesta vida corporal o homem tem semelhantes necessitados a quem ele pode ajudar através de seu corpo. São João de Damasco diz: "Quando termina o dia do mercado, não há mais comércio de mercadorias. Pois então onde estão os pobres? Onde estão os liturgistas e a salmodia? Onde estão as boas obras? Antes da hora da morte, podemos ajudar uns aos outros, e podemos oferecer manifestações de amor fraterno a Deus, o amante da humanidade". [5] 

Somente a teoria da reencarnação parece levar em consideração a necessidade do corpo para a perfeição do homem. Mas na realidade, ela priva de caráter decisivo qualquer vida pela qual uma alma passaria em suas sucessivas encarnações. Pois esta teoria vê o mundo ascendendo e descendo eternamente para cima e para baixo, sem nenhum objetivo final e, portanto, sem nenhum sentido. Não existe um nível absoluto de existência para o qual o mundo tenderia e no qual as encarnações chegariam totalmente ao fim. Se esse nível absoluto existisse, ele deveria ter sido alcançado desde a eternidade, porque se sobe eternamente os degraus em direção a ele. Mas estas encarnações não mantêm a mesma pessoa em uma continuidade real à medida que ela se move de uma encarnação para a próxima. Em qualquer reencarnação particular, o mesmo ser não se reconhece como idêntico a seu eu anterior. O "eu" atual não é idêntico aos "eus" das encarnações anteriores. A perfeição dos "eus" futuros não me interessa. Falando apropriadamente, todas as pessoas são perdidas - se ainda assim podem ser chamadas de pessoas. Que alegria tenho em minhas futuras encarnações superiores se eu não registrar conscientemente meu progresso desta encarnação para as futuras? [6]

De fato, a antroposofia sustenta que a série de reencarnações leva os seres a se fundirem em uma essência espiritual suprema, de modo que eles possam então se desprender novamente desta essência para se tornarem partes materiais individuais que são mais uma vez gradualmente espiritualizadas. Esta teoria combina o origenismo - que está ligado à teoria da formação de mundos sucessivos que caem e emergem de si mesmos - com encarnações sucessivas dentro destes mesmos mundos. Assim, a crítica do relativismo origenista insere-se ao lado da crítica das reencarnações, que tornam a pessoa humana ainda mais efêmera.

Com relação à forma origenista da teoria das descidas e ascensões sucessivas, São Máximo o Confessor se questionou como os seres espirituais poderiam ter se afastado da unidade original, pois nessa unidade eles experimentaram o bem supremo, e assim não havia mais espaço neles para qualquer outro desejo. [7] E qual é a garantia de que, uma vez reunidos na unidade original, eles não se moveriam novamente, repetindo sem cessar e sem sentido a série de quedas e retornos à plenitude? Isso significaria que os seres criados não poderiam encontrar a felicidade completa em nenhum lugar. São Máximo vê o significado do movimento no fato de que tendemos ao objetivo final: que os seres criados repousem eternamente na infinitude divina. Sem a tensão interna dirigida a esse objetivo final - perfeição absoluta na infinita plenitude divina - o movimento não tem sentido. [8] Ele nos engana com objetivos imediatos que na realidade não nos tiram do plano da relatividade, quer avancemos mais neste plano, quer retornemos sempre em um círculo. Neste caso, o tempo, no qual este movimento é produzido, não tem nenhum objetivo final dentro da eternidade e, portanto, nenhum significado. Falando corretamente, sem essa estabilidade eterna no Deus eterno, não há uma verdadeira eternidade. A distinção entre o tempo e a eternidade desaparece. Tudo se torna um tempo eterno ou uma eternidade temporal, com um movimento que não leva a nenhum significado último, a nenhuma plenitude absoluta. A ausência de uma distinção entre relativo e absoluto implica a ausência de uma distinção entre movimento e estabilidade no Um infinito; há um movimento eterno que não leva a lugar algum. O movimento perde seu grande valor como avanço em direção ao bem absoluto. [9] A distinção entre o bem e o mal também se torna relativa. Pois o movimento é tanto um produto da Queda como o meio de se elevar novamente a um lugar de onde a pessoa cai outra vez, pois ali não se encontra a perfeição, pleroma. Este mundo só tem valor real se ele for único. Só tem valor real se ele for a criação positiva de Deus no sentido de ser um ponto de partida para o ser criado, para que ele possa avançar de seu estado inicial para o estado de estar pleno de Deus (e para este avanço a criatura deve trazer sua própria contribuição). Isto é, a criação de Deus tem valor porque é um ponto de partida do estado de "ser" (ειναι) que o ser criado tem como dom de Deus, passando pelo estado de "bem-ser" (ευ ειναι) que ele obtém através do movimento implantado nele, mas positivamente atualizado por sua vontade, e para o "bem-ser eterno" (αεί ευ ειναι) como dom último e eterno de Deus.

Dessa forma, nossa existência na Terra tem uma importância única e decisiva. O tempo é sua forma exclusiva, e isto dá ao tempo um valor decisivo, um valor que corresponde ao da eternidade. A vida histórica na Terra é elevada acima da relatividade, se a obtenção da vida absoluta em Deus depende exclusivamente dela. Ela se torna absoluta através da participação, para traduzir a expressão patrística "deificação através da participação". Assim, o tempo também é uma graça. A eternidade não pode ser transformada em novas decisões e atos graduais; isto significaria que ela foi transformada em tempo.

Pelo contrário, se o tempo é eterno, se ele continua eternamente como uma piscina infinita, ele perde sua importância decisiva, e todo ato histórico perde sua importância única. Tudo pode ser feito a qualquer momento; tudo pode ser reparado a qualquer momento, em um sentido relativo. Nada está  relacionado a um determinado momento histórico, a uma determinada pessoa. Não há progresso real; tudo se torna uma uniformidade cansativa. Não há pressa para responder a qualquer apelo.  Pode-se adiar a resposta o tempo que se quiser. Sabendo que há um tempo infinito para decidir, pode-se continuar adiando a decisão. A eternidade não é um cenário para novas decisões, nem o tempo infinito é um cenário que requer uma decisão urgente. É por isso que a eternidade é apenas o cenário dentro do qual colhemos o benefício eterno das decisões no tempo. O tempo eterno não é mais um cenário para a verdadeira perfeição. 

Não há nada de errado em adiar o cumprimento de uma decisão tanto quanto possível; não há nada de errado em não fazer o bem solicitado agora. Neste caso, a filosofia do torpor aparece como a mais sábia. No domínio eterno deste tipo de tempo, não há um período decisivo de existência.

Mas se não há mais tempo para decisões obrigatórias, então não há nenhuma importância atrelada a uma ou outra pessoa humana, nem à totalidade de pessoas que estão sendo aperfeiçoadas. Isto é, não há mais nenhuma pessoa que tenha um caráter único ligado ao seu próprio tempo. Se ainda podemos falar de pessoas, elas são uniformes. Qualquer pessoa pode ser morta porque qualquer outra pessoa pode substituí-la. Nem só uma pessoa nem todas juntas podem mover o tempo de sua relatividade, e tais pessoas não se movem em direção ao absoluto para que possam se tornar adequadas a ele. Se há, porém, uma eternidade paralela ao tempo eterno, ela é exclusivamente reservada à Pessoa eternamente perfeita de Deus, que não tem necessidade de perfeição. Mas que tipo de eternidade seria se a Pessoa divina não pudesse supervisionar e organizar o tempo, não pudesse criá-lo e agir dentro dele a fim de tornar outras pessoas eternas?

De fato, a única pessoa eternamente perfeita é Deus, que confere a cada pessoa humana um valor único. Se o tempo fosse eterno, aprisionado na platitude e na relatividade, não haveria lugar para a absolutez de uma Pessoa divina que manteria com cada pessoa humana uma relação de interesse absoluto. Este tipo de tempo não pode ter uma relação com a verdadeira eternidade, e não pode ser realmente preenchido com ela.

Uma evolução indefinida com (ou sem) reencarnações dentro da mesma forma do mundo, uma evolução manifestada nas quedas e ascensões de outros mundos ou dentro do mesmo mundo, implica um mundo sem pessoas eternas, um mundo no sentido panteísta. São Gregório de Nissa diz que reencarnações sucessivas ou mesmo uma evolução sem fim não é possível, exceto numa forma de pensar que confunde natureza racional com natureza irracional, natureza animal com natureza inanimada; em tal sistema toda a realidade é reduzida a uma única substância que se manifesta sob muitos aspectos, ou melhor, sob muitas aparências. [10]

São Gregório aponta como o bem e o mal são confundidos em tal concepção da seguinte forma: "É possível que o homem seja libertado do vício e do mal, uma vez que ele veio do vício" (através da queda do pleroma)? [11] Ou: "Se a virtude é tendência ao princípio criador e se o princípio criador é o vício (insuficiência de pleroma), não deveríamos concluir que a virtude é um movimento em direção ao vício?" [12]

A idéia de uma nova queda que leva a uma nova reparação e, portanto, a uma nova ascensão, implica uma ambiguidade irredutível: o mal da queda e o bom propósito da queda. A quem é feita a reparação se não há um Deus pessoal? E como aquilo que não se faz a partir da liberdade, mas com base em uma lei universal, pode ser chamado de reparação? E pode uma reparação que é feita por erros cometidos em uma existência anterior, erros pelos quais alguém não se sente responsável porque não os reconhece como seus, ser chamada de reparação pessoal? [13] Mencionamos também que na maioria das vezes, embora se diga que devemos ter passado por infinitas reencarnações pela eternidade, não levamos uma boa vida e, portanto, não mostramos que aprendemos algo com as vidas infinitas anteriores.

Não vou reparar nesta vida, através de uma reparação pessoal, erros de vidas passadas dos quais não tenho conhecimento, porque não posso me sentir responsável por essas vidas.

Todas as reencarnações parecem inúteis para a pessoa se elas são para o cumprimento de uma lei sem sentido da substância universal. Somente uma existência temporal única destinada a nos conduzir à eternidade dá pleno sentido a esta vida, durante a qual temos tempo suficiente para decidir. Pois nesta vida aprendemos não apenas com nossa própria experiência, mas também com a experiência de toda a história que nos precedeu, com a experiência de todas as gerações anteriores e de tantas pessoas que  encontramos. Com essas experiências aprendemos infinitamente mais do que de vidas anteriores que não lembramos, mais do que desta sucessão de vidas que nos dividem forçosamente de qualquer solidariedade com uma importância única e absoluta. Aprendemos com o ensinamento  irrepreensivelmente bom colocado à nossa disposição pela revelação de Deus, que é a Pessoa suprema e boa. Deus concentra toda a eternidade ao meu redor a fim de me convencer a decidir pelo bem na existência presente. Aprendemos na atmosfera que nos envolve de todos os lados e nos faz exigências através de tantos atos de amor para conosco. Estes atos de amor pertencem a Deus e também aos outros, e fazem desta vida uma vida de responsabilidade incessante e única. Aquele que por muitas razões não se deixa penetrar pela responsabilidade nesta vida, faria o mesmo em muitas outras vidas, todas sem a responsabilidade única de obter a eternidade. Se a existência eterna de meus semelhantes depende exclusivamente desta vida, o quanto isso aumenta minha responsabilidade para com eles?

Aprendemos, definitivamente e em grau supremo, com o Filho de Deus que se fez homem, foi crucificado e ressuscitou por nós; Ele habita em nós com Seu amor, dando-nos o poder divino para morrermos para o pecado e vivermos nEle, no próprio Deus, e para segui-Lo no bem que fazemos aos outros. A vida humana está aberta à vida divina de uma maneira tão direta que podemos ser elevados diretamente a ela sem uma escada que consiste nos intermináveis degraus de incontáveis reencarnações, que ainda não nos conduz à vida absoluta de Deus. Assim, ninguém pode se salvar - não importa quantas vidas ele viva e quantas evoluções ele passe - se a salvação é participação na vida divina, não uma ascensão em degraus relativos que nunca chegam ao absoluto e que nunca nos dão tudo. A salvação não é o resultado do cumprimento de certas leis; ninguém pode obter a salvação sozinho. A Salvação é um dom que temos que nos é dado por Deus, que vem até nós tornando-se homem, aproximando-se assim de nós no mais alto grau. Através disto, a vida na Terra torna-se de importância decisiva para a comunicação direta com Deus, que através de Seu Filho encarnado e ressuscitado estabelece a Si mesmo nesta vida, abrindo diretamente nossa temporalidade para a eternidade em Cristo.

Quando o Filho de Deus se fez homem e entrou em nosso plano, tornando possível para nós estarmos em comunhão com Ele, Ele transformou nossa vida na Terra em uma porta direta e aberta em direção ao absoluto. A vida na Terra não é mais uma vida entre muitas outras, uma vida perdida em algum degrau de uma evolução que nunca alcança a perfeição, mas uma vida com uma importância única que está em processo de ser preenchida com a vida eterna do Deus pessoal. [14]

Quando entramos em comunhão com Cristo, o Deus-Homem, somos imediatamente elevados a um horizonte de luz e vida infinita. Temos o potencial de entrar plenamente neste horizonte após a morte, e podemos fazer isso sem ter que procurá-lo ascendendo interminavelmente a escada de uma lei dentro de um sistema que em muitos aspectos é finito, ou relativo - um sistema do qual alguém nunca pode passar para o absoluto.

Entramos subitamente em uma relação íntima com a Pessoa divina, a fonte infinita de amor, que está além de qualquer movimento relativo dentro de uma realidade monista; entramos em uma relação com a Pessoa divina, que está acima de qualquer infinidade relativa de níveis tomados em si e que é a fonte do infinito absoluto.

A comunhão amorosa com uma pessoa humana nos introduz a um plano de vida totalmente diferente da forma como nos relacionamos com os objetos, ou da forma como nós, em nosso isolamento individual, cumprimos cada vez mais escrupulosamente certas normas para nossa vida. Se isto é verdade, muito mais a entrada na comunhão com Cristo nosso Deus, a Pessoa absoluta - que Ele mesmo está em comunhão com duas outras Pessoas absolutas - nos introduz através da graça no plano da vida que é infinitamente mais profundo que aquele da relação com todos os objetos e todas as pessoas humanas, infinitamente mais profundo que aquele de todas as experiências individuais. A lei de compensação ou de reparação, ou de uma evolução por si mesma, pode significar um processo de melhoramento gradual (embora isto seja muito problemático), prolongado em inúmeras existências, como em uma escada sem fim. Mas em comunhão com uma pessoa que ama poderosamente, a vida que eu não tenho como resultado da evolução ou de meus próprios esforços é subitamente derramada em mim, a um grau completamente revigorante, como um novo começo que não tem continuidade com a existência nestas coisas anteriores. Eu a sinto como uma súbita ruptura em relação à monotonia impotente do velho homem, como um renascimento. Mas experimento, infinitamente mais e de forma inteiramente perfeita, o evento de entrar em comunhão com a Pessoa de Deus, que tem infinito amor e poder e que em Cristo entrou no plano que é acessível a mim.

2. O argumento de que o espírito é essencialmente livre tem sido apresentado contra o julgamento divino, mas em favor da universalidade última da salvação, ou da variabilidade indefinida do estado das almas. Até mesmo Orígenes sustentou esta última teoria com este argumento. [15] Mas uma liberdade que leva todas as almas à salvação, ou que torna possível que todas elas passem eternamente do bem para o mal e vice-versa, não é mais liberdade propriamente dita. Se todos alcançam a salvação pela vontade de Deus ou por uma lei de evolução intrínseca, onde está a liberdade? Da mesma forma, se as almas são levadas contra sua vontade para uma encarnação após outra, ou para uma queda após outra, onde está a liberdade? E se ninguém jamais chega à perfeição no infinito da vida divina, e todos continuam se movendo dentro do plano da relatividade eterna, de que vale a liberdade?

A liberdade cristã pressupõe um absoluto pelo qual a pessoa humana pode lutar [por ele] ou pode recusá-lo. Sem este absoluto, a pessoa humana carece de todo apoio e de qualquer causa para afirmação. Em um plano de relatividade eterna e universal ou de um processo natural rigoroso, a luta pela liberdade, que por um lado é pressuposta pela liberdade e, por outro, a promove, perde qualquer incentivo. É por isso que a liberdade tem duas formas: a liberdade obtida pela luta para alcançar o bem absoluto, para impor sua vitória e para unir-se a ele; e a liberdade obtida pela luta para libertar a pessoa das paixões escravizantes, a fim de entrar em comunhão amorosa com outras pessoas, comunhão que é alimentada pela comunhão com a Pessoa suprema, com Deus. É nesta comunhão que se encontra o verdadeiro e completo bem. Aquele que o alcançou tem a verdadeira liberdade (idêntica ao bem verdadeiro e infinito) do qual ele não quer mais sair e do qual não pode mais sair, no sentido de uma impotência adquirida. Nesta comunhão, a pessoa tem uma novidade incessante e sem fim, através do bem que resplandece da Pessoa suprema e que se manifesta na comunhão interpessoal.

Existe também, porém, uma liberdade que se opõe a unir-se ao bem absoluto, ou que recusa a comunhão com a Pessoa suprema, a fonte do amor que torna possível a comunhão completa com outras pessoas. Esta liberdade tem algo de ambíguo em si mesma. Por um lado, ela se deixa levar pelo egoísmo das tendências escravizantes e, neste sentido, é uma falsa liberdade. Por outro lado, impelida por estas tendências, ela se opõe à verdadeira liberdade, que se deleita na comunhão com a Pessoa suprema, porque tem a impressão de que sua oposição é a verdadeira liberdade.

Ambas as formas de liberdade se acostumam a afirmar a si mesmas na eternidade, cada uma considerando a si mesma como a verdadeira liberdade. Assim, aquele que não está em comunhão com Deus jamais poderá ser mudado por Deus em sua negação a Ele, a qual ele considera como a verdadeira liberdade; da mesma forma, aquele que está em comunhão com Deus jamais a abandonará, sentindo-se muito mais justificado na verdadeira liberdade, na qual ele tem a incessante e eternamente nova plenitude de vida. Assim, Deus não impede ninguém de permanecer eternamente  na estreiteza de seu egoísmo, um estreitamento que ele interpreta como a verdadeira liberdade.

Nas considerações precedentes conectamos a realidade da liberdade dos seres criados com a realidade da comunhão interpessoal e, em última análise, com a realidade da comunhão deles com Deus. É incompreensível conceber uma verdadeira liberdade sem pensar no tema da comunhão. É igualmente incompreensível imaginar uma comunhão perfeita - portanto uma liberdade na felicidade eterna entre pessoas humanas - que não é alimentada pela comunhão com a Pessoa suprema que se fez homem, isto é, com Cristo.

3. Ao não levar em consideração a abertura do homem à comunhão com Deus, aqueles que aderem à ideia de uma salvação universal (ou pelo menos à variabilidade eterna da salvação) acreditam que um inferno eterno estabelecido pelo julgamento de Deus é incompatível com Sua bondade.

Mas na realidade tais pessoas não levam a sério a existência de Deus como Pessoa, pois esta evolução eterna em direção a um bem universal sempre maior (ou esta eterna variabilidade) é feita com base em uma lei universal na qual Deus não pode intervir. Eles não percebem que sem Deus mesmo esta salvação ou variabilidade eterna universal não é, propriamente falando, salvação. Antes, é uma espécie de inferno, uma espécie de morte no tédio da relatividade eterna, que à medida que se prolonga e se mostra como um estado eterno, torna-se insuportavelmente torturante.

Paradoxalmente, aqueles que pensam que Deus institui o inferno através de um ato de justiça externa (Tomás de Aquino e Dante) e aqueles que negam o inferno demonstram o mesmo mal entendido sobre a felicidade como a comunhão do ser criado com Deus. Com isso, aqueles que negam o julgamento de Deus afirmam, assim como aqueles que o reconhecem como um ato de justiça externa, a mesma coisa, o mesmo inferno universal. Pois uma felicidade que é dada como um estado externo (o sobrenatural criado) e não como comunhão é também uma espécie de inferno de relatividade eterna.

Assim, aqueles que negam o inferno baseado na ideia de justiça divina caem na afirmação de um inferno que é estabelecido pela ausência de qualquer presença efetiva de Deus. Berdiaev comete o mesmo erro ao dizer que tanto a afirmação quanto a negação da eternidade do inferno representam uma racionalização não permissível do mistério. [16] Mas nem ele escapa desta racionalização quando nega o inferno. Desta forma, ele se aproxima da posição daqueles que afirmam que aqueles encontrados no inferno certamente escaparão; esta afirmação se baseia em uma lógica inevitável do movimento das almas, que passam do sofrimento ao arrependimento.

São Máximo o Confessor e São João de Damasco nos oferecem uma interpretação totalmente diferente do inferno. Eles não vêem o inferno como sustentado pelo ato positivo de Deus de condenação daqueles que O recusam; antes, eles o vêem precisamente na recusa dessas pessoas em amá-Lo. São Máximo afirma que Deus ama aquele que está no inferno e ele valoriza Deus; sua infelicidade consiste especificamente no fato de que ele está separado de Deus e vive com aqueles que odeiam a Deus, aqueles a quem ele mesmo odeia. "Uma prova mais terrível do que qualquer punição é estar eternamente junto daqueles que nos odeiam e daqueles a quem odiamos, mesmo sem qualquer outro tormento além desse, e estar separado daqueles que te amam ou são amados [estimados]. Pois Deus, quando Ele pronuncia um julgamento justo, não é odiado por aqueles que Ele julga, pois por natureza Ele é (e Ele é chamado) amor; e nem Ele odeia aqueles que são julgados, [sendo por natureza] livre dessa paixão." [17]

E São João de Damasco diz: "Deus oferece eternamente as coisas boas ao diabo, mas ele se recusa a recebê-las. E na era por vir, Deus oferece as coisas boas a todos, pois Ele é a fonte da qual as coisas boas fluem. Mas todos participam do bem, na medida em que ele mesmo se fez capaz". [18] Portanto, não é Deus que é o autor dos tormentos eternos do diabo, mas o diabo "atormenta a si mesmo" e "ele se fez a causa de punição ou, melhor dizendo, ele pune a si mesmo, desejando coisas que não existem". [19]

O cristianismo não mantém nem a visão impessoalista da evolução na relatividade eterna, nem a visão jurídica de um personalismo enfraquecido pela lei de princípios impessoais. Esta última visão interpõe entre as pessoas uma ordem de coisas, ou obras feitas em conformidade com certas leis. O cristianismo, e especialmente o cristianismo Ortodoxo, explica tanto o inferno quanto o paraíso - ou seja, tanto a infelicidade eterna quanto a felicidade eterna - através do prisma da comunhão. Pois, uma vez que a atitude em relação à comunhão é uma questão de liberdade, a questão do paraíso e do inferno também é uma questão de liberdade, e como tal não pode ser racionalizada. São João de Damasco diz, "Deus não está sujeito à lei; é o que Ele quer que é bom, não o que nós queremos, porque não somos os juízes de Deus." [20] Esta é uma afirmação clara da superioridade da Pessoa de Deus vis-à-vis a lei; a partir disto também resulta a superioridade da pessoa humana. São João de Damasco também diz: "A virtude é o cumprimento da lei de Deus. E a lei de Deus é a Sua vontade ... A vontade de Deus é o bem imutável, sempre o mesmo ... O mal é ... . a destruição do que existe". [21] O que verdadeiramente existe é a Pessoa divina e a pessoa humana como Sua imagem.  São João de Damasco diz mais uma vez que a felicidade depende da vontade do seres humanos de estar em comunhão com Deus, pois aqueles que não têm esse desejo trazem infelicidade sobre si mesmos. "Os justos também se alegram quando desejam a Deus e quando O têm sempre dentro de si; os pecadores se punem e não têm consolo quando desejam o pecado e não têm a matéria [para poder] pecar, sendo consumidos como se fossem pelo fogo e pelo verme. Pois o que é o sofrimento, senão a ausência daquilo que é desejado?" [22]

O julgamento divino pode ser entendido como a entrada de uns em comunhão com Deus (através de Sua vontade) ou como a não entrada de outros nesta comunhão por causa da recusa deles. Mas como Deus não se comporta de forma totalmente passiva, o julgamento divino é necessário para definir firmemente o modo de vida eterna dos seres criados. Através de tal julgamento, o caráter pessoal de Deus, e também Seu interesse pelas pessoas humanas, vem à luz. Além disso, o critério último do bem e do mal é destacado. Este critério é o próprio Deus, e Ele é também o fórum de último recurso para este critério. Do contrário, não há um critério de valores nem um fórum supremo para decidir o que é bom e o que é mau; não é mais possível saber o que é bom e o que é mau, e não há um fórum final para decidir esta questão. O critério último do bem não pode ser conhecido exceto por Aquele que é Ele mesmo a bondade. Ele é a suprema realidade pessoal, a fonte última da vida.

Por ser uma questão de comunhão, o julgamento de Deus adquire um significado totalmente novo. O julgamento de Deus, através do qual uns participarão na felicidade eterna e outros na infelicidade eterna, apenas significa que Deus - que está aberto a todas as pessoas, porque todas são criadas para a comunhão - nota com pesar que algumas pessoas não aceitam, ou se tornaram incapazes de aceitar, esta comunhão; assim, elas permanecem na infelicidade através de sua própria liberdade. No afresco do muro exterior do Mosteiro de Sucevita, na Moldávia, Romênia, as almas sobem nos degraus em direção a Jesus, que as espera no topo da escada. No lado superior direito, muitas hostes de anjos as observam, ao passo que no lado inferior esquerdo, demônios as observam. Cada degrau representa um teste de uma das possíveis paixões da alma. A alma que se encontra possuída por uma paixão ou outra cai do respectivo degrau no abismo, que é agitada por demônios, e essa alma não alcança a comunhão com Cristo. Esta queda no fosso escuro que corresponde a uma certa paixão começa já nesta vida terrena, como uma queda na solidão escura que é a ausência de comunhão com Cristo, cujo amor resplandece como luz. É a queda no buraco estéril do egoísmo, do qual nenhuma luz resplandece e do qual ninguém pode sair, porque tal pessoa não quer sair: sua vontade enfraquecida acostumou-se à ilusão de que há liberdade nesta existência para si mesma.

Mas no âmbito desta interpretação do paraíso e do inferno, ainda devemos responder a esta pergunta: Por que, após o julgamento de Deus, aqueles que deixam esta vida sem fé nEle - e, portanto, sem qualquer abertura para a comunhão com Ele, e através dEle com outras pessoas humanas - têm que permanecer eternamente no inferno? Por que a avaliação de Deus a respeito deles (ou do estado em que Deus os encontra após a morte) tem como conseqüência a fixação eterna deles neste estado? Assim, outra pergunta é feita: Aqueles que deixam esta vida nesta situação caem em um estado de infelicidade maior do que aquele em que eles se encontravam aqui? Eles não são capazes de jamais entrar em comunhão com Deus e, portanto, de serem tirados do inferno?

O ensinamento da Igreja de que é possível que alguns sejam tirados do inferno durante o tempo entre o julgamento individual e o julgamento universal permite uma resposta adequada a esta pergunta. 

De acordo com este ensinamento, aqueles com alguma fé - e portanto sem uma atitude totalmente contrária à comunhão com Deus - que vão para o inferno após o julgamento individual, poderão alcançar um estágio no qual a capacidade de comunhão que está presente neles poderá ser atualizada. Portanto, este inferno implica em duas possibilidades: que para alguns será eterno, e que para outros será não-eterno.

Embora não possamos afirmar com certeza para quais pessoas o inferno será eterno e para quais ele não será eterno, em princípio é possível que o inferno não seja eterno para algumas delas. 

Mas o mistério da liberdade não nos permite dizer que o inferno deixará de ser eterno para todos. Aqueles que não foram capazes de sair do inferno no momento do julgamento universal nunca poderão  sair dele.

Que base existe para o fato de que aqueles que serão deixados no inferno até o julgamento universal permanecerão para sempre nele, uma vez que Deus nunca deixa de ser um Deus amoroso e uma vez que eles mantêm para sempre uma certa liberdade? A base é a presciência de Deus, pela qual Deus sabe com certeza que eles nunca responderão a Sua oferta de amor. Esta ausência de resposta pode ocorrer porque eles não querem Seu amor ou porque criaram, através de sua recusa total de comunhão durante sua vida terrena e durante o tempo entre o julgamento individual e o universal, um tal estado dentro de si mesmos que eles não são mais capazes de aceitar a comunhão com Deus. São João de Damasco considera que uma falta de vontade de desejar a Deus se encobre com a pecaminosa "imutabilidade" em que se encontram aqueles que estão no inferno. Falando apropriadamente, após a morte estas pessoas são "imutáveis": aqueles no paraíso não podem ser movidos em relação ao bem, e aqueles no inferno não podem ser movidos em relação ao mal. [23]

O mistério do fato de que alguns poderão ser retirados do inferno antes do julgamento universal e que outros nunca sairão dele, mas passarão para o inferno eterno junto com aquelas pessoas vias que irão para lá no momento em que o mundo acabar - este é um mistério da liberdade do homem. É um mistério que diz respeito ao seu potencial para se tornar enrijecido em uma liberdade negativa que não pode ser  superada; é um mistério que não podemos compreender.

Em nossa mente, é igualmente possível que aqueles que estão no inferno queiram ou não queiram sair dele. Somente Deus pode compreender e conhecer de antemão este mistério, e não há nada que possamos fazer a não ser crer no que Ele nos disse através da revelação; devemos esperar para descobrir somente no último julgamento quais pessoas entre nós serão enviadas para o inferno eterno.

Berdiaev admite que existe um inferno que consiste na rejeição da comunhão com Deus. No entanto, ele pensa que este é um inferno subjetivo, não ontológico, e declara que é impossível que este inferno dure para sempre. Além do fato de que isso significa racionalizar a liberdade humana, a afirmação dele não leva em consideração o fato de que em algum momento já não se pode mais fazer uma separação entre o subjetivo e o ontológico. Uma forma estreita de pensar, de sentir e de considerar as coisas e as pessoas humanas cria dentro da natureza humana um certo estado ontológico e distorce seu espírito mais profundo; o cristianismo não diz que o inferno é apenas uma circunstância externa que causa tormento, mas também um mundo de espíritos desfigurados, enrijecidos no mal, numa forma distorcida de olhar para a realidade.

A contribuição do fator subjetivo (ou mesmo imaginativo, fantasmagórico) para sustentar os sofrimentos no inferno é indicada por São João de Damasco quando diz que o fogo ali consiste nas paixões que não encontram a matéria para satisfazer seu desejo. Pois as paixões insatisfeitas atormentam através de sua incapacidade de dar às imagens de prazer uma consistência real. Como a incapacidade de dar a estas imagens uma realidade é prolongada, elas aumentam suas aparências encantadoras, e através destas aparências seu poder de atormentar também aumenta, dada a incapacidade de encontrar hipóstases reais correspondentes. A falta de matéria para satisfazer as paixões é o elemento objetivo dos sofrimentos no inferno. E a efervescência fantasmagórica da paixão, sustentada nesta ausência, é o elemento subjetivo. Aqui está o que diz São João de Damasco:

Dizemos que esse tormento nada mais é do que o fogo da paixão insatisfeita. Pois aqueles que obtiveram a imutabilidade na paixão não desejam a Deus, mas o pecado. Mas ali, naquele lugar, a perpetração do mal e do pecado não tem lugar. Pois não comemos nem bebemos, nem nos vestimos, nem nos casamos, nem acumulamos riquezas, nem invejamos ou nem qualquer outro mal. Portanto, ao desejar e não participar das coisas desejadas, eles são queimados pelas paixões como pelo fogo. Mas aqueles que desejam o bem - isto é, Deus apenas, que é e existe eternamente - e que participam dEle se alegram de acordo com a intensidade de seu desejo, segundo o qual também participam do Desejado. [24]

Isto significa que as almas que foram para o inferno após a morte não sofrem tormentos materiais ou um fogo material, como um ensinamento desenvolvido especialmente na teologia Católica mantém. Trata-se mais da incapacidade das almas de dirigir seu desejo em direção à comunhão com Deus como um bem espiritual; tais almas permanecem em contínuo pesar por não poderem mais desfrutar dos prazeres materiais (ou aqueles da arrogância) aos quais estavam acostumadas exclusivamente. Elas não podem obter o sabor dos prazeres espirituais cuja essência é a comunhão com Deus, a realidade pessoal e a suprema consistência (hipostática). 

O inferno é um mal duplo: a vontade de cometer pecado, e a dor da incapacidade de cometê-lo. É um apego ao pecado que não pode mais ser realmente cometido e, portanto, uma recusa em buscar bens espirituais. Por incapacidade, o ser humano é até mesmo removido de sua relação com as coisas, e de qualquer relação egoísta e transitória com outra pessoa. Todas as suas conexões com a realidade são cortadas. Ele leva uma existência fantasmagórica e de pesadelo. Ele está totalmente aprisionado no poço da solidão. Apenas os demônios e suas paixões o mordem como serpentes. Para levar esta ideia adiante, pode-se dizer que sua subjetividade, crescida em proporções monstruosas, faz com que ele não seja mais capaz de ver a realidade dos outros. Ele não pode mais ter nem mesmo relacionamentos pecaminosos e fugitivos com eles. Sua imaginação subjetiva encobre a realidade dos objetos, porque os considera modestos demais para sua imaginação. Ele cai numa espécie de existência onírica na qual tudo se torna caótico em um absurdo sem sentido, sem qualquer consistência, sem qualquer busca por uma saída para fora da mesma, e sem qualquer esperança de uma saída.

Tudo é uma consequência rigorosa e enrijecida dos pecados cometidos na vida. São Máximo o Confessor descreveu este estado em algumas passagens de grande expressividade: "Se não estamos acostumados com os olhos, os ouvidos e a língua a olhar, ouvir, falar de acordo com a natureza, então teremos esta escuridão e este silêncio sepulcral." [25]. Se não desenvolvermos a comunhão, obteremos o silêncio de todos. Se não buscamos o verdadeiro significado das coisas e das pessoas, teremos a mentira e o absurdo; teremos "o verme do ódio" que nós cultivamos. Se amarramos nossa vida a coisas passageiras, ela perderá sua consistência junto com aquelas coisas que passaram como fumaça. Se não apagarmos o fogo das paixões com abstinência, vamos queimar nele sem nada para apagá-lo. "Recebemos a recompensa que nossa própria disposição deliberada merece: para o fogo do hedonismo teremos o fogo da Geena; para a escuridão da ignorância e para a peregrinação errante, a ignorância eterna." [26] Para a altura do orgulho vazio e das diversões, teremos a mais baixa queda e a tristeza contínua. A mentira e a insinceridade dissimulada que cultivamos nos cercarão por todos os lados. Os tormentos não consistirão tanto em uma simples solidão, mas em uma solidão imposta pelo ambiente atormentador. É uma solidão que você defende contra as serpentes que o atacam. Não consiste apenas na ausência de comunhão, pois se fomos cobras para com os outros, outros agora serão cobras para conosco. "Uma prova mais terrível do que qualquer punição é estar eternamente junto daqueles que nos odeiam e daqueles a quem odiamos... e estar separado daqueles que te amam ou são amados". [27] É a solidão em que você é aprisionado pelas faces hostis e feias dos outros sem poder livrar sua visão e seus pensamentos deles. É uma solidão que carece de qualquer olhar interior e de qualquer momento de paz; é sustentada pela ausência de qualquer palavra de amor ou compreensão e é cercada pela zombaria e pelo ódio de todos. Todos estão atormentando a todos; todos estão se defendendo de todos.

Florensky diz que ao se fechar sobre si mesmo, o homem é alterado a tal ponto que ele não é mais uma realidade objetiva para os outros. [28] 

Tendo se acostumado a não mais se mover quando ele diz "tu", o homem também não se move quando alguém diz "tu" para ele. Ele se enterra em uma total indiferença, em uma morte a qualquer relacionamento. Ele só diz "eu, eu, eu". "Aquele para quem não existe 'tu' não é mais um 'tu' para os outros." [29] Ele não é mais um "tu" para Deus, nem Deus é um "Tu" para ele. Ele se tornou uma "casca" (Schale), como H. P. Blavatsky chamou os espíritos, [30] uma "pele" sem substância, algo ilusório e puramente subjetivo; é por isso que ele se afirma apenas a si mesmo, com desespero. Aquele que não conhece nenhuma outra realidade e agarra a si mesmo como a única realidade - sem poder tê-la também de forma satisfatória - é mais obcecado pelo "eu" do que por um fantasma. Ele saiu da realidade para as "trevas exteriores", onde ele não vê nada. Ninguém pode dar-lhe um verdadeiro "tu", uma realidade objetiva, exceto a comunhão com Deus. Deus deu ao homem o poder para essa comunhão, mas seu desenvolvimento também depende da contribuição dele. O homem não pode dar isto a si mesmo precisamente porque isto significaria que ele estava se afirmando e não queria sair de si mesmo, esquecer-se de si mesmo, para que ele possa existir verdadeiramente afirmado pelos outros (já que ele também os afirma) e para que ele possa existir através de Deus e afirmando Deus. 

Alguém poderia fazer esta pergunta: Por que Deus não se mostra a essas pessoas em toda a Sua luz para que elas possam vê-la e se afastar de sua atitude de recusar a comunhão com Ele? Por que Deus as deixa na escuridão? A presença de Deus não é uma realidade externa que se impõe como tal, mas é oferecida como um "Tu" amoroso. Como tal, ela não pode ser percebida senão através de uma abertura ao amor que é humilde e plena de anseio. Aqui ocorre um estranho fenômeno: aquele que defende sua autonomia torna-se obstinado, especialmente em sua recusa em aceitar alguém que, através do amor que ele oferece, faz com que o primeiro perceba que sua verdadeira existência depende desta oferta. Aquele que é obstinado em seu orgulho não pode admitir algo como isto, pois ele não pode admitir que alguém possa amar enquanto ele não pode. Ele poderia admitir a realidade de alguém que depende dele, mas não a de alguém que se revela ao homem obstinado como aquele sobre o qual o amor sem fim depende o primeiro. Mas aquele a quem o homem obstinado reconhece, com a arrogância de que ao reconhecê-lo ele lhe dá existência, não quer mais oferecer a si mesmo ao primeiro. Assim, Deus não pode fazer-se evidente como uma Pessoa amorosa para aquele que não quer recebê-Lo desta maneira. Somente para aquele que O deseja por Seu amor, Deus se manifesta como amor. É por isso que Santo Isaque, o Sírio, disse que o inferno é uma punição do amor. [31]

Para outros, o inferno está presente sob o véu de rigores que aparecem numa vida desprovida de amor, sob as dolorosas consequências de uma vida assim. Mesmo as coisas em que esta pessoa busca o prazer perdem gradualmente sua consistência, porque elas são dons de Deus e não podem ser possuídas completamente, exceto por aquele que tem Deus através do amor. São João de Damasco expressa estes dois aspectos: aqueles que desejam a Deus O têm; e aqueles no inferno, que se tornaram enrijecidos em sua falta de desejo por Deus e que só querem coisas que lhes ofereçam prazer, não têm nem Deus nem essas coisas. Eles caíram no vazio total. Isto é algo que começa durante a vida na Terra, pelo menos no fato de que aquele que não tem mais Deus também não sente, depois de algum tempo, nenhum prazer nas coisas também. Na realidade, aquele que tem Deus tem tudo e conhece a profundidade das coisas.
Aquele que deseja recebe. Aquele que é bom, recebe coisas boas ... O justo, desejando e tendo Deus, regozija-se para sempre; mas os pecadores, desejando o pecado e não possuindo os objetos do pecado, são atormentados como se fossem comidos pelo verme e consumidos pelo fogo, sem consolo; pois o que é o sofrimento, senão a ausência daquilo que é desejado? De acordo com a intensidade do desejo, aqueles que desejam a Deus se regozijam, e aqueles que desejam o pecado são atormentados. [32]

Aqui na terra, quando inclinamos nosso desejo em direção a outras coisas e as obtemos ainda que parcialmente, encontramos prazer nelas. Ali, porém, quando "Deus será tudo em todos" [1 Co. 15:28] e não haverá nem comida, nem bebida, nem qualquer prazer corporal, nem qualquer injustiça, aqueles que não possuem nem prazeres habituais nem nada de Deus sofrerão grandes dores que não são produzidas por Deus, mas que preparamos para nós mesmos. [33] 

Assim, temos o paradoxo de que é bom a afirmação da pessoa, mas a afirmação egoísta da mesma, fora da comunhão com Deus - a suprema realidade pessoal - é um mal. São João de Damasco diz isto em sua resposta à pergunta seguinte: Por que Deus não destrói aqueles que sofrerão tormentos eternos em vez de deixá-los sofrer dessa forma?

Sua resposta é que ser, de qualquer forma, ainda é melhor do que não ser. A existência é um dom de Deus. Deus manifesta Seu amor oferecendo eternamente a existência àqueles que estão no inferno. Desta forma, Ele também mostra o valor permanente da pessoa humana. Se Ele mantivesse apenas aqueles no paraíso, Ele não estaria mostrando que Ele respeita o ser humano (mesmo quando o ser humano se opõe a Ele), e que, portanto, Ele respeita sua liberdade. À sua maneira, aqueles que estão no inferno são também um testemunho do valor que Deus lhes concede. Através da existência deles, Deus os mantém também em um relacionamento com Ele. Ele mantém em existência até mesmo aqueles que O negam. Através disso, Ele manifesta uma kenosis. Por um lado, Deus não pode removê-los de seu estado enrijecido, de uma liberdade que O nega, pois fazendo isso, Ele teria que privá-los de sua liberdade. Por outro lado, Ele não quer destruí-los; isto também desvalorizaria a existência e a liberdade deles. Entre estas duas alternativas - uma que manifestaria a bondade de Deus de uma maneira mais reduzida, e outra que desvalorizaria a liberdade humana deles de uma maneira maior - Deus escolhe mantê-los em sua atitude de rejeição a Ele.

Tem sido dito que tal solução introduziria tristeza até mesmo na vida interior de Deus; portanto, a solução da salvação universal tem sido oferecida. Mas isto não poderia ser alcançado sem desconsiderar a liberdade humana.

A solução de mantê-los em um estado de eterna não-realização pode não ser pior do que uma salvação sem comunhão em liberdade. Mas tem uma vantagem: ao aceitá-la, Deus não só aceita a tristeza de não ver todas as pessoas na felicidade da comunhão com Ele, mas também manifesta a grandeza de sua generosidade, tanto ao conceder-lhes uma existência em eterna oposição a Ele, como ao respeitar a liberdade que faz do homem o ser mais maravilhoso.

São João de Damasco diz de forma audaz que até mesmo a existência do diabo tem valor em sua qualidade como um dom de Deus. À pergunta do maniqueísta sobre por que Deus criou o diabo, embora Ele soubesse que ele se tornaria mau, São João dá a seguinte resposta:
Para uma bondade imensa Ele [Deus] o fez, pois o Senhor disse: Eu o privarei inteiramente do bem e da subsistência por causa do fato de que ele se tornará mau e perderá todas as coisas boas que lhe foram dadas? De modo algum. Mesmo que ele se torne mau, não o privarei de sua participação em Mim, mas lhe darei este bem: participação em Mim através da existência, mesmo que ele não queira participar em Mim através da existência. Pois nenhum outro mantém e sustenta aqueles que existem, exceto Deus ... Todos os que existem têm sua existência em Deus ... Assim, aqueles que têm existência participam parcialmente do último grau de bondade. Portanto, há algo de bom na existência do diabo, e através da existência ele participa do bem. [34] 

Deus oferece eternamente as coisas boas ao diabo, mas ele se recusa a recebê-las. E na era por vir, Deus oferece as coisas boas a todos, pois Ele é a fonte da qual as coisas boas fluem. Mas todos participam do bem, na medida em que ele mesmo se fez capaz. [35]

Certamente o julgamento de Deus, com seus efeitos eternos, esconde um grande mistério - um mistério no ápice da realidade para o homem e para Deus. O grande mistério da parte do homem é que ele pode permanecer eternamente diante de tantos sinais da existência de Deus e no meio dos piores tipos de sofrimento, permanecer na monotonia insuportável, e ainda recusar-se a aceitar Deus; o grande mistério é que ele não tenta a solução de sair desses sofrimentos aceitando a comunhão com Ele. Ele pode aceitar mais prontamente a ausência de sentido, o absurdo em tudo, do que aceitar o sentido através de Deus. Isto se deve à grande tentação de sua autonomia. A pessoa humana defende sua autonomia porque através dela ela acredita que pode fazer qualquer coisa, que pode satisfazer todos os seus desejos, que a escravizaram, tornando-se paixões. São João de Damasco diz: "Se você diz que teria sido melhor para ele [homem] não existir do que sofrer eternamente, nós dizemos que isso nada mais é do que o fogo do apetite pelo mal e pelo pecado. Pois aqueles que alcançaram a imutabilidade do pecado como paixão não desejam a Deus". [36]

A eternidade do inferno indica o misterioso paradoxo da liberdade daquele que não consegue encontrar a verdadeira vida na liberdade de comunhão e que, portanto, também não quer buscá-la. E o grande mistério da parte de Deus é que Ele não destrói o pecador mesmo sabendo antecipadamente do eterno não arrependimento dele, mas Ele o respeita mesmo neste estado. Esta é a eterna preservação do homem no relacionamento com Deus. O homem não pode esquecer de Deus inteiramente, nem Deus quer esquecer o homem, independentemente de sua condição.

Os dois mistérios não podem ser separados, ou Deus não quer mais que eles sejam separados agora que Ele criou o ser humano. Se Deus destruísse o pecador ou o esquecesse para sempre num gesto de  desprezo, a pessoa humana perderia a profundidade de seu mistério. Da mesma forma, essa profundidade também seria perdida no relacionamento entre Deus e o homem. Deus não pode fazer a pessoa humana participar da felicidade contra sua vontade, porque a felicidade consiste na aceitação do homem de Seu amor. Mas o homem não quer receber esse amor, e o mesmo não pode ser imposto à força. Isto também significaria esvaziar o homem de seu mistério. Mesmo através do inferno eterno, a liberdade e o valor eterno do homem são afirmados.[17] Se a pessoa humana soubesse que, usando sua liberdade contra a vontade de Deus, um dia ela seria destruída, ela ficaria limitada em sua liberdade. Ele só é verdadeiramente livre se souber que ele pode se opor eternamente a Deus. Ele é livre e tem total dignidade somente se souber que é eternamente incondicionado, isto é, eternamente livre. Certamente, tampouco seria livre se ele soubesse que sua livre afirmação não tem nenhuma consequência. Neste caso, ele não colocaria nenhum fervor na afirmação de sua liberdade. A livre afirmação também pressupõe alguns riscos. Mas os riscos verdadeiros pressupõem a persistência na existência de quem os assume.

Mesmo na atitude do ser humano que não quer saber sobre Deus e que ainda não pode esquecê-Lo inteiramente, há um sofrimento excruciante, que ele detesta, mas do qual ele não pode escapar. Se o homem tivesse esquecido completamente Deus, ele não sofreria, mas também não seria mais homem. A imagem divina está distorcida nele, não destruída. Nisso há uma profundidade que só uma pessoa assim pode ter. Sua monotonia, incapacidade eterna e tristeza extrema causam formas intermináveis de sofrimento, porque são uma monotonia, incapacidade e tristeza específica ao homem. Se, como diz São João de Damasco, a existência permanece um dom de Deus mesmo para aqueles no inferno, ela não pode ser apenas uma casca vazia e neutra. Mesmo como uma casca a existência produz uma reflexão consciente através do fato de que ela produz sofrimentos. Por mais enrijecida que essa tristeza possa ser, ela é uma prova; ela ainda é uma vida consciente, porque é vivida por uma pessoa.

São Máximo o Confessor afirma categoricamente que a alma é ativa após a morte, independentemente de ter sido boa ou má. Isto porque ele considera que sem qualquer atividade a alma não existiria mais, uma vez que sua atividade está ligada à sua realidade.
Se a alma é lógica e noética por causa do corpo, o corpo será tido em maior honra do que a alma que veio à existência por meio dele. Então é do corpo que provêm os poderes racionais e perceptivos [logos e nous], como a alma provém do corpo. Pois se sem o corpo a alma não pode perceber ou raciocinar, é somente através do corpo que a percepção e a razão pertencem à alma. E se é através do corpo que a alma recebe a capacidade de percepção e razão e, como dizem, a alma não pode ter esta capacidade sem o corpo, a alma não será de forma alguma auto-existente. Pois de fato, como poderia ser assim sem o corpo, não tendo em si o que a caracteriza? ... Portanto, após a dissolução do corpo, a alma não pode mais existir de forma alguma. E para aqueles que são tão insensatos, não haverá mais nada depois de negarem a imortalidade da alma.[38] 
São Máximo considera que o movimento da alma é bom em sua qualidade de movimento, assim como sua existência é boa porque provém de Deus; desta forma, ele diz que, assim como Deus não se move, não tendo nada para o que se mover, mas ao invés disso Ele move tudo, também a alma move seus poderes. Além disso, ela não move seus poderes através de sua vontade, mas é movida por Deus para movê-los. As almas que se aproximam de Deus movem seus poderes em constância [estabilidade] com Deus. Assim resulta que, segundo São Máximo, as almas no inferno devem mover seus próprios poderes, porque elas não possuem o infinito. Mas, por outro lado, porque elas não possuem o infinito, seus poderes não se movem de maneira estável, pois estão fora de Deus e também não tendem em direção a Ele; em vez disso, movem-se em uma inquietação atormentadora, não se estabilizando no infinito de Deus. A alma no inferno deve se mover, mas uma vez que ela não se move em direção ao verdadeiro objetivo no qual seu movimento seria cumprido e estabilizado, seu movimento (do qual ela não pode escapar) é sofrimento, pois é sem sentido e sem objetivo. Além disso, tal alma se move de uma coisa para outra sem cessar de existir.
Através dAquele que nos seres criados ordena todas as coisas, a mente filosófica [nous], movendo o poder de suas faculdades noéticas em direção para o que é puramente imaterial, discerne Aquele que move com base naquilo que é movido. Entendendo que somente Ele é um e simples, existindo somente através dEle mesmo, através do restante [a mente] aprende sobre Aquele que é infinito por natureza, imutável porque Ele é inamovível. Pois Aquele que cria e leva à plenitude todos os seres, e que está acima dos seres, não é evidente para os seres criados ... Da mesma forma, por meio das diversas e múltiplas maneiras que os membros e as partes estão combinados juntos neste microcosmo, e pensando na causa que o move, o homem, digo eu, sabe que é algo outro, algo essencial em comparação com a existência orgânica do corpo ... Ele considera o simples e o indivisível dentro do disperso, o ilimitado dentro do composto, o que muda como movido e o movido como tendo um fim para o qual ele é movido. E ele conhece a causa dos tropoi deste movimento, não por natureza, mas por discernimento, mesmo que este último seja, no entanto, muitas vezes equivocado. [39]

A existência eterna da alma mesmo no inferno é equivalente a vida "espiritual" dela. Isto é muito importante para São Máximo, o Confessor: que sem a alma nada mais poderia durar. Tudo estaria em contínuo fazer e desfazer. Mesmo Deus não existiria mais, pois um deus que não pode mais criar seres com uma indestrutibilidade eterna, para que eles possam eternamente pensar nele (ou contrário a ele), provaria ser um deus que seria condicionado e limitado a uma relação com um processo impessoal e eterno, com uma lei eterna de fazer e desfazer. [40] 

Mas todo o mistério do sofrimento no inferno, ou do conteúdo do inferno (que pode ter, mesmo em sua monotonia, reflexos continuamente variados na consciência do homem), não nos é dado a entender durante nossa vida terrena; podemos apenas fazer conjecturas sobre ele a partir de certas sombras que ele projeta nesta vida. 

O estado daqueles que, como consequência do julgamento individual, estão no paraíso da comunhão com Cristo, será tratado em outro lugar.

Traduzido a partir da versão em inglês "Orthodox Dogmatic Theology" (Vol. VI) por Pe. Dumitru Staniloae

Notas

1. M. Richard, "Enfer," em Dictionnaire de theologie catholique, ed. A. Vacant, E. Mangenot, et al., 15 vols. em 2 pts. (Paris: Letouzey et Ane, 1902-50), 5/1:86ff. 

2. "Lessing foi o primeiro a colocar consistentemente a idéia de uma evolução gradual no lugar do dualismo entre mundo e Deus, bem e mal, imanente e transcendente, céu e inferno" (Althaus, Die letzten Dinge, 177). Wilhelm Dilthey diz: "A perfeição só pode ser compreendida no sentido do espírito sendo purificado e gradualmente elevado em Deus" (Erlebnis und Dichtung, em Ernst Troltsch, Die Religion in Geschichte und Gegenwart, 2a ed., pp. (Tübingen: J. C. B. Mohr, 1931], 1:629ff.). Hermann Lüdemann rejeita o fim dualista da humanidade, e baseia sua teoria na brevidade da existência terrena (Christliche Dogmatik [Berna: Haupt, 1926], 2:622). Schleiermacher considera que os sofrimentos levam inevitavelmente à melhoria; por outro lado, perturbam a felicidade dos que estão no paraíso (em Althaus, Die letzten Dinge, 184).

3. São João Crisóstomo diz: "Porque nenhum dos que não tiverem se livrado de seus pecados aqui, quando tiver partido para lá, poderá escapar de sua responsabilidade por eles; mas, como os que são levados para fora destas prisões terrenas são levados em suas correntes para o lugar de julgamento, assim também todas as almas, quando se foram embora e, portanto, atadas com as múltiplas correntes de seus pecados, são levadas ao terrível tribunal" (Homilia 14 sobre o Evangelho de São Mateus, NPNF 10:87). 

4. São João de Damasco, De iis qui in fide dormierunt (PG 95:251C). 

5. Ibid., 253B.

6. "A doutrina da reencarnação, que tem vantagens óbvias, envolve, no entanto, outro pesadelo - o pesadelo das encarnações infinitas, da peregrinação ilimitada pelos labirintos escuros; ela encontra a solução do destino do homem no cosmo e não em Deus" (Berdyaev, The Destiny of Man , 279).

7. Ambiguum 7 (PG 91:1069); ET em Paul M. Blowers e Robert Louis Wilken, On the Cosmic Mystery of Jesus Christ: Selected Writings from St. Maximus the Confessor (Crestwood, NY: St. Vladimir's Seminary Press, 2003), 45-47. 

8. "Pois tudo o que vem à existência está sujeito a movimento, pois não é auto-movido ou auto-potente. Se então os seres racionais vêm à existência, certamente eles também são movidos, pois se movem de um começo natural no 'ser' para um fim voluntário no 'bem-ser'. Pois o fim do movimento daqueles que são movidos é o 'bem-ser eterno' em si, assim como seu começo é o ser em si mesmo que é Deus que é o doador do ser assim como do bem-ser. Pois Deus é o começo e o fim" (Ambiguum 7, PG 91:1077; ET Blowers e Wilken, On the Cosmic Mystery, 50-51). São João de Damasco adotou esta visão em sua totalidade (Diálogo contra os Maniqueus, PG 94:1269A-B).

9. A totalidade da Ambigua de São Máximo o Confessor (PG 91) é uma profunda defesa do valor do movimento contra o origenismo, que comprometia o movimento, considerando-o como o modo de queda do pleroma (plenitude). 

10. On the Soul and the Resurrection (PG 46:109B-112A); ET Catharine P. Roth, The Soul and the Resurrection, (Crestwood, NY: St. Vladimir's Seminary Press, 1993), 90-92. 

11. On the Soul and the Resurrection (PG 46:120A); ET Roth, 96. 12. On the Soul and the Resurrection (PG 46:117C); ET Roth, 95.

13. Althaus, Die letzten Dinge, 159, observa que se nesta vida eu devo reparar erros de vidas anteriores, então eu deveria conhecer sobre estas vidas, sentir-me responsável por estes atos, participar conscientemente nesta reparação, pois a consciência dá uma intensidade especial à minha ação reparadora. A reparação pressupõe a responsabilidade. Mas para isso devo manter minhas vidas passadas dentro de uma unidade de consciência. Mas a unidade de minhas existências é apenas uma teoria, não uma experiência de consciência. Alguém tem interesse em nos enganar com relação à unidade de nossas vidas? E Karl Holl diz que a reparação exata não pode ser concebida, nem mesmo no sistema de Steiner, o fundador da Antroposofia, porque o homem não retorna mais às mesmas situações para que ele possa recompensar aqueles que ele defraudou ("Steiners Anthroposophie," em Gesammelte Aufsiitze zur Kirchengeschichte, vol. 3 [Tiibingen: J. C. B. Mohr, 1928], 484, 487).

14. "Onde a eternidade é pensada pelo homem, nada de decisivo ocorre na Terra, nenhum ato que nos conecta à eternidade... A temporalidade histórica, como temporalidade decisiva, só existe ali onde a eternidade entrou no tempo, onde o Logos que entrou na história e se fez homem revela ao homem - que existe na história - sua origem e seu objetivo eterno como objeto decisivo de fé. Somente através desta revelação da eternidade é que nossa história temporal ganha sua participação na eternidade. Assim, somente através e nesta eternidade eu, este homem singular, esta pessoa individual, recebo um significado eterno e minha existência pessoal é levada a sério ... Na eternidade que me foi revelada por Cristo, meu olho é aberto para o conhecimento de que Deus, meu Senhor, me olha desde a eternidade com o olhar eterno do amor, e é por isso que minha existência e minha vida pessoal individual recebem significado eterno" (Emil Brunner, Die christliche Lehre von Gott, vol. 1 de Dogmatik [Zurique, 1946], 326).

15. Richard, "Enfer," 60. 

16. Berdyaev, "The Destiny of Man", 266ff. 

17. Epistola 1: A George, o Prefeito da África (PG 91 :389). A afirmação de São Máximo de que aquele que está no inferno "ama" Deus deve ser entendida como seu reconhecimento dEle como justo e merecedor de amor, sem a possibilidade de realmente amá-Lo, por causa das paixões a que se habituou. Mesmo os demônios crêem e estremecem (Tg 2: 19). 

18. Diálogo contra os maniqueus (PG 94:1569). 

19. Ibid., 1544A-B. São Simeão o Novo Teólogo também identifica a felicidade com a comunhão com Cristo, e a infelicidade com a solidão; ele diz na oração antes da Sagrada Comunhão, "Aquele que participa dos Dons divinos e deificantes não está sozinho, mas contigo, meu Cristo ... Portanto, com lágrimas e humildade de alma, eu me aproximo de Ti. Não me rejeites, para que eu não esteja só, sem Ti, o doador da vida, minha respiração, minha vida, minha alegria, a salvação do mundo". 

20. Ibid., 1547. 

21. Ibid., 1545. 

22 . Ibid., 1573. 

23. Ibid. 24. Ibid. 

25. Epístola 1 (PG 91 :388). 

26. Ibid., 385D-388A. 

27. Ibid., 389. 

28. Pavel Florensky, The Pillar and Ground of the Truth, trad. Boris Jakim (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1997), 171. 

29. Ibid., 160.

30. Ibid., 160-61. 

31. Santo Isaque, o Sírio, diz que "aqueles que são punidos na Geena são flagelados pelo flagelo do amor. Pois o que é tão doloroso e veemente como a punição do amor? Quero dizer que aqueles que se tornaram conscientes de que pecaram contra o amor sofrem um tormento maior com isso do que com qualquer medo de punição ... O poder do amor funciona de duas maneiras: ele atormenta aqueles que pecaram, como ocorre também no mundo quando um amigo sofre de um amigo; mas se torna uma fonte de alegria para aqueles que observaram seus deveres" (Santo Isaac, o Sírio, Homilia 28, em The Ascetical Homilies of Saint Isaac, the Syrian, trad. Holy Transfiguration Monastery, 2ª edição rev. [Boston, MA: Holy Transfiguration Monastery, 2011], 266). 

32. Diálogo contra os maniqueus (PG 94:1573). 

33. Ibid., 1569. 

34. Ibid., 1541. 

35. Ibid., 1569. 

36. Ibid., 1541.

37. "A idéia do inferno é a expressão de uma experiência acentuada e intensa da natureza indestrutível da personalidade" (Berdyaev, The Destiny of Man, 267). E esta natureza indestrutível da personalidade é querida por Deus. 

38. Epístola 7: A João, o Presbítero (PG 91 :437). 

39. Epístola 6: Ao Arcebispo João (PG 91 :425-29).

40. O monge Mitrofan diz que "os poderes da alma, agindo na terra durante a vida humana, agem também no outro mundo quando a alma passa por ali. Assim, o homem rico mencionado pelo Salvador no Evangelho (Lucas 16:22-25) desceu ao inferno na alma após a morte ... Todos os poderes da alma estão em ação; a consciência mostra as causas do já inevitável infortúnio do presente; a ação dos sentidos internos e externos provocam um grande tormento e, por fim, a atividade da vontade se esforça sem sucesso para aliviar o estado da alma, e a ação da memória de seus irmãos na terra e a preocupação pela sorte deles após a morte é um sinal dos sentimentos internos e atividade da mente que têm como objeto o destino de seus irmãos que ainda permanecem na terra" (How Our Departed Ones Live, vol. 1, trans. John Shaw [Chelsea, MI: Sheridan Books, 2005], 216-17).

Jean Kovalevsky fala até mesmo das etapas percorridas pelas almas que fizeram o bem ou o mal, mas ele admite que as etapas daqueles que cometeram o mal terminam em um estado de imobilidade congelada. Ao descrever a etapa inicial para as almas que cometeram o mal, ele segue São João de Damasco, que diz que essas almas sofrem da incapacidade de satisfazer suas paixões. Ele fala de uma espécie de "psicologia" segundo a qual todas essas almas, de alguma forma, sentem seus atos, assim como um amputado que sente a dor no ponto em que sua mão estava. Ele fala de um "corpo sutil", o que para mim não me parece muito apropriado. Ele continua: "Você pode se encontrar sem corpo, mas levará sua psicologia com você. Se ela não estiver satisfeita ou se não tiver esperança de estar assim, então, inevitavelmente, sua vitalidade e sua força vital serão diminuídas; seu sofrimento será maior ou menor na medida em que você não superou o apego a sua psicologia" ("La destinee de l'ame apres la mort" em Presence orthodoxe, no. 27 (1974): 20).

Há uma situação diferente para a pessoa que deixou este mundo fortalecida espiritualmente: "Depois da morte, a alma é mais vital do que aqui embaixo porque não tem os obstáculos que temos na terra: preocupações, fadiga, etc. A vitalidade e o vigor daquele que viveu espiritualmente são tão fortes que ele pode ajudar os outros e evoluir nessa vitalidade" (ibid).

Depois ele apresenta as seguintes etapas do estado das almas ascendentes (boas). Primeira etapa: Durante os três primeiros dias (tomados simbolicamente), a alma não é separada do corpo. Portanto, ela deve permanecer em volta da pessoa morta em oração. Separada do corpo após quarenta dias, a alma chega a um lugar onde será "como os anjos no céu". Segunda etapa: Agora, em um nível superior, a alma se torna portadora de certas mensagens universais. Terceira etapa: A alma é introduzida à audição da música das esferas ou leis do mundo, no pensamento de Deus sobre o mundo. A partir daqui, ela é capaz de ascender ao nível de viver diretamente através dos dons de Deus (ibid., 22-24).

As etapas das almas descendentes são as seguintes. Primeira etapa: A alma é tomada pelo pavor. Segunda etapa: Neste pavor, a alma retrai-se e encolhe-se dentro de si mesma, separando-se de todas as outras. Terceira etapa: A alma se revolta contra a harmonia do mundo, que agora ela percebe como distorcida. Quarta etapa: Ela se recusa a aceitar qualquer coisa vinda do exterior. Ela quer estar sozinha. Quinta etapa: Fria melancolia e infinita tristeza. A alma recusa qualquer evolução ou saída. Ela finalmente se endurece nesta posição e desliza em direção à autodestruição, caindo no fogo infernal (ibid., 24). Mas este estado ainda é um estado sensorial, não um estado não sensorial, portanto, há um certo movimento nele.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Quais são os critérios que tornam um Concílio ser considerado Ecumênico? (Florilegium)

Nós dividimos estas citações nos seis seguintes grupos:

1. Consenso universal dos bispos: São Basílio, Santo Agostinho, Concílio de Calcedônia, Papa São Gregório o Grande.

2. Ratificação patriarcal: Concílio de Calcedônia, Concílio de Constantinopla II, Concílio de Nicéia II, São Tarásio de Constantinopla, São Nicéforos de Constantinopla.

3. Grande número de santos presentes: Santo Atanásio, São João de Damasco

4. Verdade: São Máximos, o Confessor.

5. Ratificação por Roma: Sócrates & Sozomen.

6. Um grande número de bispos, ordenado por Roma e convocado pelo imperador: Hincmar de Rheims.

Destes, a ratificação por Roma se enquadra no âmbito da ratificação patriarcal, já que Roma era o primeiro patriarca posicionado e cabeça do sínodo. Além disso, o consenso universal também se enquadra no modelo de ratificação patriarcal porque os bispos quase sempre votaram em blocos de acordo com a decisão de seu patriarca. Portanto, para todos os efeitos, estas três categorias devem ser contadas como uma só, pois todas elas são componentes do mesmo sistema. Um "grande número de santos" poderia ser entendido também em termos de consenso universal e, portanto, de ratificação patriarcal.

Apenas o argumento circular oferecido por São Máximo em relação à verdade e o oferecido por Hincmar de Reims (ordenado por Roma, convocado pelo imperador) são anômalos, pois São Máximo nunca delineia como se deve saber se a verdade foi declarada e o critério de Hincmar não se aplica estritamente nem mesmo a um só concílio ecumênico.

Antes de apresentar as citações patrísticas, algumas palavras precisam ser ditas sobre o termo "concílio ecumênico". Normalmente é usado para significar que um concílio é "infalível" ou "vinculante para os fiéis". Este não é necessariamente o significado usado na literatura patrística do primeiro milênio, onde tipicamente significa um concílio convocado e pago pelo Império (daí o "oikoumene" - "mundo", "império"). Devido a esta compreensão do significado de "ecumênico", os escritores o usavam semi-regularmente para se referir até mesmo aos concílios que não ensinavam corretamente, como o Sínodo de Ladrões [Latrocinium] de Éfeso II em 449. Portanto, o uso do termo "ecumênico" para definir quais concílios são ou não vinculados aos fiéis reflete uma compreensão Católica Romana posterior do que o termo significa e não é uma compreensão patrística. Talvez uma pergunta melhor seja "O que torna um concílio vinculante para os fiéis" ou "Como sabemos quais concílios estão ensinando o dogma correto e que devem ser seguidos"?

Muito tem sido dito pelos apologistas Católicos Romanos a respeito do papel de Roma na ratificação dos concílios (isto é bem atestado por santos e não-santos, tanto orientais quanto ocidentais) e, portanto, não precisa ser repetido aqui, pois já está bem documentado. O que precisa ser documentado é o quadro mais amplo no qual o papa, entre os outros líderes da Igreja e dentro do modelo conciliar, desempenha um papel significativo como cabeça do sínodo e assim como um primeiro-ministro ratifica a decisão do parlamento, o papel do papa era ratificar a decisão do concílio, do qual ele era cabeça. Em outras palavras, o problema dos apologistas Católicos Romanos e dentro do modelo Católico Romano é que eles assumem falsamente que o papa ratificando um concílio significa que o papa pode passar por cima dos outros bispos e pode emitir uma declaração dogmática sem o consentimento dos bispos. Isso é falso porque o direito de ratificar é uma capacidade passiva e não permite que alguém ordene aos outros o que devem fazer, mas, em vez disso, coloca-os como um guardião dos portões que pode dizer "sim" ou "não", mas é incapaz de dizer "vá fazer isto" ou "você deve fazer aquilo". Em outras palavras, é o poder de permissão, não de comando. Os romanos entendiam isto em dois termos políticos justapostos: potestas e auctoritas. Enquanto potestas era autoridade no sentido do poder de ordenar aos outros o que fazer, auctoritas era um termo variado que descrevia prestígio, testemunho, soft power, o direito passivo de ratificar as decisões dos outros e investi-las com potestas, etc., não se referia à capacidade de emitir ordens, na realidade, excluía isso.

Ícone dos Sete Concílios Ecumênicos 


1. Consenso Universal dos Bispos - Consensus Universal

São Basílio o Grande

Que você confesse a fé expressa por nossos Pais uma vez reunidos em Nicéia, que você não omita nenhuma de suas proposições, mas tenha em mente que os trezentos e dezoito que se reuniram sem contendas não falaram sem a operação do Espírito Santo, e que não acrescente àquele credo a afirmação de que o Espírito Santo é uma criatura, nem mantenha comunhão com aqueles que assim o dizem, a fim de que a Igreja de Deus possa ser pura e sem qualquer mistura perversa de qualquer tara. 

- São Basílio para Cyriacus, NPNF-2, Vol. 8, Ep 114 

Como diz Santo Atanásio, também neste florilégio, os 318 de Nicéia foram considerados representativos da Igreja, e assim constituíam a ratificação universal.

Santo Agostinho

Ele, digo eu, mostra abundantemente que estava muito disposto a corrigir sua própria opinião, se alguém lhe provar que é tão certo que o batismo de Cristo pode ser dado por aqueles que se afastaram do rebanho, como não poderia ser perdido quando eles se afastaram; sobre este assunto já dissemos muito. Também não deveríamos nos aventurar a afirmar nada do gênero, se não tivéssemos o apoio da autoridade unânime de toda a Igreja, à qual ele próprio teria cedido inquestionavelmente, se naquele momento a verdade desta questão tivesse sido posta fora de discussão pela investigação e decreto de um Concílio Plenário. Pois se ele cita Pedro como um exemplo por se ter permitido ser corrigido silenciosa e pacificamente por um colega mais novo, quanto mais prontamente ele mesmo, com o Concílio de sua província, teria cedido à autoridade do mundo inteiro, quando a verdade tinha sido assim trazida à luz?

- Santo Agostinho, "Sobre o Batismo contra os Donatistas" NFPF-1, Vol. 4, Epístola 2:5

"O que o costume da Igreja sempre manteve, o que este argumento falhou em provar ser falso, e o que um Concílio Plenário confirmou, isto nós seguimos"! ["Plenário" do latim "plenus" que significa "pleno" ou "completo"].

- Santo Agostinho, Sobre o Batismo contra os Donatistas, NPNF-1, Vol. 4, Epístola 4:10

Quanto àquelas outras coisas que mantemos como autoridade, não da Escritura, mas da tradição, e que são observadas em todo o mundo, pode ser entendido que elas são mantidas como aprovadas e instituídas ou pelos próprios apóstolos, ou pelos Concílios Plenários, ["Plenário" do latim "plenus" que significa "pleno" ou "completo"] cuja autoridade na Igreja é muito útil, por exemplo, a comemoração anual, por solenidades especiais, da paixão, ressurreição e ascensão do Senhor, e da descida do Espírito Santo do céu, e qualquer outra coisa que seja observada da mesma maneira por toda a Igreja onde quer que ela tenha sido estabelecida.

- Santo Agostinho, Para Januarius, NFPF-1, Vol. 1, Epístola 54:1 

O Quarto Concílio Ecumênico, Calcedônia (451) 

 Aetius, o arquidiácono mais devoto, disse: "Há também a carta escrita pelo santíssimo Cirilo, [agora] entre os santos, o então bispo da grande cidade de Alexandria, para Nestório, que foi aprovada por todos os santos bispos que se reuniram anteriormente em Éfeso para condenar o mesmo Nestório, e foi confirmada pelas assinaturas de todos. Há também a carta do mesmo Cirilo, [agora] entre os santos, escrita para João de santa memória, o então bispo da grande cidade de Antioquia, que também foi confirmada. Se lhes agrada, eu as lerei.

- Price, Atos da Sessão de Calcedônia 2. Vol 2, p. 13

Papa São Gregório o Grande (†604) 

Além disso, como com o coração o homem acredita na justiça, e com a boca se confessa para a salvação, confesso que recebo e venero, como os quatro livros do Evangelho, assim também os quatro Concílios: a saber, o Niceno, no qual a doutrina perversa de Ário é destruída; o Constantinopolitano também, no qual o erro de Eunômio e Macedônio é refutado; mais ainda, o primeiro Éfeso, no qual a impiedade de Nestório é condenada; e o Calcedoniano, no qual a depravação de Eutiques e Dióscoro é reprovada. Estes, com plena devoção, eu abraço e adiro com a mais completa aprovação; já que sobre eles, como sobre uma pedra de quatro quadrantes, sobe a estrutura da santa fé; e quem, de qualquer vida e comportamento que seja, não se sustenta na solidez deles, mesmo que seja visto como uma pedra, ainda assim ele está fora do edifício. O quinto concílio também venero igualmente, no qual se reprova a epístola que se chama a de Ibas, cheia de erros, é reprovada; Teodoro, que divide o Mediador entre Deus e os homens em duas subsistências, é condenado por ter caído na perfídia da impiedade; e os escritos de Teodoreto, nos quais a fé do bem-aventurado Cirilo é contestada, são refutados como tendo sido publicados com a audácia da loucura.  Mas todas as pessoas que os veneráveis Concílios acima mencionados repudiam eu repudio; aqueles que eles veneram eu abraço; uma vez que, tendo sido constituídos por consentimento universal. Quem quer que presuma ou desligar aqueles a quem eles ligam, ou ligar aqueles a quem eles desligam, esse alguém não derruba [os Concílios], mas [derruba] a si mesmo. Quem, portanto, pensa o contrário, que seja anátema. Mas quem tiver a fé dos mencionados sínodos, a esteja com ele a paz de Deus Pai, através de Jesus Cristo seu Filho, que vive e reina consubstancialmente Deus com Ele na Unidade do Espírito Santo para todo o sempre. Amém.

- Papa São Gregório o Grande para João de Constantinopla. NPNF-2, Vol 12, Livro 1, Epístola 25

2. Ratificação Patriarcal 

Os bispos tipicamente votavam em blocos junto com seu patriarca - o cânon 34 dos Cânones Apostólicos, o cânon 30 de Calcedônia, o contingente Antioquino que criou um contra-concílio em Éfeso em 431, etc. testemunham isso - a concordância dos patriarcas era a abreviação para garantir a concordância dos bispos, pois muito poucos bispos votariam contra a opinião de seu patriarca. O sistema patriarcal começou como três bispos: Roma, Alexandria e Antioquia, mas foi então expandido para incluir Jerusalém e depois Constantinopla. Com o tempo, ele foi expandido ainda mais para incluir Geórgia, Bulgária, Sérvia, Moscou, etc.

O Quarto Concílio Ecumênico, de Calcedônia (451)

"Os oficiais muito gloriosos e o exaltado senado disseram: 'Se parece bom para sua devoção, que os patriarcas santíssimos [bispos sêniores] de cada diocese [Macedônia, Trácia, Asiana, Pontica, Oriens e Egito] selecionem, cada um, um ou dois [bispos] de sua própria diocese, se reúnam, deliberando em comum sobre a fé, e então tornar suas decisões conhecidas para todos, de modo que, se todos estiverem de acordo, toda disputa possa ser resolvida, que é o que desejamos, e se alguns demonstrarem ser de opinião contrária, o que não esperamos, isto poderá revelar suas opiniões também.'" 

- Price,  Atos da Sessão de Calcedônia 2. Atos de Calcedônia, Pe. Richard Price. Vol 2, p. 11

O Quinto Concílio Ecumênico, Constantinopla II (553)

Este é de particular importância porque o Papa Vigílio concordou em privado com a condenação dos Três Capítulos, mas recusou-se publicamente a condená-los e mais tarde emitiu um decreto, o "Constitutum", excomungando qualquer pessoa que anatematizasse os Três Capítulos. O concílio então suspendeu o papa do seu ofício [posto] e usou o fato de ele ter concordado privadamente com a condenação deles para aprovar o decreto de condenação dos Três Capítulos. Logo após o encerramento do Concílio, o Papa escreveu seu segundo Constitutum no qual ele revogou seu primeiro Constitutum e concordou com as exigências do Concílio. A Igreja, em última instância, se posicionou a favor do Concílio não apenas ratificando seus atos e decretos, mas canonizando os dois patriarcas sucessivos de Constantinopla que presidiram o Concílio, assim como o Imperador, São Justiniano (que governou de 527 a 565) que o convocou. O Papa Vigílio, por outro lado, nunca foi canonizado - nem no Oriente, nem no Ocidente.
Sua Beatitude [Papa Vigílio] sabe o que está contido no acordo feito entre nós [o Papa e os Padres do Concílio] por escrito: o senhor prometeu junto com os bispos em união e comunhão com o senhor se encontrar e investigar os Três Capítulos. Nós mesmos estamos em comunhão e união com o senhor, e a reunião não deve ser adiada a fim de oferecer uma oportunidade para outros bispos estarem presentes; nem os bispos ocidentais devem ser divididos dos orientais, pois estão unidos uns aos outros e compartilham as mesmas convicções. Além disso, nos santos quatro concílios nunca se encontrou uma grande quantidade de bispos ocidentais, mas simplesmente dois ou três bispos e alguns clérigos. Agora, porém, muitos bispos estão presentes da Itália; sua beatitude está presente, há também bispos da África e Illyricum, e nada impede um encontro conosco de acordo com o que foi acordado por escrito entre nós". […] Quando uma tal grande quantidade de bispos está presente, não parece e nem é válido que três ou quatro se reúnam por conta própria e realizem procedimentos entre si enquanto os outros bispos estão ausentes e são ignorados. Isto é acordado em escrito. Pois quando alguns se reúnem para questionamento, se o senhor [Papa Vigílio] ou alguns dos que estão com o senhor fazem alguma objeção, não é possível que as mesmas pessoas sejam tanto adversários quanto juízes na questão. Se, entretanto, o senhor [Papa Vigílio] não se separar, é necessário que investigações conjuntas sejam conduzidas em concílio; pois não é prudente que um registro seja indiciado em segredo com poucos bispos e sem muitos presentes. É melhor realizar uma reunião com os padres reunidos por amor, adotar uma vontade única na resolução do caso e tornar isto conhecido aos demais padres, para que um veredicto comum possa então ser dado sobre o caso por escrito". Quando, entretanto, ele [Papa Vigílio] não concordou com nada disso, nós lhe dissemos: "O mui piedoso imperador [São Justiniano] escreveu tanto à sua beatitude como a nós mesmos perguntando após nosso veredicto sobre os Três Capítulos; e se o senhor não quiser se reunir de acordo com o que foi acordado entre nós por escrito, que sua beatitude saiba que somos obrigados a nos reunirmos e darmos a conhecer nossa vontade. [...] Se, no entanto, o senhor [Papa Vigílio] quiser uma discussão com todos ou com alguns de nós, de modo que um veredicto possa primeiro ser tornado conhecido por todos os outros bispos mui religiosos que estão presentes em sua cidade imperial e depois confirmado por um decreto conjunto e o caso seja encerrado, este o mui piedoso imperador certamente concederá, uma vez que um decreto conjunto tenha sido feito por todos nós sobre uma solução do caso. Se, no entanto, o senhor quiser uma discussão com algumas outras pessoas, que não têm os mesmos princípios que nós [aqueles que não condenam os Três Capítulos] e não são zelosos pela paz da igreja, será necessário que nós, agora que recebemos um inquérito do mui piedoso imperador, enviemos uma resposta conjunta sobre o que nos parece bom em relação aos Três Capítulos. Mas o que pedimos ao senhor, entretanto, para declarar pela paz das igrejas é o seguinte - que se o que o senhor fizer dentro dos dias acima citados não for suficiente para satisfazer aqueles que foram escandalizados, o senhor permaneça em nossa comunhão mesmo depois que tivermos condenado os Três Capítulos. […] Pedimos-lhe que se reúna conosco na caridade sacerdotal para decretar nossa vontade comum sobre os Três Capítulos; pois assim tanto sua beatitude como nós mesmos, juntamente com o senhor, poderemos com justiça pedir ao mui piedoso imperador que nos conceda um adiamento específico, visto que isto surge da resolução do caso por uma decisão conjunta. [...] Em ambos os dias comunicamos a mesma resposta do mui piedoso imperador, ou seja, que ele [Papa Vigílio] deveria ou reunir-se com todos vós [os Padres do Concílio] e discutir os Três Capítulos, com permissão para levantar objeções concedidas àqueles que assim o desejassem, ou, se ele não concordasse com isso, reunir-se com os patriarcas mui abençoados,  ou seja, Eutychius de Constantinopla, Apollinarius de Alexandria, Domninus de Theopolis, e com outros bispos, e discutir com eles o veredicto a ser pronunciado sobre os Três Capítulos, e comunicar aos outros bispos o que lhes pareceu bom, para que, por comum consentimento de todos, possa ser imposto um encerramento no caso dos Três Capítulos. [...] Nós lhe dissemos: "O senhor, por si mesmo, condenou muitas vezes os Três Capítulos tanto por escrito como oralmente, mas o mui piedoso imperador quer que o senhor se encontre com os outros para que possa haver um julgamento comum sobre os Três Capítulos. Sobre a questão do adiamento, porém, o senhor já solicitou através de outros ao mui piedoso imperador, e esta majestade respondeu: "Se o senhor está disposto a reunir-se com os patriarcas mui abençoados e com a maioria dos bispos religiosos conforme o acordo entre o senhor, para que o senhor mesmo possa tratar do assunto e todos possam emitir um decreto conjunto sobre os Três Capítulos, não só lhe concederei o adiamento que agora menciona, mas um ainda mais longo. Mas porque, depois de tanto tempo, testemunhamos que o senhor ainda tem recurso a adiamentos, precisamos ser informados pelo concílio sobre a vontade em relação aos capítulos dos mui religiosos sacerdotes que se reuniram por este motivo e estão aqui por apenas um tempo; pois não podemos deixar a Igreja de Deus em tal confusão, especialmente quando os hereges estão caluniando os sacerdotes [da Igreja] como se eles sustentassem a insanidade nestoriana.’” Depois de termos dado esta resposta, pedimos repetidamente que ele usasse nossos ofícios para se reunir com seu santo concílio; mas isto ele se recusou a fazer.' [...] Quando os digníssimos oficiais haviam partido, o santo concílio disse: "O que se seguiu na presença do mui abençoado Papa Vigílio foi tornado conhecido pelos relatos dos oficiais digníssimos e dos bispos mui religiosos. Temos constantemente mantido e mantemos o que é certo, e muitas vezes pedimos ao Santíssimo Papa Vigílio que se reunisse conosco e emitisse um decreto junto conosco sobre os assuntos em discussão".

Sessão 2. Atos de Constantinopla II, Pe. Richard Price. Vol 1, p. 211-216

Dirigindo-se aos Pais do Concílio, o oficial imperial, Constantino, o quaestor do palácio, declara:

Mas até agora, ele [Papa Vigílio] tem adiado a reunião em comum e a realização disto com seu santo concílio, embora o mui piedoso senhor através de seus oficiais, entre os quais eu mesmo [Constantino] desempenhei um papel exortando-o a reunir-se com os senhores em comum, investigar o assunto em concílio [...] Aqueles de nós que eram bispos lhe responderam: "Se, de acordo com o que foi resolvido na correspondência entre nós, sua beatitude e os patriarcas mui santos, e a maioria dos bispos mui religiosos, o senhor ordena uma reunião e uma discussão sobre os Três Capítulos, e a emissão junto com todos nós de um decreto de acordo com a fé ortodoxa, como fizeram os santos apóstolos, os santos pais, e os quatro concílios quando surgiu uma questão comum, reconhecemos o senhor como nossa cabeça e pai e primaz. [...] [O Imperador falando como narrado por Constantino] 'Convidamos [o Papa Vigílio] a reunir-se com os patriarcas mui abençoados e os outros bispos mui religiosos e em comum com eles para investigar e julgar esses Três Capítulos."

Sessão 7. Atos de Constantinopla II, Pe. Richard Price. Vol 2, p. 76-77

Depois de ler uma série de correspondências privadas do Papa Vigílio provando que ele tinha de fato condenado os Três Capítulos em privado, o Concílio continuou: 

"Constantino, o mui glorioso quaestor disse:

'Enquanto eu tenho participado de seu santo concílio para a leitura dos documentos que lhe foram apresentados, o mui piedoso imperador enviou um decreto ao nosso santo concílio sobre o nome de Vigílio, no sentido de que em vista da impiedade que ele defendeu seu nome não deveria mais ser incluído nos dípticos sagrados da igreja, e não deveria mais ser lido pelos senhores nem preservado nem na igreja da cidade imperial nem nas demais igrejas confiadas aos senhores e aos outros bispos no estado que lhe foram designados [a cada bispo] por Deus. Ouvindo este decreto, que os senhores aprendam mais uma vez com o mesmo o quanto o imperador mui sereno se preocupa com a unidade das santas igrejas e com a pureza dos santos mistérios'.

O santo concílio disse: 'Que o santo decreto seja devidamente recebido e lido' e quando Estevão, diácono, notário e instrumetarius o recebeu, ele leu:

Em nome do Senhor Jesus Cristo. […]

(2) Quando o papa mui religioso da Roma Velha chegou a esta grande cidade, todas estas coisas lhe foram comunicadas.  E quando ele as examinou, ele as condenou e declarou por escrito suas palavras, dirigidas tanto a nós mesmos quanto à nossa então esposa de piedosa memória; pois não permitimos que ninguém que não condenasse esta impiedade recebesse a comunhão inviolável por parte dele ou de quem quer que fosse. Ele também jurou por escrito que continuaria com o mesmo propósito, condenando e anatematizando os referidos Três Capítulos e não tentaria de forma alguma ou em momento algum refutar a condenação dos referidos Três Capítulos impiedosos. Além disso, ele condenou frequentemente os Três Capítulos impiedosos oralmente na presença dos mais gloriosos oficiais e da maioria dos bispos religiosos, como muitos entre os que se reuniram sabem. Ele continuou agindo assim por sete anos. Posteriormente, cartas foram encaminhadas entre o senhor e ele, nas quais ambos concordam em reunir-se e compor uma condenação dos capítulos acima mencionados no concílio. Mas posteriormente, quando convidado tanto por nós como por seu concílio religioso, ele se recusou a se reunir em comum e contradisse sua própria intenção, defendendo os ensinamentos dos seguidores de Teodoro e Nestório. Além disso, ele se tornou estranho à igreja católica ao defender a impiedade dos capítulos acima mencionados, separando-se de sua comunhão.

(3) Uma vez que, portanto, ele agiu desta maneira, pronunciamos que seu nome é estranho aos cristãos e não deve ser lido nos dípticos sagrados, para não sermos encontrados desta forma compartilhando a impiedade de Nestório e Teodoro. Por isso, antes, nós comunicamos isto aos senhores oralmente, mas agora os informamos por escrito através de nossos oficiais, que o nome dele não deve mais ser incluído nos dípticos sagrados. Nós mesmos, entretanto, preservamos a unidade com a sé apostólica, e é certo que os senhores também a guardarão. Pois a mudança para pior de Vigílio, ou de qualquer outra pessoa, não pode dificultar a paz das igrejas. Que a Divindade vos guarde por muitos anos, pais santos e mui religiosos. […]

O santo concílio disse: "O que agora pareceu bom ao mui piedoso imperador está de acordo com os esforços que ele desempenhou pela unidade das santas igrejas. Preservemos, portanto, a unidade com a sé apostólica da sacrossanta igreja da Roma Velha, procedendo em tudo de acordo com o teor dos textos que foram lidos. Sobre o caso que temos diante de nós, deixemos prosseguir o que já resolvemos".

Sessão 7. Atos de Constantinopla II, Pe. Richard Price. Vol 2, p. 99-101

O Concílio não só utiliza as próprias declarações do Papa contra ele, como também aprova os decretos na ausência dele, mostrando que sua aprovação já havia sido dada em privado. Em seguida, suspende o Papa Vigílio do seu ofício, deixando a sé de Roma vaga [vacante] até que o Papa corrija a si mesmo. 

O Sétimo Concílio Ecumênico (787)

"Quando o quinto concílio santo e ecumênico se reuniu em Constantinopla, um anátema comum e universal foi imposto a Orígenes e Teodoro de Mopsuéstia e ao ensino de Evágrio e Dídimo sobre a pré-existência e uma restauração universal, na presença e com a aprovação dos quatro patriarcas".

7º Concílio Ecumênico (787), Sessão I (Price, Atos p. 132) 

Observe que apenas quatro patriarcas são mencionados uma vez que o Papa Vigílio, a quem o concílio suspendeu do ofício por ter rejeitado a condenação dos Três Capítulos, recusou-se a comparecer até o final. Aos olhos dos Pais em Constantinopla II e dos Pais em Niceia II, a sé romana estava simplesmente vaga [vacante] naquele momento. Esta é uma das razões pelas quais a Igreja Ortodoxa ainda pode ter concílios dogmaticamente vinculantes: porque a sé de Roma, aos nossos olhos, está vaga [vacante].  

"Tarásio, o patriarca mui santo, disse: "Eu também rejeito aqueles que foram ordenados por esta razão, pela destruição da fé, especialmente se houvesse bispos ortodoxos disponíveis por quem eles poderiam ter sido ordenados; pois tal era a opinião dos Pais. Se houvesse um pronunciamento sinodal e unanimidade nas igrejas em relação à ortodoxia, aquele que tem a presunção de ser ordenado por hereges profanos deve sofrer deposição".

 7º Concílio Ecumênico (787) Sessão I (Preço, Atos p. 138-139)

"E como pode um concílio ser 'grande e ecumênico' quando o mesmo não recebeu o reconhecimento nem o consentimento dos primazes das outras igrejas, e sim eles o submeteram ao anátema? Ele não contou com a cooperação do então papa de Roma ou de seus sacerdotes, nem por meio de seus representantes ou de uma carta encíclica, como é a regra para concílios; nem obteve o consentimento dos patriarcas do oriente, de Alexandria, Antioquia e da cidade santa, ou de seus sacerdotes e bispos."

7º Concílio Ecumênico (787), 6ª sessão, Refutação Oficial do Horos de Hiereia. (Price, Atos p. 442)

São Nicéforos de Constantinopla (†815) 

"Que Roma é essa, primeiramente chamada a sé dos apóstolos, que concorda com você em rejeitar a venerada imagem de Cristo? Ao invés disso, Roma se une a nós para labutar e se regozijar em honrar esta imagem. Que Alexandria é essa, venerável recinto do evangelista Marcos, que alguma vez tenha jamais se unido na rejeição de estabelecer a semelhança corporal e material da Mãe de Deus? Ao invés disso, Alexandria nos assiste e concorda conosco nisso. Que Antioquia é essa, a famosa sé de Pedro, o líder, que concorda em insultar a representação dos santos? Ao invés disso, Antioquia compartilha conosco a longa tradição de honrar estas. Que Jerusalém é essa, famosa casa do irmão do Senhor, que conspira na destruição das tradições dos pais?"

Nicéforos ao Imperador encontrado em "A vida de São Nicéforos pelo Diácono Inácio" (escrito entre 843 - 846) Elizabeth A. Fisher (tradutora), Alice-Mary Maffry Talbot (editora), Byzantine Defenders of Images: Eight Saints’ Lives trad. inglesa, B., Ch. V., pp. 81 - 82, Washington, DC: Dumbarton Oaks Research Library and Collection, 1998.

"É a antiga lei da Igreja que quaisquer incertezas ou controvérsias que surjam na Igreja de Deus, elas são resolvidas e definidas pelos sínodos ecumênicos, com o consentimento e aprovação dos bispos que ocupam as sés apostólicas".

Patriarca São Nicéforos. Trad. Dvornik, "Byzantium and the Roman Primacy" p. 102

São Teodoro, o Estudita (†826)

"Não estamos discutindo assuntos mundanos. O direito de julgá-los cabe ao Imperador e ao tribunal secular. Mas aqui é uma questão de decisões divinas e celestiais e estas são reservadas somente a ele a quem o Verbo de Deus disse: "Tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu.". E quem são os homens a quem esta ordem foi dada? - Os Apóstolos e seus sucessores. E quem são os seus sucessores? - Aquele que ocupa o trono de Roma e é o primeiro; aquele que se senta no trono de Constantinopla e é o segundo; depois deles, os de Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Essa é a autoridade Pentarquica na Igreja. É a eles que todas as decisões pertencem nos dogmas divinos. O Imperador e a autoridade secular têm o dever de ajudá-los e de confirmar o que decidiram."

São Teodoro, o Estudita. Dvornik, "Byzantium and the Roman Primacy", p. 101.

Observe que São Teodoro identifica todos os bispos como Pedro. Aqui você pode encontrar um florilegium de outros Pais da Igreja que identificaram todos os bispos, não apenas o bispo de Roma, como Pedro. 

Anastasius, o Bibliotecário (†878)

"Assim como Cristo estabeleceu em Seu corpo, ou seja, em Sua Igreja, um número de patriarcas igual ao número de sentidos no corpo humano, o bem-estar da Igreja não sofrerá enquanto estas sés forem da mesma vontade, assim como o corpo funcionará apropriadamente enquanto os cinco sentidos permanecerem intactos e saudáveis. E porque, entre elas, a Sé de Roma tem precedência, ela pode muito bem ser comparada ao sentido da visão que é certamente o primeiro dos sentidos do corpo, já que é o mais vigilante e já que permanece mais do que qualquer outro sentido, em comunhão com todo o corpo".

Anastasius, o Bibliotecário (†878). Trans. Dvornik, "Byzantium and the Roman Primacy", p. 104

3. Grande Número de Santos 

Santo Atanásio de Alexandria 

"Por isso foi realizado um sínodo ecumênico em Nicéia, 318 bispos reunidos para discutir a fé por causa da heresia ariana, ou seja, para que os sínodos locais não sejam mais realizados sobre o tema da Fé, mas que, mesmo que realizados, não sejam considerados válidos. Pois o que falta a esse Concílio, que alguém deveria procurar inovar? Ele está cheio de piedade, amado; e tem enchido o mundo inteiro com ele. Os povos da Índia o reconheceram e todos os cristãos de outras nações bárbaras. Em vão é, portanto, o esforço daqueles que muitas vezes fizeram tentativas contra ele. [...] Pois se compararmos o número com o número, estes que se encontraram em Nicéia são mais do que aqueles que se encontraram nos sínodos locais, uma vez que o todo é maior do que a parte.

 Santo Atanásio, Carta aos Bispos da África NPNF-2, Vol 4

Acreditava-se que os 318 de Nicéia eram representativos da Igreja e, portanto, constituíam a ratificação universal.

São João Damasceno

E no quarto santo e grande Concílio Ecumênico, refiro-me àquele de Calcedônia, é-nos dito que foi nesta forma que o Hino foi cantado; pois as atas desta santa assembléia assim o registram. Seria, assim, verdadeiramente um deboche e escárnio que este Hino "Três vezes Santo" [Triságion], ensinado pelos anjos e confirmado pela prevenção da calamidade, ratificado e estabelecido por tão grande assembléia de Santos Pais, e cantado antes disso pelos Serafins como uma revelação das três subsistências da Divindade, tenha sido manchado e emendado para se adequar à visão do estúpido Fuller como se ele fosse mais elevado do que os Serafins.

João Damasceno, "Fé Ortodoxa", NPNF-2, Vol 10, Livro 9, Cap. 54

 A idéia é que os santos não poderiam estar em desacordo uns com os outros e, portanto, uma pequena ou grande quantidade em consenso representaria a Igreja, de modo que isto, em última análise, remonta ao consentimento universal.

4. Verdade

São Máximo o Confessor (†662)

"Se são as ordens dos imperadores, mas não a fé ortodoxa que confirma os sínodos que foram realizados, aceite os sínodos que foram realizados contra o "homoousios", porque eles foram realizados por ordem dos imperadores. Refiro-me ao primeiro em Tiro, o segundo em Antioquia, o terceiro em Seleucia, o quarto em Constantinopla sob o ariano Eudoxius; o quinto em Nicéia na Trácia; o sexto em Sirmium; e depois destes muitos anos mais tarde, o sétimo, o segundo em Éfeso, no qual Dióscoro presidiu. Pois a ordem dos imperadores convocou todos estes sínodos, e no entanto todos eles foram condenados por causa da impiedade dos ensinamentos ímpios que foram confirmados por eles. Por que você não rejeita aquele que depôs Paulo de Samosata [aquele sínodo] sob o santo e bem-aventurado Dionísio, papa de Roma e Dionísio de Alexandria, e Gregório, o Taumaturgo, que presidiu o mesmo sínodo, por não ter sido realizado por ordem de um imperador? Que tipo de cânone declara que somente são aprovados os sínodos que são convocados por ordem dos imperadores, ou que, de modo geral, os sínodos são convocados por ordem de um imperador? O cânone devoto da igreja reconhece aqueles sínodos como santos e aprovados, que a retidão de seus ensinamentos aprovou."

São Máximo o Confessor “Maximus the Confessor and His Companions: Documents from Exile” Oxford University Press, 2003. Editado por Pauline Allen e Bronwen Neil, p. 91

5. Ratificação por Roma Necessária

Os próprios papas e outros regularmente apontaram o papel do papa na ratificação dos concílios através de sua auctoritas e este é um ponto-chave no processo conciliar segundo o cânon 34 dos cânones apostólicos [1]. O problema é que os apologistas Católicos pressupõem erroneamente que, uma vez que a ratificação do papa é, em circunstâncias normais, necessária, então o papa está exercendo jurisdição universal ordinária e pode tomar as decisões. Eles não percebem que o papa está ratificando enquanto membro do sínodo e tudo o que ele propõe também está sujeito à ratificação do concílio - as citações do [Concílio de] Constantinopla II acima são um exemplo perfeito. Por esta razão, estas citações também apoiam a ratificação patriarcal como meio de saber se um concílio é ou não vinculativo para os fiéis.

"Estiveram presentes neste Sínodo noventa bispos de várias cidades. Máximo, porém, bispo de Jerusalém; que sucedeu Macário, não compareceu, lembrando que ele havia sido enganado e induzido a subscrever a deposição de Atanásio. Nem Júlio, bispo da grande Roma, estava presente, nem tinha enviado um substituto, embora um cânone eclesiástico determine que as igrejas não façam nenhuma ordenação contra a opinião do bispo de Roma."

Sócrates “História Eclesiástica.” NFPF-2, Vol 2, Livro II, Cap. VIII.

"...pois ele [Papa São Júlio] alegou que existe um cânone sacerdotal que declara que tudo o que for promulgado contrariamente ao julgamento do bispo de Roma é nulo."

Sozomen, "História Eclesiástica". NPNF-2, Vol 2, Livro III, Cap. 10.

6. Grande número de bispos, ordenado por Roma, convocado pelo Imperador

Hincmar de Rheims 

"É óbvio [...] que os sínodos são chamados universais e gerais quando mais bispos do que em alguns dos sínodos acima mencionados se reúnem, seguindo o comando da Sé Apostólica e a convocação do imperador".

Hincmar de Reims (†882), Opusculum 55 capitulorum PL 126, 361

Texto Original: What Makes a Council Ecumenical? Part I (A Florilegium)

Notas

[1] Nota do tradutor:
o cânone 34 mencionado é o seguinte:
Os bispos de cada nação devem reconhecer aquele que é o primeiro entre eles e considerá-lo como seu líder [cabeça], e não fazer nada de importante sem o consentimento dele; mas cada um deve fazer apenas as coisas que dizem respeito à sua própria paróquia [diocese], e às regiões que lhe pertencem. Mas que ele (que é o primeiro) não faça nada sem o consentimento de todos; porque assim haverá unanimidade, e Deus será glorificado através do Senhor no Espírito Santo [Em alguns manuscritos há: através do Senhor Jesus Cristo / o Pai através do Senhor pelo Espírito Santo / o Pai, o Filho e o Espírito Santo].