terça-feira, 6 de junho de 2017

Meu êxodo do Catolicismo Romano por Mons. Paulo de Ballester (Parte 1/3)


MEU ÊXODO DO CATOLICISMO ROMANO 

Bispo de Nazianzus Paulo de Ballester


Neste pequeno livro, Paulo de Ballester descreve sua história de sua conversão ao Cristianismo Ortodoxo. Como um monge católico romano designado para reorganizar os catálogos das bibliotecas de seu mosteiro, ele tropeça em documentos medievais católicos que não se conciliam com seus estudos dos Evangelhos e dos primeiros Padres da Igreja. Abandonado por seu Pai Espiritual e persistindo em meio a suspeitas e ameaças da hierarquia da igreja, Paulo investiga profundamente as questões, revelando muitas camadas de inovações católicas as quais deram origem a versão papista do cristianismo, muito diferente do Cristianismo dos primeiros séculos. Sob essas camadas, ele encontra a Igreja Ortodoxa que, mesmo sem saber, sempre esteve presente em seu coração. Posteriormente, já não mais isolado, Paulo é recebido em casa pelos irmãos ortodoxos.

Capítulo 1: As primeiras dúvidas
Capítulo 2: Conselho Espiritual
Capítulo 3: A monarquia do papa
Capítulo 4: "Tu és Pedro..."
Capítulo 5: O início da disputa
Capítulo 6: "Saia dela, povo meu..."
Capítulo 7: Rumo à Luz
Capítulo 8: Meu Encontro com a Verdade





CAPÍTULO 1 
AS PRIMEIRAS DÚVIDAS

A minha longa e árdua jornada de conversão à Ortodoxia começou um dia enquanto estava reorganizando os catálogos das bibliotecas do mosteiro católico ao qual pertencia. Este mosteiro, um dos mais belos do nordeste de Espanha, pertencia à ordem monástica de São Francisco de Assis. Foi construído na costa do Mediterrâneo, poucas milhas de minha cidade natal, Barcelona.

Naquela época, os abades do mosteiro tinham me atribuído a tarefa de atualizar os catálogos de livros, as transcrições e os autores de nossa volumosa biblioteca. Esta tarefa seria crucial para avaliar as perdas incalculáveis da biblioteca sofrida durante a última guerra civil espanhola, quando o mosteiro foi queimado e parcialmente destruído pelos comunistas.

 Numa dessas tardes, imerso no trabalho sem fim, escondido atrás de montanhas de livros antigos e manuscritos queimados, fiz uma descoberta que me intrigou muito. Em um envelope contendo documentos relativos à Santa Inquisição, de cerca de 1647, eu encontrei uma cópia de um decreto escrito em latim, proclamado pelo Papa Inocêncio X. Por este decreto, qualquer cristão que se atrevesse a acreditar, seguir, ou professar a doutrina a respeito da autêntica autoridade apostólica de Paulo (1), seria anátema (condenado eternamente) como um herege.Além disso, este documento paradoxal obrigava todos fiéis, sob ameaça de castigo post-mortem, a aceitar que o Apóstolo Paulo não havia exercido sua obra apostólica livremente ou de forma independente. Em outras palavras, a partir do momento em que ele se converteu ao cristianismo até o momento de sua morte, Paulo estava sob a constante autoridade monárquica do Apóstolo Pedro, o primeiro entre os papas e líderes da Igreja. Ademais, o decreto afirmava que a autoridade absoluta de Pedro era exclusiva e só herdada pelos papas e subsequentes bispos de Roma através da sucessão direta. 

Confesso que se eu tivesse encontrado na biblioteca do mosteiro um livro proibido pelo Index (2), haveria sido menos surpreendente. Naturalmente, não eu era ignorante das práticas exageradas e maquinações relativas às questões dogmáticas, que os tribunais da Santa Inquisição haviam utilizado durante a Idade Média e até mesmo em anos posteriores. Este foi um período em que a hierarquia católica romana iria tão longe a ponto de defender justificativas teológicas para as ambições imperialistas do papado. Para ter sucesso nesta tarefa, Roma tinha dado ordens explícitas aos seus teólogos e pregadores para demonstrar, com todos os meios possíveis, que os papas tinham recebido de Deus a autoridade para governar como Césares em toda a igreja ecumênica, dada a suas posições como herdeiros do primado do Apóstolo Pedro.

De tal forma, foi organizada uma verdadeira cruzada no ocidente para desprestigiar o ensino ortodoxo a respeito da honorável primazia do Apóstolo Pedro. O propósito era duplo. Por um lado, desenvolveria uma base teológica para o cesarismo do papa, e por outro, diminuiria a importância da posição patriarcal do oriente em termos de reivindicação monárquica com respeito aos seus colegas romanos. Uma das táticas principais para atender essa abordagem foi a circulação de um grande número de publicações adulteradas ou má interpretações dos Santos Padres.  

Estas publicações enganosas, apoiadas pela má interpretação de vários versículos da Bíblia (3), tentaram obter o notório Primatus Petri a partir de então como um privilégio especial legado apenas ao Apóstolo Pedro e seus supostos sucessores posteriores, os pontífices romanos. De acordo com este privilégio, os papas de Roma tinham o direito de exercer a autoridade monárquica e autoridade quase absoluta sobre a igreja ecumênica, uma ideia contra a qual a Igreja Ortodoxa se rebelou. Assim, um excesso de antologias e catenae (4) de versos patrísticos relativos a primazia papal, a maioria absolutamente falsas e altamente distorcidas com base mínima de conteúdo autêntico, foram publicadas pelas impressoras das principais ordens monásticas do Ocidente e foram distribuídas em grandes quantidades em toda Europa Mediterrânea (5).


No entanto, se os fiéis compreendessem que nem o Apóstolo Paulo nem os outros apóstolos estavam sob a autoridade absoluta do chamado primer papa, Simão Pedro, o edifício inteiro do ensinamento, em grande medida distorcido, do papismo, entraria em colapso sobre si. Para evitar isso, os bispos de Roma nunca deixaram de aterrorizar, condenar e anatemizar com castigos pós mortem todos aqueles que se atreviam a expressar a menor dúvida sobre este assunto. Sua causa foi auxiliada pelos tribunais da Santa Inquisição que, sob o lema "o fim justifica os meios" (6), foi justificado a utilização da força bruta, incluindo a tortura pelo fogo, imersão em óleo fervente, e o esfolamento vivo dos torturados a fim de subjugar os cristãos mais persistentes e impenitentes, em nome da Santíssima Trindade e para o bem geral da Igreja. 


Entretanto, eu nunca esperaria que minha igreja pudesse atingir tal nível de fanatismo, ousar proibir e condenar o ensinamento das Sagradas Escrituras que haviam sido compiladas com clareza absoluta e ensinadas pelos próprios apóstolos, com um documento como aquele que tinha em mãos. Aquele documento havia transgredido todos os limites, especialmente a convicção dos fiéis que seguiram o ensinamento do Apóstolo Paulo, ascendendo à condenação absurda do ensino ortodoxo do apóstolo, que declarava, em termos inequívocos, que não é em absoluto inferior aos mais eminentes apóstolos (7). Neste contexto, o decreto do Papa Inocêncio X parecia tão improvável que decidi examinar a possibilidade de um erro de tipográfico ou uma distorção acidental do texto autêntico, algo não tão incomum na época de sua publicação (8). 


Em qualquer caso, se era autêntico, falso ou simplesmente distorcido, eu pensei que este texto era uma posse bastante curiosa na nossa biblioteca, necessitando de uma atenção séria e de maior investigação. Pouco depois, no entanto, o meu interesse inicial se transformou em uma grande confusão. Depois de fazer algumas pesquisas na biblioteca central de Barcelona, ​​eu descobri que não só este era um documento inequivocamente autêntico, mas que seus pontos de vista foram bastante comuns naquela época. Na verdade, duas das decisões da Santa Inquisição, a 1327 (9) e de 1351 (10), e a primeira de 1647, o Papa João XXII e o Papa Clemente VI anatemizaram e condenaram os homens e os ensinamentos de quem se atrevesse a refutar o argumento de que o apóstolo Paulo obedecia às ordens do apóstolo Pedro, o primeiro dos papas. Estes mandatos, que ninguém se atrevia a questionar, presume-se que estavam sob a autoridade absoluta do Apóstolo Pedro. Outro caso era o anátema que o Papa Martinho V lançou a John Huss no Sínodo de Constança. Mais tarde, os Papas Pio IX, no Concílio Vaticano I (12), Pio X em 1907, e Benedito XIV em 1920 repetiram a mesma condenação nos termos mais oficiais e inequívocos. 


Uma vez que a possibilidade de falsificação comprovada era improvável, encontrei-me assombrado por uma profunda crise de consciência. Eu não podia aceitar que o Apóstolo Paulo estava subordinado à autoridade humanaPara mim, o ministério independente e sem oposição de Paulo entre as nações, similar ao ministério do Apóstolo Pedro entre os hebreus, é um fato irrefutável da maior importância (14).


O Apóstolo Paulo, "não dos homens, nem por mediação de homem algum, mas por Cristo, e por Deus Pai" (15), pensou Simão Pedro como segundo depois de São Tiago, entre os que eram considerados pilares na Igreja de Cristo (16). Em seguida, acrescenta que as posições adotadas nestes assuntos o eram lhe indiferentes, uma vez que são simplesmente suas preferências pessoais que Deus não toma a sério (17). Em qualquer caso, o Apóstolo Paulo declarou claramente que, em relação aqueles que foram os apóstolos, ele não eram em nada inferior a qualquer um deles (18).  


Para mim, isso era alto e claroespecialmente tendo em conta as obras exegéticas dos Santos Padres que não deixam espaço para a menor dúvida sobre este assunto. São João Crisóstomo diz o seguinte sobre o Apóstolo Paulo:


"Paulo declara a sua igualdade com o resto dos apóstolos e deseja ser comparado não só com os outros, mas com o primeiro, para mostrar que todos eles tinham a mesma autoridade(19).

Além disso, o Consensum Patrum (o consenso dos Padres) é que "todos os apóstolos eram exatamente iguais a Pedro, ou seja, dotados com a mesma honra e autoridade" (20).



Teria sido impossível que Paulo estivesse sob a tutela de uma autoridade superior de outro apóstolo, já que o poder do apóstolo é "o poder supremo e o ápice de todas as autoridades(21).



São Cipriano partilha esta posição da seguinte forma:


"Eles eram todos igualmente pastores, embora o rebanho era um só. E esse [o rebanho] era guiado pelos apóstolos, já que eles se ajustavam a mesma ideia" (22).



Santo Ambrósio de Milão também acrescenta:



"Se o Apóstolo Pedro tinha alguma preferência aos outros apóstolos, tratava-se de uma preferência de confissão e fé, e não de honra e grau" (23). 

Justificadamente, então, este mesmo santo escreveu mais tarde sobre os papas: "Não podem ter a herança de Pedro, aqueles que não têm a mesma fé com ele" (24). Embora este problema era mais transparente que cristal, o dogma católico romano, sendo diametralmente oposto, representava um dilema terrível para mim: devo conscientemente escolher e cumprir o Evangelho e a tradição dos Padres, ou o ensino arbitrário da Igreja Católica romana? 

Para piorar a situação, de acordo com a soteriologia (25) (doutrina da salvação) Católica Romana, um cristão deve crer que a Igreja é uma monarquia (26) e o rei é o Papa (27). Assim, o sínodo do Vaticano, combinando todas as convicções sobre este assunto, declara oficialmente:


"Se alguém diz ... que Pedro, o primeiro bispo e papa de Roma, não foi coroado como príncipe apóstolos por Cristo e estabelecido como a cabeça visível da igreja militante ... que seja anátema." (28)



Tendo em conta estas duas posições doutrinárias diametralmente opostas, como eu poderia comprometer minha consciência? 


CAPÍTULO 2
CONSELHO ESPIRITUAL

À deriva, e, no meio desta tempestade espiritual incessante, fui ao meu confessor e ingenuamente expliquei meu dilema e as minhas preocupações. Meu confessor, um dos hieromonges mais educados e experientes do mosteiro, percebeu imediatamente que se tratava do mais grave e complexo assunto. Entregou-se ao silêncio por alguns momentos enquanto procurava em vão por uma solução satisfatória para o meu problema. Finalmente, ele falou, mas deu uma guinada à pergunta, o que realmente me surpreendeu.

"A Sagrada Escritura e os Santos Padres te inquietaram", disse de maneira despreocupada. "Coloca os dois de lado e te submeta com estrita adesão ao ensinamento infalível de nossa Igreja, sem entrar em muitas perguntas e exames. Não permita que algumas criaturas de Deus, qualquer que sejam, escandalizem a sua fé em Sua Igreja." 

Esta resposta totalmente inesperada, conseguiu aumentar minha confusão espiritual. Sempre acreditei que a Palavra de Deus era precisamente uma das coisas que não se pode "colocar de lado". Segundo a minha percepção, a Escritura foi o fator determinante da nossa ortodoxia (como católicos romanos) (29) e não o contrário. Mais precisamente, a Escritura diz: "Examinem-se para ver se vocês estão na fé; provem-se a si mesmos." (2 Coríntios 135) (30).

Não necessito ouvir "suas opiniões" ou "minha opinião", diz Santo Agostinho, mas "o que disse o Senhor". Sem lugar para dúvidas estão as Escrituras do Senhor, cuja a autoridade deve-se tanto obedecer quanto submeter-se. Assim, trataremos de encontrar a verdadeira Igreja nas Escrituras e baseamos nossa discussão somente nestas. (31)


Sem me dar a menor oportunidade de responder, meu confessor acrescentou:



Em vez disso, vou dar-lhe uma lista de nossos próprios autores, cujas obras irão recuperar a sua tranquilidade espiritual. Através destes livros, você notará a clareza do ensino da nossa Igreja, sem qualquer dificuldade.



Em seguida, ele me perguntou se eu tinha algo "mais importante" para discutir e terminou a conversa.


Alguns dias mais tarde, meu confessor deixou o mosteiro para pregar em outras igrejas e comunidades monásticas de nossa OrdemQuando me forneceu a lista dos livros que havia mencionado, ele me pediu que prometesse que iria corresponder com ele regularmente para mantê-lo informado durante sua viagem sobre meu "mal-estar espiritual".

Embora seus argumentos e explicações não me convenceram em absoluto, fui adiante e consegui todos os livros que me havia recomendado com a decisão de estudá-los com a maior objetividade e seriedade possível. A maioria destes livros eram textos teológicos e manuais sobre as decisões papais e concílios ecumênicos papistas. Atirei-me a estudar com interesse genuíno e sem necessidade de utilizar medidas de precauções, com exceção da Sagrada Escritura, que mantive aberta diante de mim como " uma luz para os meus passos e uma lâmpada para os meus caminhos” (Salmo 118: 105) ( 32). 

Não estava disposto, de modo algum, em permitir que minha igreja ou meu confessor me convertesse em alguém como os judeus, a quem o Senhor censurou devido a ignorância das Escrituras (33). Ao contrário, estava decidido a permanecer fiel, seguindo o exemplo dos fiéis (de Berea) que, depois que "receberam a palavra com toda prontidão" (Atos 17:11) (34), foram elogiados pelo Apóstolo Paulo porque "examinavam a cada dia as Escrituras para ver se estas coisas eram assim." (Atos 17:11) (35). Ao fazer isso foram salvaguardados da decepção causada pela "filosofia e vãs sutilezas, com base na tradição dos homens sobre os elementos deste mundo e não segundo Cristo" (Colossenses 2: 8) (36). 

Uma vez que continuei lendo e avançando no estudo dos textos recomendados, comecei a suspeitar, apenas para me convencer gradualmente, de que eu era quase inteiramente ignorante sobre a verdadeira natureza e a constituição orgânica de minha Igreja.  

Tendo sido introduzido ao cristianismo e batizado, depois de terminar minha educação secundária, fiz vários cursos de filosofia. Ao mesmo tempo, no entanto, me encontrava no estado inicial de compreensão sobre a teologia católica romana, um campo de estudo quase novo e estranho para mim. Desde então, o cristianismo e a Igreja romana representaram para mim duas ideias que expressavam uma só realidade. Protegido na quietude e serenidade de minha vida monástica, estive somente preocupado pelo aspecto místico do cristianismo. Imerso em meus estudos filosóficos, não tive oportunidade de investigar com profundidade as razões por trás da estrutura orgânica de minha Igreja.  

Lendo os textos oficiais que meu padre confessor havia sutilmente selecionado para meu benefício, eu gradualmente compreendi a verdadeira natureza do paradoxo da monarquia político-religiosa que constitui a Igreja romana contemporânea. Neste ponto, acho que seria oportuno e informativo dar uma olhada nestas características.  


CAPÍTULO 3

  A MONARQUIA DO PAPA



De acordo com a doutrina católica romana, a igreja "não é nada mais do que uma monarquia absoluta" (37), cujo déspota absoluto é o papa, que funciona como tal em todas as suas expressões (38).



Nesta monarquia do bispo de Roma "todo o poder e estabilidade da igreja é ancorado" (39) "e cuja existência, por outro lado, não seria possível" (40). O próprio cristianismo "é ancorado e totalmente baseado na doutrina do papismo(41), e também "a doutrina do papado é o elemento mais significativo do cristianismo" (42); "sua síntese e essência" (43). 

Autoridade monárquica do papa, como líder supremo e chefe da igreja, a pedra angular da Igreja, mestre infalível da fé, representante de Deus na terra, pastor de pastores e hierarca supremo, está absolutamente vinculada, podendo ser executada em qualquer tempo e tem força ecumênica. Esta autoridade se estende por direito divino (44) em todos os cristãos batizados a nível mundial (45), simultaneamente e individualmente. Esta autoridade ditatorial pode ser aplicada diretamente e em qualquer momento em qualquer cristão, seja ele leigo ou clérigo, bispo, arcebispo, cardeal ou patriarca, e até mesmo em qualquer igreja, independentemente da denominação ou língua (46), porque o papa é o bispo supremo de qualquer episcopado do mundo (47).

Aqueles que se recusam a reconhecer esta autoridade ou não obedecer cegamente (48) são "cismáticos, hereges ímpios e sacrílegos; consequentemente, suas almas já estão predestinadas a serem lançadas nas trevas exteriores, porque é uma condição indispensável para a salvação de suas almas crer na doutrina do papismo dada por Deus e se submeter a seus representantes "(49). Neste sentido, o papa parece encarnar aquele imaginário líder pré-cristão cuja iminente vinda foi crida por Cícero e que todos precisam aceitar para ser salvo (50). 

Com base nesta doutrina Católica Romana, o Papa Gregório VII disse, "uma vez que o papa tem o direito de intervir e julgar todas as questões espirituais dos cristãos e cada uma delas independentemente, está mais que autorizado para intervir em assuntos mundanos e terrenos"(51). Por esta razão, embora possa limitar a sua autoridade a imposição de penas espirituais e a negação da salvação para aqueles que se recusam a submeter-se, ele "possui o direito de obrigar os fiéis a acreditar nele" (52). É por esta razão que "a igreja possui duas espadas: uma espiritual simbólica e uma com a autoridade mundana. A primeira espada está nas mãos dos sacerdotes e a outra está nas mãos de reis e soldados. No entanto, incluso a segunda espada está sob o discernimento e vontade dos sacerdotes "(53). 

O papa, afirmando que é o representante e vigário na terra Daquele cujo "reino não é deste mundo" (54), Daquele que proibiu seus apóstolos em exercer até mesmo a menor predominância e hegemonia sobre os fieis (55), entroniza a si mesmo como o rei terreno, continuando, assim, em sua pessoa, a tradição cesar-imperialista de Roma, a cidade eterna e rainha do mundo (56). Ao longo da história, o papa se tornou o mestre de grandes nações e declarou as guerras mais sangrentas contra outros reis cristãos em sua busca de conquistar novas terras ou simplesmente para satisfazer sua insaciável sede de dominação e poder.

Também possuía milhares de escravos e muitas vezes desempenhou um papel central e decisivo nas políticas internacionais. É dever dos soberanos e governantes cristãos submeterem-se ao rei ordenado por Deus, ao seu reino e trono eclesiástico-político, "aquele que foi estabelecido como o esplendor e âncora dos reinos do mundo" (57). Hoje, o reino terreno do papa se limita ao Vaticano, que é um estado autônomo com representação política em todas as nações da terra e com sua própria polícia, militares, armas, prisões, dinheiro e comércio.  

Como concretização desta plena autoridade, o papa tem outro privilégio exorbitante, totalmente único no mundo: afirma ser "infalível" por direito divino de acordo com a definição doutrinária do Concílio Vaticano de 1870 (58). Tal privilégio monstruoso e inimaginável não aconteceu até mesmo nos sonhos e na imaginação dos maiores bárbaros e nas religiões dos idólatras desviados. No entanto, como resultado desta doutrina, "toda a humanidade deve dirigir-se a ele com as mesmas palavras que foram dirigidas uma vez ao Salvador": "Tu tens palavras de vida eterna"(59). 

Assim, a presença do Espírito Santo para conduzir até a "verdade absoluta" (60) é desnecessária, igualmente as Sagradas Escrituras e a santa Tradição, porque agora há um "deus" na terra com poderes para invalidar, ou incluso declarar como enganosos, os ensinamentos de Deus do céu. Com base nesta aclamação de infalibilidade, o papa se torna a regra absoluta da fé (62). Podendo promulgar até mesmo sem o consentimento da Igreja, tantos dogmas quanto desejar, aos quais os fiéis devem aderir de forma estrita e obedecer cegamente, se quiserem evitar os castigos do inferno após a morte (63).

"Depende somente da vontade e do prazer da Sua Santidade," escreveu o cardeal Baronius, "e o que ele deseja deve ser crido como 'santo e sagrado por toda a Igreja' (64), e suas epístolas pastorais devem ser consideradas, cridas e obedecidas como 'escrituras canônicas'" (65).

Uma consequência natural da doutrina da infalibilidade  é que os ensinos papais devem ser observados com uma obediência cega. É precisamente isso o que Cardeal Bellarmine, um santo da Igreja Romana, apresentou de forma muito clara em sua notória Teologia:

"Se um dia o papa cair no erro de impor pecados enquanto proibir virtudes, a Igreja estaria obrigada a crer que os pecados tem boas consequências e, as virtudes, maus resultados. Alternativamente,  este estaria cometendo um pecado contra a sua consciência" (66).

O Cardeal Zabarella é ainda mais absurdo nesta questão:

"Se Deus e o papa se reunissem em um sínodo, o papa poderia fazer (ali) quase tudo o que Deus poderia fazer, [...] e o papa faria qualquer coisa que desejasse, incluindo violações; portanto, ele é algo mais, e maior que Deus" (67). 

Quando completei o estudo desses livros, me vi como um estranho no seio da Igreja. Tornou-se evidente para mim que sua síntese orgânica não tinha qualquer relação com a Igreja fundada por Cristo, que havia sido organizada pelos apóstolos e seus sucessores, e aquela que os Santos Padres haviam descrito e esclarecido. Esta organização papal somente poderia ser identificada com a Igreja de Cristo se esta não estivesse constituída, obviamente, na Rocha que é o próprio Cristo, mas nas areias movediças de alguns supostos privilégios do papa, privilégios que supostamente foram dados a ele como herança de Simão Pedro, que certamente nunca os teve ou sequer os imaginou.

"Nós", diz Santo Agostinho, um dos maiores Padres da Igreja, "que somos cristãos por nossas palavras e ações, não cremos em Pedro, mas nAquele a quem próprio Pedro cria [...] Ele, Cristo, o Mestre de Pedro, que lhe catequizou no caminho que conduz à vida eterna, Ele é nosso único Mestre"(68). 

De fato, como seria possível aceitar a infalibilidade dos papas, que usurparam um título promovendo-se como herdeiros exclusivos do Apóstolo Pedro, aquele que, mais que o resto dos apóstolos, foi apontado pelo Senhor, em várias ocasiões, como aquele que não sabia o que dizia? (69) Onde estava a infalibilidade de Pedro quando ele foi repreendido pelo apóstolo Paulo, por estar claramente em erro (70), já que "não andava na retidão de acordo com a verdade do Evangelho" (71)? São estes que se chamam "sucessores oficiais" do trono papal e do Bispo de Roma, e ao mesmo tempo infalíveis? De fato, eles sabiam muito bem que abrigavam bastantes nomes escandalosos em sua linhagem, como o Papa Marcellus, apóstata notório e idólatra, que, como todos sabem, ofereceu um sacrifício no templo de Afrodite, diante de seu altar (72). Foi o papa Júlio, aquele que foi excomungado como herege pelo Sínodo de Sardica (73), infalível? Foi o papa Libério, aquele que foi seguidor dos delírios de Arius e condenado por Santo Atanásio, o grande campeão da Ortodoxia, infalível (74)? Foi o papa Félix II, que, de acordo com São Atanásio, foi eleito papa por três eunucos e ordenado por três espiões do imperador, infalível? Tal homem teve uma candidatura digna de seu corpo de eleitores, dada suas crenças cismáticas conhecidas, e sua conduta global, que se assemelhava mais a de um anticristo (75). Foi o papa Honório, juntando-se a heresia do monotelismo, infalível (76)? E Gelasios, que ocupava posições cismáticas sobre a doutrina da divina eucaristia?

Foi Sixto V, tendo feito circular uma edição das Sagradas Escrituras que ele mesmo "corrigiu", baseada na autoridade e plenitude de seu poder apostólico, infalível? Esta edição estava tão distorcida por todos tipos de delírios que logo foi descartada pois era muito escandalosa (77). Foi o papa Urbano, que condenou as teorias de Galileu de que a terra girava em torno do sol, infalível (78)? Foi o papa Zarcarias, que proibiu todos a acreditar que a terra girava ameaçando-os com o anátema, infalível (79)? O que pode ser dito sobre o papa Pio II, que teve a incrível sinceridade de enviar um lembrete amigável ao rei Carlos VII da França aconselhando-o a não acreditar nas palavras dos papas, porque na maioria das vezes eles falavam sobre as paixões ou sobre seus próprios interesses (80)? Foi o papa Pio IV, que desafiou em revogar o sétimo cânon do Concílio Ecumênico de Éfeso (81) e que violou o juramento que fez no rito de entronização, infalível (82)?

São Cipriano diz que é a Igreja, e não o bispo de Roma, que constitui a "água pura e vivificante que não pode ser corrompida ou adulterada, porque a primavera de qual flui é, em si mesma, clara, pura e cristalina" (83).

Nosso Senhor Jesus Cristo prometeu sua ajuda permanente até o fim dos tempos a toda Igreja, e não exclusivamente aos papas (84). Para o benefício de toda Igreja e não para Pedro e seus sucessores, Ele prometeu pedir ao Pai o "Espírito da verdade" (85), o verdadeiro Espírito que ensina "toda a verdade" (86) e tudo o que o Senhor ensinou (87). Por esta razão, o Apóstolo Paulo, chama a Igreja, e não a Pedro, "o pilar e o fundamento da verdade" (88). Além disso, São Irineu ensina que devemos buscar a verdade de Cristo na Igreja e em nenhuma outra parte porque "a encontramos pura, completa e não adulterada, com extrema certeza." (89) O Senhor falou não somente a Simão Pedro, mas também para seus apóstolos e discípulos, dizendo: "Aquele que os escuta, a Mim escuta" (9). Ademais, através da história da Igreja antiga, desde sua origem até o grande cisma, não há nenhum outro precedente de grande desacordo ou matéria transcendental de fé que tenha sido resolvido pelo bispo de Roma. Na minha opinião, isso é bastante inexplicável, se se supor que os papas eram verdadeiramente reconhecidos como verdadeiros, absolutos, e sobre tudo, líderes infalíveis da Igreja ecumênica.

É sabido que nenhuma das grandes heresias foram derrotadas por um papa, mas sim por sínodos, ou através dos Padres da Igreja ou algum santo teólogo. Por exemplo, o arianismo foi condenado pelo concílio de Nicéia e não pelo papa, que estava infectado por esta heresia. O concílio de Éfeso condenou o nestorianismo; São Efpifanio, os gnósticos; o bem-aventurado Agostinho refutou o pelagianismo, etc.

Além disso, os bispos de Roma jamais serviram como árbitros em nenhum desses grandes assuntos eclesiásticos; ao contrário, muitas vezes eles foram acusados e perseguidos em matéria de fé por outros bispos, patriarcas e sínodos. Assim, o concílio de Arelat resolveu a disputa entre o bispo de Roma e os bispos da África em relação à questão do re-batismo (91). Da mesma forma, foi a Igreja da África, que escreveu uma grande advertência aos bispos de Roma e Alexandria para que acabassem com a inimizade e buscassem a paz (92). O patriarca de Alexandria, em união com os bispos do oriente, excomungou o papa Júlio no concílio de Sardica (93). O papa Honório foi condenado e anatematizado pelo Sexto Concílio Ecumênico (94), etc.

Tendo adquirido uma convicção sobre a exatidão de toda essa evidência, convicção que nunca me abandonou desde então, escrevi a seguinte carta ao meu padre confessor, no primeiro momento em que pude encontrar em contato com ele depois de nossa separação.

"Eu estudei os livros que bondosamente sua rev. me sugeriu.  No entanto, minha consciência não me permite violar os mandamentos de Deus e colocar minha confiança nos ensinamentos humanos (95) que carecem do mínimo fundamento bíblico. Algo semelhante acontece com o delírio absurdo que surgiu da doutrina irracional da infalibilidade. Reconhecemos a verdadeira igreja quando está baseada em critérios bíblicos, como aqueles indicados pelo bem-aventurado Agostinho de Hipona, e não no verbalismo apotegmático, nem nos sínodos episcopais, nem nas cartas de discórdia, quaisquer que sejam, nem nos sinais enganadores e nem nas maravilhas. Baseamos nosso conhecimento unicamente nas coisas que estão escritas nos profetas, nos salmos, nas próprias palavras do Pastor, nos trabalhos e nos ensinamentos dos evangelistas e, por fim, na autoridade canônica das Sagradas Escrituras (96). Além disso, o mesmo santo padre (bem-aventurado Agostinho) escreve contra os donatistas:

"Não tenho desejo de ouvir sua opinião ou minha opinião, mas aquilo que 'disse o Senhor'. Sem dúvidas, existem Escrituras do Senhor, cuja autoridade estamos todos de acordo, obedecemos e nos submetemos. Tratemos, então, de encontrar a Igreja nestas, e discutamos nossas diferenças com base apenas nestas Escrituras" (97).

E assim, com as seguintes palavras, concluí minha carta ao meu confessor:

"Nunca me distanciei do princípio que fornece a verdadeira regra cristã para a prova de fé e de toda doutrina, que é a autoridade da palavra de Deus e a Tradição de da Igreja (98). Suas doutrinas são incompatíveis com esta regra".

Ele não demorou para responder:

"Não aderiste ao conselho e a orientação que te dei, e permitistes que a Bíblia continuasse a perigosa influência em sua alma. Os livros sagrados são como o fogo, que, quando iluminam, queimam e escurecem... e por esta razão os papas indicaram corretamente que "é um engano escandaloso crer que os cristãos podem ler as Sagradas Escrituras" (99), quando nossos teólogos confirmam que "esta é uma nuvem turva, um muro de proteção que muitas vezes se torna um refúgio mesmo para ateus" (100). De acordo com os nossos líderes infalíveis, "a crença na clareza das Escrituras é um dogma heterodoxo" (101). No que diz respeito a tradição, não deveria ser necessário lembrar que "em matéria de fé somos antes de tudo obrigado a seguir o papa, ainda mais que mil Agostinhos, Jerónimos, Gregorios, Crisóstomos, etc." (102). E, quando temos a interpretação dada por Roma sobre qualquer texto da Bíblia, temos de acreditar que possuímos a verdade da palavra de Deus, independentemente se esta interpretação pode parecer absurda ou contraditória sobre o verdadeiro significado do texto"(103).

No entanto, sua posição reforçou ainda mais minha convicção pessoal. Apesar de todas as suas teorias, apesar de todos os dogmas da Igreja Católica Romana, apesar, até mesmo do próprio papa, nunca deixaria de lado a palavra de Deus, que é absolutamente e indiscutivelmente perfeita e lúcida para aqueles que encontraram o verdadeiro conhecimento (104).  Esta é a palavra de luz (105), que pode tornar-se turva apenas para aqueles que estão no caminho da perdição e cujo espírito está cego pelo deus deste século (106). A Sagrada Escritura é a palavra da vida (107), da graça (108), da verdade (109), e da salvação (110) e eu não quis descartá-la e encontrar-me culpado na hora do julgamento (111).

Estava ciente de que a fé nas Escrituras era a fé mais precisa e a mais absoluta fé católica, uma vez que, de acordo com Santo Atanásio (114), esta era suficiente para a profissão da verdade. Por esta razão, São João Crisóstomo destaca o fato de que "quando temos a Escritura, não faz sentido buscar outros mestres fora dela" (115). "Nela", escreve Santo Isidoro de Pelusium, "está tudo o que precisamos saber" (116) e "tudo o que estamos interessado em saber" (117). São Basílio o Grande ainda acrescenta que "é uma imperfeição de nossa fé e orgulho rejeitar algo que se encontra na Escritura ou aceitar algo que não está escrito lá" (118).

Com base nisso, os Santos Padres chegaram à conclusão óbvia de que "devemos crer somente naquilo que está escrito nos livros sagrados, e não devemos procurar (119), ou até mesmo usar (120), o que não está escrito neles" . Contradizendo e opondo-se as Escrituras, minha igreja perdeu toda a validade em meus olhos, desde que converteu-se e chegou a ser como os hereges que, de acordo com Santo Irineu, "uma vez que foram condenados pela palavra de Deus, voltaram-se contra ela para repreendê-la "(121).

Mais ainda, São João Crisóstomo escreve:

"Aquele que obedece as Escrituras é um verdadeiro cristão. Aquele que as combate se encontra fora das regras da fé. E se este vem a dizer que as Escrituras ensinam naquilo que ele crê, então, diga-me, tem ele algum pensamento em si mesmo ou habilidade para argumentar?" (122)

Este foi o último contato que tive com meu pai espiritual. Considerei uma causa perdida continuar a nossa correspondência, então não mais lhe escrevi. Ele não queria ouvir sobre mim depois disso, preferindo distanciar-se e não se envolver em meu exame desagradável. Ele estava preocupado que isso pudesse afetar as suas grandes oportunidades de promoção ao episcopado "pela graça da Sé Apostólica" (Apostolicae Sedis Gratia), que tinha servido tão fielmente.

Apesar disso, eu não parei ali. Comecei a afastar-me da divergência de minha igreja, seguindo um curso de um novo caminho, sentindo-me incapaz de parar até alcançar uma posição positiva que fosse, ao menos, teoricamente mais sana. O drama que experimentei durante esses dias foi tanto que, embora me sentisse cada vez mais distanciado do papismo, eu não sentia mais nenhuma inclinação para aproximar-me de qualquer outra realidade eclesial.

A Ortodoxia, protestantismo, o anglicanismo eram, na minha opinião, idéias muito vagas, não era o momento, e nem havia oportunidade para pensar que tivessem a menor relação com minhas circunstâncias pessoais. Apesar de tudo, eu amei minha igreja, a igreja que me fez cristão e cuja batina eu vesti. Assim, tornou-se necessário para mim estudar esse tema em uma escala muito mais profunda e mais ampla, antes que pudesse gradualmente chegar à conclusão dolorosa que minha igreja não existia na verdade e que eu não tinha lugar na comunidade papista. E, de fato, dada a autoridade ditatorial do papa, a autoridade da igreja e do corpo episcopal é, para efeitos práticos, inexistente. De acordo com a teologia católica romana:

"A autoridade da Igreja é verdadeira e eficaz apenas quando coincide com a vontade do papa. Caso contrário, não possui nenhum valor "(123).

Consequentemente, o valor do papa é o mesmo com ou sem a Igreja. Em outras palavras, o papa é tudo e a Igreja não é nada. Com boa razão e muita tristeza o bispo Maret escreveu:

"Mudando a constituição da Igreja, nós também mudamos seu dogma. A partir de agora, será mais apropriado (para os católicos romanos) confessar na liturgia, "Eu creio no papa", em vez de dizer, "eu creio na Igreja, santa, católica e apostólica" (124).

O significado e o papel dos bispos está limitado à posição de simples associados, representantes subordinados à autoridade do papa, espalhados pelos quatro cantos do globo. Se submetem a esta autoridade como fazem os simples fiéis. Os papistas tentam justificar isso com base em uma interpretação absurda do versículo do capítulo vinte um do Evangelho de São João (125) condição, segundo o qual (dizem):

"O Senhor legou ao apóstolo Pedro e primeiro papa a comissão pastoral sobre seus cordeiros e ovelhas, a saber, a missão de pastor supremo e absoluto de todos os fiéis, que são simbolizados nos cordeiros, e sobre todo o resto, apóstolos e bispos, que são simbolizados nas ovelhas" (126).

Além disso, os bispos do catolicismo romano não são considerados, de nenhuma maneira, sucessores dos apóstolos (127), por causa da seguinte crença:

"A autoridade dos apóstolos se perdeu com eles e, consequentemente, não passou aos bispos posteriores. Só a autoridade de Pedro, sob a qual todas outras autoridades caem, foi transferida para seus sucessores no papado (128). Consequentemente, "há uma enorme diferença entre a sucessão de Pedro e a sucessão de qualquer outro apóstolo. O pontífice romano sucede Pedro como o pastor oficial de toda a Igreja, e por isso tem toda a autoridade que emana dAquele que legou a Pedro, considerando que os outros bispos não são sucessores dos apóstolos, porque foram meros pastores subjugados (a Pedro), e como tal não tiveram sucessores."(129)

De acordo com o papismo, portanto, aqueles que ocupam o cargo do bispo não herdam nenhuma autoridade apostólica e não possuem qualquer autoridade, exceto a que recebem, não diretamente de Deus, mas do supremo pontífice de Roma:  "A autoridade dos bispos emana diretamente do Papa"(130). Isso eu considerei uma ofensa injustificada contra o ofício episcopal, que foi sacrificado e tornado inútil para promover o fortalecimento e a elevação da autoridade papal.

Não é necessário ter um amplo conhecimento da história da igreja antiga para entender que mesmo desde a era apostólica a ordem dos bispos fundaram sua autoridade na premissa de que "sucediam os apóstolos e governavam a Igreja com mesmo poder (121), e no mesmo ofício que eles tinham" (132). De acordo com Santo Atanásio, foi o próprio Senhor que instituiu o ofício do episcopado através dos apóstolos (133). E, além disso, São Gregório, o Dialogista ensina claramente:

"Hoje, na Igreja, os bispos têm a posição dos apóstolos.(134)

São Inácio de Antioquia afirma que a autoridade apostólica recebida pelos bispos procede de Deus Pai (135) e ainda acrescenta que o bispo não deve submeter-se a ninguém além do próprio nosso Senhor Jesus Cristo (136). Portanto, "a corrente de ouro que une os fiéis com Deus conecta laço a laço e passa dos bispos até os apóstolos, e dos apóstolos até Jesus Cristo e dEle até Deus Pai" (137).

Este ensinamento foi bem incorporado na tradição da Igreja e foi expresso abertamente pelos Santos Padres, dos quais, para mim, não há absolutamente nenhuma dúvida de sua validade. Basta ler os antigos escritos episcopais legados por Santo Irineu, Tertuliano, Eusébio, São Jerônimo, Santo Optato de Milev, e muitos pais e historiadores da igreja, que compilaram e se esforçaram para descrever com o maior cuidado a sucessão de bispos que presidiram à várias igrejas instituídas pelos apóstolos. Depois dos nomes dos apóstolos fundadores, os nomes dos bispos de cada local foram recolhidos sucessivamente ao longo do tempo pelos autores desses escritos. Então, qual é o propósito de tais cuidados, tanto o interesse quanto o esforço em fornecer sucessão apostólica, se, como sustenta o Catolicismo Romano, "a autoridade dos apóstolos foi perdida com os apóstolos e não foi transferida para seus sucessores", portadores do ofício do episcopado? (138)

Muito consistente com os ensinamentos papistas sobre a autoridade e o poder dos bispos, é a posição da Igreja Romana sobre os próprios concílios ecumênicos. Acredita-se que o conselho ecumênico não tem outro valor diferente daquele que o papa confere, então os papistas dizem:

"Os concílios ecumênicos não são e nem podem ser nada mais do que reuniões cristãs convocadas pelo poder do soberano e conduzidas por Ele como presidente" (139)

Uma vez que este soberano não é o Senhor, mas o papa, antes de tudo, um Sínodo Ecumênico não pode existir, a menos que seja chamado pessoalmente pelo Papa como o Presidente (140) ou seus representantes imediatos. (141). Em um ponto, durante o processo de um concílio ecumênico, o papa, e somente ele, pode adiá-lo, mudá-lo ou dissolvê-lo (142). É suficiente que o papa deixe o local e diga "não estou aqui" para que o concílio seja reduzido a uma mera reunião e, no caso em que seus membros persistam, são declarados cismáticos (143). Mesmo os decretos de um concílio são praticamente invalidados se não forem aprovadas pelo papa e publicado com o selo de sua autoridade (144).

Após ler todos esses textos, cheguei a este ponto com total e inconcebível conclusão de que, em essência, todos os bispos católicos romanos - de todas partes do mundo - que se reuniram no concílio Vaticano I, em 1869, consentiram em se desprezar e tornarem-se servidores sem voz do bispo de Roma, aceitando o dogma da infalibilidade papal. O papa serviu-se essencialmente como ditador daquele concílio desde o dia em que começou até sua conclusão, de modo que, qualquer coisa que desejou foi cumprida, enquanto que nada que ele se opôs foi levado adiante. Certamente, isso está bem documentado pelas declarações de um dos membros do concílio, o arcebispo alemão Strossmayer, cuja consciência sóbria ficou escandalizada ao presenciar a ordem do episcopado privado de qualquer poder e liberdade de vontade para enfrentar o todo-poderoso papa:

"No concílio Vaticano não tivemos nenhuma liberdade essencial. Por esta razão, não pode ser considerado um verdadeiro concílio com o direito de emitir decretos com força vinculante sobre a consciência de todo o mundo católico [...] Qualquer coisa que pudesse assegurar a liberdade da palavra e expressão me foi cuidadosamente censurado e reprimido [...] e, como se tudo isso não fosse suficiente, o concílio constituiu-se o maior escândalo de violação pública do antigo axioma da igreja ‘quod semper, quod ubique, quod ab omnibus' (145) Em outras palavras, para alegar a infalibilidade papal, que foi aplicada e imposta na forma mais óbvia e esmagadora antes que a própria infalibilidade fosse declarada como dogma. Além disso, houve outras alegações sobre a legalidade geral do concílio, como o fato de que os bispos de origem italiana, principalmente os altos oficiais, foram a grande maioria, tendo praticamente o poder e o monopólio na votação; ou que o vigário estava sujeito à propaganda mais ultrajante, enquanto que todo o mecanismo da autoridade papal, imposto pelo Papa em Roma, teve êxito intimidando todos e suprimindo a liberdade de expressão. Assim, pode-se deduzir facilmente que tipo de liberdade de discussão (um princípio inviolável em cada concílio) nos foi permitida no Concílio Vaticano". (146)

Durante minha grave crise espiritual abandonei quase por completo todos meus estudos. Aproveitei o tempo livre concedido por minha ordem monástica meditando na solidão de minha cela. Por muitos meses, investiguei as fontes bíblicas, apostólicas e patrísticas relacionadas com a estrutura e organização da Igreja antiga, incrementando meu conhecimento sobre este amplo tema.

Naturalmente, este trabalho minucioso não poderia ser realizado em total sigilo. Tornou-se claro que o minha conduta geral estava fortemente influenciada pelo dilema que tinha me absorvido por completo. Eu não hesitei em procurar orientação fora do mosteiro de pessoas e obras que poderiam fornecer respostas às minhas perguntas.

Passando o tempo, comecei, com muita discrição e cautela, a revelar aspectos de meus exames para vários intelectuais da igreja com quem tinha feito amizade ao longo dos anos. Revelando discretamente e mencionando alguns aspectos de minhas preocupações, recebi deles um apoio valioso, conselho e opiniões sobre este assunto complexo e significativo que tanto preocupava minha existência.

Contudo, logo descobri que a maioria das pessoas as quais eu havia confiado eram muito mais fanáticas do que esperava. Mesmo reconhecendo o absurdo de todo o ensinamento papista, eles permaneceram incompreensivelmente comprometidos com a ideia de "submissão devida ao Papa exige o consentimento cego do espírito" (147) e, segundo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas:

"Para obter a verdade em tudo e não desviar-se do bom ânimo, devemos sempre respeitar o constante princípio de que se percebemos algo com nossos olhos sendo branco, poderia ser facilmente preto, se é isso que a hierarquia eclesiástica declara" (148)

Influenciado por essa mentalidade fanática que esteriliza qualquer argumento racional, um padre desta ordemamigo por longo tempoconfiou-me o seguinte:

"Tudo que você diz é inequivocamente lógico e bastante óbvio a partir de qualquer ponto de vista, e não tenho nenhuma razão para não aceitá-lo. No entanto, nós, os jesuítas, fora das três promessas habituais, temos de respeitar especialmente uma quarta, mais crucial do aquelas de obediência, pobreza e castidade: também prometemos submissão incondicional ao papa (149). Por isso estou obrigado a escolher ser lançado na condenação eterna com o papa, em vez de ser salvo com todas as tuas verdades imutáveis "



quinta-feira, 1 de junho de 2017

Os Falsos Decretos de Isidoro, o Alicerce do Papado (Abbe Guette)

"Os  Falsos Decretos são como se fosse o ponto de divisão entre o Papado dos oito primeiros e o dos séculos seguintes. Nessa data as pretensões dos Papas começam a se desenvolver e a tomar cada dia um caráter mais distinto".

Chegamos agora aos últimos anos do século VIII. O império do Oriente, livre de Copronymus e seu filho Leo IV, respirou novamente sob o reinado de Constantino e Irene.

Carlos Magno reinava na França, Adriano I era bispo de Roma; Tarasius, grande e santo Patriarca, governava em Constantinopla. Antes de consentir sua eleição, Tarasius dirigiu-se ao tribunal e ao povo de Constantinopla, discurso do qual citamos a seguinte passagem: "É isso que eu temo principalmente (ao aceitar o episcopado), eu vejo a Igreja dividida no Oriente; diferentes línguas entre nós, e muitos concordam com o Ocidente, que nos anatematiza diariamente. Separação (anátema) é algo terrível, nos afasta do reino dos céus e conduz à escuridão exterior. Nada é mais agradável a Deus do que a união, que nos faz uma Igreja Católica una, como nós confessamos no credo. Eu vos peço, irmãos, aquilo que creio ser também a vossa vontade, visto que tendes o temor de Deus: peço que o imperador e a imperatriz reúnam um concílio ecumênico, para que possamos compor apenas um só corpo sob um único chefe, que é Jesus Cristo. Se o imperador e a imperatriz me conceder este pedido, me submeterei a suas ordens e seus votos, se não, eu não posso consentir. Me dê, irmãos, as respostas que desejam." [1]


Todos (exceto alguns fanáticos) aplaudiram o projeto de um concílio, e então Tarasius consentiu em ser ordenado e instituído bispo. Ele imediatamente dirigiu suas cartas de comunhão às igrejas de Roma, Alexandria, Antioquia e Jerusalém. [2] Nestas cartas fez como sempre sua profissão de fé, e convidou aquelas igrejas para o concílio que o imperador estava prestes a reunir. A imperatriz-regente e seu filho escreveram ao papa Adriano que tinham resolvido reunir um concílio ecumênico; pediram-lhe que viesse, prometendo recebê-lo com honras; ou para que enviasse representantes se ele não pudesse aceitar pessoalmente o convite.

A resposta de Adriano ao imperador e à imperatriz é um documento muito importante, no que diz respeito à questão que estamos examinando. Encontramos nela um estilo que os Bispos de Roma não haviam, até então, adotado em relação aos imperadores.

Roma, com ciúmes de Constantinopla, logo iria coroar o Carlos Magno, o Imperador do Ocidente, e assim romper todos os laços políticos com o Oriente. O papa gozava de grande autoridade temporal naquela cidade sob a proteção dos reis francos; ele era rico e ambicioso para cercar sua sé com ainda maior magnificência e esplendor. Adriano respondeu arrogantemente à respeitosa carta que recebeu do tribunal de Constantinopla. Ele insistiu em certas condições, como um poder lidando com outro, e particularmente sobre este ponto: que o patrimônio de São Pedro no Oriente, confiscado pelos imperadores iconoclastas, fossem recuperados completamente. Citaremos de sua carta o que ele diz sobre o Patriarca de Constantinopla: "Estamos muito surpresos ao ver que em sua carta você dá a Tarasius o título de Patriarca Ecumênico.O Patriarca de Constantinopla não teria sequer a segunda classe sem o CONSENTIMENTO DE NOSSA SÉ. Se ele é ecumênico, ele não deve ter também o primado sobre a nossa igreja? Todos os cristãos sabem que esta é uma suposição ridícula ".

Adriano coloca diante do imperador o exemplo de Carlos, rei dos francos. "Seguindo nosso conselho", ele diz, "e cumprindo nossos desejos, ele submeteu todas as nações bárbaras do Ocidente, deu à igreja romana, de posse perpétua, cidades, castelos e patrimônios que foram retidos pelos lombardos, e que por direito pertencem a São Pedro, ele não cessa diariamente de oferecer ouro e prata para esta luz e sustento dos pobres ".

Aqui está uma linguagem completamente nova por parte dos bispos romanos, mas, doravante, destinada a tornar-se habitual entre eles. Data de 785; ou seja, do mesmo ano em que Adriano entregou a Ingelramn, Bispo de Metz, a coleção dos  Falsos Decretos.[3] Há algo altamente significativo nesta coincidência. Foi o próprio Adriano quem autorizou este trabalho de falsificação? Nós não sabemos; mas é um fato incontestável que foi na própria Roma sob o pontificado de Adriano e no ano em que escreveu tão arrogantemente ao Imperador do Oriente, que este novo código do Papado é mencionado pela primeira vez na história. Adriano é o verdadeiro criador do Papado moderno. Não encontrando nas tradições da Igreja os documentos necessários para sustentar seus ambiciosos pontos de vista, apoiou-se em documentos apócrifos escritos que se adequavam a situação e legalizou todas as futuras usurpações da Sé Romana. Adriano sabia que os Decretos contidos no código de Ingelramn eram falsos. Porque ele já havia dado, dez anos antes, a Charles, rei dos francos, um código dos antigos cânones, idêntico à coleção geralmente recebida de Dionysius Exiguus. Foi, portanto, entre os anos 775 e 785 que os Falsos Decretos foram criados. 

O tempo era favorável a tais invenções. Nas invasões estrangeiras que haviam inundado todo o Ocidente com sangue e o cobriram de ruínas, as bibliotecas das igrejas e mosteiros foram destruídas; o clero estava mergulhado na mais profunda ignorância; o Oriente, invadido pelos muçulmanos, não tinha agora qualquer relação com o Ocidente. O papado aproveitou estas desgraças e construiu um poder meio político e meio religioso sobre estas ruínas, não faltando bajuladores que não se envergonhassem em inventar e propagar secretamente suas falsificações para dar um caráter divino a uma instituição que tem a ambição como sua única fonte.

Os  Falsos Decretos são como se fosse o ponto de divisão entre o Papado dos oito primeiros e o dos séculos seguintes. Nessa data as pretensões dos Papas começam a se desenvolver e a tomar cada dia um caráter mais distinto. A resposta de Adriano a Constantino e Irene foi o ponto de partida.

Os legados do Papa e os das igrejas patriarcais de Alexandria, Antioquia e Jerusalém, tendo ido a Constantinopla, Nicea foi nomeada como o lugar da reunião do concílio. A primeira sessão ocorreu em 24 de setembro de 787. Este segundo Concílio de Nicea é considerado o sétimo ecumênico, tanto pelas igrejas orientais como ocidentais. [4] Adriano foi representado pelo Arcipreste Pedro, e por outro Pedro, Abade do mosteiro de São Sabas em Roma. Os Bispos da Sicília foram os primeiros a falar e disseram: "Consideramos conveniente que o mais sagrado Arcebispo de Constantinopla abra o Concílio". Todos os membros concordaram com esta proposição, e Tarasius fez-lhes uma alocução sobre o dever de seguir as antigas tradições da Igreja nas decisões que estavam prestes a fazer. Então os que se opuseram a essas tradições foram introduzidos, para que o conselho pudesse ouvir uma declaração de sua doutrina. Depois foram lidas as cartas trazidas pelos legados dos Bispos de Roma, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, com o propósito de determinar o que poderia ser a fé do Oriente e do Ocidente. O bispo de Ancyra tinha compartilhado o erro dos iconoclastas. Ele agora apareceu diante do concílio para fazer sua confissão de fé, e começou com as seguintes palavras, dignas de ser citadas: "É a lei da Igreja, que os que são convertidos de uma heresia, deve-se renunciá-la por escrito, e confessar a Fé Católica. Portanto, eu, Basílio, bispo de Ancyra, desejando unir-me com a Igreja, com o Papa Adriano, com o Patriarca Tarasius, com as Sés Apostólicas de Alexandria, Antioquia e Jerusalém, e com todos os bispos católicos e os sacerdotes, faço esta confissão por escrito, e apresento a vocês, que têm o poder pela autoridade apostólica ".

Esta linguagem bastante ortodoxa prova claramente que naquela época o Papa de Roma não era considerado o único centro da unidade, a fonte da autoridade católica; que a unidade e a autoridade só eram reconhecidas na unanimidade do corpo sacerdotal.

A carta de Adriano ao Imperador e à Imperatriz, e a que foi escrita a Tarasius, foi então lida, mas apenas na medida em que tratavam de questões dogmáticas. Suas queixas contra o título de ecumênico e suas exigências relativas ao patrimônio de São Pedro, foram deixadas em silêncio. Nem os legados de Roma insistiram. O Concílio declarou aprovar a doutrina do Papa. Em seguida foram lidas as cartas dos Patriarcas do Oriente cuja doutrina concordava com a do Ocidente. Essa doutrina foi comparada com o ensino dos Padres da Igreja, a fim de verificar não só a unanimidade presente, mas a perpetuidade da doutrina; e também foi examinada a questão se os iconoclastas tinham ao seu lado qualquer verdadeira tradição católica. Depois deste duplo exame preparatório, o concílio fez a sua profissão de fé, decidindo que segundo a doutrina perpétua da Igreja, as imagens devem ser veneradas, reservando para Deus somente a Latria ou adoração propriamente dita.

Os membros do concílio, em seguida, partiram para Constantinopla, onde a última sessão ocorreu na presença de Irene e Constantino e todo o povo.

Os Atos do sétimo Concílio Ecumênico, como os precedentes, provam claramente que o Bispo de Roma só era o primeiro em honra na Igreja; que seu testemunho não tinha peso doutrinal, exceto na medida em que poderia ser considerado como o da Igreja Ocidental; que ainda não havia autoridade individual na Igreja, mas apenas uma autoridade coletiva, da qual o corpo sacerdotal era o eco e o intérprete.

Esta doutrina é diametralmente oposta ao sistema romano. Acrescentemos que o sétimo Concílio Ecumênico, como os seis que o precederam, não foi convocado, presidido nem confirmado pelo Papa. Ele concordou por seus legados, e o Ocidente concordou da mesma maneira, pelo qual adquiriu seu caráter ecumênico.

Mas esta concordância do Ocidente não foi, no princípio, unânime, pelo menos em aparência, não obstante a conhecida concordância do Papa; o que prova que mesmo no Ocidente tal autoridade doutrinária não era então concedida ao Papa, como seus partidários reivindicam hoje para ele. Sete anos depois do Concílio de Nicea, isto é, em 794, Carlos Magno reuniu em Frankfurt todos os bispos dos reinos conquistados. Neste concílio, foram discutidas várias questões dogmáticas, e particularmente as relativas às imagens. Pelas decisões ali proferidas, o Concílio pretendia rejeitar aquelas do segundo concílio de Nicea, que não tinha sido completamente compreendidas pelos Bispos Francos. Esses Bispos repreendiam o Papa com a sua concordância nessa decisão, e Adriano, de certa forma, pediu desculpas por isso.

Ele reconheceu, é verdade, a ortodoxia das doutrinas professadas pelo concílio, mas alegou que outros motivos o teriam impelido a rejeitar esse conselho, se não tivesse temido que sua oposição pudesse ser interpretada como uma adesão à heresia condenada. "Aceitamos o concílio", escreveu Adrian, "porque sua decisão está de acordo com a doutrina de São Gregório, temendo que, se não a recebêssemos, os gregos pudessem retornar ao seu erro e seríamos responsáveis ​​pela perda de tantas almas. No entanto, ainda não demos qualquer resposta ao Imperador sobre o assunto do concílio. Enquanto exortando-os a restabelecer imagens, nós os advertimos para restaurar para a Igreja Romana sua jurisdição sobre certos bispados e arcebispados e os patrimônios dos quais fomos privados no momento em que as imagens foram abolidas, mas não recebemos nenhuma resposta, o que mostra que se converteram em um ponto, mas não nos outros dois. Agradeceremos ao Imperador o restabelecimento das imagens, o pressionaremos ainda mais sobre o assunto da restituição dos patrimônios e da jurisdição e, se ele se recusar, o declararemos herege".

Os ataques dos bispos francos contra Adriano, embora injustos, provam abundantemente que não reconheciam no papado a autoridade que reivindica hoje. Os Falsos Decretos ainda não tinham sido capazes de prevalecer completamente sobre os costumes antigos. Adriano respondeu a esses ataques com uma modéstia que é fácil de explicar, quando refletimos o quanto ele precisava dos francos e do seu rei Carlos Magno para estabelecer a base do novo papado. Longe de mencionar a alegada autoridade que tão orgulhosamente se esforçava impor ao Oriente, estava disposto, em relação aos francos, a fazer parte de prisioneiro no tribunal. Ele avançou ao ponto de propor declarar o imperador de Constantinopla herege por uma mera questão de posses temporais, ou de uma jurisdição disputada. Mas encontramos em Adriano, sob essa humilde demonstração de submissão, uma astúcia prodigiosa em criar ocasiões para aumentar seu poder. Se os francos lhe tivessem pedido que declarasse o imperador de Constantinopla herege, reconhecer-lhe-iam assim uma jurisdição soberana e universal, estabelecendo assim um precedente que não haveria sido negligenciado pelo papado.

Adriano I morreu em 796, e foi sucedido por Leão III, que seguiu a mesma política que seu antecessor. Imediatamente após a sua eleição, foi enviado a Carlos Magno o estandarte da cidade de Roma e a chave da confissão de São Pedro. Em troca, o rei franco enviou-lhe presentes dispendiosos por um embaixador, que iria chegar a um acordo com ele sobre tudo o que dizia respeito "à glória da Igreja e ao fortalecimento da dignidade papal e do patriciado romano dado ao Rei franco". [6]

Leo teve algumas relações com o oriente na ocasião do divórcio do imperador Constantino. Dois santos monges, Platão e Teodoro Studites, declararam-se com especial energia contra a conduta adúltera do Imperador. Teodoro solicitou de vários bispos ajuda contra as perseguições que sua oposição ao Imperador tinha atraído sobre eles. As cartas de Teodoro Studites [7] estão repletas de elogios exagerados para aqueles a quem ele escreve. Os teólogos romanos escolheram observar apenas os elogios dirigidos ao bispo de Roma. Com um pouco mais de honestidade eles poderiam muito facilmente ter notado os elogios, muitas vezes ainda mais enfáticos, que se encontram em suas outras cartas; e então deveriam ter concluído que nenhuma força dogmática podia ser dada à linguagem esbanjada sem distinção das sés, de acordo com as circunstâncias, e com o propósito evidente de lisonjear aqueles a quem as cartas foram dirigidas, a fim de torná-los favoráveis ​​à causa que Teodoro defendia. Os romanistas não estavam dispostos a perceber um fato tão óbvio. Eles citaram os elogios exagerados de Teodoro como testemunho dogmático em favor da autoridade papal, e escolheram não ver que, se tiverem um valor tão dogmático no caso do bispo de Roma, também devem tê-lo não menos em nome do bispo de Jerusalém, por exemplo, a quem ele chama de "o primeiro dos cinco Patriarcas", ou outros, com quem ele se dirige com tanta extravagância. Nestes termos teríamos na Igreja vários Papas gozando, cada um deles, de autoridade suprema e universal. Esta conclusão não seria adequada aos teólogos romanos; mas segue-se necessariamente se as cartas de Teodoro Studites têm o valor dogmático que Roma lhes daria para sua própria vantagem. Além disso, se Teodoro Studites ocasionalmente fez louvores pomposos ao bispo de Roma, também poderia falar dele com muito pouco respeito, como podemos ver em sua carta a Basílio, abade de S. Sabas de Roma. [8]

No início de seu pontificado, Leão III teve que suportar uma oposição violenta por parte dos parentes de seu antecessor, Adriano. Eles acumularam acusações atrozes sobre ele.

Carlos Magno tendo vindo a Roma (800) como patrício daquela cidade, reuniu um concílio para julgar o Papa. Mas Leão estava certo de antemão que ele iria prevalecer. Ele havia recebido Carlos Magno em triunfo, e o poderoso rei não foi ingrato pelas atenções do pontífice. [9] Os membros do Concílio declararam com uma só voz: "Não nos atrevemos a julgar a sé apostólica, que é a cabeça de todas as igrejas, tal é o costume antigo!" Naqueles dias, os homens não eram precisos em questões de erudição. Pelo costume antigo o bispo de Roma devia ser julgado como qualquer outro bispo; mas as doutrinas dos Falsos Decretos tinham, sem dúvida, começado a se espalhar. Ingelramn de Metz, que os tinha usado em seu processo em Roma, era o capelão de Carlos Magno, e um de seus primeiros conselheiros. De acordo com este novo código de um novo Papado, a Sé Apostólica, que podia julgar tudo, não podia ser julgada por ninguém. Roma não negligenciou nenhuma possibilidade de estabelecer este princípio fundamental de seu poder, cuja consequência inevitável é a infalibilidade papal e até a impecabilidade. Essas conseqüências não foram desenvolvidas de uma só vez, mas o princípio desde então foi habilmente insinuado na ocasião favorável. Leão III justificou-se sob juramento. Alguns dias depois, no dia de Natal, 800 dC, Carlos Magno tendo ido a sé de São Pedro, o Papa colocou sobre sua cabeça uma rica coroa, e o povo exclamou: "Longa vida e vitória ao augusto Carlos, coroado pela mão de Deus, grande e pacífico Imperador dos Romanos!" Estas aclamações foram três vezes repetidas com entusiasmo; após disso o Papa ajoelhou-se diante do novo Imperador e ungiu ele e seu filho Pepin com o óleo sagrado.

Assim foi restabelecido o império romano do Ocidente. Roma, que sempre tinha visto com inveja a remoção da sede do governo para Constantinopla, estava em êxtase de alegria; o Papado, aliciando-se com seus secretos desejos, agora estava investido de poder como nunca antes possuiu. A idéia de Adriano foi alcançada por seu sucessor. O Papado moderno, uma instituição mista meio política e meio religiosa, foi estabelecida; uma nova era estava começando para a Igreja de Jesus Cristo - uma era de intrigas e lutas, despotismo, revoluções, inovações e escândalos.

Notas

1. Theoph. Annal. Coleção de Labbe dos Concílios, vol. vii., Vit. Taras. ap. Bolland. 15 Februar.

2. Ver todos documentos na Coleção de Labbe, vol. 7.

3. Alguns detalhes sobre os Falsos Decretos:

Depreende-se dos atos do Concílio de Calcedônia, em 451, que a Igreja já tinha um Canonum Codex, ou uma coleção de leis da Igreja. Várias dessas leis são consideradas como tendo origem dos próprios Apóstolos. O que eles tinham começado os concílios continuaram, e, assim que a Igreja começou a desfrutar de alguma breve tranqüilidade, essas leis veneráveis foram recolhidas e formaram a base da disciplina eclesiástica; e, como eram na maior parte em grego, foram traduzidos para o latim para o uso das igrejas ocidentais.

No início do século VI, Dionísio, de sobrenome de Exiguus, monge de Roma, achando essa tradução incorreta, fez outra a pedido de Juliano, pároco de Santa Anastasia em Roma, e discípulo do Papa Gelasio. Dionísio recolheu, além disso, quaisquer cartas dos papas que ele pudesse descobrir nos arquivos e publicou em sua coleção as de Stricius, Inocente, Zosimus, Bonifácio, Celestino, Leão, Gelasius e Anastastius, o último o qual ele viveu. Os arquivos de Roma naquela época não possuíam nada anterior de Sirício, isto é, até o final do século IV.

No início do século VII, Isidoro de Sevilha se comprometeu a completar a coleção de Dionísio. Ele acrescentou cânones alguns nacionais ou provinciais de alguns dos Papas, regressando não mais longe do que Damasus, que morreu em 844, antecessor de Siricius. Esta coleção de Isidoro de Sevilha começa com os cânones do Concílio de Nicea. Ele usou a antiga tradução e não a de Dionísio para os cânones gregos.

Sua coleção era pouco conhecida, e na história não a encontramos até 785, e depois desfigurada e interpolada por um forjador desconhecido, que dá seu nome de Isidoro Mercator. Esta coleção continha, além das partes contidas na coleção Isidoro de Sevilha, certos Decretos que ele atribuiu aos Papas dos três primeiros séculos. Vários estudiosos consideram Isidoro Mercator e Isidoro de Sevilha escritores distintos, enquanto outros pensam que este último tinha acrescentado, por humildade, a palavra Peccator ao seu nome, que foi corrompido para Mercator. Seja como for, os melhores críticos ultramontanos, bem como os galicanos, concordam que os Decretos atribuídos aos Papas dos primeiros séculos na coleção de Isidoro Mercator, são falsos. O próprio Marchetti admite sua falsidade. "Homens instruídos de grande piedade", acrescenta, "declararam-se contra esta falsa coleção, que o Cardeal Bona chama francamente de fraude piedosa". "Baronius não os considera francamente como fraude, no entanto, não os usava em seus Anais Eclesiásticos, para que não se acreditasse que a Igreja Romana precisava de documentos suspeitos para estabelecer seus direitos".

Os ultramontanos não podem defender abertamente estes Decretos como verdadeiros, porque foi provado abundantemente que foram manufaturados em parte dos cânones antigos, com extratos das cartas dos papas dos séculos IV e V. Passagens inteiras, particularmente de São Leão e Gregório Magno, são encontradas neles. O conjunto todo é amarrado num Latim inferior, que até mesmo para o estudioso menos críticos tem todas as características do estilo dos séculos oitavo e nono.

A coleção de Isidoro Mercator foi difundida principalmente por Riculf, arcebispo de Mayence, que tomou a Sé em 787. Vários críticos concluíram que esta coleção apareceu pela primeira vez em Mayence, e até mesmo que Riculf foi seu autor.

Esses falsos Decretos foram fabricados na Espanha, Alemanha ou Roma? Nós não temos certeza sobre o assunto. As cópias mais antigas nos dizem que foi Ingelramn quem trouxe esta coleção para Roma de Metz, quando ele teve um processo lá em 785; mas outras cópias nos dizem que foi o Papa Adriano que, naquela ocasião, entregou-o a Ingelramn em 785. É certo que em Roma encontramos a primeira menção a ele. No entanto, Adriano sabia que esses Decretos eram falsos, uma vez que, dez anos antes, ele havia dado a Carlos Magno uma CÓPIA dos cânones, que não era outra senão a de Dionísio Exiguus.

Os Falsos Decretos foram tão amplamente divulgados no Ocidente, que foram recebidos em todos os lugares, e particularmente em Roma, como autênticos.

Os ultramontanos, embora não se atrevam a manter a autoridade dos escritos atribuídos aos Papas dos primeiros três séculos, ainda assim indiretamente os defendem. Várias obras foram escritas com esta objeção contra Fleury, que afirmou com justiça e demonstrou abundantemente que os Decretos mudaram a disciplina antiga. Citaremos entre esses trabalhos ultramontanos os de Marchetti, do Padre de Housta e do Padre Honore de Sainte-Marie:

"Podemos conjecturar", diz Marchetti, "que Isidoro reuniu os Decretos de Papas antigos os quais as perseguições dos primeiros séculos não permitiram ser coletados, e que animado pelo desejo de transmitir a Coleção à posteridade, teve tanta pressa que negligenciou algumas falhas e erros cronológicos que depois foram corrigidos por críticas mais exatas ".

Assim, então, os Decretos dos três primeiros séculos são falsos; no entanto, eles são substancialmente verdadeiros. Tal é o sistema ultramontano. Só resta dizer, para completar o negócio, que os textos de São Leão e São Gregório Magno, que se encontram nesses Decretos, não pertencem a esses pais, que, nesse caso, devem ter sido copiado dos Decretos de seus predecessores. Seria tão razoável manter essa opinião quanto dizer que só encontramos nos Falsos Decretos algumas falhas e erros cronológicos.

Para este primeiro sistema de defesa, os ultramontanos adicionam um segundo. Eles fazem uma ótima demonstração de eloqüência para provar que uma pessoa desconhecida sem qualquer autoridade nunca poderia ter introduzido um novo código na Igreja. Nós pensamos assim também. Mas há um fato da grande importância que nossos ultramontanos deixaram de lado, que, no momento em que apareciam os Falsos Decretos, a Sé de Roma havia aproveitado durante dois séculos de cada ocorrência para aumentar sua influência e para pôr em prática o que os Falsos Decretos estabeleceram como a lei. Todos sabem que após a queda do império romano, a maioria das nações ocidentais foram essencialmente modificadas pela invasão de novas raças; que a Igreja sentiu seriamente essa mudança; que a busca do aprendizado foi abandonada e que, após o século VII, reinava a ignorância mais deplorável nas igrejas ocidentais. A partir desse momento, os Bispos de Roma começaram a participar diretamente do governo de igrejas individuais, que muitas vezes se debruçavam nas mãos de conquistadores apenas meio-cristianizados. Eles enviaram missionários para trabalhar na conversão das tribos invasoras; e estes missionários, como São Bonifácio de Mayence, guardavam pelos Papas que os enviaram, sentimentos de discípulos pelos seus senhores. As igrejas recém-fundadas por eles, permaneceram fiéis a esses sentimentos. Não seria, portanto, surpreendente se o fabricante dos Falsos Decretos vivesse em ou perto de Mayence. Ele compôs aquele trabalho de fragmentos dos concílios e dos Padres, e acrescentou regulamentos que estavam em perfeita harmonia com os usos da Sé de Roma no final do século VIII e que Roma, sem dúvida, o inspirou.

Esta coincidência, unida à ignorância que então prevalecia, explica suficientemente como os Falos Decretos poderiam ser aceitos sem protestos - a Sé de Roma usando toda a sua influência para espalhá-los. Como a maioria das igrejas haviam se acostumado por dois séculos a sentir a autoridade dos Bispos de Roma, elas aceitaram sem exame documentos que pareciam ser apenas a sanção desta autoridade. Os Falsos Decretos não criaram, portanto, um novo código para as igrejas ocidentais; eles apenas vieram em auxílio de um regime que, devido a distúrbios políticos, os próprios Papas criaram.

Assim, os romanistas têm seu trabalho por suas dores, quando procuram defender os Decretos dizendo que um autor desconhecido sem autoridade não poderia ter estabelecido um novo código.

Aqui estão as objeções que Fleury faz aos Falsos Decretos: "O assunto dessas cartas [Hist. Eccl. Liv. Xliv.] revelam sua falsificação. Elas falam de arcebispos, primatas, patriarcas, como se esses títulos existissem desde o nascimento da Igreja. Elas proíbem a realização de qualquer concílio, mesmo provinciano, sem a permissão do Papa e representam os apelos a Roma como habituais. Queixas freqüentes são feitas por usurpações das temporalidades da Igreja. Encontramos aí o máximo, que os bispos que caem no pecado podem, depois de penitências, exercitarem suas funções como antes. Finalmente, o assunto principal desses Decretos é aquele de reclamações contra bispos; quase não há falas sobre isso e é dado regras para que se torne mais difícil. E Isidoro deixa muito aparente em seu prefácio que ele tinha esse assunto profundamente no coração".

O objetivo do falsificador neste último assunto é evidente. Era de diminuir a autoridade dos metropolitas, que, desde tempos imemoriais, gozavam do direito de convocar o concílio da sua província para ouvir denúncias contra um bispo daquela província em particular e julgá-lo. O falsificador, cujo objetivo era concentrar toda autoridade em Roma, naturalmente, primeiro se esforçaria para verificar a autoridade do metropolita, e faz com que os apelos a Roma pareçam oferecer maiores garantias e que estejam mais em consonância com a dignidade episcopal.

É preciso ignorar completamente a história dos três primeiros séculos, para não saber que naquele período a Igreja não tinha organização fixa; que não era dividida em dioceses até o reinado de Constantino e pelo Concílio de Nicea; que foi este concílio que reconheceu nas sés de Roma, Alexandria e Antioquia uma superioridade comum a elas em um certo número de igrejas as quais elas deram a luz, e sobre o qual, de acordo com o costume, exerceram uma supervisão especial. Mas o falsificador não hesita em dispor todos os arcebispos, primatas e patriarcas durante os três primeiros séculos e atribui aos primeiros Bispos de Roma, como direitos, prerrogativas que os concílios nunca haviam reconhecido, e que esses bispos usurparam no Ocidente desde que as invasões dos bárbaros derrubaram a antiga política romana.

Após o nosso estudo profundo da história da Igreja, nos sentimos livres em afirmar que é impossível acumular mais erros do que os ultramontanos fizeram, para defender a alegada força legal dos Falsos Decretos; que os Falsos Decretos estabeleceram no século IX um novo código completamente contrário ao dos primeiros oito séculos cristãos; e que o falsificador não tinha outro objeto senão sancionar as usurpações da corte de Roma durante os dois séculos anteriores à composição de seu trabalho. Nós estudamos cuidadosamente o que foi dito pro e contra este assunto. Os escritos dos romanistas nos convenceram de que este falsificador do século IX nunca foi defendido, mas apenas por argumentos dignos dele; isto é, pelas envergonhadas e falsas declarações. Os trabalhos dos gauleses são mais honestos e mostram pesquisas mais profundas. No entanto, mesmo neles, percebemos uma certa reticência que prejudica sua causa e, de vez em quando, uma atitude forçada e não natural em relação às prerrogativas papais, que eles não se atrevem a negar. (Veja as obras de Hincmar de Reims e os Anais do Padre Lecointe.)

4. Veja suas transações na Coleção de Labbe, vol. viii.

5. Resp. ad. Lib. Carolin. na Coleção de Labbe, vol. viii.

6. Alcuin Ep. 84.

7. Theod. Stud. Ep. 15.

8. Theod. Stud. Ep. 28.

9. Sismondi alega que este simulacro de julgamento e a subsequente pena capital dos acusadores de Leão foram pré-arranjados, juntamente com a coroação mencionada no texto, durante a visita de Leo a Charlemagne pouco tempo antes em Paderborn. Sismondi, Queda do Império Romano, cap. Xvii .- [Editor]

Do livro O Papado por Abbe Guette. (New York, NY: Minos Publishing Co., MDCCCLXVI), pp. 256-269. 

http://orthodoxinfo.com/inquirers/decretals.aspx

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Epistemologia Ortodoxa e a cura da Alma (Metropolita Hierotheos [Vlachos] de Nafpaktos)

O tema da epistemologia pertence a este livro e constitui o capítulo final, pois está intimamente relacionado com a cura da alma do homem. Os capítulos anteriores mostraram que a queda, a doença e a morte do homem são precisamente a morte de sua alma, nous, coração e razão, sob a influência de maus pensamentos. A queda é primariamente a queda do nous. Quando a alma, a mente e o coração são curados, alcança-se o conhecimento de Deus. Na verdade, não é somente quando são curados que adquire-se o conhecimento de Deus, mas também na medida em que são curados. Quando são curados tão completamente quanto possível, alcança-se um conhecimento de Deus que não se trata de palavras sobre Deus, mas o conhecer Deus nEle mesmo. Em outras palavras, é no coração curado que Deus é revelado e concede conhecimento de Si mesmo. Assim, é claro que a epistemologia ortodoxa está intimamente relacionada com a terapia da alma. O conhecimento de Deus aumenta à medida que aumenta a cura, e um conhecimento puro de Deus é dado àquela pessoa que foi purificada e curada.

A fim de examinar isso com mais clareza, podemos nos concentrar nos ensinamentos de dois Padres da Igreja: São Isaac o Sírio e São Gregório Palamas. Examinaremos primeiro os três graus de conhecimento de acordo com São Isaac, o sírio, e depois o conhecimento de Deus, segundo São Gregório Palamas.



1. Os três graus de conhecimento segundo São Isaac, o Sírio

São Isaac, o Sírio, desenvolve o tema dos três graus de conhecimento nos capítulos 52 e 53 de suas Homilias Ascéticas.

Ele começa por contrastar conhecimento e fé. O conhecimento humano é marcado pelo fato de que não possui autoridade alguma para fazer algo "sem investigação e exame", mas deve investigar se o que ele deseja é possível (p.254). No conhecimento humano há uma boa parte de inteligência, e é principalmente a inteligência caída que está em ação, uma vez que ultrapassa seus limites naturais; isto é, uma inteligência que igualmente domina o nous. A fé, entretanto, tem limites diferentes, e aqui parece estar sua grande diferença do conhecimento humano, assim como seu grande valor. São Isaac diz que quando usamos a palavra "fé" não queremos dizer a transmissão das verdades dogmáticas sobre as Pessoas da Santíssima Trindade, sobre Cristo tornar-se homem e sobre a assunção da natureza humana pela Segunda Pessoa da Trindade, "embora esta fé seja também muito elevada", mas o significado principal do que chamamos de fé é "aquela luz que pela graça nasce na alma e fortalece o coração pelo testemunho da mente, tornando-a indubitável pela certeza da esperança". Esta fé espiritual não aprende os mistérios pela tradição oral, "mas com olhos espirituais contempla os mistérios escondidos na alma e as riquezas secretas e divinas que estão escondidas longe dos olhos dos filhos da carne, mas são reveladas pelo o espírito para aqueles que habitam na mesa de Cristo através do estudo das Suas leis" (p.262). Isto quer dizer que, enquanto o conhecimento humano é adquirido através da atividade da inteligência e através da investigação humana, o conhecimento divino é adquirido através da fé. Esta fé é principalmente aquela que nasce na alma através da luz da graça, e através deste poder se aprendem todos os mistérios que estão escondidos dos olhos dos homens carnais do nosso tempo. Portanto, "a fé é mais sutil do que o conhecimento, assim como o conhecimento é mais sutil do que as coisas palpáveis" (p.262). A fé, que é conhecimento divino, é mais sutil do que o conhecimento humano.

São Isaac explica a diferença entre conhecimento humano e fé. O conhecimento humano não pode aprender sem exame, enquanto que a fé "requer um modo de pensar único, limpidamente puro e simples, afastado de qualquer desvio ou invenção de métodos ... A casa da fé é um pensamento como de criança e um coração simples" (254). Enquanto o conhecimento humano tem a inteligência em seu centro, a fé tem o coração simples e sincero. O conhecimento humano "permanece dentro dos limites da natureza" enquanto a fé "faz a sua jornada além da natureza" (254). Ou seja, o conhecimento humano é uma condição puramente natural, trabalhando dentro de limites naturais, enquanto a fé é uma condição supranatural. Do mesmo modo, o conhecimento humano é incapaz de fazer qualquer coisa sem a matéria; move-se num mundo material, enquanto a fé tem autoridade, por possuir a semelhança de Deus, para fazer uma nova criação (p.254). O conhecimento humano não se atreve nem deseja ultrapassar os limites da natureza, enquanto a fé "os transgride com autoridade" (p.255). Isto é demonstrado pela vida de todos os santos que, pelo poder da fé, "adentraram em chamas e refrearam o poder ardente do fogo, caminhando ilesos pelo meio dele, pisando no fundo do mar como em terra firme" (p.255). E todas essas coisas que a fé faz estão acima da natureza e são contrárias aos caminhos do conhecimento humano. O conhecimento humano sempre busca meios para "salvaguardar aqueles que o adquiriram", isto é, sempre toma medidas protetoras e busca proteger o homem por meios humanos. Mas a fé entrega isso completamente a Deus. "O homem que ora com fé nunca faz uso, ou está empenhado em métodos e meios" (p.255). O conhecimento humano não dá início a um trabalho sem ter examinado como vai acabar, enquanto a fé diz: "Tudo é possível ao que crê, porque para Deus nada é impossível" (p.256).

É verdadeiro, de acordo com São Isaac, que o conhecimento humano não é deficiente, mas a fé é mais elevada (p.256). O conhecimento é aperfeiçoado pela fé, uma vez que "o conhecimento é um passo pelo qual o homem pode ascender até a elevada estatura da fé" (p.257). Quando a fé chega, o que está em parte é abolido. Então "é pela nossa fé que aprendemos aquelas coisas que não podem ser compreendidas pela investigação e poder do conhecimento" (p.257). Todas as obras de retidão que são virtudes, isto é, o jejum, a esmola, a vigília, a santidade e todo o "resto das obras realizadas com o corpo" e todas aquelas que são realizados na alma, isto é, o amor ao próximo , a humildade de coração, o perdão "aos que pecaram", a lembrança das coisas boas, a investigação dos mistérios escondidos nas Escrituras, a ocupação da mente com as boas obras, o controle das paixões da alma e o restante dessas virtudes, "todas essas requerem conhecimento". Conhecimento "as guardam e põe ordem". E todas estas coisas são passos pelos quais a alma ascende "para alturas mais elevadas da fé". No entanto, "o modo de vida da fé é mais exaltado do que o trabalho da virtude, e não é o trabalho, mas o descanso perfeito, a consolação, que é realizado no coração e dentro da alma" (p.256-7).

Todas estas coisas indicam que, segundo os ensinamentos de São Isaac e dos outros santos Padres, a fé é mais elevada do que o conhecimento humano, mais elevada até mesmo que o conhecimento adquirido pela prática da virtude. Pois a fé é uma condição carismática, uma comunhão com Deus; é "a compreensão e visão do coração"; é a vida que se desenvolve na alma com a vinda da luz da graça divina. Na seção seguinte, no ensinamento de São Gregório Palamas, veremos esse conhecimento de Deus, que é verdadeiramente uma "comunhão no ser", comunhão e união do homem com Deus. Assim, portanto, é um conhecimento mais elevado do que qualquer conhecimento humano, mesmo mais elevado que o conhecimento adquirido através da prática das virtudes, pois com ele encontramos o próprio Cristo, que está escondido nas profundezas dos mandamentos.

São Isaac, o Sírio, fala de três tipos de conhecimento. Examinemos como eles diferem, pois penso que isso nos mostrará como a tradição ortodoxa difere da tradição cultural humana, como o conhecimento divino difere do conhecimento humano.

Existem três caminhos concebíveis em que o conhecimento ascende e descende. Esses caminhos são corpo, alma e espírito (p.258). Na verdade, quando os Padres falam de corpo, alma e espírito, eles não querem dizer as três partes do homem, mas pela palavra "espírito" querem dizer o dom da graça, a graça divina com a qual o homem é abençoado. Sem a graça de Deus, é dito que o homem é um homem de alma ou da carne, enquanto que com a presença da graça ele é chamado espiritual. Embora a natureza do conhecimento seja uma só, ela é refinada e muda seus modos de acordo com esses reinos inteligíveis e sensíveis (p.258). Portanto, assim como existem três modos inteligíveis e sensíveis: corpo, alma e espírito, também existem três tipos de conhecimento relacionados a eles. De acordo com o tipo de conhecimento que o homem possui, ele mostra seu progresso espiritual e sua condição espiritual. Além disso, o tipo de conhecimento que alguém tem é uma indicação de sua purificação e cura. Aquele cuja alma é enferma tem conhecimento corporal, enquanto aquele que está sendo curado tem conhecimento da alma, e aquele que foi curado tem conhecimento espiritual. Este último conhece os mistérios do Espírito, que são desconhecidos e incompreensíveis para o homem da carne.

O primeiro conhecimento é adquirido pelo constante estudo e diligência na aprendizagem, o segundo conhecimento vem de um modo de vida puro e bom e da fé da mente, e o terceiro conhecimento "é atribuído à fé apenas. Porque pela fé o conhecimento é abolido, as obras chegam ao fim, e o emprego dos sentidos torna-se supérfluo "(p.264).

Examinemos mais analiticamente, com base nos ensinamentos de São Isaac, esses três tipos de conhecimento que indicam a doença ou a saúde da alma do homem.

Primeiro, o conhecimento corporal. Alguns elementos característicos do conhecimento humano conectados aos desejos da carne são a riqueza, a vanglória, o adorno, o descanso corporal e a assiduidade na sabedoria racional, tal como é apropriado para lidar com mundo e que imagina as novidades das invenções, as artes e as ciências (p.258). Este conhecimento é oposto à fé, como já explicamos antes, porque pensa que "todas as coisas são para sua própria providência" (p.258). Sabedoria e conhecimento das coisas deste mundo sem os outros dois tipos de conhecimento são inúteis e criam muitos problemas para o homem. Este conhecimento é superficial e grosseiro, pois está "desprovido de toda a preocupação com Deus" (p.258). Sua preocupação é apenas sobre este mundo, e por ser controlado pelo corpo, "introduz na mente uma impotência irracional" (p.258).

A maioria dos homens de nosso tempo, com almas enfermas, possui esse conhecimento e o cultiva continuamente. Toda a civilização contemporânea, que cria muitas anomalias de alma e corpo, está neste estado. Portanto, essa unilateralidade do conhecimento cria muitos problemas. Assim ão Isaac os descreve: O homem de conhecimento corporal é uma presa da fraqueza, tristeza, desespero, medo dos demônios, trepidação diante dos homens, rumores de ladrões e relatos de assassinatos, ansiedade por doenças, preocupação com o desejos e falta das necessidades, medo da morte, medo dos sofrimentos, dos animais selvagens e de outras coisas semelhantes que compõem o mar da vida presente (p. 258). O homem que possui este conhecimento humano e corporal não sabe abandonar-se à misericórdia de Deus, mas tenta, a seu modo, resolver os vários problemas. Mas quando ele não consegue encontrar soluções, por diferentes razões, então ele "rivaliza contra outros homens como se impedissem e se opusessem" a este conhecimento (p.258). Ele traz discórdia entre os homens porque os outros impedem a posse dos bens do conhecimento corporal.

Esse conhecimento corporal, cuidado mundano, erradica completamente o amor. Faz com que se investigue os pequenos pecados e erros dos outros, suas causas, suas fraquezas, faz dogmatizar e opor-se às palavras dos outros, a pessoa torna-se astucioso em todas as ações e inventa maneiras de desonrar as pessoas. Esse conhecimento contém presunção e orgulho (p.259).

Vemos claramente que o conhecimento corporal é característico da civilização contemporânea. Com intuição profética, São Isaac apresenta as causas e os objetivos deste homem carnal, descreve sua luta e angústia, e também apresenta os espantosos resultados desse conhecimento corporal. A confusão das relações pessoais, a falta de amor, obstinação e astúcia em todas as ações são as coisas que definem o homem contemporâneo que está doente na alma, longe de Deus.

O segundo, o conhecimento da alma. Quando um homem renuncia ao primeiro conhecimento corporal e carnal e se volta para os desejos e conversas da alma, então todas as boas ações do conhecimento da alma seguem. Estes são o jejum, a oração, a misericórdia, a leitura das Escrituras, os modos de virtude, a batalha contra as paixões, e assim por diante (p.258). Todas estas obras são aperfeiçoadas pelo Espírito Santo. Elas não acontecem pelo poder do homem, mas pelo trabalho conjunto do homem e do Espírito Santo. Há etapas na aquisição do conhecimento. O segundo grau de conhecimento é aperfeiçoado "quando é lançado o fundamento de sua ação ao afastar-se dos homens, na leitura das Escrituras e na oração" (p.260). Ou seja, o possuidor deste conhecimento da alma vive na quietude, com tudo o que implica, como descrevemos no capítulo anterior. Ele ora a Deus incessantemente e estuda as Escrituras nesta santa atmosfera de quietude para alimentar sua alma, não para aprender as palavras de Deus por curiosidade. Esta categoria inclui aquelas pessoas que estão sendo curadas de úlceras psíquicas e das feridas de sua alma. Esta cura oferece um conhecimento que pode ser chamado de fase preliminar e ante-sala do outro conhecimento espiritual, que a vinda da graça de Deus proporcionará no coração do homem.

O terceiro, o conhecimento espiritual. Quando o conhecimento do homem se eleva acima das preocupações mundanas e começa a ver interiormente "o que está escondido dos olhos" e quando despreza as coisas "de onde surge a perversidade das paixões" e se estende além em seu desejo pelas promessas da era por vir e em sua busca nos mistérios ocultos, "então a fé consome o conhecimento, o converte e o gera de novo, de modo que ele se torna completamente e plenamente espírito" (p.261).

Então pode-se voar aos locais dos anjos incorpóreos; conhece-se os mistérios espirituais, os governos do espiritual e do corpóreo. Ou seja, conhece os princípios interiores dos seres. Então os sentidos internos despertam e a alma recebe a ressurreição que dá a garantia da futura ressurreição dos homens. São Isaac, que possuía esse conhecimento espiritual, que é a vida da fé, escreveu: "Então pode-se elevar-se nos reinos dos incorpóreos e tocar as profundezas do mar insondável, refletindo sobre as maravilhosas e divinas obras do governo de Deus das criaturas inteligíveis e corpóreas. Busca-se os mistérios espirituais que são percebidos pelo simples e sutil nous. Então os sentidos internos despertam para o espiritual, de acordo com a ordem que será na vida imortal e incorruptível. Pois desde agora recebeu, como se fosse num mistério, a ressurreição inteligível como verdadeiro testemunho da renovação universal de todas as coisas" (p. 261).

Este conhecimento foi alcançado por todos os santos de Deus, como Moisés, Davi, Isaías, o apóstolo Pedro, o apóstolo Paulo e todos os santos que foram considerados dignos deste conhecimento perfeito, "na medida possível para a natureza humana" (p. 259). Na realidade, esse conhecimento vem da visão de Deus e da luz incriada, das revelações divinas ou, como coloca São Isaac, "por diversas contemplações e revelações divinas, pela visão sublime das coisas espirituais e pelos mistérios inefáveis..." (P.259). Então o conhecimento é consumido por essas visões de Deus e a pessoa sente que ela é pó e cinzas (p.259). Adquire-se o estado abençoado de humildade e simplicidade. Assim, o conhecimento espiritual, ou seja, o conhecimento de Deus, é o fruto da theoria. Ele é recebido pela pessoa que progrediu do conhecimento carnal até o da alma e daí para o conhecimento espiritual.

Resumidamente, pode-se dizer que o primeiro conhecimento "torna a alma fria às obras que vão em busca de Deus". O segundo conhecimento aquece a alma ao curso veloz "no nível da fé". O terceiro conhecimento é o descanso do trabalho, "que é o tipo da era vindoura, pois a alma se deleita apenas na meditação sobre os mistérios dos bens vindouros" (p.262).

Este ensinamento de São Isaac é muito relevante para o assunto que estamos tratando, pela seguinte razão. No começo do livro mencionamos que os membros da Igreja não são divididos em bons e maus ou morais e imorais, fazendo da ética humana o critério, mas nos doentes na alma, os em processo de cura e os curados. Precisamente estas três categorias correspondem aos três graus de conhecimento. Aqueles cuja alma está doente são pessoas de conhecimento corporal e mundano, aqueles que estão sendo curados são aqueles que em diferentes graus estão adquirindo a sabedoria e conhecimento da alma, e aqueles curados são os santos de Deus, que possuem conhecimento espiritual, o verdadeiro conhecimento de Deus. A maioria das pessoas de nosso tempo, que estão doentes de alma porque não sabem nada do nous e do coração, estão no primeiro conhecimento corporal e carnal. Outros pertencem ao segundo conhecimento, porque estão lutando para serem curados por meio de todo o método ascético disponível na Igreja Ortodoxa. E os santos, que ainda hoje existem, pertencem ao terceiro conhecimento, pois foram curados de suas enfermidades e assim adquiriram conhecimento de Deus.


2. Conhecimento de Deus segundo São Gregório Palamas

Agora que explicamos o ensinamento de São Isaac, o Sírio sobre os três graus de conhecimento, podemos seguir para o conhecimento de Deus de acordo com o Santo atonita Gregório Palamas. Quando uma pessoa ascende do conhecimento corporal para o conhecimento da alma e daí para o conhecimento espiritual, então ela vê Deus e possui o conhecimento de Deus, que é a sua salvação. O conhecimento de Deus, como será explicado mais adiante, não é intelectual, mas existencial. Ou seja, todo o ser torna-se pleno desse conhecimento de Deus. Mas, para alcançá-lo, o coração deve ter sido purificado, ou seja, a alma, o nous e o coração devem ter sido curados. "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" (Mt 5,8).

Vejamos as coisas mais analiticamente.

Como indiquei, Barlaam insistia que o conhecimento de Deus não depende da visão de Deus, mas do entendimento da própria pessoa. Ele afirmava que podemos adquirir o conhecimento de Deus através da filosofia e, portanto, considerava que os profetas e apóstolos que viram a luz incriada, estavam abaixo dos filósofos. Ele chamou a luz incriada de sensorial, criada e "inferior à nossa compreensão". No entanto, São Gregório Palamas, portador da Tradição e homem de revelação, defendia a visão oposta. Em sua teologia ele apresentou o ensinamento da Igreja de que a luz incriada, isto é, a visão de Deus, não é simplesmente uma visão simbólica, nem sensorial e criada, nem inferior à compreensão, mas é a divinização. Através da deificação, o homem é considerado digno de ver Deus. E essa deificação não é um estado abstrato, mas uma união do homem com Deus. Ou seja, o homem que contempla a luz incriada a vê porque está unido a Deus. Ele a vê com seus olhos interiores, e também com seus olhos corporais, que, no entanto, foram modificados pela ação de Deus. Consequentemente a theoria é união com Deus. E esta união é conhecimento de Deus. Neste momento é concedido conhecimento de Deus, que está além do conhecimento humano e além dos sentidos.

São Gregório explica toda esta teologia em vários lugares ao longo de seus escritos. Mas uma vez que não é nossa intenção neste capítulo fazer uma exposição sistemática de todo o seu ensinamento sobre o conhecimento de Deus, limitar-nos-emos a analisar o ponto central, como é apresentado em sua obra básica "Sobre o Santos Hesicastas", conhecida como as Tríadas. Novamente, devemos acrescentar que não apresentaremos todo o ensinamento tal como está exposto em tal livro, mas apenas os pontos centrais. Após cada citação, daremos a referência.

Eis aqui uma passagem característica na qual ele apresenta brevemente este ensinamento: "Aquele que purificou sua alma de toda conexão com as coisas deste mundo, que se desprendeu de tudo por guardar os mandamentos e pela impassibilidade que isso traz e que avançou além de toda a atividade cognitiva através da oração contínua, sincera e imaterial, e que foi abundantemente iluminado pela luz inacessível em uma união inconcebível, só ele, tornando-se luz, contemplando pela luz e contemplando a luz, na visão e desfrute desta luz, reconhece verdadeiramente que Deus é transcendentalmente radiante e além da compreensão; ele glorifica a Deus não somente além do poder humano de entendimento de seu nous, pois muitas coisas criadas estão além disso, mas além até mesmo dessa união admirável que é o único meio pelo qual o nous é unido com o que está além das coisas inteligíveis, "imitando divinamente os nouses supracelestiais" (2,3,57).

Encontramos o ensinamento central de São Gregório nesta passagem. Para alcançar a visão da luz incriada, é necessário cortar toda conexão entre a alma e o que está abaixo, desapegar-se de tudo, mantendo os mandamentos de Cristo e através da impassibilidade que disso deriva, deve-se transcender toda atividade cognitiva "através da oração contínua, sincera e imaterial". Portanto, deve-se ter sido já curado, por manter os mandamentos de Cristo e ter liberto sua alma de toda conexão pecaminosa com as coisas criadas. Tal pessoa é iluminada pela luz inacessível "abundantemente através de uma união inconcebível". Ele vê Deus através da união. Assim ele se torna luz e vê pela luz. Vendo a luz incriada, reconhece Deus e adquire conhecimento Dele, porque agora "reconhece verdadeiramente que Deus está além da natureza e além da compreensão".

São Gregório também desenvolve este ensinamento em outras partes nas Tríadas.

A visão de Deus, theoria da luz incriada, não é uma visão sensível, mas a deificação do homem. Falando da visão de Deus de Moisés "face-a-face e não em enigmas", ele recorda a passagem em São Máximo, o Confessor, que diz: "A deificação é uma iluminação direta e enhypostatica que não tem começo, mas que aparece naqueles dignos como algo que ultrapassa a sua compreensão. É, de fato, uma união mística com Deus, além do nous e da razão, na era em que as criaturas não conhecerão mais a corrupção" (3,1,28; CWS p.84). Assim, a visão da luz incriada é a deificação do homem. Ele vê Deus através da deificação e não através do cultivo da inteligência. A visão da luz incriada é chamada de dom deificante. Não é um dom da natureza humana criada, mas do Espírito Santo." Assim, o dom deificante do Espírito é uma luz misteriosa que transforma em luz aqueles que recebem a sua riqueza. Ele não só os enche com a luz eterna, mas também lhes concede o conhecimento e a vida apropriada a Deus" (3,1,35; CWS p .90). Assim, a visão de Deus não é exterior, mas provém da deificação (2,3,25).

Esta deificação é união e comunhão com Deus. De acordo com São Gregório, "a visão da luz incriada não é simplesmente abstração e negação, é uma união e uma divinização que ocorre misticamente e inefavelmente pela graça de Deus, após o despojamento de tudo daqui embaixo que se imprime no nous, ou melhor, após a cessação de toda atividade noética; é algo que vai além da abstração "(1,3,17; CWS p.34f). A contemplação da luz incriada ocorre "pela comunhão divinizante do Espírito" (1,3,5; CWS p.33). "Portanto, a contemplação desta luz é uma união, mesmo que ela não seja resistida pelo imperfeito: mas, por acaso, é a união com esta luz outra coisa senão uma visão?" (2,3,36, CWS p.65).

São Gregório fala de êxtase. Mas este êxtase, no ensinamento patrístico, não tem nada a ver com o êxtase da Pítia e das outras religiões. O êxtase vem quando, em oração, o nous abandona toda conexão com as coisas criadas: primeiro "com tudo perverso e mau, então com as coisas neutras" (2,3,35, CWS p.65). O êxtase é principalmente a retirada das opiniões do mundo e da carne. Com oração sincera o nous "abandona todas as coisas criadas" (2,3,35, CWS p.65). Este êxtase é mais elevado que a teologia abstrata, isto é, que a teologia racional, e pertence somente àqueles que alcançaram a impassibilidade. Mas ainda não é a união. Ou seja, o êxtase, que é a oração incessante do nous, em que a pessoa tem lembrança contínua de Deus e não tem relação com o "mundo do pecado" ainda não é a união com Deus. Esta união ocorre quando o Paráclito "ilumina desde o alto o homem que alcança em oração o estágio que é superior às mais elevadas possibilidades naturais e que espera a promessa do Pai e que por Sua revelação o arrebata à contemplação da luz "(2,3,35, CWS p.65). A iluminação por Deus é o que mostra Sua união com o homem.

Visão, deificação e união com Deus são as coisas que oferecem ao homem o conhecimento existencial de Deus. Assim o homem possui verdadeiro conhecimento de Deus. O dom deificante do Espírito Santo, que é uma luz misteriosa, transforma em luz divina aqueles que a alcançaram e não apenas os preenche de luz eterna, "mas também lhes concede um conhecimento e uma vida apropriada a Deus" (3,1 , 35, CWS p.89). Neste estado uma pessoa possui o conhecimento de Deus. Em resposta ao ensinamento de Barlaam de que Deus é conhecido pelos maiores contempladores, os filósofos, e que o conhecimento de Deus transmitido "por iluminação noética ... não é de modo algum algo verdadeiro" (2, 3, 78), São Gregório Palamas declara: "Deus se faz conhecido não só por tudo o que é, mas também pelo que não é, pela transcendência, isto é, por coisas não criadas, e também por uma luz eterna que transcende todos os seres". Esse conhecimento, diz ele, é oferecido hoje como uma espécie de sinal para aqueles que são dignos dele e que "ilumina-os infinitamente na era interminável". É justamente por isso que a visão dos santos de Deus é verdadeira, "e aquele que a chama de falsa desviou-se do divino conhecimento de Deus" (2,3,78). Assim, quem ignora e despreza a visão de Deus, que oferece o verdadeiro conhecimento é, na realidade, ignorante de Deus.


Essas coisas mostram que a visão de Deus, a deificação, a união e o conhecimento de Deus estão intimamente interligados. Esses não podem ser entendidos separados uns dos outros. Romper esta unidade leva o homem para mais longe do conhecimento de Deus. A base da epistemologia ortodoxa é a iluminação e a revelação de Deus no interior do coração purificado do homem.

Como vimos, o conhecimento de Deus está além do conhecimento humano. A visão da luz incriada ultrapassa toda a atividade epistemológica e está "além da visão e do conhecimento" (2,3,50). Uma vez que a visão da luz incriada é oferecida aos corações dos fiéis e perfeitos, é por isso que "é superior à luz do conhecimento" (2,3,18; CWS p.63). E não só é superior à luz do conhecimento humano "dos estudos helênicos", mas também a luz desta theoria difere da "luz que vem das Sagradas Escrituras", pois a luz das Escrituras pode ser comparada a "uma lâmpada que brilha num lugar obscuro, enquanto a visão da luz incriada se assemelha à estrela da manhã que brilha no dia, isto é, o sol "(2,3,18; CWS p.63). A graça da deificação transcende assim a natureza, a virtude e o conhecimento humano (3, 1, 27).

A visão da luz incriada e o conhecimento que dela advém não são um desdobramento do poder racional, não são a perfeição da natureza racional, como afirmou Barlaam, mas são superiores à razão. Trata-se do conhecimento concedido por Deus aos puros de coração. Qualquer um que afirma que o dom deificação é um desenvolvimento da natureza racional se coloca em oposição ao Evangelho de Cristo. Se a contemplação fosse um dom natural, então todas as pessoas deveriam ser deuses, umas mais e outras menos. Mas "os santos deificados transcendem a natureza", eles são engendrados por Deus, Deus lhes deu poder para se tornarem "filhos de Deus" (3, 30, CWS p.85).

A visão da luz incriada, que oferece o conhecimento de Deus ao homem, é sensorial e suprasensorial. Os olhos do corpo são remodelados, assim vêem a luz incriada, "esta luz misteriosa, inacessível, imaterial, incriada, deificante, eterna", este "esplendor da Natureza Divina, glória da divindade,  beleza do reino celestial" (3, 1, 22, CWS p.80). Palamas pergunta: "Você vê que a luz é inacessível aos sentidos que não estão transformados pelo Espírito?" (2, 3, 22). São Máximo, cujo ensino é citado por São Gregório, diz que os Apóstolos viram a Luz incriada "por uma transformação da atividade de seus sentidos, produzida neles pelo Espírito" (2.3.22).

A visão da Luz incriada e o conhecimento que dela advém transcendem não só a natureza e o conhecimento humano, mas também a virtude. A virtude e a imitação de Deus nos prepara para a união divina, mas a própria união misteriosa é efetuada pela graça (3,1,27, CWS p.83).

Assim, a deificação, que é o objetivo da vida espiritual, é uma manifestação de Deus no coração puro do homem. Esta visão da Luz incriada é o que cria deleite espiritual na alma. Pois, de acordo com São Gregório, a evidência dessa luz é que a alma deixa de entregar-se a prazeres e paixões falsas, e que adquire paz e quietude de pensamentos, descanso e alegria espiritual, desprezo pela glória humana, humildade unida com júbilo secreto, ódio ao mundo, amor às coisas celestiais, ou melhor, amor ao Deus do Céu apenas, e visão de luz incriada, mesmo que os olhos sejam cobertos ou arrancados (3,1,36;CWS p. 90).

Pelo que foi dito é claro que o fim da cura do homem é a visão da luz incriada. Mas, uma vez que neste capítulo estamos falando sobre theoria, podemos também olhar para Palamas ensinando que há muitos graus de theoria. Ele diz que a theoria tem um início, e as coisas que seguem a partir deste início diferem em graus de escuridão ou clareza, mas nunca há um fim, pois seu progresso, como o do arrebatamento na revelação, é infinito. A iluminação é uma coisa e a visão contínua da luz é outra, e ainda outra é a visão das coisas nessa luz pela qual até as coisas distantes são acessíveis aos olhos, e o futuro é mostrado como já ocorrido (2,3,35; CWS P.65). Portanto, há graus de theoria e, com ele, graus de conhecimento.

Neste ponto, podemos também observar o ensino de São Pedro de Damasco sobre os oito estágios da theoria (Philokalia 3,108). Os sete primeiros pertencem a esta era, enquanto o oitavo pertence à era por vir. A primeira theoria é o conhecimento das provações e tribulações desta vida. A segunda é "conhecimento de nossas próprias falhas e da generosidade de Deus". A terceira é o conhecimento das coisas terríveis antes e depois da morte. A quarta é a profunda compreensão da vida liderada por nosso Senhor Jesus neste mundo e de Seus discípulos e os outros santos, ou seja, as palavras e ações dos mártires e dos santos Padres. A quinta é conhecimento da natureza e fluxo das coisas. A sexta é a theoria de seres criados, ou conhecimento e compreensão da criação visível de Deus. A sétima é a compreensão da criação espiritual de Deus, isto é, dos anjos. A oitava é conhecimento acerca de Deus, ou o que chamamos de "teologia".

Consequentemente, a theoria tem muitos estágios e graus, e muitos devem vir antes da visão da luz incriada, que é "a beleza da era por vir", "o alimento dos céus". Entre os graus da theoria estão a lembrança da morte, que é um presente de Deus, a oração incessante, a inspiração para manter plenamente os mandamentos de Cristo, o conhecimento da nossa pobreza espiritual, isto é, a compreensão de nossos pecados e paixões e o arrependimento que segue. Tudo isso ocorre através da operação da graça divina. Certamente, a theoria perfeita é a visão da luz incriada, que em si mesma é diferenciada em visão e visão contínua, como diz Palamas (3,1,30).

Assim, a purificação que acontece pela graça de Deus cria as pré-condições necessárias para alcançar a theoria que é a comunhão com Deus, a deificação do homem e o conhecimento de Deus. O método ascético da Igreja conduz a este ponto. Não se baseia em critérios humanos e não visa tornar a pessoa "legal e boa", mas curá-la perfeitamente e para que alcance a comunhão com Deus. Enquanto um homem está longe da comunhão e união com Deus, ele ainda não alcançou sua salvação. A pessoa espiritualmente treinada que vê a luz incriada, na linguagem dos Padres, diz-se que foi "deificada". Esta expressão é usada por São Dionísios, a Areopagita, São João de Damasco e, repetidamente, como vimos, por São Gregório Palamas (3,1,30; CWS p.85f).

A cura da alma, do nous e do nosso coração conduz à visão de Deus e faz com que conheçamos a vida divina. Este conhecimento é a salvação do homem.


Devemos orar fervorosamente para que Deus nos conceda alcançar esse conhecimento de Deus. A exortação é clara:

"Vem, vamos subir o monte do Senhor,
até a casa de nosso Deus,
e vejamos a glória da Sua transfiguração,
glória do unigênito do Pai.
Deixe-nos receber luz de Sua luz,
e com espíritos elevados
Deixe-nos para sempre cantar louvores a Trindade consubstancial ".

Aqui nos levantamos e cantamos:

"Te transfigurastes no monte, ó Cristo, nosso Deus, mostrando a tua glória aos teus discípulos, na medida em que puderam suportá-la. Pelas intercessões da Mãe de Deus, faz a tua luz eterna também brilhar sobre nós, pecadores, ó Doador da luz, glória a Ti. "

(Festa da Transfiguração, Festal Menaion p.475-477)



do livro Orthodox Psychotherapy pelo Metropolita Hierotheos de Nafpaktos.